CONTINUE LENDO O ROMANCE - TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA - DE LIMA BARRETO:
V O BIBELOT
Não era a
primeira vez que ela vinha ali. Mais de uma dezena já subira aquela larga
escada de pedra, com grupos de mármores de Lisboa de um lado e do outro, a
Caridade e Nossa Senhora da Piedade; penetrara por aquele pórtico de colunas
dóricas, atravessara o átrio ladrilhado, deixando à esquerda e à direita, Pinel
e Esquirol, meditando sobre o angustioso mistério da loucura; subira outra
escada encerada cuidadosamente e fora ter com o padrinho lá em cima, triste e
absorvido no seu sonho e na sua mania. Seu pai a trazia às vezes, aos domingos,
quando vinha cumprir o piedoso dever de amizade, visitando Quaresma. Há quanto
tempo estava ele ali? Ela não se lembrava ao certo; uns três ou quatro meses, se tanto.
Só o nome da
casa metia medo. O hospício! É assim como uma sepultura em vida, um semi-enterramento,
enterramento do espírito, da razão condutora, de cuja ausência os corpos
raramente se ressentem.
A saúde não
depende dela e há muitos que parecem até adquirir mais força de vida, prolongar
a existência, quando ela se evola não se sabe por que orifício do corpo e para
onde. Com que terror, uma espécie de pavor de coisa sobrenatural, espanto de inimigo
invisível e onipresente, não ouvia a gente pobre referir-se ao estabelecimento da
Praia das Saudades! Antes uma boa morte, diziam.
No primeiro
aspecto, não se compreendia bem esse pasmo, esse espanto, esse terror do povo
por aquela casa imensa, severa e grave, meio hospital, meio prisão, com seu
alto gradil, suas janelas gradeadas, a se estender por uns centos de metros, em
face do mar imenso e verde, lá na entrada da baía, na Praia das Saudades.
Entrava-se, viam-se uns homens calmos, pensativos, meditabundos, como monges em
recolhimento e prece. De resto, com aquela entrada silenciosa, clara e
respeitável, perdia- se logo a idéia popular da loucura; o escarcéu, os
trejeitos, as fúrias, o entrechoque de tolices ditas aqui e ali. Não havia nada
disso; era uma calma, um silêncio, uma ordem perfeitamente naturais. No fim,
porém, quando se examinavam bem, na sala das visitas, aquelas faces
transtornadas, aqueles ares aparvalhados, alguns idiotas e sem expressão,
outros como alheados e mergulhados em um sonho íntimo sem fim, e via-se também
a excitação de uns, mais viva em face à atonia de outros, é que se sentia bem o
horror da loucura, o angustioso mistério que ela encerra, feito não sei de que
inexplicável fuga do espírito daquilo que se supõe o real, para se apossar e
viver das aparências das coisas ou de outras aparências das mesmas.
Quem uma vez
esteve diante deste enigma indecifrável da nossa própria natureza, fica
amedrontado, sentindo que o gérmen daquilo está depositado em nós e que por
qualquer coisa ele nos invade, nos toma, nos esmaga e nos sepulta numa
desesperadora compreensão inversa e absurda de nós mesmos, dos outros e do
mundo. Cada louco traz em si o seu mundo e para ele não há mais semelhantes: o
que foi antes da loucura é outro muito outro do que ele vem a ser após.
E essa
mudança não começa, não se sente quando começa e quase nunca acaba. Com o seu
padrinho, como fora? A princípio, aquele requerimento...
Mas que era
aquilo? Um capricho, uma fantasia, coisa sem importância, uma idéia de velho
sem conseqüência. Depois, aquele ofício? Não tinha importância, uma simples
distração, coisa que acontece a cada passo... E enfim? A loucura declarada, a
torva e irônica loucura que nos tira a nossa alma e põe uma outra, que nos
rebaixa... Enfim, a loucura declarada, a exaltação do eu, a mania de não sair,
de se dizer perseguido, de imaginar como inimigos, os amigos, os melhores. Como
fora doloroso aquilo! A primeira fase do seu delírio, aquela agitação
desordenada, aquele falar sem nexo, sem acordo com que se realizava fora dele e
com os atos passados, um falar que não se sabia donde vinha, donde saia, de que
ponto do seu ser tomava nascimento! E o pavor do doce Quaresma?
Um pavor de
quem viu um cataclismo, que o fazia tremer todo, desde os pés à cabeça e
enchia-o de indiferença para tudo mais que não fosse o seu próprio delírio.
A casa, os
livros e os seus interesses de dinheiro andavam à matroca. Para ele, nada disso
valia, nada disso tinha existência e importância. Eram sombras, aparências; o
real eram os inimigos, os inimigos terríveis cujos nomes o seu delírio não
chegava a criar. A velha irmã, atarantada, atordoada, sem direção, sem saber
que alvitre tomar. Educada em casa sempre com um homem ao lado, o pai, depois o
irmão, ela não sabia lidar com o mundo, com negócios, com as autoridades e
pessoas influentes. Ao mesmo tempo, na sua inexperiência e ternura de irmã,
oscilava entre a crença de que aquilo fosse verdade e a suspeita de que fosse
loucura pura e simples.
Se não fosse
seu pai (e Olga amava mais por isso o seu rude pai) que se interessava,
chamando a si os interesses da família e evitando a demissão de que estava
ameaçado, transformando-a em aposentadoria, que seria dele? Como é fácil na
vida tudo ruir! Aquele homem pautado, regrado, honesto, com emprego seguro,
tinha uma aparência inabalável; entretanto bastou um grãozinho de sandice...
Estava há uns
meses no hospício, o seu padrinho, e a irmã não o podia visitar. Era tal o seu
abalo de nervos, era tal a emoção ao vê-lo ali naquela meia prisão, decaído
dele mesmo que um ataque se seguia e não podia ser evitado.
Vinham ela e
o pai, às vezes o pai só, algumas vezes Ricardo, e eram só os três a visitá-lo.
Aquele
domingo estava particularmente lindo, principalmente em Botafogo, nas
proximidades do mar e das montanhas altas que se recortavam num céu de seda. O
ar era macio e docemente o sol faiscava nas calçadas.
O pai vinha
lendo os jornais e ela, pensando, de quando em quando, folheando as revistas
ilustradas que trazia para alegrar e distrair o padrinho.
Ele estava
como pensionista; mas, embora assim, no começo, ela teve um certo pudor em se
misturar com os visitantes.
Parecia-lhe
que a sua fortuna a punha acima de presenciar misérias; recalcou porém, dentro
de si esse pensamento egoísta, o seu orgulho de classe, e agora entrava
naturalmente, pondo em mais destaque a sua elegância natural. Amava esses
sacrifícios, essas abnegações, tinha o sentimento da grandeza deles, e ficou
contente consigo mesma.
No bonde
vinham outros visitantes e todos não tardaram em saltar no portão do manicômio.
Como em todas as portas dos nossos infernos sociais, havia de toda gente, de
várias condições, nascimentos e fortunas. Não é só a morte que nivela; a
loucura, o crime e a moléstia passam também a sua rasoura pelas distinções que
inventamos.
Os bem
vestidos e os mal vestidos, os elegantes e os pobres, os feios e os bonitos, os
inteligentes e os néscios, entravam com respeito, com concentração, com uma
ponta de pavor nos olhos como se penetrassem noutro mundo.
Chegavam aos
parentes e os embrulhos se desfaziam: eram guloseimas, fumo, meias, chinelas,
às vezes livros e jornais, Dos doentes uns conversavam com os parentes; outros
mantinham-se calados, num mutismo feroz e inexplicável; outros indiferentes; e
era tal a variedade de aspectos dessas recepções que se chegava a esquecer o
império da doença sobre todos aqueles infelizes, tanto ela variava neste ou
naquele, para se pensar em caprichos pessoais, em ditames das vontades livres
de cada um.
E ela pensava
como esta nossa vida é variada e diversa, como ela é mais rica de aspectos
tristes que de alegres, e como na variedade da vida a tristeza pode mais variar
que a alegria e como que dá o próprio movimento da vida. Verificando isso,
quase teve satisfação, pois a sua natureza inteligente e curiosa se comprazia
nas mais simples descobertas que seu espírito fazia.
Quaresma
estava melhor. A exaltação passara e o delírio parecia querer desaparecer
completamente. Chocando-se com aquele meio, houve logo nele uma reação salutar
e necessária. Estava doido, pois se o punham ali...
Quando veio a
ter com o compadre e a afilhada até trazia um sorriso de satisfação por baixo
do bigode já grisalho. Tinha emagrecido um pouco, os cabelos pretos estavam um
pouco brancos, mas o aspecto geral era o mesmo.
Não perdera
totalmente a mansuetude e a ternura no falar, mas quando a mania lhe tomava
ficava um tanto seco e desconfiado. Ao vê-los disse amavelmente:
—Então vieram
sempre... Estava à espera...
Cumprimentaram-se
e ele deu mesmo um largo abraço na afilhada.
—Como está
Adelaide?
—Bem. Mandou
lembranças e não veio porque... adiantou Coleoni.
—Coitada!
disse ele, e pendeu a cabeça como se quisesse afastar uma recordação triste; em
seguida, perguntou:
—E o Ricardo?
A afilhada
apressou-se em responder ao padrinho, com alvoroço e alegria.
Via-o já
escapo à semi-sepultura de insânia.
—Está bom,
padrinho. Procurou papai há dias e disse que a sua aposentadoria já está quase
acabada.
Coleoni
tinha-se sentado. Quaresma também e a moça estava de pé, para melhor olhar o
padrinho com os seus olhos muito luminosos e firmes no encarar.
Guardas,
internos e médicos passavam pelas portas com a indiferença profissional. Os
visitantes não se olhavam, pareciam que não queriam conhecer-se na rua. Lá
fora, era o dia lindo, os ares macios, o mar infinito e melancólico, as
montanhas a se recortar num céu de seda — a beleza da natureza imponente e
indecifrável, Coleoni, embora mais assíduo nas visitas, notava as melhoras do
compadre com satisfação que errava na sua fisionomia, num ligeiro sorriso. Num dado
momento aventurou:
—O major já
está muito melhor; quer sair?
Quaresma não
respondeu logo; pensou um pouco e respondeu firme e vagarosamente:
—É melhor
esperar um pouco. Vou melhor... Sinto incomodar-te tanto mas vocês que têm sido
tão bons, hão de levar tudo isso para conta da própria bondade. Quem tem
inimigos deve ter também bons amigos...
O pai e a
filha entreolharam-se; o major levantou a cabeça e parecia que as lágrimas
queriam rebentar. A moça interveio de pronto:
—Sabe,
padrinho, vou casar-me.
—É verdade,
confirmou o pai. A Olga vai casar-se e nós vínhamos preveni-lo.
—Quem é teu
noivo? perguntou Quaresma.
—É um
rapaz...
—Decerto,
interrompeu o padrinho sorrindo.
E os dois
acompanharam-no com familiaridade e contentamento. Era um bom sinal.
—É o Senhor
Armando Borges, doutorando. Está satisfeito, padrinho?
fez Olga
gentilmente.
—Então é para
depois do fim do ano.
—Esperamos
que seja por aí, disse o italiano.
—Gostas muito
dele? indagou o padrinho.
Ela não sabia
responder aquela pergunta. Queria sentir que gostava, mas estava que não. E por
que casava? Não sabia... Um impulso do seu meio, uma coisa que não vinha dela —
não sabia... Gostava de outro? Também não. Todos os rapazes que ela conhecia
não possuíam relevo que a ferisse, não tinham o "quê", ainda
indeterminado na sua emoção e na sua inteligência, que a fascinasse ou
subjugasse. Ela não sabia bem o que era, não chegava a extremar na percepção
das suas inclinações a qualidade que ela queria ver dominante no homem. Era o
heróico, era o fora do comum, era a força de projeção para as grandes coisas;
mas nessa confusão mental dos nossos primeiros anos, quando as idéias e os
desejos se entrelaçam e se embaralham, Olga não podia colher e registrar esse
anelo, esse modo de se lhe representar e de amar o indivíduo masculino.
E tinha razão
em se casar sem obedecer à sua concepção. É tão difícil ver nitidamente num homem,
de vinte a trinta anos, o que ela sonhara que era bem possível tornasse a nuvem
por Juno... Casava por hábito de sociedade, um pouco por curiosidade e para
alargar o campo de sua vida e aguçar a sensibilidade. Lembrou-se disso tudo
rapidamente e respondeu sem convicção ao padrinho:
—Gosto.
A visita não
se demorou muito mais. Era conveniente que fosse rápida, não convinha fatigar a
atenção do convalescente. Os dois saíram sem esconder que iam esperançados e
satisfeitos. Na porta já havia alguns visitantes à espera do bonde. Como não
estivesse o veículo no ponto, foram indo ao longo da fachada do manicômio até
lá. Em meio do caminho, encontraram, encostada ao gradil, uma velha preta a chorar.
Coleoni, sempre bom, chegou-se a ela:
—Que tem,
minha velha?
A pobre
mulher deitou sobre ele um demorado olhar, úmido e doce, cheio de uma
irremediável tristeza, e respondeu:
—Ah! meu
sinhô!... É triste... Um filho, tão bom, coitado!
E continuou a
chorar. Coleoni começou a comover-se; a filha olhou-a com interesse e perguntou
no fim de um instante:
—Morreu?
—Antes fosse,
sinhazinha.
E por entre
lágrimas e soluços contou que o filho não a conhecia mais, não lhe respondia às
perguntas; era como estranho, Enxugou as lágrimas e concluiu:
—Foi
"coisa-feita".
Os dois afastaram-se
tristes, levando n'alma um pouco daquela humilde dor.
O dia estava
fresco e a viração, que começava a soprar, enrugava a face do mar em pequenas
ondas brancas. O Pão de Açúcar erguia-se negro, hirto, solene, das ondas
espumejantes e como que punha uma sombra no dia muito claro.
No Instituto
dos Cegos, tocavam violino: e a voz plangente e demorada do instrumento parecia
sair daquelas coisas todas, da sua tristeza e da sua solenidade.
O bonde
tardou um pouco. Chegou. Tomaram. Desceram no Largo da Carioca. É bom ver-se a
cidade nos dias de descanso, com as suas lojas fechadas, as suas estreitas ruas
desertas, onde os passos ressoam como em claustros silenciosos. A cidade é como
um esqueleto, faltam-lhe as carnes, que são a agitação, o movimento de carros,
de carroças e gente. Na porta de uma loja ou outra, os filhos do negociante
brincam em velocípedes, atiram bolas e ainda mais se sente a diferença da
cidade do dia anterior.
Não havia
ainda o hábito de procurar os arrabaldes pitorescos e só encontravam, por
vezes, casais que iam apressadamente a visitas, como eles agora. O Largo de São
Francisco estava silencioso e a estátua, no centro daquele pequeno jardim que
desapareceu, parecia um simples enfeite. Os bondes chegavam preguiçosamente ao
largo com poucos passageiros. Coleoni e sua filha tomaram um que os levasse à
casa de Quaresma. Lá foram. A tarde se aproximava e as toilettes domingueiras
já apareciam nas janelas. Pretos com roupas claras e grandes charutos ou
cigarros; grupos de caixeiros com flores estardalhantes; meninas em cassas bem
engomadas: cartolas antediluvianas ao
lado de
vestidos pesados de cetim negro, enverga- dos em corpos fartos de matronas
sedentárias; e o domingo aparecia assim decorado com a simplicidade dos
humildes, com a riqueza dos pobres e a ostentação dos tolos.
Dona Adelaide
não estava só. Ricardo viera visitá-la e conversavam.
Quando o
compadre de seu irmão bateu no portão, ele contava à velha senhora o seu último
triunfo:
—Não sei como
há de ser, Dona Adelaide. Eu não guardo as minhas músicas, não escrevo — é um
inferno!
O caso era de
pôr um autor em maus lençóis. O Senhor Paysandón, de Córdoba (República
Argentina), autor muito conhecido na mesma cidade, lhe tinha escrito, pedindo
exemplares de suas músicas e canções. Ricardo estava atrapalhado, Tinha os
versos escritos, mas a música não. É verdade que as sabia de cor, porém,
escrevê-las de uma hora para outra era trabalho acima de sua força.
—É o diabo!
continuou ele. Não é por mim; a quês tão é que se perde uma ocasião de fazer o
Brasil conhecido no estrangeiro.
A velha irmã
de Quaresma não tinha grande interesse pelo violão. A sua educação, que se
fizera vendo semelhante instrumento entregue a escravos ou gente parecida, não
podia admitir que ele preocupasse a atenção de pessoas de certa ordem,
Delicada, entretanto, suportava a mania de Ricardo, mesmo porque já começava a
ter uma ponta de estima pelo famoso trovador dos suburbanos.
Nasceu-lhe
essa estima pela dedicação com que ele se houve no seu drama familiar. Os pequenos
serviços e trabalhos, os passos para ali e para aqui, ficaram a cargo de
Ricardo, que os desempenhara com boa vontade e diligência.
Atualmente
era ele o encarregado de tratar da aposentadoria do seu antigo discípulo. É um
trabalho árduo, esse de liquidar uma aposentadoria, como se diz na gíria
burocrática. Aposentado o sujeito, solenemente por um decreto, a coisa corre
uma dezena de repartições e funcionários para ser ultimada. Nada há mais grave
do que a gravidade com que o empregado nos diz; ainda estou fazendo o cálculo;
e a coisa demora um mês, mais até, como se tratasse de mecânica celeste.
Coleoni era o
procurador do major, mas não sendo entendido em coisas oficiais, entregou ao
Coração dos Outros aquela parte do seu mandato.
Graças à
popularidade de Ricardo, e da sua lhaneza, vencera a resistência da máquina
burocrática e a liquidação estava anunciada para breve.
Foi isso que
ele anunciou a Coleoni, quando este entrou seguido da filha.
Pediram,
tanto ele como Dona Adelaide, notícias do amigo e do irmão.
A irmã nunca
entendera direito o irmão, com a crise não o ficou compreendendo melhor; mas o sentira profundamente com o
sentimento sim- ples de irmã e desejava ardentemente a sua cura.
Ricardo
Coração dos Outros gostava do major, encontrara nele certo apoio moral e
intelectual de que precisava. Os outros gostavam de ouvir o seu canto,
apreciavam como simples diletantes; mas o major era o único que ia ao fundo da
sua tentativa e compreendia o alcance patriótico de sua obra.
De resto, ele
agora sofria particularmente — sofria na sua glória, produto de um lento e
seguido trabalho de anos. É que aparecera um crioulo a cantar modinhas e cujo nome começava a tomar força e
já era citado ao lado do seu.
Aborrecia-se
com o rival, por dois fatos: primeiro: pelo sujeito ser preto; e segundo: por
causa das suas teorias.
Não é que ele
tivesse ojeriza particular aos pretos. O que ele via no fato de haver um preto
famoso tocar violão, era que tal coisa ia diminuir ainda mais o prestígio do
instrumento. Se o seu rival tocasse piano e por isso ficasse célebre,
não havia mal
algum; ao contrário: o talento do rapaz levantava a sua pessoa, por intermédio
do instrumento considerado; mas, tocando violão, era o inverso: o preconceito
que lhe cercava a pessoa, desmoralizava o misterioso violão que ele tanto
estimava. E além disso com aquelas teorias! Ora! Querer que a modinha diga
alguma coisa e tenha versos certos! Que tolice!
E Ricardo
levava a pensar nesse rival inesperado que se punha assim diante dele como um
obstáculo imprevisto na subida maravilhosa para a sua glória. Precisava
afastá-lo, esmagá -lo, mostrar a sua superioridade indiscutível;
mas como?
A réclame já
não bastava; o rival a empregava também. Se ele tivesse um homem notável, um
grande literato, que escrevesse um artigo sobre ele e a sua obra, a vitória
estava certa. Era difícil encontrar. Esses nossos literatos eram tão tolos e viviam tão absorvidos em coisas
francesas... Pensou num jornal, O Violão, em que ele desafiasse o rival e o
esmagasse numa polêmica.
Era isso que
precisava obter e a esperança estava em Quaresma, atualmente recolhido ao
hospício, mas felizmente em via de cura, A sua alegria foi justamente quando
soube que o amigo estava melhor.
—Não pude ir
hoje, disse ele, mas irei domingo. Está mais gordo?
—Pouca coisa,
disse a moça.
—Conversou
bem, acrescentou Coleoni. Até ficou contente quando soube que Olga ia casar-se.
—Vai
casar-se, Dona Olga? Parabéns.
—Obrigada,
fez ela.
—Quando é,
Olga? perguntou Dona Adelaide.
—Lá para o
fim do ano... Tem tempo...
E logo
choveram perguntas sobre o noivo e afloraram as considerações sobre o
casamento.
E ela se
sentia vexada; julgava, tanto as perguntas como as considerações, impudentes e
irritantes; queria fugir à conversa, mas voltavam ao mesmo assunto, não só
Ricardo, mas a velha Adelaide, mais loquaz e curiosa que comumente. Esse
suplício que se repetia em todas as visitas, quase a fazia arrepender-se de ter
aceitado o pedido. Por fim, achou um subterfúgio, perguntando:
—Como vai o
general?
