TERCEIRO E QUARTO CAPÍTULOS DE TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMO - LIMA BARRETO:
III A
NOTÍCIA DO GENELÍCIO
Então quando
se casa, Dona Ismênia?
—Em março. Cavalcânti
já está formado e...
Afinal a
filha do general pôde responder com segurança à pergunta que se lhe vinha
fazendo há quase cinco anos. O noivo finalmente encontrara o fim do curso de
dentista e marcara o casamento para dai a três meses. A alegria foi grande na
família; e, como em tal caso, uma alegria não podia passar sem um baile, uma
festa foi anunciada para o sábado que se seguia ao pedido da pragmática.
As irmãs da
noiva, Quinota, Zizi, Lalá e Vivi, estavam mais contentes que a irmã nubente.
Parecia que ela lhes ia deixar o caminho desembaraçado, e fora a irmã quem até
ali tinha impedido que se casassem.
Noiva havia
quase cinco anos, Ismênia já se sentia meio casada. Esse sentimento junto à sua
natureza pobre fê-la não sentir um pouco mais de alegria.
Ficou no
mesmo. Casar, para ela, não era negócio de paixão, nem se inseria no sentimento
ou nos sentidos; era uma idéia, uma pura idéia. Aquela sua inteligência
rudimentar tinha separado da idéia de casar o amor, o prazer dos sentidos, uma
tal ou qual liberdade, a maternidade, até o noivo. Desde menina, ouvia a mamãe
dizer: "Aprenda a fazer isso, por- que quando você se casar"... ou
senão: "Você precisa aprender a pregar botões, porque quando você se casar..."
A todo
instante e a toda hora, lá vinha aquele — "porque, quando você se casar..."
— e a menina foi se convencendo de que toda a existência só tendia para o
casamento. A instrução, as satisfações íntimas, a alegria, tudo isso era inútil;
a vida se resumia numa coisa: casar.
De resto, não
era só dentro de sua família que ela encontrava aquela preocupação. No colégio,
na rua, em casa das famílias conhecidas, só se falava em casar. "Sabe, Dona
Maricota, a Lili casou-se, não fez grande negócio, pois parece que o noivo não
é lá grande coisa"; ou então: "A Zezé está doida para arranjar
casamento, mas é tão feia, meu Deus!..."
A vida, o
mundo, a variedade intensa dos sentimentos, das idéias, o nosso próprio direito
à felicidade, foram parecendo ninharias para aquele cerebrozinho; e, de tal
forma casar-se se lhe representou coisa importante, uma espécie de dever, que
não se casar, ficar solteira, "tia", parecia-lhe um crime, uma
vergonha.
De natureza
muito pobre, sem capacidade para sentir qualquer coisa profunda e intensamente,
sem quantidade emocional para a paixão ou para um grande afeto, na sua
inteligência a idéia de "casar-se" incrustou-se teimosamente como uma
obsessão.
Ela não era
feia; amorenada, com os seus traços acanhados, o narizinho mal feito, mas
galante, não muito baixa nem muito magra e a sua aparência de bondade passiva,
de indolência de corpo, de idéia e de sentidos — era até um bom tipo das
meninas a que os namorados chamam — "bo- nitinhas". O seu traço de beleza dominante, porém, eram seus
cabelos: uns bastos cabelos castanhos, com tons de ouro, sedosos até ao olhar.
Aos dezenove
anos arranjou namoro com o Cavalcânti, e à fraqueza de sua vontade e ao temor
de não encontrar marido não foi estranha a faci- lidade com que o futuro
dentista a conquistou.
O pai fez má
cara. Ele andava sempre ao par dos namoros da filhas:
"Diga-me
sempre, Maricota — dizia ele — quem são. Olho vivo!... É melhor prevenir que
curar... Pode ser um valdevinos e..." Sabendo que o pretendente à Ismênia
era um dentista, não gostou muito. Que é um den- tista? perguntava ele de si
para si. Um cidadão semiformado, uma espécie de barbeiro. Preferia um oficial,
tinha montepio e meio soldo; mas a mulher convenceu-o de que os dentistas
ganham muito, e ele acedeu.
Começou então
Cavalcânti a freqüentar a casa na qualidade de noivo "paisano", isto
é, que não pediu, não é ainda "oficial".
No fim do
primeiro ano, tendo notícia das dificuldades com que o futuro genro lutava para
acabar os estudos, o general foi generosamente em seu socorro. Pagou-lhe taxas
de matrículas, livros e outras coisas. Não era raro que após uma longa conversa
com a filha, Dona Maricota viesse ao marido e dissesse: "Chico, arranja-me
vinte mil-réis que o Cavalcânti precisa comprar uma Anatomia".
O general era
leal, bom e generoso; a não ser a sua pretensão marcial, não havia no seu
caráter a mínima falha. Demais, aquela necessidade de casar as filhas ainda o
faziam melhor quando se tratava dos interesses delas.
Ele ouvia a
mulher, coçava a cabeça e dava o dinheiro; e até para evitar despesas ao futuro
genro, convidou-o a jantar em casa todo dia; e assim o namoro foi correndo até
ali.
Enfim — dizia
Albernaz à mulher, na noite do pedido, quando já recolhidos — a coisa vai
acabar. Felizmente, respondia-lhe Dona Maricota, vamos descontar esta letra. A
satisfação resignada do general era porém, falsa; ao contrário: ele estava
radiante. Na rua, se encontrava um camarada, no primeiro momento azado, lá
dizia ele:
—É um
inferno, esta vida! Imagina tu, Castro, que ainda por cima tenho que casar uma
filha!
Ao que Castro
interrogava:
—Qual delas?
—A Ismênia, a
segunda, respondia Albernaz e logo acrescentava: tu é que és feliz: só tiveste
filhos.
—Ah! meu
amigo! falava o outro cheio de malícia, aprendi a receita. Por que não fizeste
o mesmo?
Despedindo-se,
o velho Albernaz corria aos armazéns, às lojas de louça, comprava mais pratos,
mais compoteiras, um centro de mesa, porque a festa devia ser imponente e ter
um ar de abundância e riqueza que traduzisse o seu grande contentamento.
Na manhã do
dia da festa comemorativa do pedido, Dona Maricota amanheceu cantando. Era raro
que o fizesse: mas nos dias de grande alegria, ela cantarolava uma velha ária,
uma coisa do seu tempo de moça e as filhas que sentiam nisto sinal certo de
alegria corriam a ela, pedindo-lhe isto ou aquilo. Muito ativa, muito
diligente, não havia dona-de-casa mais econômica, mais poupada e que fizesse
render mais o dinheiro do marido e o ser- viço das criadas. Logo que despertou,
pôs tudo em atividade, as criadas e as filhas. Vivi e Quinota foram para os
doces; Lalá e Zizi auxiliaram as raparigas na arrumação das salas e dos
quartos, enquanto ela e Ismênia iam arrumar a mesa, dispô-la com muito gosto e
esplendor. O móvel ficaria assim galhardo desde as primeiras horas do dia. A
alegria de Dona Mari- cota era grande; ela não compreendia que uma mulher
pudesse viver sem estar casada. Não eram só os perigos a que se achava exposta,
a falta de arrimo; parecia-lhe feio e desonroso para a família. A sua
satisfação não vinha do simples fato de ter descontado uma letra, como ele dizia.
