JORGE AMADO, ANÁLISES E SUAS OBRAS
Livros inéditos e a mão de
Zélia
Os poemas que o baiano escreveu em 1938 são marcados por lugares-comuns (1);
os erros ortográficos nos rascunhos de Gabriela, corrigidos pela mulher (2);
e trechos do romance Rui Barbosa Número 2, de 1932, dominado pelo tom panfletário: ele gostava de guardar em casa tudo o que escrevi.
Os poemas que o baiano escreveu em 1938 são marcados por lugares-comuns (1);
os erros ortográficos nos rascunhos de Gabriela, corrigidos pela mulher (2);
e trechos do romance Rui Barbosa Número 2, de 1932, dominado pelo tom panfletário: ele gostava de guardar em casa tudo o que escrevi.
Rascunhos e textos inéditos de Jorge Amado serão lidos agora. Eles revelam um escritor obcecado em alcançar a maturidade artística
Nacionalidade Jorge Amado, nos anos 1970: metódico na
construção de seus personagens, ele
submetia os textos aos familiares e chegava a reescrever um mesmo capítulo
dezenas de vezes, sem se dar por satisfeito.
Fenômeno literário com mais
de 20 milhões de livros vendidos em 55 países, o baiano Jorge Amado (1912-2001)
foi um frequente alvo dos críticos – que atribuíam seu estilo pouco erudito a
certo desleixo, quando não a uma "preguiça", em relação ao texto.
Assim resumia nos anos 1940 o modernista Mário de Andrade, em carta ao aspirante
a escritor Fernando Sabino, a opinião de intelectuais da época acerca do
baiano: "Garanto que você pode ir longe. Mas não como um Jorge Amado, com
pouco trabalho, ignorância muita e criação de sobra. Você tem de trabalhar dia
por dia. Como um Machado de Assis". Quase uma década depois da morte de
Amado, um conjunto de rascunhos datilografados (e muito rasurados) por ele
durante a produção de 25 de seus livros descortina um lado até então
desconhecido de seu intenso processo criativo. A coleção de papéis – um
calhamaço de 17.000 páginas que a Fundação Casa de Jorge Amado, em Salvador,
está digitalizando para disponibilizar na internet até agosto – revela um autor
extremamente sistemático na construção do texto, capaz de reescrever um mesmo
trecho dezenas de vezes, sem se dar por satisfeito. De "possuidor de má
fama", por exemplo, o capitão Justiniano Duarte da Rosa, amante da
personagem-título de um de seus livros de maior sucesso, Tereza Batista
Cansada de Guerra, torna-se (na quarta versão) um sujeito "atrabiliário,
violento, brigão, maus bofes e maus instintos".
Há um consenso entre os
poucos especialistas que já se debruçaram sobre a pilha de escritos de que ela
traz à luz um autor para quem o ato de escrever era profundamente racional – e
não motivado pela intuição, como se pensava. Afirma o historiador Alberto da
Costa e Silva, estudioso da obra de Jorge Amado: "Seu estilo simples e
direto é, na realidade, fruto de um trabalho incansável, que chama atenção pela
autocrítica severa e por um esmero nos detalhes". A série de rascunhos
revela ainda uma Zélia Gattai, escritora com quem o baiano foi casado por 56
anos, no papel de crítica implacável. Zélia era, antes de tudo, uma revisora
atenta, que lia os escritos do marido assinalando os frequentes erros de
português (Amado jamais absorveu as mudanças ortográficas estabelecidas em
1943). A escritora, a quem ele se referia como "minha cúmplice na aventura
da vida", palpitava ainda sobre o destino dos personagens, construídos
meticulosamente. Para se ter uma ideia, às voltas com a criação de Tereza
Batista, em 1972, Jorge Amado decidiu, a pedido da mulher, trocar de lugar o
dente dourado da protagonista, de modo a escondê-lo. "Cada vez que Tereza
sorrir, será uma tristeza", Zélia argumentava. Esse único detalhe consumiu
horas a fio de exaustiva discussão. Além das sugestões da mulher, Amado
considerava ainda as opiniões da filha Paloma, do irmão James e da cunhada
Luíza, que conta a VEJA: "Quando Jorge aprovava uma ideia, ele a
acrescentava ao livro, que ia ficando maior a cada nova versão".
O acervo da Casa de Jorge
Amado guarda ainda dois títulos inéditos do autor, ambos escritos na juventude:
o romance Rui Barbosa Número 2, de 1932 (que se seguiu à sua estreia,
com O País do Carnaval), e A Estrada do Mar, livreto de poemas de
1938. Os estudiosos concordam que nem de longe eles fazem lembrar o escritor
que atingiria o ápice com obras como Dona Flor e Seus Dois Maridos e A
Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água, eternizados pelos tipos bem
brasileiros e pela narrativa recheada de humor e ironia. Os textos inéditos
mostram um escritor ainda muito imaturo, afeito a clichês e jargões de
militante (justamente àquela época, Amado havia se filiado ao Partido
Comunista, em que permaneceria até 1956). Ele tinha apenas 20 anos quando
escreveu Rui Barbosa Número 2, cujo personagem-título, que ganhou
essa alcunha pela oratória afiada, tem como amigo um sujeito em dúvida entre a
adesão ao comunismo e "a rendição ao sistema". Desaconselhado a
publicá-lo, o baiano contaria em seu livro de memórias, Navegação de
Cabotagem, que, muito decepcionado, decidira jogar o original no lixo. Anos
mais tarde, ele apareceria em meio aos rascunhos de Amado. Quanto aos poemas (veja
exemplo ao lado), eles pecam pelo lugar-comum. Um dos raros a lê-los, o
doutor em letras
José Maurício de Almeida, da Universidade Federal do Rio de
Janeiro, conclui: "Jorge Amado fez inúmeras tentativas fracassadas, até se
tornar de fato um escritor de relevo".
Autor brasileiro mais
adaptado para o cinema e a televisão, Amado foi também o primeiro a ter sua
obra amplamente difundida no exterior. Em 1948, com o Partido Comunista posto
na ilegalidade e seu mandato de deputado federal cassado, ele decidiu mudar-se
para Paris, onde manteve amizade com intelectuais e artistas como Jean
Paul-Sartre e Pablo Picasso. Vaidoso, guardava absolutamente tudo o que
escrevia – uma montanha de papéis que lotava as caixas espalhadas por todos os
aposentos de sua casa, no bairro do Rio Vermelho, em Salvador. Quinze
anos antes de morrer, ele doou esse material à fundação. Trata-se de um caso
bem raro de preservação de acervo pessoal por parte de um escritor brasileiro,
algo relevante. Os rascunhos de Jorge Amado, afinal, ajudam a compreender
melhor o grande escritor.
Suor, 1934
A criação do romance teve origem na vivência do próprio autor, que, em 1928, com dezesseis anos de idade, residiu num cômodo de um dos sobrados coloniais do Largo do Pelourinho, Salvador, Bahia. Terminado de escrever em março de 1934, no Rio de Janeiro, o romance teve sua 1ª edição pela Ariel Editora, Rio de Janeiro, em agosto de 1934, com 211 páginas e capa de Santa Rosa.
A partir de 1941 e até a 29ª edição, 1974, ilustrada por Mário Cravo Júnior, foi publicado pela Livraria Martins Editora, São Paulo, completando o trio do primeiro tomo das “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, volume III. Como as antigas edições, em separado, à parte da coleção, a 30ª edição, com as mesmas ilustrações e reproduzindo a capa de Santa Rosa, retrato do autor por Carlos Bastos e foto do autor por Zélia Gattai, foi lançada em convênio com a Livraria Martins Editora, São Paulo, pela Editora Record, Rio de Janeiro, com 164 páginas, em agosto de 1975.
A 49ª edição, 1998, 17ª pela Editora Record, é a mais recente.
Em 1989, foi alvo de comemorações pelos 55 anos de publicação com o seminário “A presença do espaço geográfico na criação ficcional brasileira contemporânea”, organizado pela Fundação Casa de Jorge Amado.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, espanhol, francês, inglês, italiano, polonês, russo e tcheco.
Suor, 1934
A criação do romance teve origem na vivência do próprio autor, que, em 1928, com dezesseis anos de idade, residiu num cômodo de um dos sobrados coloniais do Largo do Pelourinho, Salvador, Bahia. Terminado de escrever em março de 1934, no Rio de Janeiro, o romance teve sua 1ª edição pela Ariel Editora, Rio de Janeiro, em agosto de 1934, com 211 páginas e capa de Santa Rosa.
A partir de 1941 e até a 29ª edição, 1974, ilustrada por Mário Cravo Júnior, foi publicado pela Livraria Martins Editora, São Paulo, completando o trio do primeiro tomo das “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, volume III. Como as antigas edições, em separado, à parte da coleção, a 30ª edição, com as mesmas ilustrações e reproduzindo a capa de Santa Rosa, retrato do autor por Carlos Bastos e foto do autor por Zélia Gattai, foi lançada em convênio com a Livraria Martins Editora, São Paulo, pela Editora Record, Rio de Janeiro, com 164 páginas, em agosto de 1975.
A 49ª edição, 1998, 17ª pela Editora Record, é a mais recente.
Em 1989, foi alvo de comemorações pelos 55 anos de publicação com o seminário “A presença do espaço geográfico na criação ficcional brasileira contemporânea”, organizado pela Fundação Casa de Jorge Amado.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, espanhol, francês, inglês, italiano, polonês, russo e tcheco.
O país do carnaval, 1931
O primeiro romance de Jorge Amado teve sua redação concluída no Rio de Janeiro, em dezembro de 1930, e sua 1ª edição, pela Schmidt Editor, Rio de Janeiro, em setembro de 1931, com 217 páginas, mil exemplares, e carta-prefácio do poeta Augusto Frederico Schmidt. A 2ª edição, com tiragem de dois mil exemplares, é de julho de 1932. Depois de ser reeditado pela Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, a partir de 1941, passou a ser editado pela Livraria Martins Editora, São Paulo, integrando, com os romances Cacau e Suor, o primeiro tomo da coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, volume I, capa de Carybé e ilustrações de Darcy Penteado.
A partir da 30ª edição, 1976, vem saindo pela Editora Record, Rio de Janeiro, com capa de Di Cavalcanti, ilustrações de Darcy Penteado, retrato do autor por Flávio de Carvalho e foto do autor por Zélia Gattai, em volume separado, com 183 páginas. Em 1999, foi publicada a 49ª edição.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o espanhol, francês e italiano.
Cacau, 1933
Primeiro romance do “ciclo do cacau”, foi concluído em junho de 1933 e teve sua 1ª edição pela Ariel Editora, Rio de Janeiro, em agosto de 1934, com capa e ilustrações de Santa Rosa, 197 páginas e tiragem de dois mil exemplares. A 2ª edição é de setembro do mesmo ano, com três mil exemplares. A partir de 1941, foi editado pela Livraria Martins Editora, São Paulo, com ilustrações de Santa Rosa, integrando o primeiro tomo da coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, até a 30ª edição, em 1975.
Em volume separado, como era inicialmente, o romance passou depois a ser publicado sem as ilustrações originais, mas reproduzindo a capa de Santa Rosa, pela Editora Record, Rio de Janeiro.
A 51ª edição, 1998, é a mais recente, pela Editora Record, com fixação de texto por Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, capa de Pedro Costa com ilustrações de Santa Rosa, sobrecapa e ilustração de Santa Rosa em vinhetas recuperadas por Pedro Costa, retrato do autor por Jordão de Oliveira, fotografia da sobrecapa de Zélia Gattai.
Cacau foi o primeiro livro de Jorge Amado traduzido para o espanhol, em julho de 1935, por Héctor F. Miri, escritor argentino. Teve também traduções em alemão, basco, coreano, dinamarquês, francês, grego, holandês, italiano, polonês e russo, além de ter sido publicado em edição portuguesa.
Em 1993, foi publicado pelo Jornallivros da UNESCO e distribuído como suplemento nos principais jornais do mundo, em edição bilíngüe (português e espanhol), tradução de Estela dos Santos, com ilustração de Carybé.