—Não o tenho visto,
mas a filha sempre vem aqui. Ele deve andar bem, a Ismênia é que anda triste,
desolada — coitadinha!
Dona Adelaide
contou então o drama que agitava a pequenina alma da filha do general. Cavalcânti, aquele Jacó de
cinco anos, embarcara para o interior, há três ou quatro meses, e não mandara
nem uma carta nem um cartão.
A menina
tinha aquilo como um rompimento; e ela, tão inca- paz de um sentimento mais
profundo, de uma aplicação mais séria de energia mental e física, sentia-o
muito, como coisa irremediável que absorvia toda a sua atenção.
Para Ismênia,
era como se todos os rapazes casadoiros tivessem deixado de existir. Arranjar
outro era problema insolúvel, era trabalho acima de suas forças. Coisa difícil!
Namorar, escrever cartinhas, fazer acenos, dançar, ir a passeios — ela não
podia mais com isso. Decididamente, estava condenada a não se casar, a ser tia,
a suportar durante toda a existência esse estado de solteira que a apavorava.
Quase não se lembrava das feições do noivo, dos seus olhos esgazeados, do seu
nariz duro e fortemente ósseo; independente da memória dele, vinha-lhe sempre à
consciência, quando, de manhã, o estafeta não lhe entregava carta, essa outra
idéia: não casar. Era um castigo... A Quinota ia casarse, o Genelício já estava
tratando dos papéis; e ela que esperara tanto, e fora a primeira a noivar-se,
ia ficar maldita, rebaixada diante de todas. Parecia até que ambos estavam
contentes com aquela fuga inexplicável de Cavalcânti. Como eles se riam durante
o carnaval! Como eles atiraram aos seus olhos aquela viuvez prematura, durante
os folguedos carnavalescos! Punham tanta fúria no jogo de confetes e bisnagas,
de modo a deixar bem claro a felicidade de ambos, aquela marcha gloriosa e
invejada para o casamento, em face do seu abandono. Ela disfarçava bem a
impressão da alegria deles que lhe parecia indecente e hostil; mas o escárnio
da irmã que lhe dizia constantemente: "Brinca, Ismênia! Ele está longe, vai
aproveitando" — metia-lhe raiva, a raiva terrível de gente fraca, que
corrói interiormente, por não poder arrebentar de qualquer forma.
Então, para
espantar os maus pensamentos, ela se punha a olhar o aspecto pueril da rua,
marchetada de papeluchos multicores, e as serpentinas irisadas pendentes nas
sacadas, mas o que fazia bem à sua natureza pobre, comprimida, eram os cordões,
aquele ruído de atabaques, e adufes, de tambores e pratos.
Mergulhando
nessa barulheira, o seu pensamento repousava e como que a idéia que a perseguia
desde tanto tempo ficava impedida de lhe entrar na cabeça.
De resto,
aqueles vestuários extravagantes de índios, aqueles adornos de uma mitologia
francamente selvagem, jacarés, cobras, jabutis, vivos, bem vivos, traziam à
pobreza de sua imaginação imagens risonhas de rios claros, florestas imensas,
lugares de sossego e pureza que a reconfortavam.
Também
aquelas cantigas gritadas, berradas, num ritmo duro e de uma grande indigência
melódica, vinham como reprimir a mágoa que ia nela, abafada, comprimida,
contida, que pedia uma explosão de gritos, mas para o que não lhe sobrava força
bastante e suficiente.
O noivo
partira um mês antes do carnaval e depois do grande festejo carioca a sua
tortura foi maior. Sem hábito de leitura e de conversa, sem atividade doméstica
qualquer, ela passava os dias deitada, sentada, a girar em torno de um mesmo
pensamento: não casar. Era-lhe doce chorar.
Nas horas da
entrega da correspondência, tinha ainda uma alegre esperança. Talvez? Mas a
carta não vinha, e, voltava ao seu pensamento: não casar.
Dona
Adelaide, acabando de contar o desastre da triste Ismênia, comentou:
—Merecia um
castigo isso, não acham?
Coleoni
interveio com brandura e boa vontade:
—Não há razão
para desesperar. Há muita gente que tem preguiça de escrever...
—Qual! fez
Dona Adelaide. Há três meses, Senhor Vicente!
—Não volta,
disse Ricardo sentenciosamente.
—E ela ainda
o espera, Dona Adelaide? perguntou Olga.
—Não sei,
minha filha. Ninguém entende essa moça. Fala pouco, se fala diz meias
palavras... É mesmo uma natureza que parece sem sangue nem nervos.
Sente-se a sua
tristeza, mas não fala.
—É orgulho?
perguntou ainda Olga.
—Não, não...
Se fosse orgulho, ela não se referia de vez em quando ao noivo. É antes moleza,
preguiça... Parece que ela tem medo de falar para que as coisas não venham a
acontecer.
—E os pais
que dizem a isso? indagou Coleoni.
—Não sei bem.
Mas pelo que pude perceber, o incômodo do general não é grande e Dona Maricota
julga que ela deve arranjar "outro".
—Era o
melhor, disse Ricardo.
—Eu creio que
ela não tem mais prática, disse sorrindo Dona Adelaide. Levou tanto tempo
noiva...
E a conversa
já tinha virado para outros assuntos, quando a Ismênia veio fazer a sua visita
diária à irmã de Quaresma.
Cumprimentou
todos e todos sentiram que ela penava. O sofrimento dava-lhe mais atividade à
fisionomia.
As pálpebras
estavam roxas e até os seus pequenos olhos pardos tinham mais brilho e
expansão. Indagou da saúde de Quaresma e depois calaram-se um instante. Por fim
Dona Adelaide lhe perguntou:
—Recebeste
carta, Ismênia?
—Ainda não,
respondeu ela, com grande economia de voz.
Ricardo
moveu-se na cadeira. Batendo com o braço num dunkerque, veio atirar ao chão uma
figurinha de biscuit, que se esfacelou em inúmeros fragmentos, quase sem ruído.
SEGUNDA PARTE
I NO
"SOSSEGO"
Não era feio
o lugar, mas não era belo. Tinha, entretanto, o aspecto tranqüilo e satisfeito
de quem se julga bem com a sua sorte.
A casa
erguia-se sobre um socalco, uma espécie de degrau, formando a subida para a
maior altura de uma pequena colina que lhe corria nos fundos.
Em frente,
por entre os bambus da cerca, olhava uma planície a morrer nas montanhas que se
viam ao longe; um regato de águas paradas e sujas cortava-a paralelamente à
testada da casa; mais adiante, o trem passava vincando a planície com a fita
clara de sua linha capinada; um carreiro, com casas, de um e de outro lado,
saia da esquerda e ia ter à estação, atravessando o regato e serpeando pelo
plano. A habitação de Quaresma tinha assim um amplo horizonte, olhando para o
levante, a "noruega", e era também risonha e graciosa nos seus muros
caiados. Edificada com a desoladora indigência arquitetônica das nossas casas
de campo, possuía, porém, vastas salas, amplos quartos, todos com janelas, e
uma varanda com uma colunata heterodoxa. Além desta principal, o sítio do
"Sossego", como se chamava, tinha outras construções: a velha casa da
farinha, que ainda tinha o forno intacto e a roda desmontada, e uma estrebaria
coberta de sapê.
Não havia
três meses que viera habitar aquela casa, naquele ermo lugar, a duas horas do
Rio, por estrada de ferro, após ter passado seis meses no hospício da Praia das Saudades. Saíra curado? Quem
sabe lá? Parecia; não delirava e os seus gestos e propósitos eram de homem
comum embora, sob tal aparência, se pudesse sempre crer que não se lhe
despedira de todo, já não se dirá a loucura, mas o sonho que cevara durante
tantos anos. Foram mais seis meses de repouso e útil seqüestração que mesmo de
uso de uma terapêutica psiquiátrica. Quaresma viveu lá, no manicômio,
resignadamente, conversando com os seus companheiros, onde via ricos que se
diziam pobres, pobres que se queriam
ricos, sábios
a maldizer da sabedoria, ignorantes a se proclamarem sábios: mas deles todos,
daquele que mais se admirou, foi de um velho e plácido negociante da Rua dos
Pescadores que se supunha Átila. Eu, dizia o pacato velho, sou Átila, sabe? Sou
Átila. Tinha fracas notícias da personagem, sabia o nome e nada mais, Sou
Átila, matei muita gente — e era só.
Saiu o major
mais triste ainda do que vivera toda a vida. De todas as coisas tristes de ver,
no mundo, a mais triste é a loucura; é a mais depressora e pungente.
Aquela
continuação da nossa vida tal e qual, com um desarranjo imperceptível, mas
profundo e quase sempre insondável, que a inutiliza inteiramente, faz pensar em
alguma coisa mais forte que nós, que nos guia, que nos impele e em cujas mãos
somos simples joguetes. Em vários tempos e lugares, a loucura foi considerada
sagrada, e deve haver razão nisso no sentimento que se apodera de nós quando,
ao vermos um louco desarra- zoar, pensamos logo que já não é ele quem fala, é
alguém, é alguém que vê por ele, interpreta as coisas por ele, está atrás dele,
invisível!...
Quaresma saiu
envolvido, penetrado da tristeza do manicômio. Voltou à sua casa, mas a vista
das suas coisas familiares não lhe tirou a forte impressão de que vinha
impregnado. Embora nunca tivesse sido alegre, a sua fisionomia apresentava mais
desgosto que antes, muito abatimento moral, e foi para levantar o ânimo que se
recolheu àquela risonha casa de roça, onde se dedicava a modestas culturas.
Não fora ele,
porém, quem se lembrara; fora a afilhada que lhe trouxe à idéia aquele doce
acabar para a sua vida. Vendo-o naquele estado de abatimento, triste e
taciturno, sem coragem de sair, enclausurado em sua casa de São Cristóvão, Olga
dirigiu-se um dia ao padrinho meiga e filialmente:
—O padrinho
por que não compra um sítio? Seria tão bom fazer as suas culturas, ter o seu
pomar, a sua horta... não acha?
Tão taciturno
que ele estivesse, não pôde deixar de modificar imediatamente a sua fisionomia
à lembrança da moça. Era um velho desejo seu, esse de tirar da terra o
alimento, a alegria e a fortuna; e foi lembrando dos seus antigos projetos que
respondeu à afilhada:
—É verdade,
minha filha. Que magnífica idéia, tens tu! Há por ai tantas terras férteis sem
emprego... A nossa terra tem os terrenos mais férteis do mundo... O milho pode
dar até duas colheitas e quatrocentos por um...
A moça esteve
quase arrependida da sua lembrança. Pareceu-lhe que ia atear no espírito do
padrinho manias já extintas.
—Em toda a
parte — não acha, meu padrinho? — há terras férteis.
—Mas como no
Brasil, apressou-se ele em dizer, há poucos países que as tenham. Vou fazer o
que tu dizes: plantar, criar, cultivar o milho, o feijão, a batata inglesa...
Tu irás ver as minhas culturas, a minha horta, o meu pomar —
então é que
te convencerás como são fecundas as nossas terras!
A idéia
caiu-lhe na cabeça e germinou logo. O terreno estava amanhado e só esperava uma
boa semente. Não lhe voltou a alegria que jamais teve, mas a taciturnidade
foi-se com o abatimento moral, e veio-lhe a atividade mental cerebrina, por assim dizer, de outros tempos.
Indagou dos preços correntes das frutas, dos legumes, das batatas, dos aipins;
calculou que cinqüenta laranjeiras, trinta abacateiros, oitenta pessegueiros,
outras árvores frutíferas, além dos abacaxis (que mina!), das abóboras e outros
produ- tos menos importantes, podiam dar o rendimento anual de mais de quatro
contos, tirando as despesas.
Seria ocioso
trazer para aqui os detalhes dos seus cálculos, baseados em tudo no que vem
estabelecido nos boletins da Associação de Agricultura Nacional.
Levou em
linha de conta a produção média de cada pé de fruteira, de hectare cultivado, e também os salários, as perdas
inevitáveis; e, quanto aos preços, ele foi em pessoa ao mercado buscá-los.
Planejou a
sua vida agrícola com a exatidão e meticulosidade que punha em todos os seus
projetos. Encarou-a por todas as faces, pesou as vantagens e ônus; e muito
contente ficou em vê-la monetariamente atraente, não por ambição 57
de fazer
fortuna, mas por haver nisso mais uma demonstração das excelências do Brasil.
E foi
obedecendo a essa ordem de idéias que comprou aquele sítio, cujo nome —
"Sossego" — cabia tão bem à nova vida que adotara, após a tempestade que
o sacudira durante quase um ano. Não ficava longe do Rio e ele o escolhera assim
mesmo maltratado, abandonado, para melhor demonstrar a força e o poder da
tenacidade, do carinho, no trabalho agrícola. Esperava grandes colheitas de frutas,
de grãos, de legumes; e do seu exemplo, nasceriam mil outros cultivadores,
estando em breve a grande capi- tal cercada de um verdadeiro celeiro, virente e abundante a dispensar os
argentinos e europeus.
Com que
alegria ele foi para lá! Quase não teve saudades de sua velha casa de São
Januário, agora propriedade de outras mãos, talvez destinada ao mercenário
mister de lar de aluguel... Não sentiu que aquela vasta sala, abrigo calmo dos
seus livros durante tantos anos, fosse servir para salão de baile fútil, fosse
testemunhar talvez rixas de casais desentendidos, ódios de família — ela tão
boa, tão doce, tão simpática, com o seu teto alto e as suas paredes lisas, em que
se tinham incrustado os desejos de sua alma e toda ela penetrada da exalação
dos seus sonhos!...
Ele foi
contente. Como era tão simples viver na nossa terra! Quatro contos de réis por
ano, tirados da terra, facilmente, docemente, alegremente! Oh! Terra abençoada!
Como é que toda a gente queria ser empregado público, apodrecer numa banca,
sofrer na sua independência e no seu orgulho? Como é que se preferia viver em
casas apertadas, sem ar, sem luz, respirar um ambiente epidêmico, sustentar-se
de maus alimentos, quando se podia tão facilmente obter uma vida feliz, farta,
livre, alegre e saudável?"
E era agora
que ele chegava a essa conclusão, depois de ter sofrido a miséria da cidade e o
emasculamento da repartição pública, durante tanto tempo!
Chegara
tarde, mas não a ponto de que não pudesse antes da morte travar conhecimento
com a doce vida campestre e a feracidade das terras brasileiras. Então pensou
que foram vãos aqueles seus desejos de reformas capitais nas instituições e
costumes: o que era principal à grandeza da pátria estremecida, era uma forte
base agrícola, um culto pelo seu solo ubérrimo, para alicerçar fortemente todos
os outros destinos que ela linha de preencher, Demais, com terras tão férteis,
climas variados, a permitir uma agricultura fácil e rendosa, este caminho
estava naturalmente indicado.
E ele viu
então diante dos seus olhos as laranjeiras, em flor, olentes, muito brancas, a
se enfileirar pelas encostas das colinas, como teorias de noivas; os abacateiros,
de troncos rugosos, a sopesar com esforço os grandes pomos verdes; as
jabuticabas negras a estalar dos caules rijos; os abacaxis coroados que nem
reis, recebendo a unção quente do sol; as abobreiras a se arrastarem com flores
carnudas cheias de pólen; as melancias de um verde tão fixo que parecia
pintado; os pêssegos veludosos, as jacas monstruosas, os jambos, as mangas
capitosas; e dentre tudo aquilo surgia uma linda mulher, com o regaço cheio de
frutos e um dos ombros nu, a lhe sorrir agradecida, com um imaterial sorriso
demorado de deusa — era Pomona, a deusa dos vergéis e dos jardins!...
As primeiras
semanas que passou no "Sossego", Quaresma as empregou numa exploração
em regra da sua nova propriedade. Havia nela terra bastante, velhas árvores
frutíferas, um capoeirão grosso com camarás, bacu- rubus, tinguacibas,
tibibuias, monjolos, e outros espécimes. Anastácio que o acompanhara, apelava
para as suas recordações de antigo escravo de faz enda, e era quem ensinava os
nomes dos indivíduos da mata a Quaresma muito lido e sabido em coisas
brasileiras.
O major logo
organizou um museu dos produtos naturais do "Sossego".
As espécies florestais
e campesinas foram etiquetadas com os seus nomes vulgares, e quando era
possível com os científicos. Os arbustos, em herbário, e as madeiras, em
pequenos tocos, seccionados longitudinal e transversalmente.
Os azares de
leituras tinham-no levado a estudar as ciências naturais e o furor autodidata
dera a Quaresma sólidas noções de Botânica, Zoologia, Mineralogia e Geologia.
Não foram só
os vegetais que mereceram as honras de um inventário; os animais também, mas
como ele não tinha espaço suficiente e a conserva- cão dos exemplares exigia
mais cuidado, Quaresma limitou-se a fazer o seu museu no papel, por onde sabia
que as terras eram povoadas de tatus, cutias, preás, cobras variadas,
saracuras, sanãs, avinhados, coleiros, tiês, etc. A parte mineral era pobre,
argilas, areia e, aqui e ali, uns blocos de granito esfoliando-se.
Acabado esse
inventário, passou duas semanas a organizar a sua biblioteca agrícola e uma
relação de instrumentos meteorológicos para auxiliar os trabalhos da lavoura.
Encomendou livros
nacionais, franceses, portugueses; comprou termômetros, barômetros,
pluviômetros, higrômetros, anemômetros. Vieram estes e foram arrumados e
colocados convenientemente.
Anastácio
assistia a todos esses preparativos com assombro. Para que tanta coisa, tanto
livro, tanto vidro? Estaria o seu antigo patrão dando para farmacêutico? A
dúvida do preto velho não durou muito, Estando certa vez Quaresma a ler o
pluviômetro, Anastácio, ao lado, olhava-o espantado, como quem assiste a um
passe de feitiçaria. O patrão notou o espanto do criado e disse:
—Sabes o que
estou fazendo, Anastácio?
—Não
"sinhô".
—Estou vendo
se choveu muito.
—Pra que
isso, patrão? A gente sabe logo "de olho" quando chove muito ou
pouco... Isso de plantar é capinar, pôr a semente na terra, deixar crescer e apanhar...
Ele falava
com a voz mole de africano, sem "rr" fortes, com lentidão e convicção.
Quaresma, sem
abandonar o instrumento, tomou em consideração o conselho de seu empregado, O
capim e o mato cobriam as suas terras. As laranjeiras, os abacateiros, as
mangueiras estavam sujos, cheios de galhos mortos, e cobertos de uma medusina
cabeleira de erva-de-passarinho; mas, como não fosse época própria à poda e ao
corte dos galhos, Quaresma limitou-se a capinar por entre os pés das fruteiras.
De manhã, logo ao amanhecer, ele mais o Anastácio, lá iam, de enxada ao ombro,
para o trabalho do campo. O sol era forte e rijo; o verão estava no auge, mas
Quaresma era inflexível e corajoso. Lá ia.
Era de vê-lo,
coberto com um chapéu de palha de coco, atracado a um grande enxadão de cabo
nodoso, ele, muito pequeno, míope, a dar golpes sobre golpes para arrancar um
teimoso pé de guaximba. A sua enxada mais parecia uma draga, um escavador, que
um pequeno instrumento agrícola. Anastácio, junto ao patrão, olhava-o com
piedade e espanto. Por gosto andar naquele sol a capinar sem saber?... Há cada
coisa neste mundo!
E os dois iam
continuando. O velho preto, ligeiro, rápido, raspando o mato rasteiro, com a
mão habituada, a cujo impulso a enxada resvalava sem obstáculo pelo solo,
destruindo a erva má; Quaresma, furioso, a arrancar torrões de terra daqui,
dali, demorando-se muito em cada arbusto e, às vezes, quando o golpe falhava e
a lâmina do instrumento roçava a terra, a força era tanta que se erguia uma
poeira infernal, fazendo supor que por aquelas paragens passara um pelotão de
cavalaria. Anastácio, então, intervinha humildemente, mas em tom professoral:
—Não é assim,
"seu majó". Não se mete a enxada pela terra adentro. É de leve,
assim. E ensinava ao Cincinato inexperiente o jeito de servir-se do velho
instrumento de trabalho.
Quaresma
agarrava-o, punha-se em posição e procurava com toda a boa vontade usá-lo da
maneira ensinada. Era em vão. O
flange batia na erva, a enxada saltava e ouvia-se um pássaro ao alto soltar uma
piada irônica: bem-te-vi!
O major
enfurecia-se, tentava outra vez, fatigava-se, suava, enchia-se de raiva e batia
com toda a força; e houve várias vezes que a enxada, batendo em falso,
escapando ao chão, fê-lo perder o equilíbrio, cair, e beijar a terra, mãe dos frutos
e dos homens. O pincenez saltava, partia-se de encontro a um seixo, o major
ficava todo enfurecido e voltava com mais rigor e energia à tarefa que se
impusera; mas, tanto é em nossos músculos firme a memória ancestral desse sagrado
trabalho de tirar da terra o sustento de nossa vida, que não foi impossível a
Quaresma acordar nos seus o jeito, a maneira de empregar a enxada vetusta. Ao
fim de um mês, ele capinava razoavelmente, não seguido, de sol a sol, mas com
grandes repousos de hora em hora que a sua idade e falta de hábito requeriam.