Vinha mais profundamente dos seus sentimentos maternos e de família.
Ela arrumava
a mesa, nervosa e alegre; e a filha fria e indiferente,
—Mas, minha
filha, dizia ela, até parece que não é você quem se vai casar! Que cara! Você
parece aí uma "mosca-morta".
—Mamãe, que
quer que eu faça?
—Não é bonito
rir-se muito, andar aí como uma sirigaita, mas tam- bem assim como você está!
Eu nunca vi noiva assim.
Durante uma
hora, a moça esforçou-se por parecer muito alegre, mas logo lhe tornava toda a
pobreza de sua natureza, incapaz de vibração sentimental, e o natural do seu
temperamento vencia-a e não tardava em cair naquela doentia
lassidão que
lhe era própria.
Veio muita
gente. Além das moças e as respeitáveis mães, acudiram ao convite do general, o
Contra-Almirante Caldas, o doutor Florêncio, engenheiro das águas, o Major
honorário Inocêncio Bustamante, o Senhor Bastos, guardalivros,
ainda parente
de Dona Maricota, e outras pessoas importantes. Ricardo não fora convidado
porque o general temia a opinião pública sobre a presença dele em festa séria;
Quaresma o fora, mas não viera; e Cavalcânti jantara com os futuros sogros.
Às seis
horas, a casa já estava cheia. As moças cercavam Ismênia, cumprimentando-a, não
sem um pouco de inveja no olhar. Irene, uma alourada e alta, aconselhava:
—Eu, se fosse
você, comprava tudo no Parque.
Tratava-se do
enxoval. Todas elas, embora solteiras, davam conselhos, sabiam as casas
barateiras, as peças mais importantes e as que podiam ser dispensadas. Estavam
ao par.
A Armanda
indicava com um requebro feiticeiro nos olhos:
—Eu, ontem,
vi na Rua da Constituição um dormitório de casal, muito bonito, você por que
não vai ver, Ismênia? Parece barato.
A Ismênia era
a menos entusiasmada, quase não respondia às perguntas; e, se as respondia, era
por monossílabos. Houve um momento em que sorriu quase com alegria e abandono.
Estefânia, a doutora, normalista, que tinha nos dedos um anel, com tantas
pedras que nem uma joalheria, num dado momento, chegou a boca carnuda aos
ouvidos da noiva e fez uma confidência. Quando deixou de segredar-lhe, assim
como se quisesse confirmar o dito, dilatou muito os seus olhos maliciosos e
quentes, e disse alto:
—Eu quero ver
isso... Todas dizem que não... Eu sei...
Ela aludia à
resposta que, à sua confidência, Ismênia tinha dado com parcimônia: qual o quê?
Todas elas,
conversando, tinham os olhos no piano. Os rapazes e uma parte dos velhos rodeavam
Cavalcânti, muito solene, dentro de um grande fraque preto.
—Então,
doutor, acabou, hein? dizia este a jeito de um cumprimento.
—É verdade!
Trabalhei. Os senhores não imaginam os tropeços, os embargos — fui de um
heroísmo!...
—Conhece o
Chavantes? perguntava um outro.
—Conheço. Um
crônico, um pândego...
—Foi seu
colega?
—Foi, isto é,
ele é do curso de medicina. Matriculamo-nos no mesmo ano.
Cavalcânti
ainda não tinha tido tempo de atender a este e já era obrigado a ouvir a
observação de outro.
—É muito
bonito ser formado. Se eu tivesse ouvido meu pai, não estava agora a quebrar a
cabeça no "deve" e "haver". Hoje, torço a ore- lha e não
sai sangue.
—Atualmente,
não vale nada, meu caro senhor, dizia modestamente Cavalcânti. Com essas
academias livres... Imaginem que já se fala numa Academia Livre de Odontologia!
É o cúmulo! Um curso difícil e caro, que exige cadávares, aparelhos, bons
professores, como é que particulares pode- rão mantê-lo? Se o governo mantém
mal...
—Pois doutor,
acudia um outro, dou-lhe meus parabéns, Digo-lhe o que disse ao meu sobrinho,
quando se formou: vá furando!
—Ah! Seu
sobrinho é formado? inquiria delicadamente Cavalcânti.
—Em engenharia. Está
no Maranhão, na estrada de Caxias.
—Boa
carreira.
Nos
intervalos da conversa, todos eles olhavam o novel dentista como se fosse um
ente sobrenatural.
Para aquela
gente toda, Cavalcânti não era mais um simples homem, era homem e mais alguma
coisa sagrada e de essência superior; e não juntavam à imagem que tinham dele
atualmente, as coisas que porventura ele pudesse saber ou tivesse aprendido.
Isto não entrava nela de modo algum; e aquele tipo, para alguns, continuava a
ser vulgar, comum, na aparência, mas a sua substância tinha mudado, era outra
diferente da deles e fora ungido de não sei que coisa vagamente fora da
natureza terrestre, quase divina.
Para o lado
de Cavalcânti, que se achava na sala de visitas, vieram os menos importantes. O
general ficara na sala de jantar, fumando, cercado dos mais titulados e dos
mais velhos. Estavam com ele o Contra-Almi- rante Caldas, o Major Inocêncio, o
doutor Florêncio e o Capitão de Bombeiros Sigismundo.
Inocêncio
aproveitou a ocasião para fazer uma consulta a Caldas sobre assunto de
legislação militar. O contra-almirante era interessantíssimo, Na Marinha, por
pouco que não fazia pendant com Albernaz no Exército. Nunca embarcara, a não
ser na guerra do Paraguai, mas assim mesmo por muito pouco tempo. A culpa,
porém, não era dele. Logo que se viu primeiro-tenente, Caldas foi aos poucos se
metendo consigo, abandonando a roda dos camaradas, de forma que, sem empenhos e sem amigos nos
altos lugares, se esqueciam dele e não lhe davam comissões de embarque. É
curiosa essa coisa das administrações militares: as comissões são merecimento,
mas só se as dá aos protegidos, Certa vez, quando era já capitão-tenente,
deram-lhe um embarque em Mato Grosso. Nomearam-no para comandar o
couraçado "Lima Barros". Ele lá foi, mas, quando se apresentou ao
comandante da flotilha, teve notícia de que não existia no rio Paraguai semelhante
navio. Indagou daqui e dali e houve quem aventurasse que podia ser que o tal
"Lima Bar- ros" fizesse parte da esquadrilha do alto Uruguai.
Consultou o comandante.