Jubiabá, 1934
Começado a escrever em meados de 1934, na cidade de Conceição de Feira, Bahia, o romance foi concluido no Rio de Janeiro, e sua 1ª edição saiu pela Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, em setembro de 1935, com capa de Santa Rosa, 372 páginas. A partir de 1941, passou a ser editado pela Livraria Martins Editora, São Paulo, integrando, como segundo tomo, a coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, volume IV, com capa e ilustrações de Carybé e retrato do autor por Carlos Scliar. Da 30ª edição em diante, vem sendo publicado pela Editora Record, Rio de Janeiro, 1975, com capa de Di Cavalcanti, ilustrações de Carybé, retrato do autor por Flávio de Carvalho e foto do autor por Zélia Gattai, 331 páginas. A 53ª edição, 17ª edição pela Editora Record, é a mais recente, de janeiro de 1996, com fixação de texto por Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, capa de Pedro Costa com ilustrações de Carybé, sobrecapa, 4ª capa com quadro de Quirino Silva, vinhetas de ilustrações de Carybé, retrato do autor por Jordão de Oliveira, fotografia da sobrecapa por Pedro Oswaldo Cruz. Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, basco, búlgaro, chinês, espanhol, francês, grego, húngaro, inglês, italiano, norueguês, polonês, romeno, russo e tcheco. Teatro: Jubiabá, adaptação de Roberto Alvim Correia, Rio de Janeiro, 1961; com o mesmo título, adaptação de Miroel Silveira, Rio de Janeiro, 1970. Rádio: Novela Jubiabá, Rádio São Paulo, São Paulo, 1946. Cinema e televisão: Foi adaptado por Nelson Pereira dos Santos, produção franco-brasileira da Regina Filmes e da Societé Française de Production, com música de Gilberto Gil, em duas versões: para o cinema e para a tevê. Foi exibido pela televisão francesa. Quadrinhos: Jubiabá, Editora Brasil-América, coleção “Edição Maravilhosa”, Rio de Janeiro, s/data.
Mar morto, 1936
Escrito no bairro da Gamboa de Cima, em Salvador, Bahia, em frente ao mar, e concluído no Rio de Janeiro, em junho de 1936, o romance recebeu o Prêmio Graça Aranha, 1936, quando foi publicada sua 1ª edição, pela Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, agosto de 1936, com capa de Santa Rosa, 346 páginas.
A partir de 1941, passou a ser editado pela Livraria Martins Editora, São Paulo, ilustrado, em 1961, com xilogravuras de Osvaldo Goeldi e, em 1970, 23ª edição, com capa de Carybé. Integrou a coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, da editora, como terceiro tomo, volume V, até a 38ª edição, 1975. A partir daí, a editoração foi assumida pela Editora Record, Rio de Janeiro, até a mais recente, agosto de 1997, 73ª edição, 32ª pela editora, com fixação de texto por Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, capa de Pedro Costa com ilustração de Osvaldo Goeldi, sobrecapa com quadro de Di Cavalcanti, ilustrações de Osvaldo Goeldi, vinhetas do mesmo artista por Pedro Costa, retrato do autor por Jordão de Oliveira e fotografia do autor por Zélia Gattai.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, búlgaro, chinês, espanhol, francês, grego, hebraico, húngaro, inglês, islandês, italiano, polonês, russo, sueco, tcheco e turco.
Rádio: novela Mar morto, Rádio Nacional, Rio de Janeiro, 1940 e Rádio São Paulo, São Paulo, 1945; Mar muerto, Rádio El Mundo, Buenos Aires, 1941.
Cinema: direitos para adaptação cinematográfica adquiridos por Carlo Ponti, Roma, 1957.
Quadrinhos: Mar morto, Editora Brasil-América, coleção “Edição Maravilhosa” nº 186, Rio de Janeiro, s/data.
Música: Dorival Caymmi compôs motivos diversos sobre o temaMar morto.
Capitães da Areia, 1937
Uma história dos meninos-de-rua da Bahia, na década de 30. Narrativa do amor de Dora e Pedro Bala. Peripécias do bando de menores que perambula perigosamente pelas ruas e pelo cais de Salvador, cidade “negra e religiosa”, onde se projeta a personalidade da ialorixá Aninha, mãe-de-santo do Ilê Axé Opô Afonjá. Dora morre, doente, no trapiche enluarado. Pedro Bala é preso, foge, mete-se em greves de estivadores, até que se converte em “militante proletário, o camarada Pedro Bala”. O problema é que o livro é publicado em 1937, logo em seguida à implantação do Estado Novo, regime violentamente anticomunista. Assim, a edição é apreendida – e exemplares do livro são queimados em praça pública, na Cidade da Bahia, por representantes da ditadura. Mas de nada adiantou. Quando pôde voltar à cena, Capitães da areia conquistou o grande público e é ainda hoje um dos maiores sucessos de Jorge Amado.
Escrito na cidade de Estância, Sergipe, em março de 1937, e concluído em junho, a bordo do navio Rakuyo Maru, no Pacífico, às costas da América do Sul, rumo ao México, o romance foi lançado em 1ª edição pela Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, em setembro de 1937, com 344 páginas.
A 2ª edição, 1944, saiu pela Livraria Martins Editora, São Paulo, com ilustrações de Poty e, a partir de 1970, com capa de Carybé e retrato do autor por Carlos Scliar, constituindo o tomo quarto, volume VI, da coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, até a 38ª edição, 1975.
Da 39ª edição em diante, passou a ser publicado pela Editora Record, Rio de Janeiro. A 98ª, 1999, a edição mais recente, 57ª desta editora, com fixação de texto por Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, tem capa de Pedro Costa, sobrecapa com reprodução de quadro de Aldemir Martins, vinhetas das ilustrações de Poty por Pedro Costa, retrato do autor por Jordão de Oliveira, foto do autor por Zélia Gattai.
No exterior, além da edição portuguesa, foram feitas traduções para o alemão, árabe, croata, espanhol, francês, grego, húngaro, inglês, italiano, japonês, libanês, norueguês, russo, tcheco e ucraniano.
Teatro: espetáculo adaptado pelo padre Valter Souza, Salvador, 1958; adaptação de Carlos Wilson, encenada por diversos grupos teatrais no Brasil e no exterior; adaptação de Roberto Bomtempo, pela Companhia Baiana de Patifaria, 2002.
Dança: espetáculo adaptado pelo Grupo Êxtase, Minas Gerais, 1988; por Raymond Foucalt e Plinio Mosca, França, 1988; por Friederich Gerlach, Alemanha, 1971; por Nanci Gomes Alonso, Argentina, 1987.
Cinema: filme Capitães da areia, adaptação do cineasta Hall Bartlet, Los Angeles, Estados Unidos, 1971, com algumas cenas exteriores tomadas em Salvador. Exibido nos Estados Unidos e em outros países, continua inédito no Brasil.
Televisão: minissérie, Rede Bandeirantes, direção de Walter Lima Jr., roteiro e adaptação de José Loureiro e Antônio Carlos Fontoura, 1989.
Quadrinhos: adaptado por Ruy Trindade, publicado pela Secretaria da Cultura e Turismo do Estado da Bahia, 1995.
A Fundação Casa de Jorge Amado comemorou os 50 anos do romance, em 1987, com seminários, lançamentos de livros e exposições em Salvador e Brasília e com uma edição fac-similar da sua 1ª edição com tiragem numerada de 1.000 exemplares, publicada com a colaboração do Governo de Brasília e da Editora Record.
CAPITÃES DA AREIA: RAZÕES PARA LER E PARA VER
Divulgação
“É aqui também que mora o
chefe dos Capitães da Areia Pedro Bala. Desde cedo foi chamado assim, desde
seus cinco anos. Hoje tem 15 anos. Há dez que vagabundeia nas ruas da Bahia.
Nunca soube de sua mãe, seu pai morrera de um balaço. Ele ficou sozinho e
empregou anos em conhecer a cidade. Hoje sabe de todas as suas ruas e de todos
os seus becos” (p. 21).
A desilusão da vida que não
se sabe quando finda. Pedro Bala e seu grupo de Capitães da Areia, perdidos,
miseráveis, sórdidos, sem norte, esquecidos, foram jogados nas telas dos
cinemas e de lá conseguiram, através de mais um suporte, honrar seu criador.
Jorge Amado é considerado um dos maiores de nossa história literária e não é
por acaso, evidente. De suas páginas surgiram personagens que navegam no
imaginário brasileiro, assim como pessoas que realmente existiram e marcaram no
tempo um quê de importância subjetiva. Mas além de não existirem na realidade,
Dona Flor, Pedro Bala, Tieta do Agreste ou Gabriela não existem sem a força de
uma escrita tão viva que nos faça sentir o sol quente da Bahia ou o navegar da
embarcação até Ilhéus como se estivéssemos a receber uma história verídica de
um conhecido. Jorge Amado fez de seu romance regionalista um artefato palpável
e extraordinário. Em Capitães da Areia, o cunho realista se esbanja. Mesmo que
sua sapiência literária construa narrações opulentas gramaticalmente, seus
romances ficcionais são singulares, contudo, de leitura simples. E um leitor de
Jorge Amado pode até deslembrar alguma mísera parte de uma narrativa lida na
juventude, mas como Vadinho, Dora, e tantos outros exalam peculiaridades tão
sensíveis, torna-se dificílimo esquecê-los.
O escritor baiano só foi
menos lido do que o mago Paulo Coelho, mas dados como esse não merecem ser
levados a sério. Jorge Amado escreveu literatura brasileira merecedora do
prêmio Camões de 1994. Foi traduzido em 55 países através de 49 idiomas. É o
autor mais adaptado na televisão brasileira e agora, na véspera das
comemorações de 100 anos de seu nascimento, em 2012, Amado surgiu como o melhor
presente ao cinema brasileiro do ano: Capitães da Areia é intenso com os pés
afundados no mar da sensibilidade. São meninos, são homens, são ninguéns. Mas
dos Capitães da Areia recebemos o timbre doce do sabor amargo que faz o livro
crescer, crescer e tornar-se uma boa memória de tempos vividos entre dezenas de
garotos de rua que criaram através do apego que os mantém unidos um verdadeiro
reino de areia. Capitães, em palavras e imagens, duas belas manifestações da
cultura brasileira de qualidade.
O autor de Capitães da Areia,
o sexto livro escrito pelo baiano, repassou às suas obras seu viés abertamente
comunista. Talvez os capitães sejam a expressão-mor desta qualidade em retratar
a vida mostrando a partir de cada figura o todo, e construindo o todo a partir
da demonstração de cada um dos personagens. Para a gramática, chamaríamos de
metonímia, a figura de linguagem que consiste em tomar uma parte para
representar a totalidade. Um menino de rua é o rosto de todo o trapiche
abandonado, uma trapaça é a maneira usada e vivida por todos para abiscoitarem
dinheiro e assim sucessivamente. Pelo viés político, Capitães da Areia não
seria nada diferente ao sistema socialista de viver o mundo, tendo no
aglomerado a sobrevivência análoga de todos. A luta de Pedro Bala é a mesma de
“Gato”, que é a mesma de Dora e assim por diante. E quem não se ajusta ao
preceito de vida em conjunto, dormindo na escuridão do trapiche sem medo de
punhaladas, acaba tendo que largar a “boa vida” de existir enquanto único,
tendo os braços dos outros continuamente para carregar o peso da existência.
Quem rouba do grupo e, portanto, quem rouba de si mesmo, não é bem-vindo. E
quem não percebe a autoridade de princípios coletivos e organização atrasa-se
em tornar-se literalmente mais um capitão.
E Amado, como um grande que
era, expõe de forma impercebível os conceitos que regem estes meninos. O
personagem de Pedro Bala pode discorrer teses sobre as façanhas do autor em
construir um moleque audacioso, bruto e amargurado com uma essência humana
afetuosa submergida nas dores de viver a pobreza e as injustiças. Pedro é órfão
de um pai assassinado enquanto fazia greve. Mãe sumida. Sem hierarquização
definida, o grupo se compreende pelas façanhas íntimas de cada um. Pedro tem
espírito de liderança, mas ninguém dos mais próximos pode se sentir menor ou
comandado. Pedro é a decisão do todo, é o chamado do grande grupo. “Professor”
é a técnica, o saber “científico” de maior relevância e assim comanda as
trapaças e pequenos roubos a serem executados. De noite, “Professor” lê para os
meninos aventuras literárias que consertam profundamente mais um dia de solidão
em bando, por mais que a afirmativa soe estranho.
Professor lê uma história
para os meninos/Divulgação
“Desde o dia em que furtara
um livro de histórias numa estante de uma casa da Barra, se tomara perito
nestes furtos. Nunca, porém, vendia os livros, que ia empilhando num canto do
trapiche, sob tijolos, para que os ratos não os roessem. Lia-os todos numa
ânsia que era quase febre”(p.25).