Às vezes, o
fiel Anastácio seguia-o no descanso e ambos, lado a lado, à sombra de uma
fruteira mais copada, ficavam a ver o ar pesado daqueles dias de verão que
enrodilhava as folhas das árvores e punha nas coisas um forte acento de
resignação mórbida. Então, aí por depois do meio-dia, quando o calor parecia
narcotizar tudo e mergulhar em silêncio a vida inteira, é que o velho major
percebia bem a alma dos trópicos, feita de desencontros como aquele que se via
agora, de um sol alto, claro, olímpico, a brilhar sobre um torpor de morte, que
ele mesmo provocava.
Almoçavam
mesmo no eito, comidas do dia anterior, aquecidas rapidamente sobre um
improvisado fogão de calhaus, e o trabalho ia assim até à hora do jantar. Havia
em Quaresma um entusiasmo sincero, entusiasmo de ideólogo que quer pôr em
prática a sua idéia. Não se agastou com as primeiras ingratidões da terra,
aquele seu mórbido amor pelas ervas daninhas e o incompreensível ódio pela
enxada fecundante. Capinava e capi- nava sempre até vir jantar.
Esta refeição
ele fazia mais demorada. Conversava um pouco com a irmã, contava-lhe a tarefa
do dia, consistindo sempre em avaliar a área já limpa.
—Sabes,
Adelaide, amanhã estarão as laranjeiras limpas, não ficará nem mais uma
touceira de mato.
A irmã, mais
velha que ele, não partilhava aquele seu entusiasmo pelas coisas da roça.
Considerava-o silenciosa, e, se viera viver com ele, não foi senão pelo hábito
de acompanhá-lo. Decerto, ela o estimava, mas não o compreendia.
Não chegava a
entender nem os seus gestos nem a sua agitação interna. Por que não seguira ele
o caminho dos outros? Não se formara e se fizera deputado? Era tão bonito...
Andar com livros, anos e anos, para não ser nada, que doideira!
Seguira-o ao
"Sossego" e, para entreter-se, criava galinhas, com grande alegria do
irmão cultivador.
—Está
direito, dizia ela, quando o irmão lhe contava as coisas do seu trabalho. Não
vá ficares doente... Neste sol todo o dia...
—Qual,
doente, Adelaide! Não estás vendo como essa gente tem tanta saúde por aí... Se
adoecem, é porque não trabalham.
Acabado o
jantar, Quaresma chegava à janela que dava para o galinheiro e atirava migalhas
de pão às aves.
Ele gostava
desse espetáculo, daquela luta encarniçada entre patos,
gansos,
galinhas, pequenos e grandes. Dava-lhe uma imagem reduzida da vida e dos
prêmios que ela comporta. Depois, fazia indagações sobre a vida do galinheiro:
—Já nasceram
os patos, Adelaide?
—Ainda não.
Faltam oito dias ainda.
E logo a irmã
acrescentava:
—Tua afilhada
deve casar-se sábado, tu não vais?
—Não. Não
posso... Vou incomodar-me, luxo... Mando um leitão e um peru.
—Ora, tu! Que
presente!
—Que é que
tem? É da tradição.
Justamente
estavam nesse dia assim a conversar as dois irmãos na sala de jantar da velha
casa roceira, quando Anastácio veio avisar-lhes que se achava um cavalheiro na
porteira.
Desde que ali
se instalara, nenhuma visita batera à porta de Quaresma, a não ser a gente
pobre do lugar, a pedir isso ou aquilo, esmolando disfarçadamente. Ele mesmo
não travara conhecimento com ninguém, de modo que foi com surpresa que recebeu
o aviso do velho preto.
Apressou-se
em ir receber o visitante na sala principal. Ele já subia a pequena escada da
frente e penetrava pela varanda adentro.
—Boas tardes,
major.
—Boas tardes.
Faça o favor de entrar.
O
desconhecido entrou e sentou-se. Era um tipo comum, mas o que havia nele de
estranho, era a gordura. Não era desmedida ou grotesca, mas tinha um aspecto
desonesto. Parecia que a fizera de repente e comia, a mais não poder, com medo
de a perder de um dia para outro. Era assim como a de um lagarto que entesoura
enxúndia para o inverno ingrato. Atra- vés da gordura de suas bochechas, via-se
perfeitamente a sua magreza natu- ral, normal, e se devia ser gordo não era
naquela idade, com pouco mais de trinta anos, sem dar tempo que todo ele
engordasse; porque, se as suas faces eram gordas, as suas mãos continuavam
magras com longos dedos fusiformes e ágeis. O visitante falou:
—Eu sou o
Tenente Antonino Dutra, escrivão da coletoria...
—Alguma
formalidade? indagou medroso Quaresma.
—Nenhuma,
major. Já sabemos quem o senhor é; não há novidade nem nenhuma exigência legal.
O escrivão
tossiu, tirou um cigarro, ofereceu outro a Quaresma e continuou.
—Sabendo que
o major vem estabelecer-se aqui, tomei a iniciativa de vir incomodá-lo... Não é
coisa de importância... Creio que o major...
—Oh! Por
Deus, tenente!
—Venho
pedir-lhe um pequeno auxílio, um óbulo, para a festa da Conceição, a nossa
padroeira, de cuja irmandade sou tesoureiro.
—Perfeitamente.
É muito justo. Apesar de não ser religioso, estou...
—Uma coisa
nada tem com a outra. É uma tradição do lugar que devemos manter.
—É justo.
—O senhor
sabe, continuou o escrivão, a gente daqui é muito pobre e a irmandade também,
de forma que somos obrigados a apelar para a boa vontade dos moradores mais
remediados. Desde já, portanto, major...
—Não. Espere
um pouco...
—Oh! major,
não se incomode, Não é pra já.
Enxugou o
suor, guardou o lenço, olhou um pouco lá fora e acrescentou:
—Que calor!
Um verão como este nunca vi aqui. Tem-se dado bem, major?
—Muito bem.
—Pretende
dedicar-se à agricultura?
—Pretendo, e
foi mesmo por isso que vim para a roça.
—Isto hoje
não presta, mas noutro tempo!... Este sítio já foi uma lindeza, major! Quanta
fruta, quanta farinha! As terras estão cansadas e...
—Qual
cansadas, Seu Antonino! Não há terras cansadas... A Europa é cultivada há
milhares de anos, entretanto...
—Mas lá se
trabalha.
—Por que não
se há de trabalhar aqui também?
—Lá isso é
verdade; mas há tantas contrariedades na nossa terra que...
—Qual, meu
caro tenente! Não há nada que não se vença.
—O senhor
verá com o tempo, major. Na nossa terra não se vive senão de política, fora
disso, babau! Agora mesmo anda tudo brigado por causa da questão da eleição de
deputados...
Ao dizer
isto, o escrivão lançou por baixo das suas pálpebras gordas um olhar
pesquisador sobre a ingênua fisionomia de Quaresma.
—Que questão
é? indagou Quaresma.
O tenente
parecia que esperava a pergunta e logo fez com alegria:
—Então não
sabe?
—Não.
—Eu lhe
explico: o candidato do governo é o doutor Castrioto, moço honesto, bom orador;
mas entenderam aqui certos presidentes de Câmaras Municipais do Distrito que se
hão de sobrepor ao governo, só porque o Senador Guariba rompeu com o
governador; e — zás — apresentaram um tal Neves que não tem serviço algum ao
partido e nenhuma influência... Que pensa o senhor?
—Eu... Nada!
O
serventuário do fisco ficou espantado. Havia no mundo um homem que, sabendo e
morando no município de Curuzu, não se incomodasse com a briga do Senador
Guariba com o governador do Estado! Não era possível! Pensou e sorriu
levemente. Com certeza, disse ele consigo, este malandro quer ficar bem com os
dois, para depois arranjar-se sem dificuldade. Estava tirando sardinha com mão
de gato... Aquilo devia ser um ambicioso matreiro; era preciso cortar as asas
daquele "estrangeiro", que vinha não se sabe donde!
—O major é um
filósofo, disse ele com malícia.
—Quem me
dera? fez com ingenuidade Quaresma.
Antonino ainda
fez rodar um pouco a conversa sobre a grave questão, mas, desanimado de
penetrar nas tenções ocultas do major, apagou a fisionomia e disse em ar de
despedida:
—Então o
major não se recusa a concorrer para a nossa festa, não é?
—Decerto.
Os dois se
despediram. Debruçado na varanda, Quaresma ficou a vê-lo montar no seu pequeno
castanho, luzidio de suor, gordo e vivo. O escrivão afastou-se, desapareceu na
estrada, e o major ficou a pensar no interesse estranho que essa gente punha
nas lutas políticas, nessas tricas eleitorais, como se nelas houvesse qualquer
coisa de vital e importante. Não atinava porque uma rezinga entre dois figurões
importantes vinha pôr desarmonia entre tanta gente, cuja vida estava tão fora
da esfera daqueles. Não estava ali a terra boa para cultivar e criar? Não
exigia ela uma árdua luta diária? Por que não se empregava o esforço que se
punha naqueles barulhos de votos, de atas, no trabalho de fecundá-la, de tirar
dela seres, vidas — trabalho igual ao de Deus e dos artistas?
Era tolo
estar a pensar em governadores e guaribas, quando a nossa vida pede tudo à
terra e ela quer carinho, luta, trabalho e amor...
O sufrágio
universal pareceu-lhe um flagelo.
O trem apitou
e ele demorou-se a vê-lo chegar. É uma emoção especial de quem mora longe, essa
de ver chegar os meios de transporte que nos põem em comunicação com o resto do
mundo. Há uma mescla de medo e de alegria, Ao mesmo tempo que se pensa em boas
novas, pensam- se também más. A alternativa angustia...
O trem ou o
vapor como que vem do indeterminado, do Mistério, e traz, além de notícias
gerais, boas ou más, também o gesto, um sorriso, a voz das pessoas que amamos e
estão longe.
Quaresma
esperou o trem. Ele chegou arfando e se estirando como um réptil pela estação
afora à luz forte do sol poente. Não se demorou muito. Apitou de novo e saiu a
levar notícias, amigos, riquezas, tristezas por outras estações além. O major
pensou ainda um pouco como aquilo era bruto e feio, e como as invenções do
nosso tempo se afastam tanto da linha imaginária da beleza que os nossos
educadores de dois mil anos atrás nos legaram. Olhou a estrada que levava à
estação. Vinha um sujeito... Dirigia-se para a sua casa... Quem podia ser?
Limpou o pincenez e assentou-o para o homem que caminhava com pressa... Quem
era? Aquele chapéu dobrado, como um morrião... Aquele fraque comprido... Passo
miúdo... Um violão! Era ele!
—Adelaide,
está aí o Ricardo.
II ESPINHOS E
FLORES
Os subúrbios
do Rio de Janeiro são a mais curiosa coisa em matéria deedificação da cidade. A
topografia do local, caprichosamente monstruosa, influiu decerto para tal
aspecto, mais influíram, porém, os azares das construções.
Nada mais
irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser imaginado. As
casas surgiram como se fossem semeadas ao vento e, conforme as casas, as ruas
se fizeram. Há algumas delas que começam largas como boulevards e acabam
estreitas que nem vielas; dão voltas, circuitos inúteis e parecem fugir ao
alinhamento reto com um ódio tenaz e sagrado.
Às vezes se
sucedem na mesma direção com uma freqüência irritante, outras se afastam, e
deixam de permeio um longo intervalo coeso e fechado de casas. Num trecho, há
casas amontoadas umas sobre outras numa angústia de espaço desoladora, logo
adiante um vasto campo abre ao nosso olhar uma ampla perspectiva.
Marcham assim
ao acaso as edificações e conseguintemente o arruamento.
Há casas de
todos os gostos e construídas de todas as formas.
Vai-se por
uma rua a ver um correr de chalets, de porta e janela, parede de frontal, humildes
e acanhados, de repente se nos depara uma casa burguesa, dessas de compoteiras
na cimalha rendilhada, a se erguer sobre um porão alto com mezaninos gradeados.
Passada essa surpresa, olha-se acolá e dá-se com uma choupana de pau-a-pique,
coberta de zinco ou mesmo palha, em torno da qual formiga uma população;
adiante, é uma velha casa de roça, com varanda e colunas de estilo pouco classificável, que
parece vexada e querer ocultar-se diante daquela onda de edifícios disparatados
e novos.
Não há nos
nossos subúrbios coisa alguma que nos lembre os famosos das grandes cidades
européias, com as suas vilas de ar repousado e satisfeito, as suas estradas e
ruas macadamizadas e cuidadas, nem mesmo se encontram aqueles jardins,
cuidadinhos, aparadinhos, penteados, porque os nossos, se os há, são em geral
pobres, feios e desleixados.
Os cuidados
municipais também são variáveis e caprichosos. Às vezes, nas ruas, há passeios,
em certas partes e outras não; algumas vias de comunicação são calçadas e
outras da mesma importância estão ainda em estado de natureza. Encontra-se aqui
um pontilhão bem cuidado sobre o rio seco e passos além temos que atravessar um
ribeirão sobre uma pinguela de trilhos mal juntos.
Há pelas ruas
damas elegantes, com sedas e brocados, evitando a custo que a lama ou o pó lhes
empanem o brilho do vestido; há operários de tamancos; há peralvilhos à última
moda; há mulheres de chita; e assim pela tarde, quando essa gente volta do
trabalho ou do passeio, a mescla se faz numa mesma rua, num quarteirão, e quase
sempre o mais bem posto não é que entra na melhor casa.
Além disto,
os subúrbios têm mais aspectos interessantes, sem falar no namoro epidêmico e
no espiritismo endêmico; as casas de cômodos (quem as suporia lá!) constituem
um deles bem inédito. Casas que mal dariam para uma pequena família, são
divididas, subdivididas, e os minúsculos aposentos assim obtidos, alugados à
população miserável da cidade. Aí, nesses caixotins humanos, é que se encontra
a fauna menos observada da nossa vida, sobre a qual a miséria paira com um
rigor londrino.
Não se podem
imaginar profissões mais tristes e mais inopinadas da gente que habita tais
caixinhas. Além dos serventes de repartições, contínuos de escritórios, podemos
deparar velhas fabricantes de rendas de bilros, compradores de garrafas vazias,
castradores de gatos, cães e galos, mandingueiros, catadores de ervas
medicinais, enfim, uma variedade de profissões miseráveis que as nossas pequena
e grande burguesias não podem adivinhar. Às vezes num cubículo desses se
amontoa uma família, e há ocasiões em que os seus chefes vão a pé para a cidade
por falta do níquel do trem.
Ricardo
Coração dos Outros morava em uma pobre casa de cômodos de um dos subúrbios. Não
era das sórdidas, mas era uma casa de cômodos dos subúrbios.
Desde anos
que ele a habitava e gostava da casa que ficava trepada sobre uma colina,
olhando a janela do seu quarto para uma ampla extensão edificada que ia da
Piedade a Todos os Santos. Vistos assim do alto, os subúrbios têm a
sua graça. As
casas pequeninas, pintadas de azul, de branco, de oca, engastadas nas comas
verde-negras das mangueiras, tendo de permeio, aqui e ali, um coqueiro ou uma
palmeira, alta e soberba, fazem a vista boa e a falta de
percepção do
desenho das ruas põe no panorama um sabor de confusão democrática, de
solidariedade perfeita entre as gentes que as habitam; e o trem minúsculo,
rápido, atravessa tudo aquilo, dobrando à esquerda, inclinando-se para a
direita, muito flexível nas suas grandes vértebras de carros, como uma cobra entre
pedrouços.
Era daquela
janela que Ricardo espraiava as suas alegrias, as suas satisfações, os seus triunfos e também os
seus sofrimentos e mágoas.
Ainda agora
estava ele lá, debruçado no peitoril, com a mão em concha no queixo, colhendo
com a vista uma grande parte daquela bela, grande e original cidade, capital de
um grande país, de que ele a modos que era e se sentia ser, a alma,
consubstanciando os seus tênues sonhos e desejos em versos discutíveis, mas que
a plangência do violão, se não lhes dava sentido, dava um quê de balbucio, de
queixume dorido da pátria criança ainda, ainda na sua formação...
Em que
pensava ele? Não pensava só, sofria também. Aquele tal preto continuava na sua
mania de querer fazer a modinha dizer alguma coisa, e tinha adeptos. Alguns já o citavam como rival dele,
Ricardo; outros já afirmavam que
o tal rapaz
deixava longe o Coração dos Outros, e alguns mais — ingratos! — já esqueciam os
trabalhos, o tenaz trabalhar de Ricardo Coração dos Outros em prol do
levantamento da modinha e do violão, e nem nomeavam o abnegado obreiro. Com o
olhar perdido, Ricardo lembrava-se de sua infância, daquela sua aldeia
sertaneja, da casinha dos seus pais, com seu curral e o mugido dos vitelos... E
o queijo? Aquele queijo tão substancial, tão forte, feio como aquela terra, mas
feraz como ela tanto que bastava comer dele uma pequena fatia para se sentir
almoçado... E as festas? Saudades... E o violão, como aprendeu? Oseu mestre, o
Maneco Borges, não lhe predissera o futuro: "Irás longe, Ricardo.
A viola quer
teu coração"?
Por que então
aquele encarniçamento, aquele ódio contra ele — ele que trouxera para esta
terra de estrangeiros a alma, o suco, a substância do país!
E as lágrimas
lhe saltaram quentes dos olhos afora. Olhou um pouco as montanhas, farejou o
mar lá longe... Era bela a terra, era linda, era majestosa, mas parecia ingrata
e áspera no seu granito onipresente que se fazia negro e mau quando não era
amaciado pela verdura das árvores.
E ele estava
ali só, só com a sua glória e o seu tormento, sem amor, sem confidente, sem amigo, só como um deus ou
como um apóstolo em terra ingrata que não lhe quer ouvir a boa nova.
Sofria em não
ter um peito amado, amigo em que derramasse aquelas lágrimas que iam cair no
solo indiferente. Por aí, lembrou-se dos famosos versos:
"Se
choro... bebe o pranto a areia ardente"...
Com a
lembrança, ele baixou um pouco o olhar à terra e viu que, no tanque da casa, um
tanto escondida dele, uma rapariga preta lavava. Ela abaixava o corpo sobre a
roupa, carregava todo o seu peso, ensaboava-a ligeira, batia-a de encontro à
pedra, e recomeçava. Teve pena daquela pobre mulher, duas vezes triste na sua
condição e na sua cor. Veio-lhe um afluxo de ternura e, depois, pôs-se a pensar
no mundo, nas desgraças, ficando um instante enleado no enigma do nosso
miserável destino humano.
A rapariga
não o viu, distraída com o trabalho; e se pôs a cantar:
Da doçura dos
teus olhos
A brisa
inveja já tem
Era dele.
Ricardo sorriu satisfeito e teve vontade de ir beijar aquela pobre mulher, abraçá-la...
E como eram
as coisas? Ele recebia lenitivo daquela rapariga; era a sua humilde e dorida
voz que vinha afagar o seu tormento! Vieram-lhe então à memória aqueles versos
do Padre Caldas, esse seu antecessor feliz que teve um auditório de fidalgas:
Lereno
alegrou os outros
E nunca teve
alegria...
Enfim era uma
missão!... A rapariga acabou de cantar e Ricardo não se pôde conter:
—Vai bem,
Dona Alice, vai bem! Se não fosse, por que lhe pedia bis?
A rapariga
estendeu a cabeça, reconheceu quem falava e disse:
—Não sabia
que o senhor estava aí, senão não cantava na vista do senhor.
—Qual o quê!
Posso garantir-lhe que está bom, muito bom. Cante.
—Deus me
livre! Para o senhor me "acriticar"...
Embora
insistisse muito, a rapariga não quis continuar. As mágoas pareciam ter passado
do pensamento de Ricardo. Veio ao interior do quarto e pôs-se à mesa na tenção
de escrever.
O seu quarto
tinha o mobiliário mais reduzido possível. Havia uma rede com franjas de
rendas, uma mesa de pinho, sobre ela objetos de escrever; uma cadeira, uma
estante com livros, e, pendurado a uma parede, o violão na sua armadura de
camurça. Havia também uma máquina para fazer café.
Sentou-se e
quis começar uma modinha sobre a Glória, essa coisa fugace, que se tem e se
pensa que não se tem, alguma coisa impalpável, incolhível como um sopro, que
nos alanceia, queima, inquieta e abrasa como o Amor.
Tentou
começar, dispôs o papel, mas não pôde. A emoção tinha sido forte, toda a sua
natureza tinha sido lavrada, baralhada, com a idéia daquele furto que se queria
fazer ao seu mérito. Não conseguiu assentar o pensamento, apanhar as palavras
no ar, sentir a música zumbir no ouvido.
