quinta-feira, 10 de maio de 2012


JORGE AMADO, ANÁLISES  E SUAS OBRAS

Livros inéditos e a mão de Zélia
Os poemas que o baiano escreveu em 1938 são marcados por lugares-comuns (1);
os erros ortográficos nos rascunhos de Gabriela, corrigidos pela mulher (2);
e trechos do romance Rui Barbosa Número 2, de 1932, dominado pelo tom panfletário: ele gostava de guardar em casa tudo o que escrevi.

Rascunhos e textos inéditos de Jorge Amado serão lidos agora. Eles revelam um escritor obcecado  em alcançar  a maturidade artística

Nacionalidade  Jorge Amado, nos anos 1970: metódico na construção  de seus personagens, ele submetia os textos aos familiares e chegava a reescrever um mesmo capítulo dezenas de vezes, sem se dar por satisfeito.
Fenômeno literário com mais de 20 milhões de livros vendidos em 55 países, o baiano Jorge Amado (1912-2001) foi um frequente alvo dos críticos – que atribuíam seu estilo pouco erudito a certo desleixo, quando não a uma "preguiça", em relação ao texto. Assim resumia nos anos 1940 o modernista Mário de Andrade, em carta ao aspirante a escritor Fernando Sabino, a opinião de intelectuais da época acerca do baiano: "Garanto que você pode ir longe. Mas não como um Jorge Amado, com pouco trabalho, ignorância muita e criação de sobra. Você tem de trabalhar dia por dia. Como um Machado de Assis". Quase uma década depois da morte de Amado, um conjunto de rascunhos datilografados (e muito rasurados) por ele durante a produção de 25 de seus livros descortina um lado até então desconhecido de seu intenso processo criativo. A coleção de papéis – um calhamaço de 17.000 páginas que a Fundação Casa de Jorge Amado, em Salvador, está digitalizando para disponibilizar na internet até agosto – revela um autor extremamente sistemático na construção do texto, capaz de reescrever um mesmo trecho dezenas de vezes, sem se dar por satisfeito. De "possuidor de má fama", por exemplo, o capitão Justiniano Duarte da Rosa, amante da personagem-título de um de seus livros de maior sucesso, Tereza Batista Cansada de Guerra, torna-se (na quarta versão) um sujeito "atrabiliário, violento, brigão, maus bofes e maus instintos".
Há um consenso entre os poucos especialistas que já se debruçaram sobre a pilha de escritos de que ela traz à luz um autor para quem o ato de escrever era profundamente racional – e não motivado pela intuição, como se pensava. Afirma o historiador Alberto da Costa e Silva, estudioso da obra de Jorge Amado: "Seu estilo simples e direto é, na realidade, fruto de um trabalho incansável, que chama atenção pela autocrítica severa e por um esmero nos detalhes". A série de rascunhos revela ainda uma Zélia Gattai, escritora com quem o baiano foi casado por 56 anos, no papel de crítica implacável. Zélia era, antes de tudo, uma revisora atenta, que lia os escritos do marido assinalando os frequentes erros de português (Amado jamais absorveu as mudanças ortográficas estabelecidas em 1943). A escritora, a quem ele se referia como "minha cúmplice na aventura da vida", palpitava ainda sobre o destino dos personagens, construídos meticulosamente. Para se ter uma ideia, às voltas com a criação de Tereza Batista, em 1972, Jorge Amado decidiu, a pedido da mulher, trocar de lugar o dente dourado da protagonista, de modo a escondê-lo. "Cada vez que Tereza sorrir, será uma tristeza", Zélia argumentava. Esse único detalhe consumiu horas a fio de exaustiva discussão. Além das sugestões da mulher, Amado considerava ainda as opiniões da filha Paloma, do irmão James e da cunhada Luíza, que conta a VEJA: "Quando Jorge aprovava uma ideia, ele a acrescentava ao livro, que ia ficando maior a cada nova versão".
O acervo da Casa de Jorge Amado guarda ainda dois títulos inéditos do autor, ambos escritos na juventude: o romance Rui Barbosa Número 2, de 1932 (que se seguiu à sua estreia, com O País do Carnaval), e A Estrada do Mar, livreto de poemas de 1938. Os estudiosos concordam que nem de longe eles fazem lembrar o escritor que atingiria o ápice com obras como Dona Flor e Seus Dois Maridos e A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água, eternizados pelos tipos bem brasileiros e pela narrativa recheada de humor e ironia. Os textos inéditos mostram um escritor ainda muito imaturo, afeito a clichês e jargões de militante (justamente àquela época, Amado havia se filiado ao Partido Comunista, em que permaneceria até 1956). Ele tinha apenas 20 anos quando escreveu Rui Barbosa Número 2, cujo personagem-título, que ganhou essa alcunha pela oratória afiada, tem como amigo um sujeito em dúvida entre a adesão ao comunismo e "a rendição ao sistema". Desaconselhado a publicá-lo, o baiano contaria em seu livro de memórias, Navegação de Cabotagem, que, muito decepcionado, decidira jogar o original no lixo. Anos mais tarde, ele apareceria em meio aos rascunhos de Amado. Quanto aos poemas (veja exemplo ao lado), eles pecam pelo lugar-comum. Um dos raros a lê-los, o doutor em letras José Maurício de Almeida, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, conclui: "Jorge Amado fez inúmeras tentativas fracassadas, até se tornar de fato um escritor de relevo".
Autor brasileiro mais adaptado para o cinema e a televisão, Amado foi também o primeiro a ter sua obra amplamente difundida no exterior. Em 1948, com o Partido Comunista posto na ilegalidade e seu mandato de deputado federal cassado, ele decidiu mudar-se para Paris, onde manteve amizade com intelectuais e artistas como Jean Paul-Sartre e Pablo Picasso. Vaidoso, guardava absolutamente tudo o que escrevia – uma montanha de papéis que lotava as caixas espalhadas por todos os aposentos de sua casa, no bairro do Rio Vermelho, em Salvador. Quinze anos antes de morrer, ele doou esse material à fundação. Trata-se de um caso bem raro de preservação de acervo pessoal por parte de um escritor brasileiro, algo relevante. Os rascunhos de Jorge Amado, afinal, ajudam a compreender melhor o grande escritor.