De modo óbvio, a
experiência dos Capitães da Areia não era um mar de rosas. Um grupo de meninos
que beirava o número de 100 integrantes não conseguiria ser assim tão discreto
e preparado. Brigas e desentendimentos aparecem do início ao fim da obra
literária. Já nas telas do cinema, a aura de centenas de moleques famintos,
órfãos, marginalizados, é alterada para um formato menos trágico, mesmo que a
história seja uma sucessão de dramas com cavidades lacônicas de malandragem
espirituosa. No livro, a raiva de “Volta Seca” é mostrada através do ódio que
sentia contra as autoridades e o desejo de se tornar cangaceiro. Por fim, em
ambos os espaços, livro e película, integra-se ao grupo de Lampião,
transformando-se em um frio e sanguinário assassino.
Jorge Amado alcança a
máxima figura da dubiedade quando mostra a meninice dos marginais miseráveis ao
depararem-se com um carrossel mambembe todo iluminado a girar com seus cavalos
a subir e a descer. Figuram-se ali todas as sutilezas infantis e a ansiedade no
sorriso rasgado dos meninos que são sujeitados a ser outra coisa que não
crianças. Para tornar o filme “Capitães da Areia” ainda mais magistral, uma
trilha sonora perfeita, assinada pelo músico Carlinhos Brown, vai se achegando
a cada cena, marcando em som e imagens passagens bucólicas, esplêndidas e/ou
melancólicas. Uma adaptação que com certeza fará muitos regressarem ao livro e
tantos outros ansiarem encontrá-lo pela primeira vez. O Brasil agradece.
Direção: Cecília Amado, neta
de Jorge Amado, e Guy Gonçalves Elenco: Jean
Luis Souza de Amorim, Ana Graciela Conceição da Silva, Romário Santos de Assis,
Israel Vinícius Gouvêa de Souza, Elielson Santos da Conceição e Paulo Raimundo
Abade Silva Produção: Bernardo
Garcia Stroppiana e Cecília Amado
Roteiro: Hilton Lacerda e Cecília Amado Fotografia: Guy Gonçalves, ABC
Trilha Sonora: Carlinhos Brown Ano: o mesmo de “O palhaço” e “Elvis e Madonna”. A última edição do livro é da Companhia das Letras
Roteiro: Hilton Lacerda e Cecília Amado Fotografia: Guy Gonçalves, ABC
Trilha Sonora: Carlinhos Brown Ano: o mesmo de “O palhaço” e “Elvis e Madonna”. A última edição do livro é da Companhia das Letras
CAPITÃES DA AREIA: RAZÕES PARA LER E PARA VER, pelo viés de Bibiano Girard.
ABC de Castro Alves, 1941
Terminado de escrever na Urca, no Rio de Janeiro, a 21 de março de 1941, o livro foi lançado em 1ª edição pela Livraria Martins Editora, de São Paulo, no mês de agosto de 1941, quando o autor, por motivos políticos, se encontrava no Prata, tendo sido proibida sua vendagem e exibição nas livrarias pela censura do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Constava a edição príncipe de 386 páginas e era ilustrada por Santa Rosa Júnior. Passou a integrar a coleção Obras Ilustradas de Jorge Amado, da Livraria Martins Editora, de São Paulo, como quinto tomo, volume VII, com capa de Carybé, ilustrações de Iberê Camargo e retrato do autor por Carlos Scliar até a 24ª edição, 1975, quando foi liquidada a dita empresa, passando à Editora Record, do Rio de Janeiro, a exclusividade das editorações, sendo lançada a 25ª edição, 1977, com 327 páginas, capa de Floriano Teixeira, ilustrações de Iberê Camargo, retrato do autor por Flávio de Carvalho e foto do autor por Zélia Gattai. A mais recente é a 36ª edição, 11ª pela Record, publicada em janeiro de 1992, com as mesmas características.
No estrangeiro, o ABC de Castro Alves foi editado em Portugal e traduzido para os seguintes idiomas: espanhol, finlandês, francês, polonês, russo e tcheco.
Dança: foi adaptado com o título de Sonhos de Castro Alves, balé idealizado por Antonio Carlos Cardoso, com coreografia de Víctor Navarro, música de Egberto Gismonti, encenado pelo Balé do Teatro Castro Alves.
O cavaleiro da esperança, 1942
Divulgado inicialmente na imprensa de Buenos Aires, por capítulos, em fins de 1941, traduzido por Pompeu Acióli Borges, o livro teve sua 1ª edição em espanhol intitulada Vida de Luiz Carlos Prestes, el caballero de la esperanza, em 1942, pela Editorial Claridad, Buenos Aires, 395 páginas.
A 1ª edição brasileira, junho de 1945, 366 páginas, é da Livraria Martins Editora, São Paulo, até a 12ª edição de 1952. Em 1948, a Livraria Martins Editora concedeu autorização à Editorial Vitória, Rio de Janeiro, para promover uma edição especial ilustrada por Renina Katz e outras edições simples, a última da série, a 17ª edição, de 1963. A Editora Record, Rio de Janeiro, detém atualmente os direitos de publicação, sendo a 36ª a edição mais recente, a 15ª edição desta editora, agosto de 1996.
Publicado em Portugal e traduzido para: albanês, alemão, árabe, búlgaro, chinês, espanhol, eslovaco, francês, grego, hebraico, holandês, húngaro, italiano, japonês, mongol, persa, polonês, romeno, russo e tcheco.
Rádio: adaptação com o título em tcheco de Ryter Nadeje, por Jiri Verton, divulgada pela Radiodifusão Tchecoeslovaca, de Praga, 1951
Terras do sem fim, 1943
Publicados inicialmente na imprensa esboços de capítulos sob o título deSinhô Badaró, em dezembro de 1939, o tema foi retomado, em meados de 1942, em Montevidéu, onde o autor estava exilado, e concluído em Salvador, Bahia, em maio de 1943.
É o segundo romance do “ciclo do cacau” e teve sua 1ª edição lançada em setembro de 1943, com 331 páginas, pela Livraria Martins Editora, São Paulo, “Coleção Contemporânea”, capa de Clóvis Graciano, editora que o publicou até 1975. Desde então, vem sendo editado pela Editora Record, Rio de Janeiro, sendo a 63ª edição, 1997, a mais recente, 28ª desta editora, com fixação de texto por Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, capa de Pedro Costa com ilustrações de Clóvis Graciano, sobrecapa com reprodução de quadro de Carlos Scliar, ilustrações de Clóvis Graciano em vinhetas por Pedro Costa e foto da sobrecapa de Pedro Oswaldo Cruz.
Teatro: Terras do sem fim, adaptação de Graça Melo, encenada pelos Comediantes, Rio de Janeiro, 1947.
Cinema: Terra violenta, filme produzido pela Atlântida, Rio de Janeiro, 1948.
Rádio: adaptação pela Rádio São Paulo, São Paulo, 1945 e por Claude Arman-Masson, com o título Terre violente, Radiodiffusion Française, Paris, 1950.
Televisão: telenovela Terras do sem fim, TV Tupi, Rio de Janeiro, 1966 e Rede Globo de Televisão, 1981, em adaptação de Walter George Durst; na trilha sonora, parceria de Jorge Amado e Dorival Caymmi na música Cantiga de cego, interpretada por Caymmi.
Quadrinhos: Editora Brasil-América, Rio de Janeiro, s/data, coleção “Edição Maravilhosa”, número 152.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, árabe, búlgaro, chinês, coreano, dinamarquês, eslovaco, esloveno, espanhol, finlandês, francês, hebraico, holandês, húngaro, ídiche, inglês, italiano, polonês, russo, sérvio, sueco, tcheco e turco.
São Jorge dos Ilhéus, 1944
Continuação de Terras do sem fim, o romance foi concluído em Periperi, subúrbio da Capital baiana, em janeiro de 1944 e sua 1ª edição é de junho de 1944, pela Livraria Martins Editora, São Paulo, capa de Clóvis Graciano, 363 páginas. Posteriormente, passou a integrar, como sétimo tomo, volume IX, as “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, com ilustrações de Frank Schaeffer, até a 28ª edição, 1975. A partir de então, vem sendo publicado pela Editora Record, Rio de Janeiro, sendo a 52ª edição, 1999, a mais recente, com fixação de texto por Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, capa de Pedro Costa com ilustração de Frank Schaeffer, ilustração da sobrecapa de Di Cavalcanti, ilustrações de Frank Schaeffer, retrato do autor por Jordão de Oliveira, vinhetas de ilustrações de Frank Schaeffer por Pedro Costa, foto por Zélia Gattai.
Rádio: novela São Jorge dos Ilhéus, Rádio São Paulo, São Paulo, 1946.
Quadrinhos: Editora Brasil-América, Rio de Janeiro, coleção “Edição Maravilhosa”, volume 174, Rio de Janeiro, s/ data.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, árabe, búlgaro, chinês, eslovaco, esloveno, espanhol, finlandês, francês, hebraico, holandês, húngaro, inglês, italiano, japonês, lituano, moldávio, polonês, romeno, russo, sueco, tcheco, turco e turcomano.
Bahia de Todos os Santos, 1944
Escrito no ano de 1944, sua 1ª edição é da Livraria Martins Editora, São Paulo, setembro de 1945, com capa de Clóvis Graciano e ilustrações de Manuel Martins. O texto foi revisto para a 8ª edição, 1960, e novamente atualizado para a 12ª edição, 1966, integrando a coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, como oitavo tomo, volume X. A 19ª edição, maio de 1970, da mesma coleção e pela mesma editora, revista e atualizada pelo autor, tem capa de Carybé, ilustrações de Manuel Martins e retrato do autor por Carlos Scliar, 263 páginas.
A 40ª edição, 13ª pela Record, de setembro de 1996, a mais recente, foi atualizada pelo autor e ilustrada por Carlos Bastos.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o espanhol, francês e italiano.
O capítulo “Canto de amor à Bahia” recebeu música de Dorival Caymmi, gravada em disco, em 1958, com interpretação do autor.
O amor do soldado, 1944
Peça teatral escrita em Salvador, Bahia, em 1944, por solicitação da atriz Bibi Ferreira, foi inicialmente intitulada O amor de Castro Alves e sob este título apareceu em 1ª edição, pela Editora do Povo, Rio de Janeiro, 1947, 194 páginas, lançada no centenário de nascimento do poeta Castro Alves. A partir da 2ª edição, 1958, recebeu o título O amor do soldado, integrando a coleção “Obras de Jorge Amado”, da Livraria Martins Editora, São Paulo. A 4ª edição, 1961, da mesma editora, tem capa de Clóvis Graciano, ilustrações de Ana Letícia e retrato do autor por Carlos Scliar, 225 páginas e foi comemorativa do trigésimo aniversário da publicação do primeiro livro do autor. Com capa de Carybé, conservando as mesmas ilustrações, passou a figurar na coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, daquela editora, como nono tomo, volume XI até a 18ª edição. Depois disso, vem sendo editada pela Editora Record, Rio de Janeiro, e a 31ª edição, a mais recente, 1992, tem 229 páginas, capa reproduzindo quadro de Di Cavalcanti, ilustrações de Ana Letícia, retrato do autor por Jordão de Oliveira e foto do autor por Zélia Gattai.
Foi publicada em Portugal.
Seara vermelha, 1946
Terminado de escrever em junho de 1946, em Nova Iguaçu, na casa de campo do autor chamada Pegi de Oxóssi, no Estado do Rio de Janeiro, o romance saiu em 1ª edição pela Livraria Martins Editora, São Paulo, agosto de 1946, 319 páginas, com ilustrações de Carlos Scliar e foi posteriormente incluído na coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado” como o décimo tomo, volume XII, com as mesmas ilustrações e capa de Carybé, até a 28ª edição, 1975. A Editora Record, Rio de Janeiro, assumiu, então, a editoração, sendo a 49ª edição a mais recente, com fixação de texto por Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, ilustrações de Carybé, as antigas ilustrações de Carlos Scliar e foto do autor por Zélia Gattai, 338 páginas.
É o segundo romance amadiano mais divulgado no estrangeiro, tendo sido publicado em Portugal e traduzido para o albanês, alemão, árabe, armênio, búlgaro, chinês, eslovaco, espanhol, finlandês, francês, grego, hebraico, húngaro, italiano, japonês, lituano, moldávio, polonês, romeno, russo, sérvio, sueco, tcheco, turco, ucraniano e vietnamita.
Cinema: Seara vermelha, Proa Filmes, São Paulo, 1963, filme estrelado por Marilda Alves, com trilha musical composta por João Gilberto, direção de Alberto d’Aversa e adaptação, roteiro e diálogos de d’Aversa e Jorge Amado.