A manhã ia
alta. As cigarras defronte chilreavam no tamarineiro desfolhado; começava a
esquentar e o céu estava de um azul ligeiro, tênue, fino.
Quis sair,
procurar um amigo, espairecer com ele, mas quem? Ainda se o Quaresma... Ah! O
Quaresma! Esse, sim, trazia-lhe conforto e consolo. É verdade que ultimamente
esse seu amigo achava-se pouco interessada pela modinha; mas assim mesmo
compreendia o seu propósito, os fins e o alcance da obra a que ele, Ricardo, se
propunha. Ainda se o major estivesse perto, mas tão longe! Consultou as
algibeiras. Não chegava a dois mil-réis a sua fortuna. Como ir? Arranjaria um
passe e iria. Bateram à porta. Traziam-lhe uma carta. Não reconheceu a letra;
rasgou o envelope com emoção. Que seria? Leu: "Meu caro Ricardo — Saúde —
Minha filha Quinota casa-se depois de amanhã, quinta-feira. Ela e o noivo fazem
muito gosto que você apareça. Se o amigo não estiver comprometido com alguém,
agarre o violão e venha até cá tomar uma chávena de chá conosco — Seu amigo
Albernaz".
O trovador, à
proporção que lia, ia mudando de fisionomia. Até então estava carregada e dura;
quando acabou de ler o bilhete, um sorriso brincava por toda ela, descia e
subia, ia de uma face a outra. O general não o abandonara; para o respeitável
militar, Ricardo Coração dos Outros ainda era o rei do violão. Iria e
arranjaria passagem com o antigo vizinho de Quaresma. Contemplou um pouco o
violão, demoradamente, eternamente, agradecidamente como se fosse
um ídolo
benfazejo.
Quando
Ricardo penetrou em casa do General Albernaz, o último brinde havia sido
levantado e todos se dirigiam para a sala de visitas em pequenos grupos. Dona
Maricota vestia seda malva e o seu busto curto parecia ainda mais abafado, mais
socado, naquele tecido caro que parece requerer corpos elegantes e flexíveis.
Quinota estava radiante no vestido de noiva. Ela era alta, de feições mais
regulares que a irmã Ismênia, mas menos interessante e mais comum de temperamento
e alma, embora faceira. Lalá, a terceira filha do general, que já se ajeitava a
moça, tinha muito pó-de-arroz, estava sempre a concertar o penteado e o sorrir
para o Tenente Fontes. Um casamento bem cotado e esperado. Genelício dava o
braço à noiva, encasacado numa casaca mal talhada, que punha bem à mostra a sua
gibosidade, e caminhava todo atrapalhado nos apertados sapatos de verniz Ricardo
não os viu passar, pois ao entrar, a fila estava no general, metido num segundo
uniforme dos grandes dias, que lhe ia mal como a farda de um guarda-nacional
endomingado; mas, quem tinha um ar importante, marcial e navegado, ao mesmo
tempo palaciano, era o Contra Almirante Caldas. Fora padrinho e estava
irrepreensível na sua casaca do uniforme. As âncoras reluziam como metais de
bordo em hora de revista e os seus favoritos, muito penteados, alargavam a sua
face e pareciam desejar com ardor os grandes ventos do vasto oceano sem fim.
Ismênia estava de rosa e andava pelas salas com o seu ar dolente, com o seu
vagar, com os seus gestos lentos, dando providências. O Lulu, o único filho do
general, impava no seu uniforme do Colégio Militar, cheio de dourados e
cabelos, tanto mais que passara de ano, graças aos empenhos do pai.
O general não
tardou em vir falar com Ricardo; e os noivos, quando o trovador os
cumprimentou, agradeceram-lhe muito, e até Quinota disse um — "sou muito
feliz..." — deitando a cabeça de lado e sorrindo para o chão, sorriso que
encheu de imenso transporte a cândida alma do menestrel.
Deram começo
às danças e o general, o almirante, o Major Inocên- cio
Bustamante,
que também viera de uniforme, com a sua banda roxa de honorário, o doutor
Florêncio, Ricardo e dois convidados outros foram para a sala de jantar palestrar
um pouco.
O general
estava satisfeito. Sonhava há tantos anos uma cerimônia daquelas em sua casa e
enfim pela primeira vez via realizado esse anseio.
A Ismênia foi
aquela desgraça... O ingrato!... Mas para que recordar?
Os
cumprimentos se repetiram.
—É um
rapagão, o seu novo genro, disse um dos convidados novos.
O general
tirou o pincenez que era preso por um trancelim de ouro, e enquanto o limpava,
respondeu, olhando com aquele jeito dos míopes:
—Estou muito
contente.
Por aí pôs o
pincenez, endireitou o trancelim e continuou:
—Creio que
casei bem minha filha; rapaz formado, bem encaminhado e inteligente.
O almirante
acudiu:
—E que
carreira! Não é por ser meu parente, mas com trinta e dois anos primeiro
escriturário do Tesouro, é coisa nunca vista.
—O Genelício
não está no Tribunal de Contas, não passou? perguntou Florêncio.
—Passou, mas
é a mesma coisa, replicou o outro convidado novo, que era da amizade do
recém-casado. De fato, Genelício tinha arranjado a transferência e não fora só
isso que o decidira a casar-se. Tendo escrito uma — Síntese de Contabilidade
Pública Científica — viu-se, sem saber como, cumulado de elogios pela
"imprensa desta capital." O ministro, atendendo ao mérito excepcional
da obra, mandou-lhe dar dois contos de prêmio, tendo sido a edição feita à
custa do Estado, na Imprensa Nacional. Era um grosso volume de quatrocentas
páginas, tipo doze, escrito em estilo de
ofício, com uma basta docu- mentação de decretos e portarias, ocupando dois
terços do livro.
A primeira
frase da primeira parte, o quinhão do livro verdadeira- mente sintético e
científico, fora até muito notada e gabada pelos críticos, não só pela novidade
da idéia, como também pela beleza da expressão.
Dizia assim:
"A Contabilidade Pública é a arte ou ciência de escriturar convenientemente
a despesa e receita do Estado".
Além do
prêmio e da transferência, ele já tinha promessa de ser subdiretor na primeira
vaga.
Ouvindo tudo
isso que tinham dito o almirante, o general e os convidados novos, o major não
pôde deixar de observar:
—Depois da
militar, a melhor carreira é a de Fazenda, não acham?
—Sim... Bem
entendido, fez o doutor Florêncio.
—Eu não quero
falar dos formados, apressou-se o major. Esses...
Ricardo
sentia-se na obrigação de dizer qualquer coisa e foi soltando a primeira frase
que lhe veio aos lábios:
—Quando se
prospera, todas as profissões são boas.
—Não é tanto
assim, obtemperou o almirante, alisando um dos favoritos.
Não é para
desfazer nas outras, mas a nossa, hein Albernaz? hein
Inocêncio?
Albernaz levantou
a cabeça como se quisesse apanhar no ar uma lembrança e depois replicou:
—É, mas tem
os seus percalços, Quando se está numa trapalhada, fogo daqui, tiro dali, morre
um, grita outro como em Curupaiti, então...
—O senhor
esteve lá, general? perguntou o convidado amigo de Genelício.
—Não estive,
Adoeci e vim para o Brasil. Mas o Camisão... Não imaginam o que foi — você
sabe, não é Inocêncio?
—Se estive
lá...
—Polidoro
tinha ordem de atacar Sauce, Flores à esquerda e "nós" caímos sobre
os paraguaios. Mas os malandros estavam bem entrincheirados, tinham aproveitado
o tempo.
—Foi
"Seu" Mitre, disse Inocêncio.
—Foi.
Atacamos com fúria. Era um ribombar de canhões que metia medo, bala por todo
canto, os homens morriam como moscas... Um inferno!
—Quem venceu?
perguntou um dos convidados novos.
Todos se
entreolharam admirados, exceto o general que julgava a sabedoria do Paraguai
excepcional.
—Foram os
paraguaios, isto é, repeliram o nosso ataque. É por isso que eu digo que a
nossa profissão é bela, mas tem as suas "coisas"".
—Isso não
quer dizer nada, Também na passagem de Humaitá... ia dizendo o almirante.
—O senhor
estava a bordo?
—Não, eu fui
mais tarde. Perseguições fizeram com que eu não fosse designado, porque o
embarque equivalia a uma promoção... Mas, na passagem de Humaitá...
Na sala de
visitas as danças continuavam com animação. Era raro que alguém viesse lá de
dentro até onde eles estavam. Os risos, a música, e o mais que se adivinhava
não distraíam aqueles homens das suas preocupações belicosas.
O general, o
almirante e o major enchiam de pasmo aqueles burgueses pacíficos, contando
batalhas em que não estiveram e pugnas valorosas que não pelejaram.
Não há como
um cidadão pacato, bem comido, tendo tomado alguns vinhos generosos, para
apreciar as narrações de guerra. Ele só vê a parte pitoresca, a parte por assim
dizer espiritual das batalhas, dos encontros; os tiros são os de salva e se
matam é coisa de somenos. A Morte mesmo, nas narrações feitas assim, perde a
sua importância trágica: três mil mortos, só!!!
De resto,
contadas pelo General Albernaz, que nunca tinha visto a guerra, a coisa ficava
edulcorada, uma guerra bibliothèque rose, guerra de estampa popular, em que não
aparecem a carniçaria, a brutalidade e a ferocidade normais.
Estavam
Ricardo, o doutor Florêncio, o exato empregado como engenheiro das águas,
aqueles dois recentes conhecimentos de Albernaz, embevecidos, boquiabertos e
invejosos diante das proezas imaginárias daqueles três militares, um honorário,
talvez o menos pacífico dos três, o único que tivesse mesmo tomado parte em
alguma coisa guerreira — quando Dona Maricota chegou, sempre diligente, altiva,
dando movimento e vida à fes- ta. Era mais moça que o marido, tinha ainda
inteiramente pretos os cabe- los na sua cabeça pequena, que contrastava tanto
com o seu corpo enor- me. Ela vinha ofegante e dirigiu-se ao marido:
—Então,
Chico, que é isso? Ficam ai e eu que faça sala, que anime as moças... Pra sala
todos!
—Já vamos,
Dona Maricota, disse alguém.
—Não, fez com
rapidez a dona da casa, é já. Vamos, "Seu" Cal- das, "Seu"
Ricardo, os senhores!
E foi
empurrando um a um pelo ombro.
—Depressa,
depressa, que a filha do Lemos vai cantar; e depois é o senhor... Está ouvindo,
"Seu" Ricardo!
—Pois não,
minha senhora. É uma ordem...
E foram. No caminho
o general parou um pouco, chegou-se a Coração dos Outros e perguntou:
—Diga-me uma
coisa: como vai o nosso amigo Quaresma?
—Vai bem.
—Tem-lhe
escrito?
—Às vezes. Eu
queria, general...
O general
suspendeu a cabeça, levantou um pouco o pincenez que começava a cair, e
perguntou:
—O quê?
Ricardo ficou
intimidado com o ar marcial com que Albernaz lhe fez a pergunta. Depois de uma
ligeira hesitação, respondeu de um jato, com medo de perder as palavras.
—Eu queria
que o senhor me arranjasse uma passagem, um passe, para ir vê-lo.
O general
esteve uns instantes de cabeça baixa, coçou o cabelo e disse:
—Isso é
difícil, mas você apareça lá, na repartição, amanhã.
E continuaram
a andar. Ainda andando, Coração dos Outros acrescentou:
—Estou com
saudades dele, depois tenho certos desgostos... O senhor sabe: um homem que tem
nome...
—Vá lá
amanhã.
Dona Maricota
apareceu na frente e falou agastada:
—Vocês não
vêm!
—Já vamos,
fez o general.
E depois,
dirigindo-se a Ricardo, ajuntou:
—Aquele
Quaresma podia estar bem, mas foi meter-se com livros... É isto! Eu, há bem
quarenta anos, que não pego em livro...
Chegaram à
sala. Era vasta. Tinha dois grandes retratos em pesadas molduras douradas,
furiosos retratos a óleo de Albernaz e da mulher; um espelho oval e alguns
quadrinhos, e a decoração estava completa. Da mobília não se pode julgar, tinha
sido retirada, para dar mais espaço aos dançantes. A noiva e o noivo estavam no
sofá sentados a presidir a festa. Havia um ou outro decote, poucas casacas,
algumas sobrecasacas e muitos fraques. Por entre as cortinas de uma janela,
Ricardo pôde ver a rua. A calçada defronte estava cheia. A casa era alta e
tinha jardim; só de lá os curiosos, os "serenos", podiam ver alguma
coisa da festa. Lalá, no vão de uma sacada, conversava com o Tenente Fontes. O
general contemplou- os e abençoou-os com um olhar aprovador...
A moça, a
famosa filha do Lemos, dispôs-se a cantar. Foi ao piano, colocou a partitura e
começou. Era uma romanza italiana que ela cantou com a perfeição e o mau gosto
de uma moça bem-educada. Acabou. Pal- mas gerais, mas frias, soaram.
O doutor
Florêncio que ficara atrás do general, comentou:
—Tem uma bela
voz esta moça. Quem é?
—É a filha do
Lemos, o doutor Lemos da Higiene, respondeu o general.
—Canta muito
bem.
—Está no último
ano do conservatório, observou ainda Albernaz.
Chegou a vez
de Ricardo. Ele ocupou um canto da sala, agarrou o violão, afinou-o, correu a
escala; em seguida, tomou o ar trágico de quem vai representar o Édipo-Rei e
falou com voz grossa: "Senhoritas, senhores e senhoras". Concertou a
voz e continuou: "Vou cantar 'Os teus braços', modinha de minha
composição, música e versos. É uma composição terna, decente e de uma poesia
exaltada". Seus olhos, por aí, quase lhe saíam das órbitas. Emendou:
"Espero
que nenhum ruído se ouça, porque senão a inspiração se evola. É o violão
instrumento muito... mui... to 'delicado'. Bem".
A atenção era
geral. Deu começo. Principiou brando, gemebundo, macio e longo, como um soluço
de onda; depois, houve uma parte rápida, saltitante, em que o violão estalava.
Alternando um andamento e outro, a modinha acabou. Aquilo tinha ido ao fundo de
todos, tinha acudido ao sonho das moças e aos desejos dos homens. As palmas
foram ininterruptas. O general abraçou-o, Genelicio levantou-se e deu-lhe a
mão, Quinota, no seu imaculado vestido de noiva, também.
Para fugir
aos cumprimentos, Ricardo correu à sala de jantar. No corredor chamavam-no:
"Senhor Ricardo, Senhor Ricardo!" Voltou-se. "Que ordena minha
senhora?" Era uma moça que lhe pedia uma cópia da modinha. —Não se
esqueça, dizia ela com meiguice, não se esqueça. Gosto tanto das suas
modinhas... São tão ternas, tão delicadas... Olhe: dê aqui a Ismênia para me
entregar.
A noiva de
Cavalcânti aproximava-se e, ouvindo falar em seu nome, perguntou:
—Que é,
Dulce?
A outra
explicou-lhe. Ela aceitou a incumbência e, por sua vez, perguntou a Ricardo com
a sua voz dolente:
—"Seu"
Ricardo, quando é que o senhor pretende estar com Dona Adelaide?
—Depois de
amanhã, espero eu.
—Vai lá?
—Vou.
—Pois então diga-lhe
que me escreva. Eu queria tanto receber uma carta...
E limpou os
olhos furtivamente, com o seu pequenino lenço rendado.
III GOLIAS
No sábado da
semana seguinte àquela em que a filha do general recebera como marido o grave e
giboso Genelício, glória e orgulho do nosso funcionalismo público, Olga
casara-se. A cerimônia correra com a pompa e a riqueza acostumada em pessoas de
sua camada. Houve uns arremedos parisienses de corbeille de noiva e outros
pequenos detalhes chics, que não a aborreceram, mas que não a encheram lá de
satisfação maior que as noivas comuns. Talvez nem mesmo essa ela tivesse. Não
foi para a igreja em virtude de uma determinação certa de sua vontade.
Continuava a não encontrar dentro de si motivo para aquele ato, mas, aparentemente,
nenhuma vontade estranha à sua influíra para isso. O marido é que estava
contente. Não seria muito com a noiva, mas com a volta que a sua vida ia tomar.
Ficando rico e sendo médico, cheio de talento nas notas e recompensas
escolares, via diante de si uma larga estrada de triunfos nas posições e na
indústria clínica. Não tinha fortuna alguma, mas julgava o seu banal título um
foral de nobreza, equivalente àqueles com que os autênticos fidalgos da Europa
brunem o nascimento das filhas dos salchicheiros yankees. Apesar de ser seu pai
um importante fazendeiro por aí, em algum lugar deste Brasil, o sogro lhe dera
tudo e tudo ele acei- tara sem pejo, com o desprezo de um duque, duque de
plenamentes e meda- lhas, a receber homenagens de um vilão que não roçou os bancos
de uma "academia". Julgava que a noiva o aceitara pelo seu
maravilhoso título, o pergaminho; é verdade que foi, não tanto pelo título, mas
pela sua simulação de inteligência, de amor à ciência, de desmedidos sonhos de
sábio. Tal ima gem que dele fizera, durara instantes em Olga; depois foi a
inércia da sociedade, a sua tirania e a timidez natural da moça em romper que a
levaram ao casamento. Tanto mais que ela, de si para si, pensava que se não
fosse este, seria outro a ele igual, e o
melhor era não adiar.
Era por isso
que ela não ia para a igreja, em virtude de uma determinação certa de sua
vontade, embora sem perceber o constrangimento de um comando fora dela.
Apesar da
pompa, esteve longe de ser uma noiva majestosa. Não obstante as origens
puramente européias, era pequena, muito mesmo, ao lado do noivo, alto, ereto,
com uma fisionomia irradiante de felicidade; e, desse modo, ela desaparecia
dentro do vestido, dos véus e daqueles atavios obsoletos com que se arreiam as
moças que se vão casar. De resto, a sua beleza não era a grande beleza — aquela
que nós exigimos das noivas ricas, segundo o modelo das estampas clássicas.
No seu rosto,
nada de grego, desse grego autêntico ou de pacotilha, ou também dessa majestade
de ópera lírica. Havia nos seus traços muita irregularidade, mas a sua
fisionomia era profunda e própria. Não só a luz dos seus grandes olhos negros,
que quase cobriam toda a cavidade orbitária, fazia fulgurar o seu rosto móbil,
como a sua pequena boca, de um desenho fino, exprimia bondade, malícia e o seu
ar geral era de reflexão e curiosidade. Ao contrário do costume, não saíram da
cidade e foram morar em casa do antigo empreiteiro.
Quaresma não
fora à festa, mandara o leitão e o peru da tradição e escrevera uma longa
carta. O sítio empolgara-o, o calor ia passar, vinha a época das chuvas, das
semeaduras, e não queria afastar-se de suas terras. A viagem seria breve, mas
mesmo assim, perdendo um dia ou dois, era como se começasse a desertar da
batalha.
O pomar
estava todo limpo e já estavam preparados os canteiros da horta. A visita de
Ricardo veio distraí-lo um pouco, sem desviá -lo contudo, dos seus afazeres
agrícolas.
Passou um mês
com o major, e foi um triunfo. A fama do seu nome precedia-o, de forma que todo
o município o disputava e festejava.
O seu
primeiro trabalho foi ir à vila. Ficava a quatro quilômetros adiante da casa de
Quaresma e a estrada de ferro tinha uma estação lá. Ricardo dispensou a estrada
e foi a pé, pela estrada de rodagem, se assim se pode chamar um trilho, cheio
de caldeirões, que subia e descia morros, cortava planícies e rios em toscas
pontes. A vila!... Tinha duas ruas principais: a antiga, determinada pelo velho
caminho de tropas, e a nova, cuja origem veio da ligação da velha com a estrada
de ferro. Elas se encontravam em T, sendo o braço vertical o caminho da
estação. As outras partiam delas, as casas juntavam-se urbanamente no começo,
depois iam espaçando, espaçando, até acabar em mato, em campo.
A antiga
chamava-se Marechal Deodoro, ex-Imperador; e a nova, Marechal Floriano,
ex-Imperatriz. De uma das extremidades da Rua Marechal Deodoro, partia a da
Matriz, que ia ter à igreja, ao alto de uma colina, feia e pobre no seu estilo
jesuítico. À esquerda da estação, num campo, a Praça da República, a que ia dar
uma rua mal esboçada por espaçadas casas, ficava a Câmara Municipal.
Era um grande
paralelepípedo de tijolo, cimalha, janela com sacadas de grade de ferro, puro
estilo mestre-de-obras. Compungia essa pobreza de gosto a quem se lembrasse dos
edifícios da mesma natureza das peque- nas comunas francesas e belgas da Idade
Média.
Ricardo
entrou num barbeiro da Rua Marechal Deodoro, Salão Rio de Janeiro, e fez a
barba. O fígaro deu-lhe informações sobre a vila e ele se deu a conhecer. Havia
certos circunstantes, um deles tomou-o a seu cargo e daí em pouco estava
relacionado. Quando voltou para a casa do major já tinha convite para o baile
do doutor Campos, presidente da Câmara, festa que teria lugar na quarta- feira próxima.