—Eu, no seu
caso, disse-lhe o superior, partia imediatamente para a flotilha do Rio Grande.
Ei-lo a fazer
malas para o alto Uruguai, onde chegou enfim, depois de uma penosa e fatigante
viagem. Mas aí também não estava o tal "Lima Barros".
Onde estaria
então? Quis telegrafar para o Rio de Janeiro, mas teve medo de ser censurado,
tanto mais que não andava em cheiro de santidade. Esteve assim um mês em
Itaqui, hesitante, sem receber soldo e sem saber que destino tomar.
Um dia khe
veio a idéia de que o navio bem pode- ria estar no Amazonas.
Embarcou na
intenção de ir ao extremo norte e quando passou pelo Rio, conforme a praxe,
apresentou-se às altas autoridades da Marinha. Foi preso e submetido a
conselho.
O "Lima
Barros" tinha ido a pique, durante a guerra do Paraguai.
Embora
absolvido, nunca mais entrou em graça dos ministros e dos seus generais. Todos
o tinham na conta de parvo, de um comandante de opereta que andava à cata do
seu navio pelos quatro pontos cardeais. Deixaram-no "encostado", como
se diz na gíria militar, e ele levou quase quarenta anos para chegar de
guarda-marinha a capitão-de-fragata. Reformado no posto imediato, com graduação
do seguinte, todo o seu azedume contra a Marinha se concentrou num longo
trabalho de estudar leis, decretos, alvarás, avisos, consultas, que se referissem
a promoções de oficiais. Comprava repertórios de legislação, armazenava
coleções de leis, relatórios, e encheu a casa de toda essa enfadonha e
fatigante literatura administrativa. Os requerimentos, pedindo a modificação da
sua reforma, choviam sobre os ministros da Marinha. Corriam meses o infinito rosário
de repartiçôes e eram sempre indeferidos, sobre consultas do Conselho Naval ou
do Supremo Tribunal Militar. Ultimamente constituíra advogado junto à justiça
federal e lá andava ele de cartório em cartório, acotovelando-se com meirinhos,
escrivães, juízes e advogados — esse poviléu rebarbativo do foro que parece ter
contraído todas as misérias que lhe passam pelas mãos e pelos olhos.
Inocêncio
Bustamante também tinha a mesma mania demandista. Era renitente, teimoso mas
servil e humilde. Antigo voluntário da pátria, possuindo honras de major, não
havia dia em que não fosse ao quartel-general ver o andamento do seu
requerimento e de outros. Num pedia inclusão no Asilo dos Inválidos, noutro
honras de tenente-coronel, noutro tal ou qual medalha; e, quando não tinha
nenhum, ia ver o dos outros.
Não se pejou
mesmo de tratar do pedido de um maníaco que, por ser tenente honorário e
também: da Guarda Nacional, requereu lhe fosse passada a patente de major,
visto que dois galões mais outros dois fazem quatro — o que quer dizer: major.
Conhecedor
dos estudos meticulosos do almirante, Bustamante fez a sua consulta.
—Assim de
pronto, não sei. Não é a minha especialidade o Exército, mas vou ver. Isto
também anda tão atrapalhado!
Acabando de
responder coçava um dos seus favoritos brancos, que lhe davam um ar de
"comodoro" ou de chacareiro português, pois era forte nele o tipo
lusitano.
—Ah! meu
tempo, observou Albernaz. Quanta ordem! Quanta disciplina!
—Não há mais
gente que preste, disse Bustamante.
Sigismundo
por aí aventurou também a sua opinião, dizendo:
—Eu não sou
militar, mas...
—Como não é
militar? fez Albernaz, com ímpeto. Os senhores é que são os verdadeiros: estão
sempre com o inimigo na frente, não acha, Caldas?
—Decerto,
decerto, fez o almirante cofiando os favoritos.
—Como ia
dizendo, continuou Sigismundo, apesar de não ser militar, eu me animo a dizer
que a nossa força está muito por baixo. Onde está um Porto
Alegre, um
Caxias?
—Não há mais,
meu caro, confirmou com voz tênue o doutor Florêncio.
—Não sei por
que, pois tudo hoje não vai pela ciência?
Fora Caldas
quem falara, tentando a ironia. Albernaz indignou-se e retrucou-lhe com certo
calor:
—Eu queria
ver esses meninos bonitos, cheios de "xx" e "yy" em Curupaiti,
hein Caldas? hein Inocêncio?
O doutor Florêncio
era o único paisano da roda. Engenheiro e empregado público, os anos e o
sossego da vida lhe tinham feito perder todo o saber que porventura pudesse ter
tido ao sair da escola, Era mais um guarda de encanamentos do que mesmo um
engenheiro. Morando perto de Albernaz, era raro que não viesse toda a tarde
jogar o solo com o general. O doutor Florêncio perguntou:
—O senhor
assistiu, não foi, general?
O general não
se deteve, não se atrapalhou, não gaguejou e disse com a máxima naturalidade:
—Não assisti.
Adoeci e vim para o Brasil nas vésperas. Mas tive muitos amigos lá: o Camisão,
o Venâncio...
Todos se
calaram e olharam a noite que chegava. Da janela da sala onde estavam, não se
via nem um monte. O horizonte estava circunscrito aos fundos dos quintais das
casas vizinhas com as suas cordas de roupa a lavar, suas chaminés e o piar de
pintos. Um tamarineiro sem folhas lem- brava tristemente o ar livre, as grandes
vistas sem fim. O sol já tinha desa- parecido do horizonte e as tênues luzes
dos bicos de gás e dos lampiões familiares começavam a acender-se por detrás
das vidraças.
Bustamante
quebrou o silêncio:
—Este país
não vale mais nada. Imaginem que o meu requerimento, pedindo honras de
tenente-coronel, está no ministério há seis meses!
—Uma
desordem, exclamaram todos.
Era noite.
Dona Maricota chegou até onde eles estavam, muito ativa, muito diligente e com
o rosto aberto de alegria.
—Estão
rezando? E logo ajuntou: Dão licença que diga uma coisa ao Chico, sim?
Albernaz saiu
fora da roda dos amigos e foi até a um canto da sala, onde a mulher lhe disse
alguma coisa em voz baixa. Ouviu a mulher, depois voltou aos amigos e, no meio
do caminho, falou alto, nestes termos:
—Se não
dançam é porque não querem. Estou pegando alguém?
Dona Maricota
aproximou-se dos amigos do marido e explicou:
—Os senhores
sabem: se a gente não animar, ninguém tira par, ninguém toca. Estão lá tantas
moças, tantos rapazes, é uma pena!
—Bem; eu vou
lá, disse Albernaz.
Deixou os
amigos e foi à sala de visitas dar começo ao baile.
—Vamos, meninas!
Então o que é isso? Zizi, uma valsa!
E ele mesmo
em pessoa ia juntando os pares: "Não, general, já tenho par",
dizia uma
moça. "Não faz mal", retrucava ele, "dance com o Raimundinho; o outro
espera".