O mundo da paz, 1951
Escrito no Castelo da União
dos Escritores Tchecoslovacos, Dobris, de dezembro de 1949 a fevereiro de 1950, o
livro teve sua 1ª edição pela Editorial Vitória, Rio de Janeiro, 1951, 410
páginas e chegou à 5ª edição, quando o autor não mais permitiu reedições. Por
este livro, em 1951, Jorge Amado foi processado e incurso na lei de segurança,
medida que se estendeu aos editores e às livrarias que exibiram o livro. Após o
retorno de Jorge Amado ao Brasil, em maio 1952, foi reativado o processo contra
a publicação do livro, quando o autor foi defendido pelos advogados João
Mangabeira e Alfredo Franjan. O juiz arquivou o processo, alegando ser o livro
sectário e não subversivo. Foi traduzido para o tcheco e o capítulo Albânia é uma festa veio a ser
lançado em livro separadamente e editado em albanês, eslovaco, francês, polonês
e theco.
Gabriela, cravo e canela, 1953
Concluído em Petrópolis, Rio de Janeiro, em maio de 1958, o romance teve sua 1ª edição pela Livraria Martins Editora, São Paulo, 1958, com 453 páginas, capa de Clóvis Graciano e ilustrações de Di Cavalcanti. Já em dezembro do mesmo ano, foi lançada a 6ª edição, que passou a integrar a coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado” como tomo décimo quarto, volume XIX, seguindo-se edições sucessivas até a 50ª edição, 1975. Nesse mesmo ano, foi publicada fora da coleção, em convênio entre a Livraria Martins Editora e a Distribuidora Record, Rio de Janeiro, a 51ª edição, com capa de Di Cavalcanti, conservando as ilustrações anteriores, 363 páginas, retrato do autor por Carlos Bastos e foto do autor por Zélia Gattai. A Editora Record, Rio de Janeiro, passou a deter os direitos editoriais da 52ª em diante, e publicou a 80ª edição, 1999, a mais recente, com fixação de texto por Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, capa de Pedro Costa com ilustração de Di Cavalcanti, sobrecapa e ilustrações de Di Cavalcanti, com vinhetas por Pedro Costa, retrato do autor por Jordão de Oliveira e foto do autor por Zélia Gattai.
O romance obteve, já no ano seguinte ao da sua 1ª edição, cinco prêmios: Prêmio Machado de Assis, do Instituto Nacional do Livro, Rio de Janeiro, 1959; Prêmio Paula Brito, da antiga Prefeitura do Distrito Federal, Rio de Janeiro, 1959; Prêmio Luísa Cláudia de Sousa, do PEN Clube do Brasil, Rio de Janeiro, 1959; Prêmio Carmem Dolores Barbosa, de São Paulo, 1959; Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, São Paulo, 1959.
O nome Gabriela se tornou popular após o romance, sendo utilizado para denominar de bares e restaurantes a suco de cacau, além de empresas as mais diversas.
Foi publicado em Portugal e é o romance de Jorge Amado com o maior número de traduções, tendo sido editado em alemão, árabe, búlgaro, catalão, chinês, coreano, dinamarquês, eslovaco, esloveno, espanhol, estoniano, finlandês, francês, georgiano, grego, hebraico, holandês, húngaro, inglês, italiano, lituano, moldávio, norueguês, persa, polonês, romeno, russo, sueco, tcheco, turco, ucraniano e macedônio.
Televisão: novela Gabriela, TV Tupi, adaptação de Zora Seljan, com Jeanete Volu no papel principal; Rede Globo de Televisão, 1975, adaptação de Walter Durst, com Sônia Braga no papel principal, sucesso no Brasil e em Portugal.
Cinema: Gabriela, filme dirigido por Bruno Barreto, 1985, com Sônia Braga no papel principal.
Dança: espetáculo apresentado pelo Balé do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, além de adaptações nacionais e estrangeiras.
Fotonovela: revista Amiga, Rio de Janeiro, outubro de 1975.
Quadrinhos: Editora Brasil-América, Rio de Janeiro, e revista Klik, Ebal, Rio de Janeiro, 1975.
Os subterrâneos da liberdade, 1954
A trilogia foi escrita, em março de 1952, em Dobris, na Tchecoslováquia, concluída em novembro de 1953, no Rio de Janeiro e lançada a 1ª edição em maio de 1954, em três volumes, com ilustrações de Renina Katz, respectivamente, com 303 páginas o primeiro volume, Os ásperos tempos, 340 o segundo, A agonia da noite e 396 o terceiro, A luz no túnel, pela Livraria Martins Editora, de São Paulo, 1954. Conservando as mesmas ilustrações iniciais e com capa de Carybé, constitui o volume XIII, tomos décimo primeiro, décimo segundo e décimo terceiro, das “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, até a 27ª edição, de 1975, ano da liquidação da empresa paulista. Assumiu então o encargo das editorações a Editora Record, do Rio de Janeiro, que promoveu a edição 29ª, de 1978, em três volumes, todos enriquecidos com diferentes belas capas de detalhes de quadros de Cândido Portinari, sem as ilustrações, mas com retratos do autor por Flávio de Carvalho e fotos do autor por Zélia Gattai. A mais recente é a 12ª edição, de janeiro de 1992, 41ª edição desde a sua primeira publicação com as mesmas características da anterior.
A trilogia foi publicada em Portugal e, ainda no estrangeiro, foi traduzida para os seguintes idiomas: alemão, búlgaro, chinês, esloveno, espanhol, francês, grego, letão, polonês, romeno, russo, tcheco e turco.
Os velhos marinheiros, 1961
Em ambos, vamos encontrar personagens que rejeitam o mormaço da vida cotidiana, regrada, comum. Que recusam, por assim dizer, o tediário a rotina do trabalho, da família, do “bom senso”, em favor do excêntrico, do desabusado, da embriaguez da fantasia. No caso de Os velhos marinheiros, o que temos é a história do órfão Vasco Moscoso de Aragão, alérgico ao mundo do trabalho, subitamente enriquecido ao herdar o patrimônio do avô paterno. Por conta de amizades com boêmios influentes, Vasco acaba ganhando, sem jamais ter pilotado uma jangada, o diploma de capitão de longo curso da Capitania dos Portos. Tempos depois, numa emergência, é convocado ao comando de um navio que vai para o extremo-norte do Brasil. Ao aportar em Belém, dá a ordem esdrúxula de prender todas as amarras, tornando-se motivo de zombaria na zona portuária. Mas aquela noite traz o estrondo formidável de uma tempestade jamais vista em Belém. No cais, só um navio resiste. É o de Vasco, agora alvo de todos os louvores, como exemplo de prudência…
Concluído em janeiro de 1961, no Rio de Janeiro, integra o livro intitulado Os velhos marinheiros conjuntamente com A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, cuja 1ª edição, com ilustrações de Glauco Rodrigues e 321 páginas é da Livraria Martins Editora, São Paulo, 1961. Incluído como o décimo quinto tomo, volume XV, das “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, continuou sendo publicado pela mesma editora, com as ilustrações originais, capa de Carybé e retrato do autor por Carlos Scliar até a 34ª edição, 1975. A partir da 35ª edição, 1976, o romance passou a ser editado em volume à parte, com o título Os velhos marinheiros ou O capitão de longo curso, pela Editora Record, Rio de Janeiro, com capa de Gian Calvi, ilustrações de Glauco Rodrigues, retrato do autor por Carlos Bastos e foto do autor por Zélia Gattai, 243 páginas. A edição mais recente é a 58ª, outubro de 1996, 20ª edição da Editora Record, com fixação de texto por Pedro Costa e Paloma Jorge Amado.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, árabe, búlgaro, catalão, chinês, dinamarquês, espanhol, finlandês, francês, húngaro, inglês, italiano, japonês, lituano, polonês, russo, sueco e tcheco.
A revista literária Lire, Paris, nº 41, janeiro de 1979, inclui o romance Le vieux marin entre os vinte melhores livros publicados na França, no ano de 1978.
Cinema: direitos adquiridos pela Warner Brothers Inc., Los Angeles, Estados Unidos, em 1965.
Os pastores da noite, 1964
Romance escrito entre fins de 1963 e começo de 1964 na residência do autor à Rua Alagoinhas nº 33, bairro do Rio Vermelho, Salvador, Bahia, foi lançado pela Livraria Martins Editora, São Paulo, em julho de 1964, com capa de Clóvis Graciano, ilustrações e frontispício de Aldemir Martins e retrato do autor por Carlos Scliar, 320 páginas, constituindo o décimo sexto tomo, volume XVI, da coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado”. Foi posteriormente editado com capa de Carybé, com as ilustrações iniciais, até a 25ª edição, 1975, última da empresa paulista.
A Editora Record, Rio de Janeiro, assumiu a publicação a partir da 26ª edição, 1976, que saiu com 294 páginas, capa de Di Cavalcanti, ilustrações de Aldemir Martins, retrato do autor por Flávio de Carvalho e foto do autor por Zélia Gattai.
A edição mais recente é a 45ª, 1998, 15ª da Editora Record, com ilustração de Aldemir Martins, retrato do autor de Jordão de Oliveira, foto de Zélia Gattai. O capítulo O compadre de Ogum foi publicado, separadamente, em alguns periódicos. Em abril de 1995, a Editora Record passou a publicar este capítulo como livro, com capa e ilustrações de Carybé, desenho do autor por Jordão de Oliveira, foto de Zélia Gattai, edição preparada por Paloma Jorge Amado e Pedro Costa.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, búlgaro, eslovaco, esloveno, espanhol, finlandês, francês, hebraico, holandês, húngaro, inglês, italiano, polonês, romeno, russo, tcheco e turco.
Cinema: adaptação de Marcel Camus, cineasta francês, da Orfée Arts-Claire Duval, Paris, com cenas tomadas em dezembro de 1975 na capital baiana, o filme foi lançado na França com o título Otalia de Bahia, com música de Antônio Carlos e Jocáfi e de Wálter Queirós, cantadas por Maria Creusa e Emílio Santiago e elenco com Mira Fonseca, Jofre Soares, Grande Otelo, Zeni Pereira, Antônio Pitanga, Paco Sanches e outros. Exibido no Brasil em 1977.
Televisão: O capítulo O compadre de Ogum foi adaptado para a tevê, como “Caso Especial”, pela Rede Globo de Televisão, em 1995.
Dona Flor e seus dois maridos, 1966
O romance, escrito na casa do autor, à Rua Alagoinhas, nº 33, Rio Vermelho, Salvador, Bahia, na segunda metade de 1965 e terminado em abril de 1966, com 1ª edição, pela Livraria Martins Editora, São Paulo, em maio de 1966, 535 páginas, 75.000 exemplares, com capa de Clóvis Graciano, ilustrações de Floriano Teixeira e retrato do autor por Carlos Scliar, integra a coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, tomo décimo sétimo, volume XVII, da Livraria Martins Editora, São Paulo, que continuou a publicá-lo até a 22ª edição, em 1975.
A partir da 23ª edição, passou a sair pela Editora Record, Rio de Janeiro, 1975, com 400 páginas, capa de Di Cavalcanti, ilustrações de Floriano Teixeira, retrato do autor por Carlos Bastos e fotografia do autor por Zélia Gattai.
Em 1976, a Editora Record publicou uma edição especial, fora do comércio, a 25ª, com 400 páginas, capa com a foto da atriz Sônia Braga, ilustrações de Floriano Teixeira, retrato do autor por Flávio de Carvalho e foto do autor por Zélia Gattai, sob o patrocínio da Companhia Industrial Sanbra.
A 26ª edição, Editora Record, 1976, tem capa de Benício, ilustrações de Floriano Teixeira, retrato do autor por Flávio de Carvalho e fotos do autor, com a atriz Sônia Braga e o diretor de cinema Bruno Barreto, por Zélia Gattai, 400 páginas.
A edição mais recente é a 48ª, Record, 1997, com texto fixado por Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, 448 páginas, capa de Pedro Costa com ilustração de Floriano Teixeira, foto do autor por Zélia Gattai e retrato do autor por Jordão de Oliveira.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, árabe, búlgaro, chinês, eslovaco, espanhol, finlandês, francês, grego, hebraico, holandês, húngaro, inglês, italiano, lituano, polonês, russo, tailandês e tcheco.