Chegara
sábado e fora passear à vila domingo.
Tinha havido
missa e o trovador assistiu a saída. A concorrência nunca é grande na roça, mas
Ricardo pôde ver algumas daquelas moças do interior, linfáticas e tristes,
ataviadinhas, cheias de laços, descendo silenciosas a colina em que se erguia a
igreja, espalhando-se pela rua e logo entrando para as casas, onde iriam passar
uma semana de reclusão e tédio. Foi na saída da missa que lhe apresentaram o
doutor Campos.
Era o médico
do lugar, morava, porém, fora, na sua fazenda, e viera de "aranha""
com a sua filha, Nair, assistir o ofício religioso.
O trovador e
o médico estiveram um instante conversando, enquanto a filha, muito magra, pálida, com uns longos
braços descarnados, olhava com um vexame fingido o solo poeirento da rua.
Quando eles partiram, ainda Ricardo considerou um pouco aquele rebento dos ares
livres do Brasil.
À festa do
doutor Campos, seguiram-se outras a que Ricardo deu a honra de sua presença e
alegria da sua voz. Quaresma não o acompanhava, mas gozava a sua vitória. Se
bem que o major tivesse abandonado o violão, ainda continuava a prezar aquele
instrumento essencialmente nacional. As conseqüências desastrosas do seu
requerimento em nada tinham abalado as suas convicções patrióticas. Continuavam
as suas idéias profundamente arraigadas, tão-somente ele as escondia, para não
sofrer com a incompreen- são e maldade dos homens.
Gozava,
portanto a fulminante vitória de Ricardo, que indicava bem naquela população a
existência de um resíduo forte da nossa nacionalidade a resistir às invasões das
modas e gostos estrangeiros.
Ricardo
recebia todas as honras, todos os favores, por parte de todos os partidos. O
doutor Campos, presidente da Câmara, era quem mais o cumulava de homenagens.
Naquela manhã até esperava um dos cavalos do edil, para dar um passeio ao
Carico; e, esperando, foi dizendo a Qua- resma, que ainda não tinha partido
para o eito:
—Major, foi
uma boa idéia vir para a roça. Vive-se bem e pode-se subir...
—Não tenho
nenhum desejo disso. Você sabe como me são estranhas todas essas coisas.
—Sei... É...
Não digo que se peça, mas, quando nos oferecem, não devemos rejeitar, não acha?
—Conforme,
meu caro Ricardo. Eu não podia aceitar encargo de comandar uma esquadra.
—Até aí não
vou. Olhe, major: eu gosto muito de violão, mesmo dedico a minha vida ao seu
levantamento moral e intelectual, entretanto, se amanhã o presidente dissesse:
"Seu Ricardo, você vai ser deputado", o senhor pensa que eu
não aceitava,
sabendo perfeitamente que não podia mais desferir os trenos do instrumento? Ora
se não! Não se deve perder vaza, major.
—Cada um tem
as suas teorias.
—Decerto.
Outra coisa, major: conhece o doutor Campos?
—De nome.
—Sabe que ele
é presidente da Câmara?
Quaresma
olhou um instante para Ricardo com uma ligeira desconfiança.
O menestrel
não notou o gesto do amigo e emendou:
—Mora daqui a
uma légua. Já lhe toquei em casa e hoje vou a cavalo passear com ele.
—Fazes bem.
—Ele quer
conhecê-lo. Posso trazê-lo aqui?
—Podes.
Um camarada
do doutor Campos, neste instante, entrava pela porteira trazendo o cavalo
prometido. Ricardo montou e Quaresma seguiu para a roça ao encontro dos seus
dois empregados. Eram agora dois, pois, além do Anastácio, que não era bem um
empregado, mas agregado, admitira o Felizardo. Era manhã de verão, mas as
chuvas continuadas dos dias anteriores tinham atenuado a temperatura.
Havia uma
grande profusão de luz e os ares estavam doces. Quaresma foi caminhando por
entre aquele rumor de vida, rumor que vinha do farfalhar do mato e do piar das
aves e pássaros. Esvoaçavam tiês vermelhos, bandos de coleiros; anuns voavam e
punham pequenas manchas negras no verdor das árvores. Até as flores, essas
tristes flores dos nossos campos, no momento, parece que tinham saído à luz,
não somente para a fecunda- ção vegetal mas também para a beleza.
Quaresma e
seus empregados trabalhavam agora longe, faziam um roçado, e fora para auxiliar
esse serviço que contratou o Felizardo. Era este um camarada magro, alto, de
longos braços, longas pernas, como um símio. Tinha a face cor de cobre, a barba
rala e, sob uma aparência de fraqueza muscular, não havia ninguém mais valente
que ele a roçar. Com isto era um tagarela incansável. De manhã, quando chegava,
aí pelas seis horas, já sabia todas as intriguinhas do município.
O roçado
tinha por fim ganhar terreno ao mato, no lado do norte do sítio, que o capão
invadira. Obtido ele, o major plantaria obra de meio alqueire ou pouco mais de
milho, e nos intervalos batatas inglesas, cultura nova em que depositava
grandes esperanças. Já se fizera a derrubada e o aceiro estava aberto; Quaresma,
porém, não lhe quisera atear fogo. Evitava assim calcinar o terreno, eliminando
dele os princípios voláteis ao fogo. Agora o seu trabalho era separar os paus
mais grossos, para aproveitar como lenha; os galhos miúdos e folhas, ele
removia para longe, onde então queimaria em coivaras pequenas.
Isso levava
tempo, custava tombos ao seu corpo mal habituado aos cipós e tocos; mas
prometia dar um rendimento maior ao plantio.
Durante o
trabalho, Felizardo ia contando as suas novidades para se distrair. Há quem
cante, ele falava e pouco se incomodava que lhe dessem ou não atenção.
—Essa gente
anda acesa por aí, disse Felizardo logo que o major chegou.
Certas vezes
Quaresma fazia-lhe perguntas, atendia-lhe a conversa, raras não. Anastácio era
silencioso e grave. Nada dizia: trabalhava e, de quando em quando, parava,
considerava, numa postura hierática de uma pintura mural tebana. O major
perguntou ao Felizardo:
—Que é que
há, Felizardo?
O camarada
descansou o grosso tronco de camará no monte, limpou o suor com os dedos e
respondeu com a sua fala branda e chiante:
—Negócio de
política... "Seu" Tenente Antonino quase briga ontem com "Seu
dotô Campo".
—Onde?
—Na estação.
—Por quê?
—Negócio de
partido. Pelo que ouvi: "Seu" Tenente Antonino é pelo "governadô"
e "Seu dotô Campo" é pelo "senadô"... Um
"sarcero", patrão!
—E você, por
quem é?
Felizardo não
respondeu logo. Apanhou a foice e acabou de cortar um galho que enleava o
tronco a remover. Anastácio estava de pé e considerou um
instante a
figura do companheiro palrador. Respondeu afinal:
—Eu! Sei
lá... Urubu pelado não se mete no meio dos coroados. Isso é bom pro
"sinhô".
—Eu sou como
você, Felizardo.
—Quem me
dera, meu "sinhô". Inda "trasantonte" ouvi "dizê"
que o patrão é amigo do "marechá".
Afastou-se
com o pau; e, quando voltou Quaresma indagou assustado:
—Quem disse?
—Não sei, não
"sinhô". Ouvi a modo de "dizê" lá na venda do espanhol, tanto
assim que "dotô Campo tá" inchado que nem sapo com a sua amizade.
—Mas é falso,
Felizardo. Eu não sou amigo coisa alguma... Conheci-o...
E nunca disse
isso aqui a ninguém... Qual amigo!
—"Quá!"
fez Felizardo com um riso largo e duro. O patrão "tá" é varrendo a
testada.
Apesar de
todo o esforço de Quaresma, não houve meio de tirar daquela cabeça infantil a
idéia de que ele fosse amigo do Marechal Floriano. "Conheci-o
no meu
emprego" — dizia o major; Felizardo sorria grosso e por uma vez dizia:
" 'Quá!'
o patrão é fino que nem cobra".
Tal teimosia
não deixou de impressionar Quaresma. Que queria dizer aquilo? Demais, as
palavras de Ricardo, as suas insinuações pela manhã... Ele tinha o trovador em
conta de homem leal e amigo fiel, incapaz de lhe estar armando laços para
passar maus momentos; os entusiasmos dele, entretanto, junto à vontade de ser
bom amigo, podiam iludi-lo e fazê-lo instrumento de algum perverso. Quaresma
ficou um instante pensativo, deixando de remover os galhos cortados; em breve,
porém, esqueceu-se e a preocupação dissipou-se. À tarde, quando foi jantar, já
nem mais se lembrava da conversa e a refeição correu natural, nem muito alegre,
nem muito triste, mas sem sombra alguma de cogitações por parte dele. Dona
Adelaide, sempre com a sua matinée creme e saia preta, sentava-se à cabeceira;
Quaresma à direita e à esquerda, Ricardo. Era a velha quem sempre puxava a
língua do trovador.
—Gostou muito
do passeio, Senhor Ricardo?
Não havia
meio dela dizer "seu". A sua educação de "senhora" de
outros tempos, não lhe permitia usar esse plebeísmo generalizado. Vira os pais,
gente ainda fortemente portugueses, dizerem "senhor" e continuava a
dizer, sem
fingimento,
naturalmente.
—Muito. Que
lugar! Uma catadupa... Que maravilha! Aqui, na roça, é que se tem inspiração.
E ele tomava
aquela atitude de arroubo: uma fisionomia de máscara de trágico grego e uma voz
cavernosa que rolava como uma trovoada abafada.
—Tens
composto muito, Ricardo? indagou Quaresma.
—Hoje acabei
uma modinha.
—Como se
chama? indagou Dona Adelaide.
—"Os
Lábios da Carola".
—Bonito! Já
fez a música?
Era ainda a
irmã de Quaresma a perguntar, Ricardo levava agora o garfo à boca; deixou-o
suspenso entre os lábios e o prato e respondeu com toda a convicção:
—A música,
minha senhora, é a primeira coisa que faço.
—Hás de no-la
cantar logo.
—Pois não,
major.
Após o
jantar, Quaresma e Coração dos Outros saíram a passear no sítio.
Fora essa a
única concessão que ao amigo fizera Policarpo, no tocante ao regime de seus
trabalhos agrícolas. Levava sempre o pedaço de pão, que esfarelava em migalhas
no galinheiro, para ver a atroz disputa entre as aves. Acabando, ficava um
instante a considerar aquelas vidas, criadas, mantidas e protegidas para sustento
da sua. Sorria para os frangos, agarrava os pintinhos, ainda implumes, muito
vivos e ávidos, e demorava- se a apreciar a estupidez do peru, imponente, fazendo
roda, a dar estouros presunçosos. Em seguida ia ao chiqueiro; assistia Anastácio
dar a ração, despejando-a nos cochos. O enorme cevado de grandes orelhas
pendentes levantava-se dificilmente, e solenemente vinha mergulhar a cabeça na
caldeira; noutro compartimento os bacorinhos grunhiam e grunhindo vinham com a
mãe chafurdar-se na comida.
A avidez
daqueles animais era deveras repugnante, mas os seus olhos tinham uma longa
doçura bem humana que os fazia simpáticos.
Ricardo
apreciava pouco aquelas formas inferiores de vida, mas Quaresma ficava minutos
esquecido a contemplá-las numa demorada interroga- cão muda. Sentavam-se a um
tronco de árvore, e Quaresma olhava o céu alto, enquanto Coração dos Outros
contava qualquer história.
A tarde ia
adiantada. A terra já começava a amolecer, pelo fim daquele beijo ardente e
demorado do sol. Os bambus suspiravam; as cigarras ciciavam; as rolas gemiam
amorosamente. Ouvindo passos, o major voltou-se. Padrinho!
Olga!
Mal se viram,
abraçaram-se, e quando se separaram ficaram ainda a olhar um para o outro, com as mãos presas. E vieram
aquelas estúpidas e tocantes frases dos encontros satisfeitos: Quando chegaste?
Não esperava... É longe...
Ricardo
olhava embevecido com a ternura dos dois; Anastácio tirara o chapéu e olhava a
"sinhazinha", com o seu terno e vazio olhar de africano.
Passada a
emoção, a moça se debruçou sobre o chiqueiro, depois passou a vista pelos
quatro pontos e Quaresma perguntou:
—Quedê teu
marido?
—O doutor?...
Está lá dentro.
O marido
tinha resistido muito em acompanhá-la até ali. Não lhe parecia bem aquela
intimidade com um sujeito sem título, sem posição brilhante e sem fortuna. Ele
não compreendia como o seu sogro, apesar de tudo um homem rico,
de outra
esfera, tinha podido manter e estreitar relações com um pequeno empregado de
uma repartição secundária, e até fazê- lo seu compadre! Que o contrário se
desse, era justo; mas como estava a coisa parecia que abalava toda a hierarquia
da sociedade nacional. Mas, em definitivo, quando Dona Adelaide o recebeu cheia
de um imenso res- peito, de uma particular consideração, ele ficou desarmado e
todas as suas pequenas vaidades foram tocadas e satisfeitas.
Dona
Adelaide, mulher velha, do tempo em que o Império armava essa nobreza escolar,
possuía em si uma particular reverência, um culto pelo doutorado; e não lhe
foi, pois, difícil demonstrá-lo quando se viu diante do doutor Armando Borges,
de cujas notas e prêmios ela tinha exata notícia.
Quaresma
mesmo recebeu-o com as maiores marcas de admiração e o doutor, gozando aquele
seu sobre-humano prestígio, ia conversando pausadamente, sentenciosamente,
dogmaticamente; e, à proporção que conversava, talvez para que o efeito não se
dissipasse, virava com a mão direita o grande anelão "simbólico", o
talismã, que cobria a falange do dedo indicador esquerdo, ao jeito de marquise.
Conversaram
muito. O jovem par contou a agitação política do Rio, a revolta da fortaleza de
Santa Cruz; Dona Adelaide a epopéia da mudança, móveis quebrados, objetos
partidos. Pela meia-noite todos foram dormir com uma alegria particular,
enquanto os sapos levantavam no riacho defronte o seu grave hino à
transcendente beleza do céu negro, profundo e estrelado.
Acordaram
cedo. Quaresma não foi logo para o trabalho. Tomou café e esteve conversando com
o doutor. O correio chegou e trouxe-lhe um jornal.
Rasgou a
cinta e leu o título. Era o O Município, órgão local, hebdomadário, filiado ao
partido situacionista. O doutor se havia afasta- do; ele aproveitou a ocasião
para ler o jornaleco. Pôs o pincenez, recostou- se na cadeira de balanço
e desdobrou o
jornal. Estava na varanda; o terral soprava nos bambus que se inclinavam
molemente. Começou a leitura. O artigo de fundo intitulava-se "Intrusos"
e consistia em uma tremenda desompostura aos não nascidos no lugar que moravam
nele — "verdadeiros estrangeiros que se vinham intrometer na vida
particular e política da famí- lia curuzuense, perturbando-lhe a paz e a tranqüilidade".
Que diabo
queria dizer aquilo? Ia deitar fora o jornaleco, quando lhe pareceu ler seu
nome entre versos. Procurou o lugar e deu com estas quadrinhas:
POLÍTICA DE
CURUZU
Quaresma, meu
bem, Quaresma!
Quaresma do
coração!
Deixa as
batatas em paz,
Deixa em paz
o feijão.
Jeito não
tens para isso
Quaresma, meu
cocumbi!
Volta à mania
antiga
De redigir em
tupi.
OLHO VIVO.
O major ficou
estuporado. Que vinha ser aquilo? Por quê? Quem era? Não
atinava, não
achava o motivo e o fundo de semelhante ataque. A irmã aproximara-se
acompanhada da afilhada. Quaresma estendeu-lhe o jornal com o braço tremendo:
"Lê isto, Adelaide".
A velha
senhora viu logo a perturbação do irmão e leu com pressa e solicitude. Ela
tinha aquela ampla maternidade das solteironas; pois parece que a falta de
filhos reforça e alarga o interesse da mulher pelas dores dos outros. Enquanto
ela lia, Quaresma dizia: mas que fiz eu? que tenho com política? E coçava os
cabelos já bastante encanecidos.
Dona Adelaide
disse então docemente:
—Sossega,
Policarpo. Por isso só?... Ora!
A afilhada
leu também os versos e perguntou ao padrinho:
—O senhor se
meteu algum dia nessa política daqui?
—Eu nunca!...
Vou até declarar que...
—Está doido!
exclamaram as duas mulheres a um tempo, ajuntando a irmã:
—Isto seria
uma covardia... Uma satisfação... Nunca!
O doutor e
Ricardo chegavam de fora e encontraram os três nessas considerações. Notaram a
alteração de Quaresma. Estava pálido, tinha os olhos úmidos e coçava
sucessivamente a cabeça.
—Que há,
major? indagou o troveiro.
As senhoras
explicaram o caso e deram-lhe as quadrinhas a ler. Ricardo depois contou o que
ouvira na vila. Acreditavam todos que o major viera para ali no intuito de
fazer política, tanto assim que dava esmolas, deixava o povo fazer lenha no seu
mato, distribuía remédios homeopáticos... O Antonino afirmara que havia de
desmascarar semelhante tartufo.
—E não
desmentiste? perguntou Quaresma.
Ricardo
afirmou que sim, mas o escrivão não quisera acreditar nele e reiterara os seus
propósitos de ataque.
O major ficou
profundamente impressionado com tudo; mas, de acordo com seu gênio, incubou nos
primeiros tempos a impressão, e, enquanto estiveram com ele os seus amigos, não
demonstrou preocupação.
Olga e o
marido passaram no "Sossego" cerca de quinze dias. O marido, ao fim
de uma semana, já parecia cansado. Os passeios não eram muitos. Em geral, os
nossos lugarejos são de uma grande pobreza do pitoresco; há um ou dois lugares
célebres, assim como na Europa cada aldeia tem a sua curiosidade histórica.
Em Curuzu, o
passeio afamado era o Carico, uma cachoeira distante duas léguas da casa de
Quaresma, para as bandas das montanhas que lhe barravam o horizonte fronteiro.
O doutor Campos já travara relações com o major e, graças a ele, houve cavalos
e silhão que também permitissem à moça ir à cachoeira.
Foram de
manhã, o presidente da Câmara, o doutor, sua mulher e a filha de Campos. O
lugar não era feio. Uma pequena cachoeira, de uns quinze metros de altura,
despenhava-se em três partes, pelo flanco da montanha abaixo. A água estremecia
na queda, como que se enrodilhava e vinha pulverizar-se numa grande bacia de
pedra, mugindo e roncando. Havia muita verdura e como que toda a cascata vivia
sob uma abóbada de árvores. O sol coava-se dificilmente e vinha faiscar sobre a
água ou sobre as pedras em pequenas manchas, redondas ou oblongas. Os
periquitos, de um verde mais claro, pousados nos galhos eram como as
incrustações daquele salão fantástico. Olga pôde ver tudo isso bem à vontade,
andando de um para outro lado, porque a filha do presidente era de um silêncio
de túmulo e o pai desta tomava com o seu marido informações sobre novidades
medicinais: Como se cura hoje erisipela? Ainda se usa muito o tártaro emético?
O que mais a
impressionou no passeio foi a miséria geral, a falta de cultivo, a pobreza das
casas, o ar triste, abatido da gente pobre. Educada na cidade, ela tinha dos
roceiros idéia de que eram felizes, saudáveis e alegres.Havendo tanto barro,
tanta água, por que as casas não eram de tijolos e não tinham telhas? Era
sempre aquele sapê sinistro e aquele "sopapo" que deixava ver a trama
de varas, como o esqueleto de um doente. Por que, ao redor dessas casas, não
havia culturas, uma horta, um pomar? Não seria tão fácil, trabalho de horas? E
não havia gado, nem grande nem pequeno. Era raro uma cabra, um carneiro. Por
quê? Mesmo nas fazendas, o espetáculo não era mais animador. Todas soturnas,
baixas, quase sem o pomar olente e a horta suculenta. A não ser o café e um
milharal, aqui e ali, ela não pôde ver outra lavoura, outra indústria agrícola.
Não podia ser preguiça só ou indolência. Para o seu gasto, para uso próprio, o
homem tem sempre energia para trabalhar. As populações mais acusadas de
preguiça, trabalham relativamente. Na África, na Índia, na Cochinchina, em toda
parte, os casais, as famílias, as tribos, plantam um pouco, algumas coisas para
eles. Seria a terra? Que seria? E todas essas questões desafia- vam a sua
curiosidade, o seu desejo de saber, e também a sua piedade e simpatia por
aqueles párias, maltrapilhos, mal alojados, talvez com fome, sorumbáticos!...
Pensou em ser
homem. Se o fosse passaria ali e em outras localidades meses e anos, indagaria,
observaria e com certeza havia de encontrar o motivo e o remédio. Aquilo era
uma situação do camponês da Idade Média e começo da nossa: era o famoso animal
de La Bruyère
que tinha face humana e voz articulada...