Depois de ter
dado início ao baile, veio para a roda dos amigos suado, mas contente.
—Isto de
família! Qual! A gente até parece bobo, dizia. Você é que faz bem, Caldas; não
se quis casar!
—Mas tenho
mais filhos que você. Só sobrinhos, oito; e os primos?
—Vamos jogar
o solo, convidou Albernaz.
—Somos cinco,
como há de ser? observou Florêncio.
—Não, eu não
jogo, disse Bustamante.
—Então
jogamos os quatro de garrancho? lembrou Albernaz.
As cartas
vieram e também uma pequena mesa de tripeça. Os parceiros sentaram-se e tiraram
a sorte para ver quem dava. Coube a Florêncio dar.
Começaram.
Albernaz tinha um ar atento quando jogava: a cabeça lhe caía sobre as costas e
os seus olhos tomavam uma grande expressão de reflexão. Caldas aprumava o busto
na cadeira e jogava com a serenidade de um lorde-almirante numa partida de
whist. Sigismundo jogava com todo o cuidado, com o cigarro no canto da boca e a
cabeça do lado para fugir à fumaça. Bustamante fora à sala ver as danças.
Tinham
começado a partida, quando Dona Quinota, uma das filhas do general, atravessou
a sala e foi beber água; Caldas, coçando um dos favoritos, perguntou à moça:
—Então, Dona
Quinota, quedê o Genelício?
A moça virou
o rosto com faceirice, deu um pequeno muxoxo e respondeu com falso mau humor:
—Ué! Sei lá!
Ando atrás dele?
—Não precisa
zangar-se, Dona Quinota; é uma s imples pergunta, advertiu Caldas, O general
que examinava atentamente as cartas recebidas, interrompeu a conversa com voz
grave:
—Eu passo.
Dona Quinota
retirou-se. Este Genelício era o seu namorado. Parente ainda de Caldas,
tinha-se como certo o seu casamento na família. A sua candidatura era
favorecida por todos. Dona Maricota e o marido enchiam- no de festas. Empregado
do Tesouro, já no meio da carreira, moço de menos de trinta anos, ameaçava ter
um grande futuro. Não havia ninguém mais bajulador e submisso do que ele.
Nenhum pudor, nenhuma vergonha! Enchia os chefes e os superiores de todo
incenso que podia. Quando saía, remancheava, lavava três ou quatro vezes as
mãos, até poder apanhar o diretor na porta. Acompanhava-o, conversava com ele
sobre o serviço, dava pareceres e
opiniões, criticava este ou aquele colega, e deixava-o no bonde, se o homem ia
para casa. Quando entrava um ministro, fazia-se escolher como intérprete dos
companheiros e deitava um discurso; nos aniversá- rios de nascimento, era um
soneto que começava sempre por — "Salve" — e acabava também por —
"Salve! Três vezes Salve!".
O modelo era
sempre o mesmo; ele só mudava o nome do ministro e punha a data.
No dia
seguinte, os jornais falavam do seu nome, e publicavam o soneto.
Em quatro
anos, tinha tido duas promoções e agora trabalhava para ser aproveitado no
Tribunal de Contas, a se fundar, num posto acima.
Na bajulação
e nas manobras para subir, tinha verdadeiramente gênio.
Não se
limitava ao soneto, ao discurso; buscava outros meios, outros processos.
Um dos que se
servia, eram as publicações nas folhas diárias. No intuito de anunciar aos
ministros e diretores que tinha uma erudição superior, de quando em quando
desovava nos jornais longos artigos sobre contabilidade pública. Eram meras
compilações de bolorentos decretos, salpicadas aqui e ali com citações de
autores franceses ou portugueses.
Interessante
é que os companheiros o respeitavam, tinham em grande conta o seu saber e ele
vivia na seção cercado do respeito de um gênio, um gênio do papelório e das
informações. Acresce que Genelício juntava à sua segura posição administrativa,
um curso de direito a acabar; e tantos títulos juntos não podiam deixar de
impressionar favoravelmente às preocupações casamenteiras do casal Albernaz.
Fora da
repartição, tinha um empertigamento que o seu pobre físico fazia cômico, mas
que a convicção do alto auxílio que prestava ao Estado, mantinha e sustentava.
Um empregado modelo!...
O jogo
continuava silenciosamente e a noite avançava. No fim das "mãos"
fazia-se um
breve comentário ou outro, e no começo ouviam-se unicamente as "falas"
sacramentais do jogo: "solo, bolo, melhoro, passo." Feitas elas, jogasse
em silêncio; da sala, porém, vinha o ruído festivo das danças e das conversas.
—Olhem quem
está aí!
—O Genelício,
fez Caldas. Onde estiveste, rapaz?
Deixou o
chapéu e a bengala numa cadeira e fez os cumprimentos.
Pequeno, já
um tanto curvado, chupado de rosto, com um pincenez azulado, todo ele traía a
profissão, os seus gostos e hábitos. Era um escriturário.
—Nada, meus
amigos! Estou tratando dos meus negócios.
—Vão bem?
perguntou Florêncio.
—Quase
garantido. O ministro prometeu... Não há nada, estou bem "cunhado"!
—Estimo
muito, disse o general.
—Obrigado.
Sabe de uma coisa, general?
—O que é?
—O Quaresma
está doido.
—Mas... o
quê? Quem foi que te disse?
—Aquele homem
do violão. Já está na casa de saúde".
—Eu logo vi,
disse Albernaz, aquele requerimento era de doido.
—Mas não é
só, general, acrescentou Genelício. Fez um ofício em tupi e mandou ao ministro.
—É o que eu
dizia, fez Albernaz.
—Quem é?
perguntou Florêncio.
—Aquele
vizinho, empregado do arsenal; não conhece?
—Um baixo, de
pincenez?
—Este mesmo,
confirmou Caldas.
—Nem se podia
esperar outra coisa, disse o doutor Florêncio. Aqueles
livros,
aquela mania de leitura...
—Pra que ele
lia tanto? indagou Caldas.
—Telha de
menos, disse Florêncio.
Genelício
atalhou com autoridade:
—Ele não era
formado, para que meter-se em livros?
—É verdade,
fez Florêncio.
—Isto de
livros é bom para os sábios, para os doutores, observou Sigismundo.
—Devia até
ser proibido, disse Genelício, a quem não possuísse um título "acadêmico"
ter livros. Evitavam-se assim essas desgraças. Não acham?
—Decerto,
disse Albernaz.
—Decerto, fez
Caldas.
—Decerto,
disse também Sigismundo.
Calaram-se um
instante, e as atenções convergiram para o jogo.
—Já saíram
todos os trunfos?
—Contasse,
meu amigo.
Albernaz
perdeu e lá na sala fez-se silêncio. Cavalcânti ia recitar.