Cinema: os direitos para adaptação cinematográfica foram adquiridos por Luís Carlos Barreto, e o filme foi dirigido por Bruno Barreto, com roteiro de Leopoldo Serran e Edmundo Coutinho, produtores Luís Carlos Barreto, Newton Rique e Companhia Serrador, trilha musical de Chico Buarque, protagonizado por Sônia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça. As filmagens foram iniciadas em Salvador, em dezembro de 1975, e o lançamento ocorreu em novembro de 1976, superando todos os recordes de bilheteria no país. Foi exibido também nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina.
Teatro: adaptação para musical com o título Saravá, nos Estados Unidos, com libreto de Richard Nash e partitura de Mitch Leigh, dirigido e coreografado por Rick Atwell e Santo Loquasto, apresentando Tovah Feldshuh, Michael Ingram e vários outros atores. Encenado por duas semanas em Boston, estreou no Mark Helling Theater, na Broadway, Nova York, no dia 23 de fevereiro de 1979.
Adaptação por Fernando Guerreiro, exibida em Ilhéus e Salvador, uma promoção da Fundação Cultural de Ilhéus como parte das comemorações dos 80 anos do escritor, em 1992.
Televisão: minissérie Dona Flor e seus dois maridos, Rede Globo de Televisão, 1977, adaptação de Dias Gomes, direção de Mauro Mendonça Filho, protagonizada por Giulia Gam, Marco Nanini e Edson Celulari.
Música: inspiração para composições musicais de Antônio Carlos e Jocáfi e de Neneco e Preto Velho.
Tenda dos Milagres, 1969
O romance escrito na Vila Moreira, então vivenda de veraneio de Genaro e Nair de Carvalho, num arrabalde da cidade da Bahia, entre março e julho de 1969, foi lançado em outubro imediato, em 1ª edição, pela Livraria Martins Editora, de São Paulo, com 374 páginas, capa de Carybé, fartas ilustrações do pintor Jenner Augusto e retrato do autor por Carlos Scliar, integrando a coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado” como volume XVIII, tomo décimo oitavo, sucessivamente reeditado até a 15ª edição, em 1975, pela dita editora, que então encerrou suas atividades. A 16ª edição, de 1976, traz a marca da Editora Record, do Rio de Janeiro, como nova responsável pela editoração da obra amadiana: com 337 páginas, capa com détail de um quadro de Di Cavalcanti, as mesmas ilustrações de Jenner Augusto, retrato de autor por Flávio Carvalho e foto do autor por Zélia Gattai. A 18ª edição, de 1977, igualmente da Record e mesmo número de páginas, capa com cena do filme TENDA DOS MILAGRES, da Regina Films, do Rio de Janeiro, retrato do autor por Flávio de Carvalho e fotografia do autor ao lado do cineasta Nélson Pereira dos Santos, no gabinete da Rua Alagoinhas, por Zélia Gattai. Foram reproduzidas, no texto, as excelentes ilustrações de Jenner Augusto. A mais recente é a 41ª ed. de 2001.
Foi publicado em Portugal e traduzido para: alemão, árabe, búlgaro, espanhol, finlandês, francês, húngaro, inglês, italiano, russo e turco.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, árabe, búlgaro, espanhol, finlandês, francês, húngaro, inglês, italiano, russo e turco.
Cinema: Tenda dos milagres, dirigido por Nelson Pereira dos Santos, Regina Films, Rio de Janeiro, 1977, em grande parte rodado na cidade do Salvador.
Televisão: minissérie, Rede Globo de Televisão, adaptação de Aguinaldo Silva e Regina Braga, 1985.
Tereza Batista cansada de guerra, 1972
Histórico
Escrito em Salvador, Bahia, entre março e novembro de 1972. A Livraria Martins Editora, São Paulo, lançou a 1ª edição em dezembro de 1972, tiragem de 100.000 exemplares, 462 páginas, capa de Carybé, ilustrações de Calasans Neto, retrato do autor por Carlos Bastos, foto do autor por Zélia Gattai e partitura de modinha de Dorival Caymmi, integrando a coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, décimo nono tomo, volume XIX. A 5ª edição é da Editora Record, Rio de Janeiro, 1976, 421 páginas, capa de Di Cavalcanti, ilustrações originais de Calasans Neto, partitura da modinha de Dorival Caymmi, retrato do autor por Flávio de Carvalho e foto do autor por Zélia Gattai. A mais recente é a 30ª edição, 1999, 21ª da Record, com fixação de texto por Pedro Costa e Paloma Jorge Amado, capa de Pedro Costa com ilustração de Calasans Neto; sobrecapa com reprodução de quadro de Di Cavalcanti; ilustrações de Calasans Neto com vinhetas de Pedro Costa, retrato do autor por Jordão de Oliveira; fotografia da sobrecapa de Zélia Gattai. Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, árabe, coreano, eslovaco, esloveno, espanhol, francês, grego, hebraico, holandês, inglês, italiano, norueguês, polonês e turco. Televisão: minissérie Tereza Batista, Rede Globo de Televisão, adaptação de Vicente Sesso, direção de Paulo Crissolli, 1992, protagonizada por Patrícia França.O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, 1976
Nunca pensei em publicá-lo. Mas tendo sido dado a ler a Carybé por João Jorge, o mestre baiano, por gosto e amizade, sobre as páginas datilografadas desenhou as mais belas ilustrações, tão belas que todos as desejam adimirar. Diante do que, não tive mais condições para recusar-me à puclicação por tantos reclamada: se o texto não paga a pena, em troca não tem preço que possa pagar as aquarelas de Carybé.
O texto é editado como o escrevi em Paris, há quase trinta anos. Se fosse bulir nele, teria de reestruturá-lo por completo, fazendo-o perder sua única qualidade: a de ter sido escrito simplesmente pelo prazer de escrevê-lo, sem nenhuma obrigação de público e de editor”.
Esta é a história de um gato que se apaixona por uma andorinha
causando estranheza em todos os outros animais que habitavam um parque. A
Andorinha está prometida ao Rouxinol mas, ao mesmo tempo, incentiva o amor do
Gato. Acontecem juras, o Gato escreve poemas, eles passeiam juntos enquanto as
outras personagens condenam o amor impossível.
Quando Jorge Amado escreveu este romance, estava a pensar como prenda de anos para o seu filho mais velho, João, quando completava um ano de idade. Estava ele exilado em Paris, em 1948.
Chamo-lhe romance devido ao tema que se trata: “uma história de amor” e algumas características apresentadas. Este subtítulo da obra faz-nos imaginar um romance entre as personagens principais, com um carácter dinâmico. É uma narrativa onde há uma mescla entre o diálogo, a narração e a descrição das personagens. O que vamos encontrar é um amor impossível entre um gato e uma ave, inimigos por natureza.
Mas este romance está impregnado de um outro género narrativo e passo a citar Jorge Amado na sua Dedicatória: “Ao concordar, em Agosto de 1976, com a publicação desta velha fábula[...].”
A narrativa utiliza principalmente animais para destacar conclusões moralizantes, a fábula é, antes de
mais,uma metáfora de diferentes tipos humanos sociais.
mais,uma metáfora de diferentes tipos humanos sociais.
Existem características da fábula, o cenário é um mundo dos
animais, o parque, um lugar delimitado e
circundante, onde o tempo está dividido em estações do ano. Cada personagem emite a sua voz na
narrativa e representa uma voz social.
circundante, onde o tempo está dividido em estações do ano. Cada personagem emite a sua voz na
narrativa e representa uma voz social.
A fábula impõe uma escolha que a Andorinha terá de fazer no fim: ‘o amor de Rouxinol ou o amor do gato?’
Contudo, esta escolha já estava predefinida pelas outras personagens. O seu número de personagens é
reduzido, assim como na diversidade de espaços e há uma pequena complexidade da acção
A acção principal da história é o desenrolar da paixão entre o Gato e a Andorinha. As suas sequências
narrativas são traduzidas numa linearidade, conciliando com o tempo cronológico da história
Ela começa com quem conhece a história – o Vento – chegando ao
ouvido do narrador. Este último
conta-nos a paixão através da intensidade das conversas e dos passeios entre as personagens principais.
conta-nos a paixão através da intensidade das conversas e dos passeios entre as personagens principais.
Tudo se passa à volta da história de amor entre os dois: os comentários das
outras personagens, o tempo,
maneira como são tratados e como eles tratam os apaixonados. O clímax está no fim da “Primavera”, onde
estes começam a se afastar, dado que a Andorinha estava prometida para o Rouxinol.
maneira como são tratados e como eles tratam os apaixonados. O clímax está no fim da “Primavera”, onde
estes começam a se afastar, dado que a Andorinha estava prometida para o Rouxinol.
O narrador considera-se um revolucionário na estrutura da narrativa quando este conta o capítulo inicial
da obra nos meandros da história:
“[...] Em
verdade a história, pelo menos no que se refere à Andorinha, começara antes.[...]Como
não posso mais escrevê-lo onde devido, dentro das boas regras da narrativa
clássica, resta-me apenas suspender mais uma vez a acção e voltar atrás. É sem
dúvida um método anárquico de contar uma história, eu reconheço. Mas o
esquecimento pode ir por conta do transtorno que a chegada da primavera causa
aos Gatos e aos contadores de histórias.”
Faz um encaixe de capítulos, cuja narração é interrompida, para
ser mais tarde retomada. A história tem um
desfecho triste entre as personagens principais, mas termina com a Manhã a ganhar a rosa azul prometida
no início da história pelo Tempo.
desfecho triste entre as personagens principais, mas termina com a Manhã a ganhar a rosa azul prometida
no início da história pelo Tempo.
A história principal é narrada de acordo com um tempo cronológico: as estações do ano e
de acordo com
os sentimentos das personagens principais. Na Primavera, o Gato e a Andorinha conhecem-se.
os sentimentos das personagens principais. Na Primavera, o Gato e a Andorinha conhecem-se.
No Verão o Gato apercebe-se que está apaixonado pela Andorinha e fica com
ciúmes por ela sair com o
Rouxinol. No Outono, o Gato sofre com as outras personagens, devido à má fama que o Gato tivera no
passado (mau, rabugento, perigoso, temido). Escrevia poemas, para a amada, de modo apaixonado,
nostálgico. O Inverno é caracterizado pela separação dos amantes – a tristeza, de certo modo,
acompanha-os.
Rouxinol. No Outono, o Gato sofre com as outras personagens, devido à má fama que o Gato tivera no
passado (mau, rabugento, perigoso, temido). Escrevia poemas, para a amada, de modo apaixonado,
nostálgico. O Inverno é caracterizado pela separação dos amantes – a tristeza, de certo modo,
acompanha-os.
O Narrador altera a ordem cronológica ao utilizar algumas analepses e prolepses, que servem como uma
narração abreviada para explicar melhor algum assunto. É o caso do “Capítulo inicial, atrasado e fora do
lugar”. O próprio narrador é inteligente ao dizer que foi “por um erro de estrutura ou por moderna
sabedoria literária”.
Categorias da Narrativa
Espaço - físico, social e psicológico.
·
O espaço físico da história é um parque, onde as personagens se movem, visto com muita clareza pelas
personagens: é o lugar onde eles vivem.
O espaço físico da história é um parque, onde as personagens se movem, visto com muita clareza pelas
personagens: é o lugar onde eles vivem.
Em termos de espaço social, diríamos que o Gato é um vagabundo, que vive no parque, livre de
impedimentos porque todos o temiam. A Andorinha já é uma “flor de estufa”, muito bem protegida pela sua
classe social, a classe social alta. Diria que seria um amor impossível também devido às suas diferenças
de classes sociais
Quanto ao nível psicológico, o Gato Malhado sofre uma experiência que lhe abrir as portas
para as
recordações, a memória de uma paixão idealizada, romântica e sofrida. Esse sofrimento fá-lo crescer no
seu Interior.
recordações, a memória de uma paixão idealizada, romântica e sofrida. Esse sofrimento fá-lo crescer no
seu Interior.
As Categorias da Narrativa
O Narrador
Narrador
Não participa da história. Ele é heterodiegético, ou seja, é
totalmente alheio aos acontecimentos que narra. Por isso, a sua narração é
feita na 3ª pessoa:
“A história que a Manhã contou ao Tempo para ganhar a rosa
azul foi a do Gato Malhado e a Andorinha Sinhá; [...] Eu a transcrevo aqui por
tê-la ouvido do ilustre Sapo Cururu [que contou o caso] para provar a
irresponsabilidade do amigo [...].”
O seu ponto de vista é de uma focalização externa, onde o narrador
é um mero observador, exterior aos acontecimentos. Narra aquilo que pode
apreender através dos sentidos: ele não penetra no interior das personagens.