Como no dia
seguinte fosse passear ao roçado do padrinho, aproveitou a ocasião para
interrogar a respeito o tagarela Felizardo. A faina do roçado ia quase no fim;
o grande trato da terra estava quase inteira- mente limpo e subia um pouco em
ladeira a colina que formava a lombada do sítio.
Olga
encontrou o camarada cá embaixo, cortando a machado as madeiras mais grossas;
Anastácio estava no alto, na orla do mato, juntando, a ancinho, as folhas
caídas. Ela lhe falou.
—Bons dias,
"sá dona".
—Então
trabalha-se muito, Felizardo?
—O que se
pode.
—Estive ontem
no Carico, bonito lugar... Onde é que você mora, Felizardo?
—É doutra
banda, na estrada da vila.
—É grande o
sítio de você?
—Tem alguma
terra, sim senhora, "sá dona".
—Você por que
não planta para você?
—"Quá sá
dona!" O que é que a gente come?
—O que
plantar ou aquilo que a plantação der em dinheiro.
—"Sá
dona tá" pensando uma coisa e a coisa é outra. Enquanto planta cresce, e
então? "Quá, sá dona", não é assim.
Deu uma
machadada; o tronco escapou: colocou-o melhor no pica- dor e, antes de desferir
o machado, ainda disse:
—Terra não é
nossa... E "frumiga"?... Nós não "tem" ferramenta... isso é
bom para italiano ou "alamão", que governo dá tudo... Governo não
gosta de nós...
Desferiu o
machado, firme, seguro; e o rugoso tronco se abriu em duas partes, quase
iguais, de um claro amarelado, onde o cerne escuro começava a aparecer.
Ela voltou
querendo afastar do espírito aquele desacordo que o camarada indicara, mas não
pôde. Era certo. Pela primeira vez notava que o self-help do Governo era só
para os nacionais; para os outros todos os auxílios e facilidades, não contando
com a sua anterior educação e apoio dos patrícios. E a terra não era dele? Mas
de quem era então, tanta terra abandonada que se encontrava por aí? Ela vira
até fazendas fechadas, com as casas em ruínas... Por que esse acaparamento, esses
latifúndios inúteis e improdutivos? A fraqueza de atenção não lhe permitiu
pensar mais no problema. Foi vindo para casa, tanto mais que era hora de jantar
e a fome lhe chegava. Encontrou o marido e o padrinho a conversar. Aquele
perdera um pouco da sua morgue, havia mesmo ocasião em que era até natural.
Quando ela chegou, o padrinho exclamava:
—Adubos! É lá
possível que um brasileiro tenha tal idéia! Pois se temos as terras mais férteis do mundo!
—Mas se
esgotam, major, observou o doutor.Dona Adelaide, calada, seguia com atenção o
crochet que estava fazendo;
Ricardo
ouvia, com os olhos arregalados; e Olga intrometeu-se na conversa:
—Que zanga é essa,
padrinho?
—É teu marido
que quer convencer-me que as nossas terras precisam de adubos... Isto é até uma
injúria!
—Pois fique
certo, major, se eu fosse o senhor, aduziu o doutor, ensaiava uns fosfatos...
—Decerto,
major, obtemperou Ricardo. Eu, quando comecei a tocar violão, não queria
aprender música... Qual música! Qual nada! A inspira- cão basta!... Hoje vejo
que é preciso... É assim, resumia ele. Todos se entreolharam, exceto Quaresma
que logo disse com toda a força d'alma:
—Senhor
doutor, o Brasil é o país mais fértil do mundo, é o mais bem dotado e as suas
terras não precisam "empréstimos" para dar sustento ao homem.
Fique certo!
—Há mais
férteis, avançou o doutor.
—Onde?
—Na Europa.
—Na Europa!
—Sim, na
Europa. As terras negras da Rússia, por exemplo.
O major
considerou o rapaz durante algum tempo e exclamou triunfante:
—O senhor não
é patriota! Esses moços...
O jantar
correu mais calmo. Ricardo fez ainda algumas consideracoes sobre o violão. À
noite, o menestrel cantou a sua última produção: "Os Lábios da
Carola". Suspeitava-se que Carola fosse uma criada do doutor Campos; mas ninguém
aludiu a isso, Ouviram-no com interesse e ele foi muito aclamado.
Olga tocou no
velho piano de Dona Adelaide; e, antes das onze horas, estavam todos
recolhidos.
Quaresma
chegou a seu quarto, despiu-se, enfiou a camisa de dormir e, deitado, pôs-se a
ler um velho elogio das riquezas e opulências do Brasil.
A casa estava
em silêncio; do lado de fora, não havia a mínima bulha. Os sapos tinham
suspendido um instante a sua orquestra noturna. Quaresma lia; e lembrava-se que
Darwin escutava com prazer esse concerto dos charcos. Tudo na nossa terra é
extraordinário! pensou. Da despensa, que ficava junto a seu aposento, vinha um
ruído estranho. Apurou o ouvido e prestou atenção. Os sapos recomeçaram o seu
hino. Havia vozes baixas, outras mais altas e estridentes; uma se seguia à
outra, num dado instante todas se juntaram num
unisono sustentado. Suspenderam um instante a música. O major apurou o ouvido;
o ruído continuava, Que era? Eram uns estalos tênues; parecia que quebravam
gravetos, que deixavam outros cair no chão... Os sapos recomeçaram; o regente
deu uma martelada e logo vieram os baixos e os tenores. Demoraram muito;
Quaresma pôde ler umas cinco páginas. Os batráquios pararam; a bulha
continuava. O major levantou-se, agarrou o castiçal e foi à dependência da casa
donde partia o ruído, assim mesmo como estava, em
camisa de
dormir.
Abriu a
porta; nada viu. la procurar nos cantos, quando sentiu uma ferroada no peito do
pé. Quase gritou. Abaixou a vela para ver melhor e deu com uma enorme saúva
agarrada com toda a fúria à sua pele magra. Descobriu a origem da bulha. Eram
formigas que, por um buraco no assoalho, lhe tinham invadido a despensa e
carregavam as suas reservas de milho e feijão, cujos recipientes tinham sido
deixados abertos por inadvertência. O chão estava negro, e carregadas com os
grãos, elas, em pelotões cerrados, mergulhavam no solo em busca da sua cidade
subterrânea.
Quis
afugentá-las. Matou uma, duas, dez, vinte, cem; mas eram milhares e cada vez
mais o exército aumentava. Veio uma, mordeu-o, depois outra, e o foram mordendo
pelas pernas, pelos pés, subindo pelo seu corpo. Não pôde agüentar, gritou,
sapateou e deixou a vela cair.
Estava no
escuro. Debatia-se para encontrar a porta; achou e correu daquele ínfimo
inimigo que, talvez, nem mesmo à luz radiante do sol o visse distintamente...
IV
"PECO ENERGIA, SIGO JÁ"
Dona
Adelaide, a irmã de Quaresma, tinha uns quatro anos mais que ele. Era uma bela
velha, com um corpo médio, uma tez que começava a adquirir aquela pátina da
grande velhice, uma espessa cabeleira já inteiramente amarelada e um olhar
tranqüilo, calmo e doce. Fria, sem imaginação, de inteligência lúcida e
positiva, em tudo formava um grande contraste com o irmão; contudo, nunca houve
entre eles uma separação profunda nem tampouco uma penetração perfeita. Ela não
entendia nem procurava entender a substância
do irmão, e sobre ele em nada reagia aquele ser metódico, ordenado e organizado,
de idéias simples, médias e claras.
Ela já
atingira aos cinqüenta e ele para lá marchava; mas ambos tinham ar saudável,
poucos achaques, e prometiam ainda muita vida. A existência calma, doce e
regrada que tinham levado até ali, concorrera muito para a boa saúde de ambos.
Quaresma incubou as suas manias até depois dos quarenta e ela nunca tivera
qualquer.
Para Dona
Adelaide, a vida era coisa simples, era viver, isto é, ter uma casa, jantar e
almoço, vestuário, tudo modesto, médio. Não tinha ambições, paixões, desejos.
Moça, não sonhara príncipes, belezas, triunfos, nem mesmo um marido. Se não
casou foi porque não sentiu necessidade disso; o sexo não lhe pesava e de alma
e corpo ela sempre se sentiu completa.
O seu aspecto
tranqüilo e o sossego dos seus olhos verdes, de um brilho lunar de esmeralda,
emolduravam e realçavam naquele interior familiar a agitação e a inquietude, o
alanceado do irmão.
Não se vá
supor que Quaresma andasse transtornado como um doido.
Felizmente
não. Na aparência até poder-se-ia imaginar que nada conturbava sua alma; porém,
se mais vagarosamente se examinassem os seus hábitos, gestos e atitudes, logo
se havia de ver que o sossego e a placidez não moravam no seu pensamento.
Ocasiões
havia em que ficava a olhar, durante minutos seguidos, ao longe o horizonte,
perdido em cisma; outras, isso quando no trabalho da roça, em que suspendia
todos os movimentos, fincava o olhar rio chão, demorava-se assim um instante,
coçando uma mão com a outra, dava depois um muxoxo, continuava o trabalho; e
mesmo momentos surgiam em que não reprimia uma exclamação ou uma frase.
Anastácio em
tais instantes, olhava por baixo dos olhos o patrão. O antigo escravo não os
sabia mais fixar, e nada dizia; Felizardo continuava a contar a fuga da filha
do Custódio com o Manduca da venda; e o trabalho marchava. Inútil dizer que a
irmã não fazia reparo nisso, mesmo porque, a não ser no jantar e nas primeiras
horas do dia, eles viviam separados. Quaresma na roça, nas plantações, e ela
superintendendo o serviço doméstico.
As outras
pessoas de suas relações não podiam também notar as preocupações absorventes do
major, pelo simples motivo de que estavam longe.
Ricardo havia
seis meses que não lhe visitava e da afilhada e do compadre as últimas cartas
que recebera datavam de uma semana, não vendo aquela há tanto tempo, quanto ao
trovador, e aquele desde quase um ano, isto é, o tempo em que estava no
"Sossego".
Durante esse
tempo, Quaresma não cessou de se interessar pelo aproveitamento de suas terras.
Os seus hábitos não foram mudados e a sua atividade continuava sempre a mesma.
É verdade que deixara de parte os instrumentos de meteorologia.
O higrômetro,
o barômetro e os outros companheiros não eram mais consultados e as observações
registradas num caderno. Dera-se mal com eles.
Fosse inexperiência
e ignorância das bases teóricas deles, fosse porque fosse, o certo é que toda a
previsão que Quaresma fazia baseado em combinações dos seus dados, saíam
erradas. Se esperava tempo seguro, lá vinha chuva; se esperava chuva, lá vinha
seca.
Assim perdeu
muita semente e Felizardo mesmo sorria dos seus aparelhos, com aquele grosso e
cavernoso sorriso de troglodita:
—"Quá"
patrão! Isso de chuva vem quando Deus "qué".
O barômetro
aneróide continuava a um canto a dançar o seu ponteiro sem ser percebido; o termômetro
de máxima e mínima, legítimo Casella, jazia dependurado na varanda sem receber
um olhar amigo; a caçamba do pluviômetro estava no galinheiro e servia de
bebedouro às aves; só o anemômetro continuava teimosamente a rodar, a rodar, já
sem fio, no alto do mastro, como se protestasse contra aquele desprezo pela
ciência que Quaresma representava.
Quaresma
vivia assim, sentindo que a campanha que lhe tinham movido, embora tendo
deixado de ser pública, lavrava ocultamente. Havia no seu espírito e no seu
caráter uma vontade de acabá-la de vez, mas como? Se não o acusavam, se não
articulavam nada contra ele diretamente? Era um combate com sombras, com
aparências, que seria ridículo aceitar.
De resto, a
situação geral que o cercava, aquela miséria da populacão campestre que nunca
suspeitara, aquele abandono de terras à improdutividade, encaminhavam sua alma
de patriota meditativo a preocupações angustiosas.
Via o major
com tristeza não existir naquela gente humilde sentimento de solidariedade, de
apoio mútuo. Não se associavam para coisa alguma e viviam separados, isolados,
em famílias geralmente irregulares, sem sentir a necessidade de união para o
trabalho da terra. Entretanto, tinham bem perto o exemplo dos portugueses que,
unidos aos seis e mais, conseguiam em sociedade cultivar a arado roças de certa
importância, lucrar e viver. Mesmo o velho costume do "moitirão" já
se havia apagado.
Como remediar
isso?
Quaresma
desesperava...
A tal
afirmação de falta de braços pareceu-lhe uma afirmação de má-fé ou estúpida, e
estúpido ou de má-fé era o Governo que os andava importando aos milhares, sem
se preocupar com os que já existiam. Era como se no campo em que pastavam mal meia dúzia de cabeças de
gado, fossem introduzidas mais três, para aumentar o estrume!...
Pelo seu
caso, ele via bem as dificuldades, os óbices de toda sorte que havia para fazer
a terra produtiva e remunerada. Um fato veio mostrar-lhe com eloqüência um dos
aspectos da questão. Vencendo a erva-de- passarinho, os maus-tratos e o
abandono de tantos anos, os abacateiros de suas terras conseguiram frutificar,
fracamente é verdade, mas de forma superior às necessidades de sua casa.
A sua alegria
foi grande. Pela primeira vez, ia passar-lhe pelas mãos dinheiro que lhe dava a
terra, sempre mãe e sempre virgem. Tratou de vender, mas como? a quem? No lugar
havia um ou outro que os queria comprar por preços ínfimos. Com decisão foi ao
Rio procurar comprador. Andou de porta em porta. Não queriam, eram muitos. Ensinaram-lhe
que procurasse um tal Senhor Azevedo no Mercado, o rei das frutas. Lá foi.
—Abacates!
Ora! Tenho muitos... Estão muito baratos!
—Entretanto,
disse Quaresma, ainda hoje indaguei em uma confeitaria e pediram-me pela dúzia
cinco mil-réis.
—Em porção, o
senhor sabe que... É isso... Enfim, se quer mande-os...
Depois,
tilintou a pesada corrente de ouro, pôs uma das mãos na cava do colete e quase
de costas para o major:
—É preciso
vê-los... O tamanho influi...
Quaresma os
mandou e, quando lhe veio o dinheiro, teve a satisfacão orgulhosa de quem acaba
de ganhar uma grande batalha imortal. Acariciou uma por uma aquelas notas
encardidas, leu-lhes bem o número e a estampa, arrumou-as todas uma ao lado da
outra sobre uma mesa e muito tempo levou sem ânimo de trocá-las.
Para avaliar
o lucro, descontou o frete, de estrada de ferro e carroça, o custo dos caixões,
o salário dos auxiliares e, após esse cálculo que não era laborioso, teve a
evidência de que ganhara mil e quinhentos réis, nem mais nem menos. O Senhor
Azevedo tinha-lhe pago pelo cento a quantia com que se compra uma dúzia. Assim
mesmo o seu orgulho não diminuiu e ele viu naquele ridículo lucro objeto para
maior contentamento do que se recebesse um avultado ordenado.
Foi,
portanto, com redobrada atividade que se pôs ao trabalho. Para o ano, o lucro seria
maior. Tratava-se agora de limpar as fruteiras. Anastácio e Felizardo
continuavam ocupados nas grandes plantações; contratou um outro empregado para
ajudá-lo no tratamento das velhas árvores frutí- feras.
Foi, pois,
com o Mané Candeeiro que ele se pôs a serrar os galhos das árvores, os galhos
mortos e aqueles em que a erva daninha segurava as suas raízes. Era árduo e
difícil o trabalho. Tinham às vezes que subir às grimpas para a extirpação do
galho atingido; os espinhos rasgavam as roupas e feriam as carnes; e em muitas
ocasiões estiveram em risco de vir ao chão serrote e Quaresma ou o camarada.
Mané
Candeeiro falava pouco, a não ser que se tratasse de coisas de caça; mas
cantava que nem passarinho. Estava a serrar, estava a cantar trovas roceiras, ingênuas,
onde com surpresa o major não via entrar a fauna, a flora locais, os costumes
das profissões roceiras. Eram vaporosamente sensuais e muito ternas, melosas
até; por acaso lá vinha uma em que um pássaro local entrava; então o major
escutava:
Eu vou dar a
despedida
Como deu o
bacurau,
Uma perna no
caminho
Outra no
galho de pau.
Este bacurau
que entrava aí satisfazia particularmente às aspirações de Quaresma. A
observação popular já começava a interessar-se pelo espetáculo ambiente, já se
emocionava com ele e a nossa raça deitava, portanto, raízes na grande terra que
habitava. Ele a copiou e mandou ao velho poeta de São Cristóvão. Felizardo
dizia que Mané Candeeiro era um mentiroso, pois todas aquelas caçadas de
caitetus, jacus, onças eram patranhas; mas, respeitava o seu talento poético,
principalmente no desafio: o moleque é bom!
Ele era claro
e tinha umas feições regulares, cesarianas, duras e for- tes, um tanto
amolecidas pelo sangue africano.
Quaresma
procurou descobrir nele aquela odiosa catadura que Dar- win achou nos mestiços;
mas, sinceramente, não a encontrou.
Com auxílio
de Mané Candeeiro foi que Quaresma conseguiu acabar de limpar as fruteiras
daquele velho sítio abandonado há quase dez anos. Quando o serviço ficou
pronto, ele viu com tristeza aquelas velhas árvores amputadas, mutiladas, com
folhas aqui e sem folhas ali... Pareciam sofrer e ele se lembrou das mãos que
as tinham plantado há vinte ou trinta anos, escravos, talvez, banzeiros e
desesperançados!...
Mas não
tardou que os botões rebentassem e tudo reverdecesse, e o renascimento das
árvores como que trouxe o contentamento das aves e do passaredo solto. De
manhã, esvoaçavam os tiês vermelhos, com o seu pio pobre, espécie de ave tão
inútil e tão bela de plumas que parece ter nascido para os chapéus das damas;
as rolas pardas e caboclas em bando, mariscando, no chão capinado; pelo correr
do dia, eram os sanhaçus a cantar nos galhos altos, os papa-capins, as nuvens
de coleiros; e de tarde como que todos eles se reuniam, piando, cantando, chilreando,
pelas altas mangueiras, pelos cajueiros, pelos abacateiros, entoando louvores
ao trabalho tenaz e fecundo do velho Major Quaresma.
Não durou
muito essa alegria. Um inimigo apareceu inopinadamente, com a rapidez
ousadíssima de um general consumado. Até ali ele se mostrará tímido, parecia
que somente mandava esclarecedores.
Desde aquele
ataque às provisões de Quaresma, logo afugentadas, não mais as formigas
reapareceram; mas, naquela manhã, quando contemplou o seu milharal, foi como se
lhe tirassem a alma, e ficou sem ação e as lágrimas lhe vieram aos olhos.
O milho que
já tinha repontado, muito verde, pequenino, com uma timidez de criança,
crescera cerca de meio palmo acima da terra; o major até mandara buscar o
sulfato de cobre para a solução em que ia lavar a batata inglesa a plantar nos
intervalos dos pés.
Toda a manhã,
ele ia lá e já via o milharal crescido com o seu pendão branco e as espigas de
coma cor de vinho, oscilando ao vento; naquela, ele não viu nada mais, Até os
tenros colmos tinham sido cortados e levados para longe! "A modo que é
obra de gente" disse Felizardo; entretanto, tinham sido as saúvas, os
terríveis himenópteros, piratas ínfimos que lhe caíam em cima do trabalho com
uma rapacidade turca... Era preciso combatê-los. Quaresma posse logo em campo,
descobriu as aberturas principais do formigueiro e em cada uma queimou o
formicida mortal. Passaram- se dias; os inimigos pareciam derrotados; mas,
certa noite, indo ao pomar para melhor apreciar a noite estrelada, Quaresma
ouviu uma bulha esquisita, como se alguém esmagasse as folhas mortas das
árvores... Um estalido... E era perto... Acendeu um fósforo e o que viu, meu Deus! Quase todas as
laranjeiras estavam negras de imensas saúvas. Havia delas às centenas, pelos
troncos e pelos galhos acima e agitavam-se, moviam-se, andavam como em ruas
transitadas e vigiadas a população de uma grande cidade: umas subiam, outras
desciam; nada de atropelos, de confusão, de desordem. O trabalho como que era
regulado a toques de corneta. Lá em cima umas cortavam as folhas pelo pecíolo;
cá embaixo, outras serravam-nas em pedaços e afinal eram carregadas por
terceiras, levantando-as acima da descomunal cabeça, em longas fileiras pelo
trilho limpo, aberto entre a erva rasteira. Houve um instante de desânimo na
alma do major. Não tinha contado com aquele obstáculo nem o supusera tão forte.
Agora via bem que era a uma sociedade inteligente, organizada, ousada e tenaz
com quem se tinha de haver. Veio-lhe então à lembrança aquela frase de
Saint-Hilaire. se nós não expulsássemos
as formigas, elas nos expulsariam.
O major não
estava lembrado ao certo se eram essas as palavras, mas o sentido era, e ficou
admirado que só agora ela lhe ocorresse.