Atravessou a
sala triunfantemente, com um largo sorriso na face e foi postar-se ao lado do
piano. Zizi acompanhava. Tossiu e, com a sua voz metálica, apurando muito os
finais em "s", começou:
A vida é uma
comédia sem sentido,
Uma história
de sangue e de poeira
Um deserto
sem luz...
E o piano
gemia.
IV
DESASTROSAS
CONSEQUÊNCIAS DE UM REQUERIMENTO
Os
acontecimentos a que aludiam os graves personagens reunidos em torno da mesa de
solo, na tarde memorável da festa comemorativa do pedido de casamento de
Ismênia, se tinham desenrolado com rapidez fulminante. A força de idéias e
sentimentos contidos em Quaresma se havia revelado em atos imprevistos com uma
seqüência brusca e uma velocidade de turbilhão. O primeiro fato surpreendeu,
mas vieram outros e outros, de forma que o que pareceu no começo uma
extravagância, uma pequena mania, se apresentou logo em insânia declarada.
Justamente
algumas semanas antes do pedido de casamento, ao abrir- se a sessão da Câmara,
o secretário teve que proceder à leitura de um requerimento singular e que veio
a ter uma fortuna de publicidade e comentário pouco usual em documentos de tal
natureza. O burburinho e a desordem que caracterizam o recolhimento
indispensável ao elevado trabalho de legislar, não permitiram que os deputados
o ouvissem; os jornalistas, porém, que estavam próximo à mesa, ao ouvi- lo, prorromperam
em gargalhadas, certamente inconvenientes à majestade do lugar. O riso é
contagioso. O secretário, no meio da leitura, ria-se, discretamente; pelo fim,
já ria-se o presidente, ria-se o oficial da ata, ria-se o contínuo — toda a mesa
e aquela população que a cerca, riram-se da petição, largamente, querendo
sempre conter o riso, havendo em alguns tão franca alegria que as lágrimas
vieram.
Quem soubesse
o que uma tal folha de papel representava de esforço, de trabalho, de sonho generoso
e desinteressado, havia de sentir uma penosa tristeza, ouvindo aquele rir
inofensivo diante dela. Merecia raiva, ódio, um deboche de inimigo talvez, o
documento que chegava à mesa da Câmara, mas não aquele recebimento hilárico, de
uma hilaridade inocente, sem fundo algum, assim como se estivesse a rir de uma
palhaçada, de uma sorte de circo de cavalinhos ou de uma careta de clown.
Os que riam,
porém, não lhe sabiam a causa e só viam nele um motivo para riso franco e sem
maldade. A sessão daquele dia fora fria; e, por ser assim, as seções dos
jornais referentes à Câmara, no dia seguinte, publicaram o seguinte
requerimento e glosaram-no em todos os tons.
Era assim
concebida a petição:
"Policarpo
Quaresma, cidadão brasileiro, funcionário público, certo de que a língua
portuguesa é emprestada ao Brasil; certo também de que, por esse fato, o falar
e o escrever em geral, sobretudo no campo das letras, se vêem na humilhante
contingência de sofrer continuamente censuras ásperas dos proprietários da
língua; sabendo, além, que, dentro do nosso país, os autores e os escritores,
com especialidade os gramáticos, não se entendem no tocante à correção
gramatical, vendo-se, diariamente, surgir azedas polêmicas entre os mais profundos
estudiosos do nosso idioma — usando do direito que lhe confere a Constituição,
vem pedir que o Congresso Nacional decrete o tupi-guarani, como língua oficial
e nacional do povo brasileiro. O suplicante, deixando de parte os argumentos
históricos que militam em favor de sua idéia, pede vênia para lembrar que a
língua é a mais alta manifestação da inteligência de um povo, é a sua criação mais
viva e original; e, portanto, a emancipação política do país requer como
complemento e consequência a sua emancipação idiomática.
Demais,
Senhores Congressistas, o tupi-guarani, língua originalíssima, aglutinante, é
verdade, mas a que o polissintetismo dá múltiplas feições de riqueza, é a única
capaz de traduzir as nossas belezas, de pôr-nos em relação com a nossa natureza
e adaptar-se perfeitamente aos nossos órgãos vocais e cerebrais, por ser
criação de povos que aqui viveram e ainda vivem, portanto possuidores da
organização fisiológica e psicológica para que tendemos, evitando-se dessa forma
as estéreis controvérsias gramaticais, oriundas de uma difícil adaptação de uma
língua de outra região à nossa organização cerebral e ao nosso aparelho vocal —
controvérsias que tanto empecem o progresso da nossa cultura literária,
científica e filosófica.
Seguro de que
a sabedoria dos legisladores saberá encontrar meios para realizar semelhante
medida e cônscio de que a Câmara e o Senado pesarão o seu alcance e utilidade P.
e E. deferimento".
Assinado e
devidamente estampilhado, este requerimento do major foi durante dias assunto
de todas as palestras. Publicado em todos os jornais, com comentários facetos,
não havia quem não fizesse uma pilhéria sobre ele, quem não ensaiasse um
espírito à custa da lembrança de Qua- resma. Não ficaram nisso; a curiosidade
malsã quis mais. Indagou-se quem era, de que vivia, se era casado, se era
solteiro. Uma ilustração semanal publicou-lhe a caricatura e o major foi
apontado na rua. Os pequenos jornais alegres, esses semanários de espírito e troça, então! eram de um
encarniçamento atroz com o pobre major. Com uma abundância que marcava a
felicidade dos redatores em terem encontrado um assunto fácil, o texto vinha
cheio dele: O Major Quaresma disse isso; o Major Quaresma fez aquilo. Um deles,
além de outras referências, ocupou uma página inteira com o assunto da semana.
Intitulava-se a ilustração:
"O
Matadouro de Santa Cruz, segundo o Major Quaresma", e o desenho representava
uma fila de homens e mulheres a marchar para o choupo que se via à esquerda. Um
outro referia-se ao caso pintando um açougue, "O Açougue Quaresma";
legenda: a cozinheira perguntava ao açougueiro: — O senhor tem língua de vaca?
O açougueiro respondia: — Não, só temos língua de moça, quer?
Com mais ou
menos espírito, os comentários não cessavam e a ausência de relações de
Quaresma no meio de que saíam, fazia com que fossem de uma constância pouco
habitual. Levaram duas semanas com o nome do subsecretário.
Tudo isto
irritava profundamente Quaresma. Vivendo há trinta anos quase só, sem se chocar
com o mundo, adquirira uma sensibilidade muito viva e capaz de sofrer profundamente
com a menor coisa. Nunca sofrera críticas, nunca se atirou à publicidade, vivia
imerso no seu sonho, incubado e mantido vivo pelo calor dos seus livros. Fora
deles, ele não conhecia ninguém; e, com as pessoas com quem falava, trocava
pequenas banali- dades, ditos de todo dia, coisas com que a sua alma e o seu
coração nada tinham que ver. Nem mesmo a afilhada o tirava dessa reserva,
embora a estimasse mais que a todos.