As Personagens
Cada animal tem uma carga simbólica bem definida. A caracterizações das personagens é feita ou pelas
outras personagens ou pelo narrador.
Gato Malhado
Personagem principal. olhos pardos que reflectiam maldade, feio, corpanzil forte e ágil, de riscas amarelas
e negras. Tinha meia-idade, egoísta, mau humorado, convencido. Vivia como se fosse um vagabundo,
carente de carinhos. A caracterização indirecta verifica-se pela maneira como as personagens reagiam
após o Gato ter conhecido a Andorinha, porque, até então, ninguém lhe dava atenção e afecto. Escrevia-lhe
sonetos (plagiados), falava bem com aqueles que ele tratava mal. Mesmo assim, a sua fama de mau
persegue-o até ao fim da obra
As Categorias da Narrativa
As Personagens
Andorinha Sinhá
Personagem principal. A Andorinha é risonha, alegre, aventureira, bela, gentil, uma jovem que adora
conversar e mantinha boas relações com todos. A sua vida era cristalina até que conheceu o Gato
Malhado.
A Andorinha viu-o como um desafio: ouvira falar muito mal dele, e até fora proibida de chegar perto dele, mas essa situação aguçou-lhe mais a vontade de conhecê-lo melhor. O narrador acha-a “louquinha” por esta querer falar com o inimigo.
As Categorias da
Narrativa
As Personagens
As Personagens
Cobra Cascavel
Figurante. É um animal que, por si só, tem uma carga simbólica poderosa e importante. É o animal mais
temível de todos. Morava fora do parque e foi afugentada pelo Gato.
As Categorias da
Narrativa
As Personagens
As Personagens
Manhã e Tempo
A Manhã é vista como uma figurante. É uma funcionária relapsa, preguiçosa, fanática por uma boa história,
distraída, sonhadora. Ela apaga as estrelas e acende o Sol.
A Manhã é vista como uma figurante. É uma funcionária relapsa, preguiçosa, fanática por uma boa história,
distraída, sonhadora. Ela apaga as estrelas e acende o Sol.
O Tempo, também
figurante, é o Mestre de tudo e de todos.
As Categorias da
Narrativa
As Personagens
As Personagens
Rouxinol
Personagem secundária. É belo, gentil, raça volátil. É o professor de canto da Andorinha e pretendente. É
com ele que a Andorinha vai casar. Ele desperta ciúmes no Gato, porque é uma ave.
Personagem secundária. É belo, gentil, raça volátil. É o professor de canto da Andorinha e pretendente. É
com ele que a Andorinha vai casar. Ele desperta ciúmes no Gato, porque é uma ave.
As Categorias da
Narrativa
As Personagens
As Personagens
Reverendo Papagaio
Personagem secundária. Tinha passado algum tempo num seminário e dava aulas de religião. Por debaixo
da capa religiosa, é um hipócrita, covarde e devasso, que fazia propostas indecentes ao público feminino.
É o único que falava "a língua dos homens".
Personagem secundária. Tinha passado algum tempo num seminário e dava aulas de religião. Por debaixo
da capa religiosa, é um hipócrita, covarde e devasso, que fazia propostas indecentes ao público feminino.
É o único que falava "a língua dos homens".
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Narrativa
As Personagen
Galo Don Juan de Rhode Island
Personagem secundária. O Galo, polígamo, “maometano”, devasso orgulhoso (nota-se até no nome!). Foi o juiz do casamento da Andorinha e do Rouxinol.
As Personagen
Galo Don Juan de Rhode Island
Personagem secundária. O Galo, polígamo, “maometano”, devasso orgulhoso (nota-se até no nome!). Foi o juiz do casamento da Andorinha e do Rouxinol.
As Categorias da
Narrativa
As Personagens
As Personagens
Sapo Cururu
Personagem secundária. Companheiro do Vento, o Sapo é quem conta a história da obra ao narrador. Ele é
visto como um ilustre, um intelectual, um académico, que vai denunciar para o leitor que o Gato plagiou
sonetos.
Personagem secundária. Companheiro do Vento, o Sapo é quem conta a história da obra ao narrador. Ele é
visto como um ilustre, um intelectual, um académico, que vai denunciar para o leitor que o Gato plagiou
sonetos.
As Categorias da
Narrativa
As Personagens
As Personagens
Cães
Figurantes. Serviam para ajudar a compor o ambiente do parque.
Figurantes. Serviam para ajudar a compor o ambiente do parque.
Pata Pepita e o Pato Pernóstico
São figurantes. Ajudam a compor o ambiente no que diz respeito à vida social do parque. Uma das frases que eu acho importante para ilustrar a condenação do amor do Gato e da Andorinha vista pelas personagens é dita pela Pata: “pata com pato, [...] andorinha com ave, gata com gato”.
São figurantes. Ajudam a compor o ambiente no que diz respeito à vida social do parque. Uma das frases que eu acho importante para ilustrar a condenação do amor do Gato e da Andorinha vista pelas personagens é dita pela Pata: “pata com pato, [...] andorinha com ave, gata com gato”.
Pombo-Correio
Personagem secundária. Fazia longas viagens, levando a correspondências do parque. Tinha boa índole,
mas era visto como um tolo porque a Pomba-Correio traia-o com o Papagaio
"O poeta e o
mar", texto de Jorge Amado sobre o amigo Dorival Caymmi
Não sei, não recordo quando e onde conheci Dorival Caymmi pela primeira vez e pela primeira vez rimos juntos nossa alegria. Foi, com certeza, na Bahia, antes da partida do clássico ita, levando-nos – ao aprendiz de compositor e ao aprendiz de escritor – para tentar exercer nossos ofícios no Rio. Naquele tempo, quem quisesse um lugar ao sol tinha de começar pelo sacrifício de sair de sua terra, a terra da Bahia, onde éramos livres adolescentes nos mercados e nas praias. Só no Rio havia ambiente e oportunidade.
Não sei, não recordo quando e onde conheci Dorival Caymmi pela primeira vez e pela primeira vez rimos juntos nossa alegria. Foi, com certeza, na Bahia, antes da partida do clássico ita, levando-nos – ao aprendiz de compositor e ao aprendiz de escritor – para tentar exercer nossos ofícios no Rio. Naquele tempo, quem quisesse um lugar ao sol tinha de começar pelo sacrifício de sair de sua terra, a terra da Bahia, onde éramos livres adolescentes nos mercados e nas praias. Só no Rio havia ambiente e oportunidade.
| Na praia de Itapuã, nas malícias do Rio Vermelho,
nas ladeiras da cidade antiga cresceu o menino Dorival, filho de Seu Durval,
modesto funcionário estadual, bom de violão e no trago. Cresceu assim o moço
Caymmi, na pesca, na serenata, na festa de bairro, no samba de roda, nos
terreiros de santo, vivendo cada instante de sua cidade e de sua gente,
alimentando-se de sua realidade e de seu mistério, preparando-se para ser seu
poeta e seu cantor. Livre coração e o desejo de criar. A música popular
brasileira não era ainda assunto de gazetas, revistas e festivais. O moço
baiano, no entanto, não desejava nem o título de doutor nem o emprego público
prometido, queria tão-somente compor e cantar. Teve de partir para ganhar a
vida difícil. Naqueles idos de 1936 o mundo era nosso nas ruas do Rio de Janeiro, lá se vão mais de 30 anos. Uma canção que fizemos juntos naquela época, É doce morrer no mar, tirada de uma cena de Mar Morto, continua popular até hoje e pode-se mesmo dizer: cada vez mais. Aliás, eis uma das características fundamentais da música de Caymmi: sua permanência, sua constante atualidade. Sendo seu tema a Bahia, sua vida, seu povo, seu drama, sua luta, seu mistério, sua poesia, seus amores, a morena de Itapuã e as rosas de abril, Iemanjá e o vento do oceano, a jangada e o saveiro, o mundo da Bahia, não há uma frase sua, uma única, de música ou poesia, que seja circunstancial, que derive da moda, de uma influência momentânea. Não compôs demais, ao sabor do sucesso e da novidade. Cada música sua é inspiração verdadeira e experiência vivida, é seu sangue e sua carne, é sua verdade. Uma será mais bela, outra mais profunda, aquela mais fácil, mas nenhuma resulta da busca do sucesso ou do aproveitamento de qualquer circunstância. Caymmi leva meses e meses trabalhando cada uma de suas músicas e letras, ao sabor do tempo e da preguiça baiana e criadora. Segundo dizia Sérgio Porto, a música de Caymmi muito deve a essa preguiça, ou melhor: a esse tempo de lazer de medida tão larga, esse tempo baiano. De tudo isso posso dar testemunho, pois nesses 30 e tantos anos eu o vi compor sem descanso, mas sem pressa, vi também nascer e crescer a maioria de suas composições mais famosas. Em minha casa – em várias das casas onde vivi – ele trabalhou e criou. Jamais espicaçado por compromisso ou intenção imediatista. Para Caymmi a moda não existe. Eu posso dizer, posso testemunhar como ninguém. Juntos andamos um bom bocado de caminho, juntos criamos alguma coisa, juntos começamos a envelhecer. Juntos fizemos teatro, cinema, tratamos o livro e a partitura, tocamos a vida e o amor. Amizade de toda a vida, "meu irmão, meu irmãozinho".
O escritor Jorge Amado
publicou este texto na coleção Nova História da Música Popular Brasileira
(Abril Cultural, 1970).
|
O CENTENÁRIO DE JORGE AMADO, O CONTADOR DE HISTÓRIAS
Houve um tempo
em que os escritores brasileiros de ficção costumavam despertar paixão entre os
leitores. Jorge Amado era um deles, possivelmente o que mais paixão provocava
no grande público, num grupo que incluía Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, José
Lins do Rego, Érico Veríssimo, entre outros. Esse tempo acabou. Hoje, a relação
dos brasileiros com seus autores contemporâneos é de outra ordem.
“Assistimos a
um momento em que não há mais a mesma paixão”, reconhece o poeta Alberto da
Costa e Silva, representante da Academia Brasileira de Letras (ABL) na comissão
que organiza as atividades do centenário de Amado, que nasceu em 9 de agosto de
1912, em Ferradas, na região cacaueira do sul da Bahia.
Nessa
comemoração, o Brasil vai reviver a antiga paixão por meio de uma série de
atividades que lembrarão o escritor. A começar pelo Carnaval da Bahia e do Rio,
nos quais personagens amadianos vão protagonizar eventos populares que trarão
novamente à cena as tramas pitorescas que, quando lançadas, atraíam milhares de
pessoas ávidas para lê-las.
A Rede Globo
prepara a readaptação de “Gabriela, Cravo e Canela” e o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, vai inaugurar
neste primeiro semestre uma grande exposição sobre o autor. De vários países,
chegam à família Amado propostas de homenagens que se pretende prestar a ele.
Um escritor de
ficção só atinge seu grande momento junto ao público quando cria grandes
personagens, observa Costa e Silva: “Jorge Amado foi mestre nisso, com
personagens inesquecíveis”. E esta peculiaridade: além dos protagonistas, seus
romances se apoiam “numa multidão de outros personagens, coadjuvantes do maior
interesse”.
A obra de Amado
já foi traduzida para 48 idiomas, em 54 países, segundo dados da Fundação Casa
de Jorge Amado. As reedições realizadas desde 2008 pela Companhia das Letras,
que já publicou 37 títulos do autor, venderam 240 mil exemplares em livrarias,
sem contar encomendas de governo.
Para saber o total vendido até hoje, a
pesquisadora Ilana Goldstein, autora de “O Brasil Best Seller de Jorge Amado”
(Senac), realizou um levantamento junto às editoras antigas do escritor e
estima que o montante se encontre na casa dos 30 milhões. “É um autor
extraordinariamente importante para nossa história. Iniciou muita gente na
leitura e ajudou um país inteiro a aprender a ler. Foi o escritor brasileiro
mais popular do século XX, e com qualidade literária”, destaca João Ubaldo
Ribeiro.
Mesmo com a
popularidade e elogios como esses, não se deve esperar unanimidade nas
discussões em torno de seu legado. Os livros de Amado sempre foram alvo de
fortes ressalvas. A severidade no julgamento – seus personagens seriam rasos,
estereotipados, o português descuidado, etc. – fez com que fosse menosprezado
nas análises universitárias de letras, apesar de sempre apreciado por
antropólogos e sociólogos.