No dia
seguinte, tinha recobrado o ânimo. Comprou ingredientes e ei-lo mais o Mané
Candeeiro, a abrir picadas, a fazer esforços de sagacidade, para descobrir os
redutos centrais, as "panelas" dos insetos terríveis. Então era como se
os bombardeassem; o sulfeto queimava, estourava em tiros seguidos, mortíferos,
letais!
E daí em
diante, foi uma batalha sem tréguas. Se aparecia uma abertura, um
"olho", logo se lhe aplicava o formicida, pois do contrário, nenhuma plantação
era possível, tanto mais que extintos os das suas terras, não tardariam os
formigueiros das vizinhanças ou dos logradouros públicos a deitar canículos para
o seu terreno.
Era um
suplício, um castigo, uma espécie de vigilância a dique holandês e Quaresma viu
bem que só uma autoridade central, um governo qualquer, ou um acordo entre os
cultivadores, podia levar a efeito a extinção daquele flagelo, pior que a
saraiva, que a geada, que a seca, sempre presente, inverno ou verão, outono ou
primavera.
Não obstante
essa luta diária, o major não desanimou e pôde colher alguns produtos das
plantações que tinha feito. Se por ocasião das frutas, a sua alegria foi
grande, mais expressiva e mais profunda ela foi, quando viu partir para a estação
em sucessivas carretas, as abóboras, os aipins, as batatas-doces, em cestos
cobertos com sacos cosidos. Os frutos, em parte, eram de outras mãos; as árvores
não tinham sido plantadas por ele; mas aquilo não, vinha do seu suor, da sua
iniciativa, do seu trabalho!
Ele ainda foi
ver aqueles cestos na estação, com a ternura de um pai que vê partir seu filho
para a glória e para a vitória. Recebeu o dinheiro dias depois, contou-o e
esteve deduzindo os lucros.
Não foi à
roça nesse dia; o trabalho de guarda-livros roubou o de cultivador. A sua
atenção, já um tanto gasta, não lhe favorecia a tarefa das cifras, e só pelo
meio-dia pôde dizer à irmã:
—Sabes qual
foi o lucro, Adelaide?
—Não. Menor
do que o dos abacates?
—Um pouco
mais.
—Então...
Quanto?
—Dois mil
quinhentos e setenta réis, respondeu Quaresma, destacando sílaba por sílaba.
—O quê?
—Foi isso. Só
de frete paguei cento e quarenta e dois mil e quinhentos.
Dona Adelaide
esteve algum tempo com os olhos baixos, seguindo a costura que fazia, depois,
levantando o olhar:
—Homem,
Policarpo, o melhor é deixares isso... Tens gasto muito dinheiro... Só com as
formigas!
—Ora,
Adelaide! Pensas que quero fazer fortuna? Faço isso para dar exemplo, levantar
a agricultura, aproveitar as nossas terras feracíssimas...
—É isto...
Queres sempre ser a abelha-mestra... Já viste os grandes fazerem esses
sacrifícios?... Vê lá se fazem! Histórias... Metem-se no café que tem todas as
proteções...
—Mas, faço
eu.
A irmã
prestou mais atenção à costura, Policarpo levantou-se, foi até à janela que
dava para o galinheiro. Fazia um dia fosco e irritante. Ele concertou o pincenez,
esteve olhando e de lá falou:
—Oh! Adelaide!
Aquilo não é uma galinha morta?
A velha
senhora ergueu-se com a costura, foi até à janela e verificou com a vista:
—É... É já a
segunda que morre hoje.
Após esta
leve conversa, Quaresma voltou à sua sala de estudos. Meditava grandes reformas
agrícolas. Mandara buscar catálogos e ia examiná-los. Tinha já em mente uma
charrua dupla, um capinador mecânico, um semeador, um destocador, grades, tudo
americano, de aço, dando o rendimento efetivo de vinte homens. Até então, não
quisera essas inovações; as terras mais ricas do mundo, não precisavam desses
processos que lhe pareciam artificiais, para produzir;
estava,
porém, agora disposto a empregá-los como experiência. Aos adubos, no entanto, o
seu espírito resistia. Terra virada, dizia Felizardo, terra estrumada; parecia
a Quaresma uma profanação estar a empregar nitratos, fosfatos ou mesmo estrume
comum, numa terra brasileira... Uma injúria!
Quando se
convencesse de que eram necessários, parecia-lhe que todo o seu sistema de
idéias ia por terra e os móveis de sua vida desapareceriam.
Estava assim
a escolher arados e outros "Planets", "Bajacs" e
"Brabants" de vários feitios, quando o seu pequeno copeiro lhe
anunciou a visita do doutor Campos.
O edil entrou
com a sua jovialidade, a sua mansidão e o seu grande corpo.
Era alto e
gordo, pançudo um pouco, tinha os olhos castanhos, quase à flor do rosto, uma
testa média e reta; o nariz, malfeito. Um tanto trigueiro, cabelos corridos e
já grisalhos, era o que se chama por ai um caboclo, embora o seu bigode fosse
crespo. Não nascera em Curuzu, era da Bahia ou de Sergipe, habitava, porém, o lugar há mais de vinte
anos, onde casara e prosperara, graças ao
dote da mulher e à sua atividade clínica. Com esta, não gastava grande energia
mental: tendo de cor uma meia dúzia de receitas, ele, desde muito, conseguira
enquadrar as moléstias locais no seu reduzido formulário.
Presidente da
Câmara, era das pessoas mais consideráveis de Curuzu, e Quaresma o estimava
particularmente pela sua familiaridade, pela sua afabilidade e simplicidade.
—Ora viva,
major! Como vai isto por aí? Muita formiga? Lá em casa já não há mais.
Quaresma
respondeu com menos entusiasmo e jovialidade, mas contente com a alegria
comunicativa do doutor. Ele continuava a falar com desembaraço e naturalidade.
—Sabe o que
me traz aqui, major? Não sabe, não é? Preciso de um pequeno obséquio seu.
O major não
se espantou; simpatizava com o homem e abriu-se em oferecimentos.
—Como o major
sabe...
Agora a sua
voz era doce, flexível, sutil; as palavras caíam-lhe da boca adocicadas,
dobravam-se, coleavam-se:
—Como o major
sabe, as eleições se devem realizar por estes dias. A vitória é
"nossa". Todas as mesas estão conosco, exceto uma... Aí mesmo, se o major
quiser...
—Mas, como?
se eu não sou eleitor, não me meto, nem quero meter-me em política? perguntou
Quaresma ingenuamente.
—Exatamente
por isso, disse o doutor com voz forte; e em seguida brandamente: a seção
funciona na sua vizinhança, é ali, na escola, se...
—E dai?
—Tenho aqui
uma carta do Neves, dirigida ao senhor. Se o major quer responder (é melhor já)
que não houve eleição... Quer?
Quaresma
olhou o doutor com firmeza, coçou um instante o cava- nhaque e respondeu
claramente, firmemente:
—Absolutamente
não.
O doutor não
se zangou. Pôs mais unção e maciez na voz, aduziu argumentos: que era para o
partido, o único que pugnava pelo levanta- mento da lavoura. Quaresma foi
inflexível; disse que não, que lhe eram absolutamente
antipáticas
tais disputas, que não tinha partido e mesmo que tivesse não iria afirmar uma
coisa que ele não sabia ainda se era mentira ou verdade.
Campos não
deu mostras de aborrecimento, conversou um pouco sobre coisas banais e
despediu-se com o ar amável, com a jovialidade mais sua que era possível.
Isto se
passou na terça-feira, naquele dia de luz fosca e irritante. À tarde houve
trovoada, choveu muito, O tempo só levantou na quinta-feira, dia em que o major
foi surpreendido com a visita de um sujeito com um uniforme velho e lamentável,
portador de um papel oficial para ele, proprietário do "Sossego", conforme
mesmo disse o tal homem fardado.
Em virtude
das posturas e leis municipais, rezava o papel, o Senhor Policarpo Quaresma,
proprietário do sítio "Sossego" era intimado, sob as penas das mesmas
posturas e leis, a roçar e capinar as testadas do refe- rido sítio que confrontavam
com as vias públicas.
O major ficou
um tempo pensando. Julgava impossível uma tal intimação.
Seria mesmo?
Brincadeira... Leu de novo o papel, viu a assinatura do doutor Campos. Era
certo... Mas que absurda intimação esta de capinar e limpar estradas na
extensão de mil e duzentos metros, pois seu sítio dava de frente para um
caminho e de um dos lados acompanhava outro na extensão de oitocentos metros —
era possível!?
A antiga
corvéia!... Um absurdo! Antes confiscassem-lhe o sítio.
Consultando a
irmã, ela lhe aconselhou que falasse ao doutor Campos. Contoulhe então Quaresma
a conversa que tivera com ele dias antes.
—Mas és tolo,
Policarpo. Foi ele mesmo...
A luz se lhe
fez no pensamento... Aquela rede de leis, de posturas, de códigos e de
preceitos, nas mãos desses regulotes, de tais caciques, se transformava em potro, em polé, em
instrumento de suplícios para torturar os inimigos, oprimir as populações,
crestar-lhes a iniciativa e a independência, abatendo-as e desmoralizando-as.
Pelos seus
olhos passaram num instante aquelas faces amareladas e chupadas que se
encostavam nos portais das vendas preguiçosamente; viu também aquelas crianças
maltrapilhas e sujas, d'olhos baixos, a esmolar disfarçadamente pelas estradas;
viu aquelas terras abandonadas, improdutivas, entregues às ervas e insetos
daninhos; viu ainda o desespero de Felizardo, homem bom, ativo e trabalhador,
sem ânimo de plantar um grão de milho em
casa e bebendo todo o dinheiro que lhe passava pelas mãos — este quadro passou-lhe
pelos olhos com a rapidez e o brilho sinistro do relâmpago; e só se apagou de todo, quando teve que ler a carta
que a sua afilhada lhe mandara. Vinha viva e alegre. Contava pequenas histórias
de sua vida, a viagem próxima do papai, à Europa, o desespero do marido no dia
em que saiu sem anel, pedia notícias do padrinho, de Dona Adelaide e, sem
desrespeito, recomendava à irmã de Quaresma que tivesse muito cuidado com o
manto de arminho da "Duquesa".
A
"Duquesa" era uma grande pata branca, de penas alvas e macias ao olhar,
que, pela lentidão e majestade do andar, com o pescoço alto e o passo firme,
merecera de Olga esse apelido nobre. O animal tinha morrido havia dias.
E que morte!
Uma peste que lhe levava duas dúzias de patos, levara "Duquesa "também.
Era uma espécie de paralisia que tomava as pernas, depois o resto do corpo.
Três dias levou a agonizar. Deitada sobre o peito, com o bico colado ao chão,
atacada pelas formigas, o animal só dava sinal de vida por uma lenta oscilação do pescoço em torno do bico,
espantando as moscas que a importunavam na sua última hora. Era de ver como
aquela vida tão estranha à nossa, naquele instante penetrava em nós e
sentíamos-lhe o sofrimento, a agonia e a dor.
O galinheiro
ficou como uma aldeia devastada; a peste atacou galinhas, perus, patos; ora
sobre uma forma, ora sobre outra, foi ceifando, matando, até reduzir a sua
população a menos de metade. E não havia quem soubesse curar. Numa terra, cujo
governo tinha tantas escolas que produziam tantos sábios, não havia um só homem
que pudesse reduzir, com as suas drogas ou receitas, aquele considerável
prejuízo. Esses contratempos, essas contrariedades abateram muito o cultiva-
dor entusiástico dos primeiros meses; entretanto não passara pela mente de Quaresma abandonar os seus propósitos.
Adquiriu compêndios de veterinária e até já tratava de comprar as máquinas
agrícolas descritas nos catálogos.
Uma tarde,
porém, estava à espera da junta de bois que encomendara para o trabalho do arado, quando lhe apareceu
à porta um soldado de polícia com um papel oficial. Ele se lembrou da intimação
municipal. Estava disposto a resistir, não se incomodou muito.
Recebeu o
papel e leu. Não vinha mais da municipalidade, mas da coletoria, cujo escrivão,
Antonino Dutra, conforme estava no papel, intimava o Senhor Policarpo Quaresma
a pagar quinhentos mil-réis de multa, por ter enviado produtos de sua lavoura
sem pagamento dos respectivos impostos.
Viu bem o que
havia nisso de vingança mesquinha; mas o seu pensamento voou logo para as
coisas gerais, levado pelo seu patriotismo profundo.
A quarenta
quilômetros do Rio, pagavam-se impostos para se mandar ao mercado umas batatas?
Depois de Turgot, da Revolução, ainda havia alfândegas interiores?
Como era
possível fazer prosperar a agricultura, com tantas barreiras e impostos? Se ao
monopólio dos atravessadores do Rio se juntavam as exações do Estado, como era
possível tirar da terra a remuneração consoladora? E o quadro que já lhe
passara pelos olhos, quando recebeu a intimação da municipalidade, voltou-lhe
de novo, mais tétrico, mais sombrio, mais lúgubres; e anteviu a época em que
aquela gente teria de comer sapo, cobras,
animais mortos, como em França os camponeses, em tempos de grandes reis.
Quaresma veio
a recordar-se do seu tupi, do seu folklore, das modinhas, das suas tentativas
agrícolas — tudo isso lhe pareceu insignificante, pueril, infantil.
Era preciso
trabalhos maiores, mais profundos; tornava-se necessário refazer a
administração. Imaginava um governo forte, respeitado, inteligente, removendo
todos esses óbices, esses entraves, Sully e Henrique IV, espalhando sábias leis
agrárias, levantando o cultivador... Então sim! o celeiro surgiria e a pátria
seria feliz.
Felizardo
entregou-lhe o jornal que toda manhã mandava comprar à estação, e lhe disse:
—Seu patrão,
amanhã não venho "trabaiá".
—Por certo; é
dia feriado... A Independência.
—Não é por
isso.
—Por que
então?
—Há
"baruio" na Corte e dizem que vão "arrecrutá". Vou pro
mato...
Nada!
—Que barulho?
—"Tá"
nas "foias", sim "sinhô".
Abriu o
jornal e logo deu com a notícia de que os navios da esquadra se haviam
insurgido e intimado ao presidente a sair do poder. Lembrou-se das suas
reflexões de instantes atrás; um governo forte, até à tirania... Medidas
agrárias...
Sully e Henrique IV...
Os seus olhos
brilhavam de esperança. Despediu o empregado. Foi ao interior da casa, nada
disse à irmã, tomou o chapéu, e dirigiu-se à estação.
Chegou ao
telégrafo e escreveu:
"Marechal
Floriano, Rio. Peço energia. Sigo já. — Quaresma".
V O TROVADOR
—Decerto,
Albernaz, não é possível continuar assim... Então mete-se um sujeito num navio,
assesta os canhões pra terra e diz: sai daí "seu" presidente; e o
homem vai saindo?... Não! É preciso um exemplo...
—Eu penso
também da mesma maneira, Caldas. A República precisa ficar forte,
consolidada... Esta terra necessita de governo que se faça respeitar...
É incrível!
Um país como este, tão rico, talvez o mais rico do mundo, é, no entanto, pobre,
deve a todo mundo... Por quê? Por causa dos governos que temos tido que não têm
prestígio, força... É por isso.
Vinham
andando, à sombra das grandes e majestosas árvores do parque abandonado; ambos
fardados e de espada. Albernaz, depois de um curto intervalo, continuou:
—Você viu o
imperador, o Pedro II... Não havia jornaleco, pasquim por aí, que o não
chamasse de "banana" e outras coisas... Saia no carnaval... Um desrespeito
sem nome! Que aconteceu? Foi-se como um intruso.
—E era um bom
homem, observou o almirante. Amava o seu país...
Deodoro nunca
soube o que fez.
Continuavam a
andar. O almirante coçou um dos favoritos e Albernaz olhou um instante para
todos os lados, acendeu o cigarro de palha e retomou a conversa:
—Morreu
arrependido... Nem com a farda quis ir para a cova!... Aqui para nós que
ninguém nos ouve: foi um ingrato; o imperador tinha feito tanto por toda a
família, não acha?
—Não há
dúvida nenhuma!... Albernaz, você quer saber de uma coisa: estávamos melhor
naquele tempo, digam lá o que disserem...
—Quem diz o
contrário? Havia mais moralidade... Onde está um Caxias? um Rio Branco?
—E mais
justiça mesmo, disse com firmeza o almirante. O que eu sofri, não foi por causa
do "velho", foi a canalha... Demais, tudo barato...
—Eu não sei,
disse Albernaz com particular acento, como há ainda quem se case... Anda tudo
pela hora da morte!
Eles olharam
um instante as velhas árvores da Quinta Imperial, por onde vinham atravessando.
Nunca as tinham contemplado; e agora parecia- lhes que jamais tinham pousado os
olhos sobre árvores tão soberbas, tão belas, tão tranqüilas e seguras de si,
como aquelas que espalhavam sob os seus grandes ramos uma vasta sombra,
deliciosa e macia. Pareciam que medravam sentindo-se em terra própria, delas,
da qual nunca sairiam desalojadas a machado, para edificação de casebres; e
esse sentimento lhes havia dado muita força de vegetar e uma ampla vontade de
se expandirem. O solo sobre o qual cresciam, era delas e agradeciam à terra
estendendo muito os seus ramos, cerrando e tecendo a folhagem, para dar à boa
mãe, frescura e proteção contra a inclemência do sol.
As mangueiras
eram as mais gratas; os ramos longos e cheios de folhas, quase beijavam o chão.
As jaqueiras se espreguiçavam; os bambus se inclinavam, de um lado e outro da
aléia, e cobriam a terra com uma ogiva verde...
O velho
edifício imperial se erguia sobre a pequena colina, Eles lhe viam o fundo,
aquela parte de construção mais antiga, joanina, com a torre do relógio um
pouco afastada e separada do corpo do edifício.
Não era belo
o palácio, não tinha mesmo nenhum traço de beleza, era até pobre e monótono. As
janelas acanhadas daquela fachada velha, os andares de pequena altura
impressionavam mal; todo ele, porém, tinha uma tal ou qual segurança de si, um
ar de confiança pouco comum nas nossas habitações, uma certa dignidade, alguma
coisa de quem se sente viver, não para um instante, mas para anos, para
séculos... As palmeiras cercavam-no, eretas, firmes, com os seus grandes
penachos verdes, muito altos, alongados para o céu...
Eram como que
a guarda da antiga moradia imperial, guarda orgulhosa do seu mister e função.
Albernaz
interrompeu o silêncio:
—Em que dará
isto tudo, Caldas?
—Sei lá.
—O
"homem" deve estar atrapalhado... Já tinha o Rio Grande, agora o Custódio...
hum!
—O poder é o
poder, Albernaz.
Vinham
andando em demanda à estação de São Cristóvão. Atravessaram o velho parque
imperial transversalmente, desde o portão da Cancela até à linha da estrada de
ferro. Era de manhã, e o dia estava límpido e fresco. Caminhavam com pequenos
passos seguros, mas sem pressa. Pouco antes de saírem da quinta, deram com um
soldado a dormir numa moita. Albernaz teve vontade de acordá-lo: camarada!
camarada! O soldado levantou-se estremunhado;
e, dando com aqueles dois oficiais superiores, concertou-se rapidamente, fez a
continência que lhes era devida e ficou com a mão no boné, um instante firme,
mas logo bambeou.
—Abaixe a
mão, fez o general. Que faz você aqui?
Albernaz
falou em tom ríspido e de comando. A praça, falando a medo, explicou que tinha
estado de ronda ao litoral toda a noite. A força se recolhera aos quartéis; ele
obtivera licença para ir em casa mas o sono fora muito e descansava ali um
pouco.
—Então como
vão as coisas? perguntou o general.
—Não sei, não
"sinhô".
—Os
"homens" desistem ou não?
O general
esteve um instante examinando o soldado. Era branco e tinha os cabelos
alourados, de um louro sujo e degradado; as feições eram feias: malares salientes,
testa óssea e todo ele anguloso e desconjuntado.
—Donde você
é? perguntou-lhe ainda Albernaz.
—Do Piauí,
sim "sinhô".
—Da capital?
—Do sertão,
de Paranaguá, sim "sinhô".
O almirante
até ali não interrogara o soldado que continuava amedrontado, respondendo
tropegamente. Caldas, para acalmá-lo, resolveu falar-lhe com doçura.
—Você não
sabe, camarada, quais são os navios que "eles" têm?
—O
"Aquidabã"... A "Luci".
—A
"Luci" não é navio.
—É verdade,
sim "sinhô". O "Aquidabã"... Um "bandão" deles,
sim, "sinhô".
O general
interveio então, Falou-lhe com brandura, quase paternal, mudando o tratamento
de você para tu, que parece mais doce e íntimo quando se fala aos inferiores:
—Bem,
descansa, meu filho. É melhor ires para casa... Podem furtar-te o sabre e estás
na "inácia".