Esse
encerramento em si mesmo deu-lhe não sei que ar de estranho a tudo, às competições,
às ambições, pois nada dessas coisas que fazem os ódios e as lutas tinha
entrado no seu temperamento.
Desinteressado
de dinheiro, de glória e posição, vivendo numa reserva de sonho, adquirira a
candura e a pureza d'alma que vão habitar esses homens de uma idéia fixa, os
grandes estudiosos, os sábios, e os inventores, gente que fica
mais terna,
mais ingênua, mais inocente que as donzelas das poesias de outras épocas.
É raro
encontrar homens assim, mas os há e, quando se os encontra, mesmo tocados de um
grão de loucura, a gente sente mais simpatia pela nossa espécie, mais orgulho
de ser homem e mais esperança na felicidade da raça.
A
continuidade das troças feitas nos jornais, a maneira com que o olhavam na rua,
exasperavam-no e mais forte se enraizava nele a sua idéia. À medida que engulia
uma troça, uma pilhéria, vinha-lhe meditar sobre a sua lembrança, pesar-lhe
todos os aspectos, examiná-la, detidamente, compará-la a coisas semelhantes,
recordar os autores e autoridades; e, à pro- porção que fazia isso, a sua
própria convicção mostrava a inanidade da crí- tica, a ligeireza da pilhéria, e
a idéia o tomava, o avassalava, o absorvia cada vez mais. Se os jornais tinham
recebido o requerimento com facécias de fundo inofensivo e sem ódio, a
repartição ficou furiosa. Nos meios burocráticos, uma superioridade que nasce
fora deles, que é feita e organizada com outros materiais que não os ofícios, a
sabença de textos de regulamentos e a boa caligrafia, é recebida com a
hostilidade de uma pequena inveja. É como se visse no portador da superioridade um traidor
à mediocridade, ao anonimato papeleiro. Não há só uma questão de promoção, de interesse
pecuniário; há uma questão de amor-próprio, de sentimentos feridos, vendo
aquele colega, aquele galé como eles, sujeito aos regulamentos, aos caprichos
dos chefes, às olhadelas superiores dos ministros, com mais títulos à consideração,
com algum direito a infringir as regras e os preceitos. Olha-se para ele com o
ódio dissimulado com que o assassino plebeu olha para o assassino marquês que
matou a mulher e o amante. Ambos são assassinos, mas, mesmo na prisão, ainda o
nobre e o burguês trazem o ar do seu mundo, um resto da sua delicadeza e uma
inadaptação que ferem o seu humilde colega de desgraça.
Assim, quando
surge numa secretaria alguém cujo nome não lembra sempre o título de sua
nomeação, aparecem as pequeninas perfídias, as maledicências ditas ao ouvido,
as indiretas, todo o arsenal do ciúme invejoso de uma mulher que se convenceu
de que a vizinha se veste melhor do que ela. Amam-se ou antes suportam-se
melhor aqueles que se fazem célebres nas informações, na redação, na
assiduidade ao trabalho, mesmo os douto- res, os bacharéis, do que os que têm
nomeada e fama. Em geral, a incompreensão da obra ou do mérito do colega e
total e nenhum deles se pode capacitar que aquele tipo, aquele amanuense, como
eles, faça qualquer coisa que interesse os estranhos e dê que falar a uma
cidade inteira.
A brusca popularidade de Quaresma, o seu
sucesso e nomeada efêmera irritaram os seus colegas e superiores. Já se viu!
dizia o secretário. Este tolo dirigir-se ao Congresso e propor alguma coisa!
Pretensioso! O diretor, ao passar pela secretaria, olhava-o de soslaio e sentia
que o regula mento não cogitasse do caso para lhe infligir uma censura. O
colega arquivista era o menos terrível, mas chamou-o logo de doido.
O major
sentia bem aquele ambiente falso, aquelas alusões e isso mais aumentava o seu
desespero e a teimosia na sua idéia. Não compreendia que o seu requerimento
suscitasse tantas tempestades, essa má vontade geral; era uma coisa inocente,
uma lembrança patriótica que merecia e devia ter o assentimento de todo mundo;
e meditava, voltava a idéia, e a examinava com mais atenção.
A extensa
publicidade, que o fato tomou, atingiu o palacete de Real Grandeza, onde morava
o seu compadre Coleoni. Rico com os lucros das empreitadas de construções de
prédios, viúvo, o antigo quitandeiro retirara- se dos negócios e vivia
sossegado na ampla casa que ele mesmo edificara e tinha todos os remates arquitetônicos
do seu gosto predileto: compoteiras na cimalha, um imenso monograma sobre a
porta da entrada, dois cães de louça, nos pilares do portão da entrada e outros
detalhes equivalentes.
A casa ficava
ao centro do terreno, elevava-se sobre um porão alto, tinha um razoável jardim
na frente, que avançava pelos lados, pontilhado de bolas multicores; varanda,
um viveiro, onde pelo calor os pássaros mor- riam tristemente. Era uma
instalação burguesa, no gosto nacional, vistosa, cara, pouco de acordo com o
clima e sem conforto.
No interior o
capricho dominava, tudo obedecendo a uma fantasia barroca, a um ecletismo
desesperador. Os móveis se amontoavam, os tapetes, as sanefas, os bibelots e a
fantasia da filha, irregular e indisciplinada, ainda trazia mais desordem
àquela coleção de coisas caras.
Viúvo, havia
já alguns anos, era uma velha cunhada quem dirigia a casa e a filha, quem o
encaminhava nas distrações e nas festas. Coleoni aceitava de bom coração esta
doce tirania. Queria casar a filha, bem e ao gosto dela; não punha, portanto,
nenhum obstáculo ao programa de Olga.
Em começo,
pensou em dá-la a seu ajudante ou contramestre, uma espécie de arquiteto que
não desenhava, mas projetava casas e grandes edifícios. Primeiro sondou a
filha. Não encontrou resistência, mas não encontrou também assentimento.
Convenceu-se de que aquela vaporosidade da menina, aquele seu ar distante de
heroína, a sua inteligência, o seu fantástico, não se dariam bem com as rudezas
e a simplicidade campônias de seu auxiliar. Ela quer um doutor — pensava ele —
que arranje! Com certeza, não terá ceitil, mas eu tenho e as coisas se
acomodam.
Ele se havia
habituado a ver no doutor nacional, o marquês ou o barão de sua terra natal.
Cada terra tem a sua nobreza; lá, é visconde; aqui, é doutor, bacharel ou
dentista; e julgou muito aceitável comprar a satisfação de enobrecer a filha
com umas meias dúzias de contos de réis.
Havia
momentos que se aborrecia um tanto com os propósitos da menina.
Gostando de
dormir cedo, tinha que perder noites e noites no Lírico, nos bailes;
amando estar
sentado em chinelas a fumar cachimbo, era obrigado a andar horas e horas pelas
ruas, saltitando de casa em casa de modas, atrás da filha, para no fim do dia
ter comprado meio metro de fita, uns grampos e um frasco de perfume.