A postura dos
críticos literários contribuiu para um certo descrédito de sua obra e
possivelmente para o afastamento dos leitores, sobretudo os mais jovens, algo
que as reedições iniciadas em 2008 pela Companhia das Letras têm buscado
reverter. O centenário será um momento-chave nessa reconquista, com debates,
filmes, show, peças teatrais, livros, além da novela. Toda essa movimentação
será uma oportunidade para que se renove também o debate sobre a nova relação
da literatura e da crítica com os leitores.
A escritora
Myriam Fraga, diretora-executiva da Fundação Casa de Jorge Amado, com sede no
Pelourinho, em Salvador, recorda-se do furor que o surgimento de “Gabriela,
Cravo e Canela” provocou, em 1958: “Eu era adolescente quando o livro foi
publicado e o lançamento levou horas, com filas e mais filas”.
Myriam, no
cargo desde quando a Fundação foi criada, há 25 anos, convivia quase
diariamente com Amado, que morreu em 2001. O Partido Comunista do Brasil, do
qual o escritor foi dirigente, ajudava na sua projeção, mas não explicava o
arrebatamento. “Muitos autores comunistas não chegaram a lugar nenhum”,
constata Myriam. O mesmo tipo de fenômeno ocorria no exterior.
O húngaro
Ferenc Pál, professor de literatura brasileira em Budapeste, reconhece que os
livros de Amado circulavam nos países do Leste europeu em virtude da filiação
política do autor, mas não por esse motivo as pessoas os liam. O baiano foi o
escritor estrangeiro mais popular da Hungria em meados do século passado.
Nos países
lusófonos, Amado era igualmente muito estimado. Quando a reedição de sua obra
foi anunciada, há três anos, escritores portugueses e africanos (de língua
portuguesa) demonstraram grande entusiasmo – ainda mais que os brasileiros,
conta o editor da Companhia das Letras Thyago Nogueira. “Eu me surpreendi, e
ainda hoje me surpreendo, ao constatar a penetração que Jorge Amado teve no
mundo todo. Sua obra circulou num grau do qual eu acho difícil termos a exata
dimensão.”
Em sua opinião,
o escritor combinava boa literatura com apelo popular. “Atualmente, existe um
certo pudor em relação a isso, como se tudo que fosse popular fosse menor. Mas,
para Jorge Amado, o povo era a matéria-prima. Ele tinha ouvido grande para o
que acontecia nas ruas e fazia uma transposição interessante do ponto de vista
literário. Sua escrita é oral, engraçada, irônica e incorpora uma série de
registros. Para editar seus livros, precisei ir milhões de vezes ao dicionário.
Muitas vezes, ele usava palavras que tinha ouvido apenas na rua”, afirma
Nogueira.
O mergulho no
universo popular, como o do candomblé, foi motivo de crítica e preconceito,
lembra Myriam. “Essa aproximação com a cultura afro-baiana, muito viva na
Bahia, começou no romance “Jubiabá” [1935] e não foi bem aceita.” Pois é
justamente a maneira como Amado lida com esses temas um dos motivos da
admiração do escritor Alberto Mussa, que, em sua obra, transita entre o erudito
e o popular:
“Jorge Amado
trata as pessoas do povo e do candomblé com respeito e consegue tirar desse
ambiente uma matéria literária. Não se vê isso o tempo inteiro e é algo pouco
valorizado. Ou existe um distanciamento ou uma representação muito
estereotipada”.
Temas populares
teriam saído de moda. A média dos autores contemporâneos, segundo Mussa,
prefere personagens urbanos, confinados a apartamentos, que sofrem com angústias
psicológicas e exercem a mesma profissão que eles, como a de escritores ou
professores. “Mas uma literatura em que o personagem é a cópia do autor resulta
empobrecedora. Jorge Amado tem a vantagem de se lançar em outros mundos. É
difícil retratar bem um marujo, nunca tendo sido um”, elogia Mussa.
O romance
“Terras do Sem-Fim” (1943), sobre a disputa de coronéis pelo cacau, é
considerado pelo escritor um dos melhores da literatura brasileira no século
XX. Outros títulos de Amado que destaca são “Dona Flor e Seus Dois Maridos”
(1966) e “Os Velhos Marinheiros” (1961), composto da novela “A Morte e a Morte
de Quincas Berro D’Água” e do romance “O Capitão-de-Longo-Curso”.
“Em termos de
linguagem, prefiro algo mais trabalhado e clássico, mas suas histórias são
muito boas. Retratam uma parte do Brasil pouco conhecida, como a região baiana
do cacau, e trazem personagens exuberantes. Os livros são extremamente bem
construídos em termos de fruição e prazer. Se sua valorização é sinal de que
estamos recuperando a vontade narrativa, isto já será muito bom”, diz Mussa.
Os escritores,
hoje, não dão prioridade à opção de contar histórias, analisa Musa. “É como se
fosse algo inferior, que relacionam talvez ao modelo narrativo do cinema. A
literatura verdadeira estaria, então, em outro lugar.”
Sem histórias
interessantes, corre-se o risco de tornar os leitores arredios, comenta Costa e
Silva. “Jorge Amado se propôs ser um contador de histórias, e logrou sua
proposta. Ele escolheu por assunto a vida cotidiana, com seus dramas e
alegrias, e não lida com grandes angústias.”
Esse universo –
aparentemente simples – dificultaria a tarefa dos críticos. “É mais fácil
escrever teses sobre quem traz muita coisa nova na forma de escrever, como Rosa
ou João Cabral de Melo Neto. Autores como Jorge Amado ou Manuel Bandeira são um
bocado difíceis. Mas a crítica está mudando. Vamos assistir a um cansaço muito
grande do formalismo pelo formalismo.”
O centenário,
na opinião de Costa e Silva, será uma ótima oportunidade para o reexame, sobretudo
estético, da obra amadiana. “É necessário recolocar seus livros no lugar em que
merecem estar.”
Se suas frases
soam descuidadas, trata-se de efeito proposital, analisa Costa e Silva: “Ele
era cônscio de suas responsabilidades artísticas e escrevia querendo escrever
de determinada maneira. O estudo do Jorge criador de linguagem e artista poderá
abrir novos caminhos para o entendimento de sua obra. Ficou uma ideia de que
ele era um improvisador, mas não há nada de frouxo nele”. Seus personagens
tampouco seriam rasos: “Não vejo nenhum deles que não seja repleto de
contradições e de mudanças no desenrolar da história”.
No entanto,
quem defende o autor de “Mar Morto” sabe que a controvérsia pode não tardar.
“Jorge Amado sempre foi polêmico”, assinala Myriam. A crítica costuma se
dividir entre os que o consideram um mestre do romance e os que o veem como um
trivial contador de histórias, e ainda sobre outras questões, como o elogio que
faz da mestiçagem.
“Sua obra
encerra uma utopia. E ele sentia muito orgulho em ser reconhecido como contador
de histórias. Jorge queria fazer uma obra acessível, acreditava que a
literatura poderia ser um meio de libertação”, diz Myriam.
Costa e Silva
destaca outro aspecto positivo: “É algo curioso, uma de suas grandes
qualidades, apreciada pelo leitor. Todo livro de Jorge Amado que se leia, seja ‘Capitães da “Areia’ [1937] ou ‘Tocaia Grande’
[1984], apesar da violência e das indignidades que apresentam, sempre nos deixa
de cabeça alta. Ninguém sai acabrunhado de um livro de Jorge. É um autor que
destila esperança”.
O
CENTENÁRIO DE JORGE AMADO, O CONTADOR DE HISTÓRIAS, texto inicialmente publicado no sítio Portal Vermelho
Londres, agosto de 1976.
Jorge Amado (In: O gato Malhado e a andorinha Sinhá: uma história de amor, 40. ed. Rio de Janeiro: Record, 2002) 1ª edição pela Editora Record, Rio de Janeiro, 1976, 72 páginas, com ilustrações de Carybé. A 40ª edição, a mais recente, é de 2002.
Foi publicada em Portugal e traduzida para o alemão, espanhol, finlandês, francês, galego, grego, guarani, inglês, italiano, japonês, russo e turco.
Dança: adaptação para balé de Luiza Lagoas, com várias encenações em épocas diversas.
Teatro: adaptação teatral do grupo mineiro Ponto de Partida, 1992.
Tieta do Agreste, 1977
O romance foi escrito na praia de Buraquinho, arredores da Capital baiana, e concluído em Londres, em meados de 1977. A Editora Record, Rio de Janeiro, lançou a 1ª edição com 120.000 exemplares e a 2ª com 50.000 unidades, ambas em agosto de 1977, com capa de Carlos Bastos, ilustrações de Calasans Neto, retrato do autor por Flávio de Carvalho e foto do autor por Zélia Gattai, com 590 páginas. A 23ª edição, 1977, é a mais recente, pela mesma editora, 575 páginas, com fixação de texto por Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, capa de Pedro Costa com ilustração de Calasans Neto, sobrecapa com reprodução de quadro de Carlos Bastos, ilustrações de Calasans Neto e foto do autor por Zélia Gattai.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, eslovaco, espanhol, francês, grego, hebraico, inglês, italiano e tcheco.
Televisão: novela de Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares, Rede Globo de Televisão, 1990, encenada por Betty Faria.
Cinema: Tieta, filme dirigido por Cacá Diegues, com música de Caetano Veloso, tendo Sônia Braga no papel principal.
Foi tema do carnaval de 1997, Salvador, Bahia, que homenageou Jorge Amado.
Marcos Tamoio, prefeito do Rio de Janeiro, denominou de Rua Tieta do Agreste um logradouro no bairro carioca de Campo Grande.
Farda fardão camisola de dormir, 1979
O romance foi escrito na casa do autor em Itapuã, Salvador, Bahia, entre janeiro e junho de 1979, e sua 1ª edição é da Editora Record, Rio de Janeiro, setembro de 1979, com 239 páginas, capa de Jenner Augusto, ilustração de Otávio Araújo, retrato do autor por Jordão de Oliveira e fotografia do arquivo do Jornal do Brasil. A 16ª edição, a mais recente, é de 1997.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, árabe, búlgaro, espanhol, francês, hebraico, inglês, italiano, russo e grego.
O menino grapiúna, 1981
Neste livro, Jorge Amado menino é o personagem principal além de D. Lalu, sua mãe, o coronel João Amado, seu pai, seu tio Álvaro, o caboclo Argemiro e o Padre Cabral que o conduziu ao mundo dos livros, no Colégio Antônio Vieira, já em Salvador.
Escrito por encomenda, foi publicado, em 1981, em edição especial, fora do comércio, pela MPM Propaganda S/A e MPM – Casabranca Propaganda Ltda. em co-edição com a Editora Record, em exemplares numerados de 1 a 11.000, com capa de Edmilson Vieira da Silva sobre ilustração de Floriano Teixeira, retrato do autor por Carlos Bastos, como brinde de fim de ano, homenageando Jorge Amado pelos 50 anos de literatura e 70 de vida. A partir de 1982, a Editora Record passou a publicar o livro comercialmente até a 16ª edição, 12ª da Editora Record, maio de 1996, a mais recente, com retrato do autor por Jordão de Oliveira.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o espanhol, francês, alemão e italiano.
A bola e o goleiro, 1984
Escrito em Salvador, Bahia, em janeiro de 1984, com 1ª edição pela Editora Record, Rio de Janeiro, 1984, capa e ilustração de Aldemir Martins, faz parte da Coleção Abre-te Sésamo. A 3ª edição, a mais recente, é de fevereiro de 1995.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, francês e italiano.
Tocaia Grande, 1984
Escrito em São Luís do Maranhão, de maio a junho de 1982, no Estoril, Portugal, em novembro de 1982, em Itapuã, Salvador, Bahia, de março a novembro de 1983 e em Petrópolis, de abril a setembro de 1984.
A Editora Record, Rio de Janeiro, vem publicando o romance desde a 1ª edição, 1984, com capa de Floriano Teixeira, retrato do autor por Jordão de Oliveira, foto do autor por Zélia Gattai, até a 11ª edição, de 1998, a mais recente.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, búlgaro, catalão, chinês, coreano, dinamarquês, esloveno, espanhol, finlandês, francês, hebraico, holandês, inglês, italiano, norueguês, romeno e sueco.
Televisão: adaptação de Walter Avancini, novela, Rede Manchete, 1995.