Os dois
generais continuaram o seu caminho e, em breve, estavam na plataforma da
estação. A pequena estação tinha um razoável movimento. Um grande número de
oficiais, ativos, reformados, honorários moravam- lhe nas cercanias e os
editais chamavam todos a se apresentar às autoridades competentes. Albernaz e
Caldas atravessaram a plataforma no meio de continências. O general era mais
conhecido, em virtude de seu emprego; o almirante, não. Quando passavam, ouviam
perguntar: "Quem é este almirante?"
Caldas ficava
contente e orgulhava-se um pouco do seu posto e do seu incógnito.
Havia uma
única mulher na estação, uma moça. Albernaz olhou-a e lembrou-se um instante de
sua filha Ismênia... Coitada!... Ficaria boa?
Aquelas
manias? Onde iria parar? Vieram-lhe as lágrimas, mas ele as reteve com força.
Já a levara a
uma meia dúzia de médicos e nenhum fazia parar aquele escapamento do juízo que
parecia fugir aos poucos do cérebro da moça.
A bulha de um
expresso, chocalhando ferragens com estrépido, apitando com fúria e deixando
fumaça pesada pelos ares que rompia, afastou-o de pensar na filha. Passou o
monstro, pejado de soldados, de uniformes e os trilhos, depois de ter passado,
ainda estremeciam. Bustamante apareceu; morava nos arredores e vinha tomar o
trem, para apresentar-se. Trazia o seu velho uniforme do Paraguai, talhado
segundo os moldes dos guerreiros da Criméia. A barretina era um tronco de cone
que avançava para a frente; e, com
aquela banda roxa e casaquinha curta, parecia ter saído, fugido, saltado de uma
tela de Vítor Meireles".
—Então por
aqui?... Que é isto? indagou o honorário.
—Viemos pela
quinta, disse o almirante.
—Nada, meus
amigos, esses bondes andam muito perto do mar... Não me importa morrer, mas
quero morrer combatendo; isso de morrer por ai, à toa, sem saber como, não vai
comigo...
O general
falara um pouco alto e os jovens oficiais que estavam próximo, olharam-no com
mal disfarçada censura. Albernaz percebeu e ajuntou imediatamente:
—Conheço bem
esse negócio de balas... Já vi muito fogo... Você sabe, Bustamante, que, em
Curuzu...
—A coisa foi
terrível, acrescentou Bustamante.
O trem
atracava na estação. Veio chegando manso, vagaroso; a locomotiva, muito negra,
bufando, suando gordurosamente, com a sua grande lanterna na frente, um olho de
ciclope, avançava que nem uma aparição sobrenatural. Foi chegando; o comboio
estremeceu todo e parou por fim. Estava repleto, muitas fardas de oficiais; a
avaliar por ali o Rio devia ter uma guarnição de cem mil homens. Os militares
palravam alegres, e os civis vinham calados e abatidos, e mesmo apavorados. Se
falavam, era cochichando, olhando com precaução para os bancos de trás.
A cidade
andava inçada de secretas, "familiares" do Santo Ofício Republicano,
e as delações eram moedas com que se obtinham postos e recompensas.
Bastava a
mínima critica, para se perder o emprego, a liberdade, — quem sabe? — a vida
também. Ainda estávamos no começo da revolta, mas o regime já publicara o seu
prólogo e todos estavam avisados. O chefe de polícia organizara a lista dos
suspeitos. Não havia distinção de posição e talentos. Mereciam as mesmas
perseguições do governo um pobre contínuo e um influente senador; um lente e um
simples empregado de escritório. Demais surgiam as vinganças mesquinhas, o
revide de pequenas implicâncias... Todos
mandavam; a autoridade estava em todas as mãos.
Em nome do
Marechal Floriano, qualquer oficial, ou mesmo cidadão, sem função pública
alguma, prendia e ai de quem caía na prisão, lá ficava esquecido, sofrendo
angustiosos suplícios de uma imaginação dominicana. Os funcionários disputavam-se
em bajulação, em
servilismo... Era um terror, um terror baço, sem coragem,
sangrento, às ocultas, sem grandeza, sem desculpa, sem razão e sem
responsabilidades... Houve execuções; mas não houve nunca um Fouquier Tinville.
Os militares
estavam contentes, especialmente os pequenos, os alferes, os tenentes e os
capitães. Para a maioria a satisfação vinha da convicção de que iam estender a
sua autoridade sobre o pelotão e a companhia, a todo esse rebanho de civis;
mas, em outros muitos havia sentimento mais puro, desinteresse e sinceridade.
Eram os adeptos desse nefasto e hipócrita positivismo, um pedantismo tirânico,
limitado e estreito, que justificava todas as violências, todos os assassínios,
todas as ferocidades em nome da manutenção da ordem, condição necessária, lá
diz ele, ao progresso e tam- bém ao advento do regime normal, a religião da
humanidade, a adoração do grão-fetiche, com fanhosas músicas de cornetins e
versos detestáveis, o paraíso enfim, com inscrições em escritura fonética e
eleitos calçados com sapatos de sola de borracha!...
Os
positivistas discutiam e citavam teoremas de mecânica para justificar as suas
idéias de governo, em tudo semelhantes aos canatos e emirados orientais.
A matemática
do positivismo foi sempre um puro falatório que, naqueles tempos, amedrontava
toda gente. Havia mesmo quem estivesse convencido que a matemática tinha sido
feita e criada para o positivismo, como se a Bíblia tivesse sido criada
unicamente para a Igreja Católica e não também para a Anglicana. O prestígio
dele era, portanto, enorme. O trem correu, parou inda em uma estação e foi ter
à Praça da República. O almirante, cosido com as paredes, seguiu para o Arsenal
de Marinha; Albernaz e Bustamante entraram no Quartel-General. Penetraram no
grande casarão, no meio do retinir de espadas, de toques de cornetas; o grande
pátio estava cheio de soldados, bandeiras, canhões, feixes de armas
ensarilhadas, baionetas reluzindo ao sol oblíquo...
No sobrado,
nas proximidades do gabinete do ministro, havia um vaivém de fardas, dourados,
fazendas multicores, uniformes de várias corporações e milícias, no meio dos
quais os trajes escuros dos civis eram importunos como moscas. Misturavam-se
oficiais da guarda nacional, da polícia, da armada, do exército, de bombeiros e
de batalhões patrióticos que começavam a surgir. Apresentaram-se e, depois de
tê-lo feito ao ajudante general e ministro da Guerra, a um só tempo, ficaram a
conversar nos corredores, com bastante prazer, pois que tinham encontrado o
Tenente Fontes e ambos gostavam de ouvi-lo.
O general
porque já era noivo de sua filha Lalá, e Bustamante porque aprendia com ele
alguma coisa de nomenclatura dos armamentos modernos. Fontes estava indignado,
todo ele era horror, maldição contra os insurretos, e propunha os piores
castigos.
—Hão de ver o
resultado... Piratas! Bandidos! Eu, no caso do mare- chal, se os pegasse... ai
deles!
O tenente não
era feroz nem mau, antes bom e até generoso, mas era positivista e tinha da sua
República uma idéia religiosa e transcendente. Fazia repousar nela toda a
felicidade humana e não admitia que a quisessem de outra forma que não aquela
que imaginava boa. Fora daí não havia boa-fé, sinceridade; eram heréticos
interesseiros, e, dominicano do seu bar- retefrígio, raivoso por não poder
queimá-los em autos-de-fé, congesto, via passar por seus olhos uma série enorme
de réus confitentes, relapsos, contumazes, falsos, simulados, fictos e
confictos, sem samarra, soltos por aí... Albernaz não tinha tanta fúria contra
os adversários, No fundo d'alma, ele os queria até, tinha amigos lá, e essas
divergências nada significavam para a sua idade e experiência.
Depositava, entretanto, uma certa esperança na
ação do marechal. Estando em apuros financeiros, não lhe dando o bastante a sua
reforma e a gratificação de organizador do arquivo do Largo do Moura, esperava
obter uma outra comissão, que lhe permitisse mais folgadamente adquirir o
enxoval de Lalá. O almirante, também, tinha grande confiança nos talentos
guerreiros e de estadista de Floriano. A sua causa não ia lá muito bem.
Perdera-a em primeira instância, estava gastando muito dinheiro... O governo
precisava de oficiais de Marinha, quase todos estavam na revolta; talvez lhe
dessem uma esquadra a comandar... É verdade que... Mas, que diabo! Se fosse um
navio, então sim: mas uma esquadra a coisa não era difícil: bastava coragem
para combater.
Bustamante
cria com força na capacidade do General Peixoto, tanto assim que, para apoiá-lo
e defender o seu governo, imaginava organizar um batalhão patriótico, de que já
tinha o nome "Cruzeiro do Sul" e naturalmente seria o seu comandante,
com todas as vantagens do posto de coronel. Genelício, cuja atividade nada
tinha de guerreira, esperava muito da energia e da decisão do governo de
Floriano: esperava ser subdiretor e não podia um governo sério, honesto e
enérgico, fazer outra coisa, desde que quisesse pôr ordem na sua seção.
Essas
secretas esperanças eram mais gerais do que se pode supor. Nós vivemos do
governo e a revolta representava uma confusão nos empregos, nas honrarias e nas
posições que o Estado espalha. Os suspeitos abririam vagas e as dedicações
supririam os títulos e habilitações para ocupá- las; além disso, o governo,
precisando de simpatias e homens, tinha que nomear, espalhar, prodigalizar,
inventar, criar e distribuir empregos, ordenados, promoções e gratificações.
O próprio
doutor Armando Borges, o marido de Olga e sábio sereno e dedicado quando
estudante, colocava na revolta a realização de risonhos anelos.
Médico e
rico, pela fortuna da mulher, ele não andava satisfeito. A ambição de dinheiro
e o desejo de nomeada esporeavam-no. Já era médico do Hospital Sírio, onde ia
três vezes por semana e, em meia hora, via trinta e mais doentes. Chegava, o
enfermeiro dava-lhe informações, o doutor ia, de cama em cama, perguntando: "Como vai?"
"Vou melhor, seu doutor", respondia o sírio com voz gutural. Na
seguinte, indagava: "Já está melhor?" E assim passava a visita;
chegando ao gabinete, receitava: "Doente n. I, repita a receita; doente ...quem
é?"... "É aquele barbado"... "Ahn!" E receitava.
Mas médico de
um hospital particular não dá fama a ninguém: o indispensável é ser do governo,
senão ele não passava de um simples prático. Queria ter um cargo oficial,
médico, diretor ou mesmo lente da faculdade. E isso não era difícil, desde que
arranjasse boas recomendações, pois já tinha certo nome, graças à sua atividade
e fertilidade de recursos. De quando em quando, publicava um folheto O
Cobreiro, Etiologia, Profilaxia e Tratamento ou Contribuição para o Estudo da
Sarna no Brasil; e mandava o folheto, quarenta e sessenta páginas, aos jornais
que se ocupavam dele duas ou três vezes por ano; o "operoso doutor Armando
Borges, o ilustre clínico, o proficiente médico dos nossos hospitais",
etc., etc.
Obtinha isso
graças à precaução que tomara em estudante de se relacionar com os rapazes da
imprensa.
Não contente
com isso escrevia artigos, estiradas compilações, em que não havia nada de
próprio, mas ricos de citações em francês, inglês e alemão.
O lugar de
lente é que o tentava mais; o concurso porém, metia-lhe medo. Tinha elementos,
estava bem relacionado e cotado na congregação, mas aquela história de argüição
apavorava-o.
Não havia dia
em que não comprasse livros, em francês, inglês e italiano, tomara até um
professor de alemão, para entrar na ciência germânica; mas faltava-lhe energia
para o estudo prolongado e a sua felicidade pessoal fizera evolar-se a pequena
que tivera quando estudante.
A sala da
frente do alto porão tinha sido transformada em biblioteca. As paredes
estavam forradas de estantes que gemiam ao peso dos grandes tratados. À noite,
ele abria as janelas das venezianas, acendia todos os bicos-de-gás e se
punha à mesa,
todo de branco com um livro aberto sob os olhos.
O sono não
tardava a vir ao fim da quinta página... Isso era o diabo! Deu em procurar os
livros da mulher. Eram romances franceses, Goncourt, Anatole France, Daudet,
Maupassant, que o faziam dormir da mesma maneira que os tratados. Ele não
compreendia a grandeza daquelas análises, daquelas descrições, o interesse e o
valor delas, revelando a todos, à sociedade, a vida, os sentimentos, as dores
daqueles personagens, um mundo! O seu pedantismo, a sua falsa ciência e a
pobreza de sua instrução geral faziam-no ver, naquilo tudo, brinquedos,
passatempos, falatórios, tanto mais que ele dormia à leitura de tais livros.
Precisava,
porém, iludir-se, a si mesmo e à mulher, De resto, da rua, viam-no e se dessem
com ele a dormir sobre os livros?!... Tratou de encomendar algumas novelas de
Paulo de Kock em lombadas com títulos trocados e afastou o sono.
A sua
clínica, entretanto, prosperava. De comandita com o tutor, chegou a ganhar uns
seis contos, tratando de um febrão de uma órfã rica.
Desde muito
que a mulher lhe entrara na sua simulação de inteligência, mas aquela manobra
indecorosa, indignou-a. Que necessidade tinha ele disso?
Não era já rico?
Não era moço? Não tinha o privilégio de um título universitário? Tal ato
pareceu à moça mais vil, mais baixo, que a usura de um judeu, que o aluguel de
uma pena...
Não foi
desprezo, nojo que ela teve pelo marido; foi um sentimento mais calmo, menos ativo;
desinteressou-se dele, destacou-se de sua pessoa. Ela sentiu que tinham cortado
todos os laços de afeição, de simpatia, que prendiam ambos, toda a ligação
moral, enfim.
Mesmo quando
noiva, verificara que aquelas coisas de amor ao estudo, de interesse pela
ciência, de ambições de descobertas, nele, eram superficiais, estavam à flor da
pele; mas desculpou. Muitas vezes nós nos enganamos sobre as nossas próprias
forças e capacidades; sonhamos ser Shakespeare e saímos Mal das Vinhas, Era
perdoável, mas charlatão? Era demais! Passou-lhe
um pensamento mau, mas de que valeria essa quase indignidade?...
Todos os
homens deviam ser iguais; era inútil mudar deste para aquele...
Quando chegou
a esta conclusão, sentiu um grande alívio, e a sua fisionomia se iluminou de
novo como se já estivesse de todo passada a nuvem que empanava o sol dos seus
olhos.
Naquela
carreira atropelada para o nome fácil, ele não deu pelas modificações da
mulher. Ela dissimulava os seus sentimentos, mais por dignidade e delicadeza,
que mesmo por qualquer outro motivo; e a ele faltavam a sagacidade e finura
necessárias para descobri-los sob o seu esconderijo.
Continuavam a
viver como se nada houvesse, mas quanto estavam longe um do outro! ...
A revolta
veio encontrá-los assim; e o doutor, desde três dias, pois há tanto ela
rebentara, meditava a sua ascensão social e monetária, O sogro suspendera a
viagem à Europa, e, naquela manhã, após o almoço, conforme o seu hábito, lia
recostado numa cadeira de viagem os jornais do dia. O genro vestia-se e a filha
ocupava-se com sua correspon- dência, escrevendo à cabeceira da mesa de jantar. Ela tinha um
gabinete, com todo o luxo, livros, secretária, estantes, mas gostava pela
manhã, de escrever ali, ao lado do pai. A
sala lhe parecia mais clara, a vista para a montanha, feia e esmagadora,
dava mais seriedade ao pensamento e a vastidão da sala mais liberdade no
escrever. Ela escrevia e o pai lia; num dado momento ele disse: —Sabes quem vem
ai, minha filha?
—Quem é?
—Teu
padrinho. Telegrafou ao Floriano, dizendo que vinha... Está aqui, n'O País.
A moça
adivinhou logo o motivo, o modo de agir e reagir do fato sobre as idéias e
sentimentos de Quaresma. Quis desaprovar, censurar; sentiu-o, porém, tão
coerente com ele mesmo, tão de acordo com a substância da vida que ele mesmo
fabricara, que se limitou a sorrir complacente:
—O
padrinho...
—Está doido,
disse Coleoni. Per la madonna! Pois um homem que está quieto, sossegado, vem
meter-se nesta barafunda, neste inferno...
O doutor
voltara já inteiramente vestido, com a sobrecasaca fúnebre e a cartola
reluzente na mão. Vinha irradiante e o seu rosto redondo relu- zia, exceto onde
o grande bigode punha sombras. Ainda ouviu as últimas palavras do sogro, pronunciadas
com aquele seu português rouco:
—Que há?
perguntou ele.
Coleoni
explicou e repetiu os comentários que já fizera:
—Mas não há
tal, disse o doutor. É o dever de todo patriota... Que tem a idade? Quarenta e
poucos anos, não é lá velho... Pode ainda bater- se pela República...
—Mas não tem
interesse nisso, objetou o velho.
—E há de ser
só quem tem interesse que se deve bater pela República? interrogou o doutor.
A moça que
acabava de ler a carta que tinha escrito, mesmo sem levantar a cabeça, disse:
—Decerto.
—E vem você
com as suas teorias, filhinha. O patriotismo não está na barriga...
E sorriu com
um falso sorriso que o brilho morto dos seus dentes postiços mais falsificava.
—Mas vocês só
falam em patriotismo? E os outros? É monopólio de vocês o patriotismo? fez
Olga.
—Decerto. Se
eles fossem patriotas não estariam a despejar balas para a cidade, a
entorpecer, a desmoralizar a ação da autoridade constituída.
—Deviam
continuar a presenciar as prisões, as deportações, os fuzilamentos, toda a
série de violências que se vêm cometendo, aqui e no Sul?
—Você, no
fundo, é uma revoltosa, disse o doutor, fechando a discussão.
Ela não
deixava de ser. A simpatia dos desinteressados, da população inteira era pelos
insurgentes. Não só isso sempre acontece em toda parte, como particularmente,
no Brasil, devido a múltiplos fatores, há de ser assim normalmente.
Os governos,
com os seus inevitáveis processos de violência e hipocrisias, ficam alheados da
simpatia dos que acreditam nele; e demais, esquecidos de sua vital impotência e
inutilidade, levam a prometer o que não podem fazer, de forma a criar desesperados, que pedem
sempre mudanças e mudanças. Não era, pois, de admirar que a moça tendesse para
os revoltosos; e Coleoni, estrangeiro e conhecendo, graças à sua vida, as
nossas autorida- des, calasse as suas simpatias num mutismo prudente.
—Não me vá
comprometer, hein Olga?
Ela se tinha
levantado para acompanhar o marido. Parou um pouco, deitou-lhe o seu grande
olhar luminoso, e com os finos lábios um pouco franzidos:
—Você sabe
bem que eu não te comprometo.
O doutor desceu
a escada da varanda, atravessou o jardim e ainda do portão disse adeus à
mulher, que lhe seguia a saída, debruçada na varanda, conforme o ritual dos bem
ou mal casados. Por esse tempo, Coração dos Outros sonhava desligado das
contingências
terrenas.
Ricardo vivia
ainda na sua casa de cômodos dos subúrbios, cuja vista ia de Todos os Santos à
Piedade, abrangendo um grande trato de área edificada, um panorama de casas e
árvores. Já não se falava mais no seu rival e a sua mágoa tinha assentado.
Por esses dias
o seu triunfo desfilava sem contestação. Toda a cidade o tinha na consideração
devida e ele quase se julgava ao termo da sua carreira. Faltava o assentimento
de Botafogo, mas estava certo de obter.
Já publicara
mais de um volume de canções; e agora pensava em publicar mais outro.
Há dias vivia
em casa, pouco saindo, organizando o seu livro. Passava confinado no seu
quarto, almoçando café, que ele mesmo fazia, e pão, indo à tarde jantar a uma
tasca próxima à estação.
Notara que
sempre que chegava, os carroceiros e trabalhadores, que jantavam nas mesas
sujas, abaixavam a voz e olhavam-no desconfiados; mas não deu importância...
Apesar de
popular no lugar, não encontrara pessoa alguma conhecida durante os três
últimos dias; ele mesmo evitava falar e, em sua casa, limitava-se ao "bom
dia" e à "boa tarde" trocados com os vizinhos.
Gostava de
passar assim dias, metido em si mesmo e ouvindo o seu coração. Não lia jornais
para não distrair a atenção do seu trabalho. Vivia a pensar nas suas modinhas e
no seu livro que havia de ser mais uma vitória para ele e para o violão
estremecido.
Naquela tarde
estava sentado à mesa, corrigindo um dos seus trabalhos, um dos últimos, aquele
que compusera no sítio de Quaresma — "Os Lábios de Carola".
Primeiro, leu
toda a produção, cantarolando; voltou a lê-la, agarrou o violão para melhor
apanhar o efeito e empacou nestes:
É mais bela
que Helena e Margarida,
Quando sorri
meneando a ventarola.
Só se
encontra a ilusão que adoça a vida
Nos lábios de
Carola.
Nisto ouviu
um tiro, depois outro, outro... Que diabo? pensou. Hão de ser salvas a algum
navio estrangeiro. Repinicou o violão e continuou a cantar os lábios de Carola,
onde encontrava a ilusão que adoça a vida...
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