Era engraçado
vê-lo nas lojas de fazendas cheio de complacência de pai que quer enobrecer o
filho, a dar opinião sobre o tecido, achar este mais bonito, comparar um com
outro, com uma falta de sentimento daquelas coisas que se adivinhava até no
pegá-las. Mas ele ia, demorava-se e esforçava-se por entrar no segredo, no
mistério, cheio de tenacidade e candura perfeitamente paternais.
Até aí ele ia
bem e calcava a contrariedade. Só o contrariavam bastante as visitas, as
colegas da filha, suas mães, suas irmãs, com seus modos de falsa nobreza, os
seus desdéns dissimulados, deixando perceber ao velho empreiteiro o quanto
estava ele distante da sociedade das amigas e das colegas de Olga. Não se
aborrecia, porém, muito profundamente; ele assim o quisera e a fizera, tinha
que se conformar.
Quase sempre,
quando chegavam tais visitas, Coleoni afastava-se, ia para o interior da casa.
Entretanto, não lhe era sempre possível fazer isso; nas grandes festas e
recepções tinha que estar presente e era quando mais sentia o velado pouco-caso
da alta nobreza da terra que o freqüentava. Ele ficava sempre empreiteiro, com
poucas idéias além do seu
ofício, não
sabendo fingir, de modo que não se interessava por aquelas tagarelices de
casamentos, de bailes, de festas e passeios caros.
Uma vez ou
outra um mais delicado propunha-lhe jogar o poker, aceitava e sempre perdia.
Chegou mesmo a formar uma roda em casa, de que fazia parte o conhecido advogado
Pacheco. Perdeu e muito, mas não foi isso que o fez suspender o jogo. Que
perdia? Uns contos — uma ninha- ria! A questão, porém, é que Pacheco jogava com
seis cartas. A primeira vez que Coleoni deu com isso, pareceu-lhe simples
distração do distinto jornalista e famoso advogado. Um homem honesto não ia
fazer aquilo! E na segunda, seria também? E na terceira?
Não era
possível tanta distração. Adquiriu a certeza da trampolinagem, calou-se,
conteve-se com uma dignidade não esperada em um antigo quitandeiro, e esperou.
Quando vieram a jogar outra vez e o passe foi posto em prática, Vicente acendeu
o charuto e observou com a maior naturalidade deste mundo:
—Os senhores
sabem que há agora, na Europa, um novo sistema de jogar o poker?
—Qual é?
perguntou alguém.
—A diferença
é pequena: joga-se com seis cartas, isto é, um dos parceiros, somente.
Pacheco
deu-se por desentendido, continuou a jogar e a ganhar, despediu- se à
meia-noite cheio de delicadeza, fez alguns comentários sobre a partida e não
voltou mais.
Conforme o
seu velho hábito, Coleoni lia de manhã os jornais, com o vagar e a lentidão de
homem pouco habituado à leitura, quando se lhe deparou o requerimento do seu
compadre do arsenal.
Ele não
compreendeu bem o requerimento, mas os jornais faziam troça, caíam tão a fundo
sobre a coisa, que imaginou o seu antigo benfeitor enleado numa meada
criminosa, tendo praticado, por inadvertência, alguma falta grave, Sempre o
tivera na conta do homem mais honesto deste mundo e ainda tinha, mas daí quem
sabe? Na última vez que o visitou ele não veio com aqueles modos estranhos?
Podia ser uma pilhéria...
Apesar de ter
enriquecido, Coleoni tinha em grande conta o seu obscuro compadre. Havia nele
não só a gratidão de camponês que recebeu um grande benefício, como um duplo
respeito pelo major, oriundo da sua qualidade de funcionário e de sábio.
Europeu, de
origem humilde e aldeã, guardava no fundo de si aquele sagrado respeito dos
camponeses pelos homens que recebem a investidura do Estado; e, como, apesar
dos bastos anos de Brasil, ainda não sabia juntar o saber aos títulos, tinha em
grande consideração a erudição do compadre.
Não é, pois,
de estranhar que ele visse com mágoa o nome de Quaresma envolvido em fatos que
os jornais reprovavam. Leu de novo o requerimento, mas não entendeu o que ele
queria dizer. Chamou a filha.
—Olga!
Ele
pronunciava o nome da filha quase sem sotaque; mas, quando falava português,
punha nas palavras uma rouquidão singular, e salpicava as frases de exclamações
e pequenas expressões italianas.
—Olga, que
quer dizer isto? Non capisco...
A moça
sentou-se a um cadeira próxima e leu no jornal, o requeri- mento e os
comentários.
—Che! Então?
—O padrinho
quer substituir o português pela língua tupi, entende o senhor?
—Como?
—Hoje, nós
não falamos português? Pois bem: ele quer que daqui em diante falemos tupi.
—Tutti?
—Todos os brasileiros,
todos.
—Ma che
coisa! Não é possível?
—Pode ser. Os
tcheques têm uma língua própria, e foram obriga- dos a falar alemão, depois de
conquistados pelos austríacos; os lorenos, franceses...
—Per la
madonna! Alemão é língua, agora esse acujelê, ecco!
—Acujelê é da
África, papai; tupi é daqui.
—Per Bacco! É
o mesmo... Está doido!
—Mas não há
loucura alguma, papai.
—Como? Então
é coisa de um homem bene?
—De juízo,
talvez não seja; mas de doido, também não.
—Non capisco.
—É uma idéia,
meu pai, é um plano, talvez à primeira vista absurdo, fora dos moldes, mas não
de todo doido. É ousado, talvez, mas...
Por mais que
quisesse, ela não podia julgar o ato do padrinho sob o critério de seu pai.
Neste falava o bom senso e nela o amor às grandes coisas, aos arrojos e
cometimentos ousados. Lembrou-se de que Quaresma lhe falara em emancipação; e
se houve no fundo de si um sentimento que não fosse de admiração pelo
atrevimento do major, não foi decerto o de reprovação ou lástima; foi de
piedade simpática por ver mal compreendido o ato daquele homem que ela conhecia
há tantos anos, seguindo o seu sonho, isolado, obscuro e tenaz.
—Isto vai
causar-lhe transtorno, observou Coleoni.
E ele tinha
razão. A sentença do arquivista foi vencedora nas discussoes dos corredores e a
suspeita de que Quaresma estivesse doido foi tomando foros de certeza. Em
princípio, o subsecretário suportou bem a tempestade; mas tendo adivinhado que
o supunham insciente no tupi, irritou-se, encheu-se de uma raiva surda, que se
continha dificilmente. Como eram cegos! Ele que há trinta anos estudava o
Brasil minuciosamente, ele que em virtude desses estudos, fora obrigado a
aprender o rebarbativo alemão, não saber tupi, a língua brasileira, a única que
o era — que suspeita miserável!