O sumiço da santa: uma história de feitiçaria, 1988
Projeto de romance anunciado vinte anos antes de sua publicação sob o título “A guerra dos santos”, foi escrito inicialmente em Paris, nos períodos de maio a outubro de 1987 e fevereiro a julho de 1988, e finalizado em Salvador, Bahia, em agosto de 1988. Lançado pela Editora Record, Rio de Janeiro, 1988, com capa e ilustração de Carybé, retrato do autor por Jordão de Oliveira, fotos do autor por Zélia Gattai, com 430 páginas, até a 3ª edição, a mais recente, 1999, com as mesmas características.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, esloveno, espanhol, francês, grego, inglês, italiano e russo.
Navegação de cabotagem, 1992
Consciente e contente que assim seja, reúno nesta Navegação de Cabotagem lembranças de alguém que teve o privilégio de assistir, e por vezes de participar de acontecimentos em certa medida consideráveis, de ter conhecido e por vezes privado com figuras determinantes. Publico esses rascunhos pensando que, talvez, quem sabe, poderão dar idéia do como e do porque. Trata-se, em verdade, da liquidação em preço reduzido do saldo de miudezas de uma vida bem vivida. Deixo de lado o grandioso, o decisivo, o terrível, o tremendo, a dor mais profunda, a alegria infinita, assuntos para memórias de escritor importante, ilustre, fátuo e presunçoso: não vale à pena escrevê-las, não lhes encontro a graça”.
Jorge Amado (In: Navegação de cabotagem, 5. ed. Rio de Janeiro: Record, 2001. p. III)
Escrito entre Salvador, Bahia, e Paris, de julho de 1991 a junho de 1992, publicado pela Editora Record, Rio de Janeiro, em meio às comemorações dos 80 anos do escritor, com capa de Floriano Teixeira, projeto gráfico de Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, ilustrações de diversas obras do escritor, 638 páginas. Encontra-se em 3ª edição, outubro de 1994, com as mesmas características.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, espanhol, francês, italiano e russo.
A descoberta da América pelos turcos, 1992
Iniciado em Salvador, Bahia, em julho, e finalizado em Paris, em outubro de 1991, foi inicialmente publicado em francês, pela Stock, Paris, 1992. Lançado no Brasil, em 1994, pela Editora Record, com duas edições no mesmo ano, tem ilustrações de Pedro Costa, segundo originais clássicos do Rubayat, foto de Zélia Gattai, composição gráfica de Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, 171 páginas.
Foi publicado simultaneamente em espanhol, italiano, russo, alemão, grego e turco.
O milagre dos pássaros, 1997
Certo dia, chegou ao lugar Ubaldo Capadócio, caboclo alto e de boa estampa que se destacava nas artes da literatura e da música popular: era autor de folhetos de cordel e, num forrobodó, tocava harmônica como ninguém. O poeta era requisitado nos quatro cantos para animar batizados, casamentos e até velórios. Além disso, era dado ao galanteio: arrebatava corações e mantinha duas famílias, uma na Bahia, outra em Sergipe, tinha três esposas e nove filhos.
Em Piranhas, Ubaldo Capadócio caiu de amores pela mulher de Lindolfo Ezequiel. Desavisado, foi parar na cama de Sabô. E o capitão, que estava de viagem, voltou antes da hora. Para se safar dessa enrascada e virar tema de relato afamado, Ubaldo Capadócio precisou contar com a presença de numerosas testemunhas, muitos pássaros e uma ajudinha da Providência.
Em O milagre dos pássaros, Jorge Amado transforma uma história consagrada oralmente em matéria literária. Narrativa breve, entre o conto e a novela, o texto é um episódio de traição e desonra típico da tradição popular do sertão nordestino.
Com o humor e a habilidade narrativa que lhe são próprios, o escritor recupera e eterniza esse caso desabusado que ganhou a boca do povo e correu o sertão.
O milagre dos pássaros foi escrito em 1979, por encomenda, para ser distribuído como presente de fim de ano de uma instituição financeira. A primeira edição comercial viria apenas em 1997.
Neste relato, Jorge Amado brinca com algumas das mais tradicionais formas brasileiras de narrativa e compõe uma história de aventuras com peripécias de heróis tipicamente populares. Causo de traição, ou, em outras palavras, uma anedota sobre um temido capitão que, apesar da valentia e da fama de matador, tornou-se um notório corno, O milagre dos pássaros é ainda o testemunho bem-humorado de um “milagre”.
Para elaborar a história, em que se confundem o ocorrido e o narrado, a veracidade e a invenção, Jorge Amado inspirou-se na poesia de cordel e nos contos maravilhosos. A participação de personalidades reais, como Heloisa Ramos, viúva do escritor Graciliano Ramos, que segundo o narrador visitava a cidade quando o milagre dos pássaros ocorreu, confere à história caráter de fato irrefutável. Além dela, o ilustrador Calazans Neto e o poeta Florisvaldo Matos também são citados no texto como testemunhas vivas de que o herói do conto, Ubaldo Capadócio, era capaz de fazer até defunto rir.
A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, 1961
Publicada inicialmente no número de maio de 1959 da revista carioca Senhor, com ilustrações de Glauco Rodrigues, a novela teve sua 1ª edição, pela Livraria Martins Editora, São Paulo, em 1961, reunida com A completa verdade sobre as discutidas aventuras do comandante Vasco Moscoso de Aragão, capitão de longo curso, sob o título Os velhos marinheiros, constituindo o tomo décimo quinto, volume XV, das “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, 321 páginas. O livro, em edições sucessivas, reproduzindo as mesmas ilustrações, com capa de Carybé e retrato do autor por Carlos Scliar, foi publicado, até a 36ª edição, em 1975, pela mesma editora.
A novela A morte e a morte de Quincas Berro Dágua teve uma edição especial comemorativa do trigésimo aniversário da Livraria Martins Editora, ilustrada por Floriano Teixeira, em abril de 1967, 72 páginas. A 38ª edição, também em volume separado, foi lançada pela Editora Record, Rio de Janeiro, em convênio com a Livraria Martins Editora, de São Paulo, em 1975, com 102 páginas, crônica de abertura de Vinicius de Moraes, retrato do autor por Carlos Bastos, foto do autor por Zélia Gattai, capa e ilustrações de Floriano Teixeira. Daí em diante, vem saindo pela Editora Record, Rio de Janeiro, e a 81ª edição, a mais recente, 1999, com fixação de texto por Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, tem capa de Pedro Costa com ilustrações de Floriano Teixeira, sobrecapa de Carybé, ilustrações de Floriano Teixeira com vinhetas por Pedro Costa; retrato do autor por Jordão de Oliveira, foto da sobrecapa de Zélia Gattai. Em 1978, foi publicada uma edição especial de luxo, a 43ª, edição limitada, com 71 páginas duplas, capa e ilustrações de Carybé pelas Edições Alumbramento Livroarte Editora Ltda., do Rio de Janeiro.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, árabe, azerbaidjano, búlgaro, chinês, dinamarquês, espanhol, esperanto, finlandês, francês, hebraico, húngaro, inglês, italiano, japonês, lituano, macedônio, moldávio, polonês, russo e tcheco.
Teatro: Quincas Berro Dágua, adaptação de João Augusto Azevedo, encenada pelo Teatro Livre da Bahia, Roberto Santana Produções, no Teatro Vila Velha, em novembro/dezembro de 1972 e no Teatro Castro Alves, em fevereiro de 1976, ambas em Salvador, Bahia; em 1988, adaptação de Yvon Chaix, na França; em agosto de 1995, adaptação de Claudius Portugal, Teatro Castro Alves, Salvador.
Televisão: adaptação para telenovela, TV Tupi, Rio de Janeiro, 1968; As mortes de Quincas Berro Dágua, adaptação de Wálter Avancini e James Amado, Rede Globo de Televisão, na série “Caso Especial”, dezembro de 1978, com a participação de Paulo Gracindo, Dina Sfat, Stênio Garcia, Flávio Migliaccio, Antônio Pitanga e outros.
Último texto
Nem a rosa, nem o cravo...
Jorge Amado
As frases perdem seu sentido, as palavras perdem sua significação costumeira, como dizer das árvores e das flores, dos teus olhos e do mar, das canoas e do cais, das borboletas nas árvores, quando as crianças são assassinadas friamente pelos nazistas? Como falar da gratuita beleza dos campos e das cidades, quando as bestas soltas no mundo ainda destroem os campos e as cidades?
Já viste um loiro trigal balançando ao vento? É das coisas mais belas do mundo, mas os hitleristas e seus cães danados destruíram os trigais e os povos morrem de fome. Como falar, então, da beleza, dessa beleza simples e pura da farinha e do pão, da água da fonte, do céu azul, do teu rosto na tarde? Não posso falar dessas coisas de todos os dias, dessas alegrias de todos os instantes. Porque elas estão perigando, todas elas, os trigais e o pão, a farinha e a água, o céu, o mar e teu rosto. Contra tudo que é a beleza cotidiana do homem, o nazifascismo se levantou, monstro medieval de torpe visão, de ávido apetite assassino. Outros que falem, se quiserem, das árvores nas tardes agrestes, das rosas em coloridos variados, das flores simples e dos versos mais belos e mais tristes. Outros que falem as grandes palavras de amor para a bem-amada, outros que digam dos crepúsculos e das noites de estrelas. Não tenho palavras, não tenho frases, vejo as árvores, os pássaros e a tarde, vejo teus olhos, vejo o crepúsculo bordando a cidade. Mas sobre todos esses quadros bóiam cadáveres de crianças que os nazis mataram, ao canto dos pássaros se mesclam os gritos dos velhos torturados nos campos de concentração, nos crepúsculos se fundem madrugadas de reféns fuzilados. E, quando a paisagem lembra o campo, o que eu vejo são os trigais destruídos ao passo das bestas hitleristas, os trigais que alimentavam antes as populações livres. Sobre toda a beleza paira a sombra da escravidão. É como u'a nuvem inesperada num céu azul e límpido. Como então encontrar palavras inocentes, doces palavras cariciosas, versos suaves e tristes? Perdi o sentido destas palavras, destas frases, elas me soam como uma traição neste momento.
Mas sei todas as palavras de ódio, do ódio mais profundo e mais mortal. Eles matam crianças e essa é a sua maneira de brincar o mais inocente dos brinquedos. Eles desonram a beleza das mulheres nos leitos imundos e essa é a sua maneira mais romântica de amar. Eles torturam os homens nos campos de concentração e essa é a sua maneira mais simples de construir o mundo. Eles invadiram as pátrias, escravizaram os povos, e esse é o ideal que levam no coração de lama. Como então ficar de olhos fechados para tudo isto e falar, com as palavras de sempre, com as frases de ontem, sobre a paisagem e os pássaros, a tarde e os teus olhos? É impossível porque os monstros estão sobre o mundo soltos e vorazes, a boca escorrendo sangue, os olhos amarelos, na ambição de escravizar. Os monstros pardos, os monstros negros e os monstros verdes.
Mas eu sei todas as palavras de ódio e essas, sim, têm um significado neste momento. Houve um dia em que eu falei do amor e encontrei para ele os mais doces vocábulos, as frases mais trabalhadas. Hoje só 0 ódio pode fazer com que o amor perdure sobre o mundo. Só 0 ódio ao fascismo, mas um ódio mortal, um ódio sem perdão, um ódio que venha do coração e que nos tome todo, que se faça dono de todas as nossas palavras, que nos impeça de ver qualquer espetáculo - desde o crepúsculo aos olhos da amada - sem que junto a ele vejamos o perigo que os cerca.
Jamais as tardes seriam doces e jamais as madrugadas seriam de esperança. Jamais os livros diriam coisas belas, nunca mais seria escrito um verso de amor. Sobre toda a beleza do mundo, sobre a farinha e o pão, sobre a pura água da fonte e sobre o mar, sobre teus olhos também, se debruçaria a desonra que é o nazifascismo, se eles tivessem conseguido dominar o mundo. Não restaria nenhuma parcela de beleza, a mais mínima. Amanhã saberei de novo palavras doces e frases cariciosas. Hoje só sei palavras de ódio, palavras de morte. Não encontrarás um cravo ou uma rosa, uma flor na minha literatura. Mas encontrarás um punhal ou um fuzil, encontrarás uma arma contra os inimigos da beleza, contra aqueles que amam as trevas e a desgraça, a lama e os esgotos, contra esses restos de podridão que sonharam esmagar a poesia, o amor e a liberdade!
O texto acima foi publicado no jornal "Folha da Manhã", edição de 22/04/1945, e consta do livro "Figuras do Brasil: 80 autores em 80 anos de Folha", PubliFolha - São Paulo, 2001, pág. 79, organização de Arthur Nestrovski.
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