Que o
julgassem doido — vá! Mas que desconfiassem da sinceridade de suas afirmações,
não! E ele pensava, procurava meios de se reabilitar, caía em distrações, mesmo
escrevendo e fazendo a tarefa quotidiana. Vivia dividido em dois: uma parte nas
obrigações de todo dia, e a outra, na preocupação de provar que sabia o tupi.
O secretário
veio a faltar um dia e o major lhe ficou fazendo as vezes. O expediente fora
grande e ele mesmo redigira e copiara uma parte. Tinha começado a passar a
limpo um ofício sobre coisas de Mato Grosso, onde se falava em Aquidauana e
Ponta Porã, quando o Carmo disse lá do fundo da sala, com acento escarninho:
—Homero, isto
de saber é uma coisa, dizer é outra.
Quaresma nem
levantou os olhos do papel. Fosse pelas palavras em tupique se encontravam na
minuta, fosse pela alusão do funcionário Carmo, o certo é que ele
insensivelmente foi traduzindo a peça oficial para o idioma indígena.
Ao acabar,
deu com a distração, mas logo vieram outros empregados com o trabalho que
fizeram, para que ele examinasse. Novas preocupações afastaram a primeira,
esqueceu-se e o ofício em tupi seguiu com os companheiros. O diretor não
reparou, assinou e o tupinambá foi dar ao ministério.
Não se
imagina o rebuliço que tal coisa foi causar lá. Que língua era?
Consultou-se
o doutor Rocha, o homem mais hábil da secretaria, a respeito do assunto. O
funcionário limpou o pincenez, agarrou o papel, voltou-o de trás para diante,
pô-lo de pernas para o ar e concluiu que era grego, por causa do "yy".
O doutor
Rocha tinha na secretaria a fama de sábio, porque era bacharel em direito e não
dizia coisa alguma.
—Mas, indagou
o chefe, oficialmente as autoridades se podem comunicar em línguas
estrangeiras? Creio que há um aviso de 84... Veja, Senhor doutor Rocha...
Consultaram-se
todos os regulamentos e repertórios de legislação, andou-se de mesa em mesa
pedindo auxilio à memória de cada um e nada se encontrara a respeito. Enfim, o
doutor Rocha, após três dias de meditação, foi ao chefe e disse com ênfase e
segurança:
—O aviso de
84 trata de ortografia.
O diretor
olhou o subalterno com admiração e mais ficou considerando as suas qualidades
de empregado zeloso, inteligente e... assíduo. Foi informado de que a
legislação era omissa no tocante à língua em que deviam ser escritos os
documentos
oficiais; entretanto não parecia regular usar uma que não fosse a do país.
O ministro,
tendo em vista esta informação e várias outras consultas, devolveu o ofício e
censurou o arsenal.
Que manhã foi
essa no arsenal! Os tímpanos soavam furiosamente, os contínuos andavam numa
dobadoura terrível e a toda hora perguntavam pelo secretário que tardava em
chegar.
Censurado!
monologava o diretor, Ia-se por água abaixo o seu generalato.
Viver tantos
anos a sonhar com aquelas estrelas e elas se escapavam assim, talvez por causa
da molecagem de um escriturário!
Ainda se a
situação mudasse... Mas qual!
O secretário
chegou, foi ao gabinete do diretor. Inteirado do motivo, examinou o ofício e
pela letra conheceu que fora Quaresma que o escrevera.
Mande-o cá,
disse o coronel. O major encaminhou-se pensando nuns versos tupis que lera de
manhã.
—Então o
senhor leva a divertir-se comigo, não é?
—Como? fez
Quaresma espantado.
—Quem
escreveu isso?
O major nem
quis examinar o papel. Viu a letra, lembrou-se da distração e confessou com firmeza:
—Fui eu.
—Então
confessa?
—Pois não.
Mas Vossa Excelência não sabe...
—Não sabe!
que diz?
O diretor
levantou-se da cadeira, com os lábios brancos e a mão levantada à altura da
cabeça. Tinha sido ofendido três vezes: na sua honra individual, na honra de
sua casta e na do estabelecimento de ensino que freqüentara, a escola da Praia
Vermelha, o primeiro estabelecimento científico do mundo. Além disso escrevera
no Pritaneu, a revista da escola, um conto — "A Saudade" — produção
muito elogiada pelos colegas. Dessa forma, tendo em todos os exames plenamente
e distinção, uma dupla coroa de sábio e artista cingia-lhe a fronte, Tantos
títulos valiosos e raros de se encontrarem reunidos mesmo em Descartes ou Shakespeare, transformavam aquele — não
sabe — de um amanuense em ofensa profunda, em injúria.
—Não sabe!
Como é que o senhor ousa dizer-me isto! Tem o senhor porventura o curso de
Benjamim Constant? Sabe o senhor Matemática, Astronomia, Física, Química,
Sociologia e Moral? Como ousa então? Pois o senhor pensa que por ter lido uns
romances e saber um francesinho aí, pode ombrear-se com quem tirou grau 9 em
Cálculo, 10 em Mecânica, 8 em Astronomia, 10 em Hidráulica, 9 em Descritiva?
Então?!
E o homem
sacudia furiosamente a mão e olhava ferozmente para Quaresma que já se julgava
fuzilado.
—Mas, senhor
coronel!...
—Não tem mas,
não tem nada! Considere-se suspenso, até segunda ordem.
Quaresma era
doce, bom e modesto. Nunca fora seu propósito duvidar da sabedoria do seu
diretor. Ele não tinha nenhuma pretensão a sábio e pronunciara a frase para
começar a desculpa; mas, quando viu aquela enxurrada de saber, de títulos, a
sobrenadar em águas tão furiosas, perdeu o fio do pensamento, a fala, as idéias
e nada mais soube nem pôde dizer.
Saiu abatido,
como um criminoso, do gabinete do coronel, que não deixava de olhá-lo
furiosamente, indignadamente, ferozmente, como quem foi ferido em todas as
fibras do seu ser. Saiu afinal. Chegando à sala do trabalho nada disse: pegou
no chapéu, na bengala e atirou-se pela porta afora, cambaleando como um bêbado.
Deu umas voltas, foi ao livreiro buscar uns livros. Quando ia tomar o bonde
encontrou o Ricardo Coração dos Outros.
—Cedo, hein major?
—É verdade.
E calaram-se
ficando um diante do outro num mutismo contrafeito.
Ricardo avançou
algumas palavras:
—O major,
hoje, parece que tem uma idéia, um pensamento muito forte.
—Tenho,
filho, não de hoje, mas de há muito tempo.
—É bom
pensar, sonhar consola.
—Consola,
talvez; mas faz-nos também diferentes dos outros, cava abismos entre os homens....
E os dois separaram-se. O major tomou o bonde e
Ricardo desceu descuidado a Rua do Ouvidor, com o seu passo acanhado e as
calças dobradas nas canelas, sobraçando o violão na sua armadura de camurça.
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