Suor, 1934



Jorge Amado continua, ainda por um bom tempo, trilhando a estrada da literatura socialista, até realizar a sua ruptura com os padrões estéticos estabelecidos pelo comunismo internacional. Assim é que, em 1934, publica Suor, seu terceiro romance, de feitio algo naturalista. Suor é saudado com entusiasmo pelo poeta Oswald de Andrade, que o define como “pequeno grande livro”, focalizando “os cortiços azedos da Bahia”. Na verdade, o que Jorge Amado tematiza é a vida miserável e promíscua da gente amontoada num velho sobrado do Pelourinho, em meio a ratos, baratas e cachorros. Velhos, prostitutas e homossexuais passam pelas páginas do livro, onde se ilumina a figura de Linda, jovem que vai se ligar a um líder operário, o mecânico Álvaro, iniciando-se, assim, em projetos de transformação social. Num comício baiano, Álvaro cai morto, atingido por uma bala disparada pela polícia. Mas Linda não abandona idéias, nem ideais. Vai em frente, distribuindo panfletos subversivos, em cumprimento de sua missão revolucionária, em busca de um mundo novo.
A criação do romance teve origem na vivência do próprio autor, que, em 1928, com dezesseis anos de idade, residiu num cômodo de um dos sobrados coloniais do Largo do Pelourinho, Salvador, Bahia. Terminado de escrever em março de 1934, no Rio de Janeiro, o romance teve sua 1ª edição pela Ariel Editora, Rio de Janeiro, em agosto de 1934, com 211 páginas e capa de Santa Rosa.
A partir de 1941 e até a 29ª edição, 1974, ilustrada por Mário Cravo Júnior, foi publicado pela Livraria Martins Editora, São Paulo, completando o trio do primeiro tomo das “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, volume III. Como as antigas edições, em separado, à parte da coleção, a 30ª edição, com as mesmas ilustrações e reproduzindo a capa de Santa Rosa, retrato do autor por Carlos Bastos e foto do autor por Zélia Gattai, foi lançada em convênio com a Livraria Martins Editora, São Paulo, pela Editora Record, Rio de Janeiro, com 164 páginas, em agosto de 1975.
A 49ª edição, 1998, 17ª pela Editora Record, é a mais recente.
Em 1989, foi alvo de comemorações pelos 55 anos de publicação com o seminário “A presença do espaço geográfico na criação ficcional brasileira contemporânea”, organizado pela Fundação Casa de Jorge Amado.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, espanhol, francês, inglês, italiano, polonês, russo e tcheco.

Suor, 1934



Jorge Amado continua, ainda por um bom tempo, trilhando a estrada da literatura socialista, até realizar a sua ruptura com os padrões estéticos estabelecidos pelo comunismo internacional. Assim é que, em 1934, publica Suor, seu terceiro romance, de feitio algo naturalista. Suor é saudado com entusiasmo pelo poeta Oswald de Andrade, que o define como “pequeno grande livro”, focalizando “os cortiços azedos da Bahia”. Na verdade, o que Jorge Amado tematiza é a vida miserável e promíscua da gente amontoada num velho sobrado do Pelourinho, em meio a ratos, baratas e cachorros. Velhos, prostitutas e homossexuais passam pelas páginas do livro, onde se ilumina a figura de Linda, jovem que vai se ligar a um líder operário, o mecânico Álvaro, iniciando-se, assim, em projetos de transformação social. Num comício baiano, Álvaro cai morto, atingido por uma bala disparada pela polícia. Mas Linda não abandona idéias, nem ideais. Vai em frente, distribuindo panfletos subversivos, em cumprimento de sua missão revolucionária, em busca de um mundo novo.
A criação do romance teve origem na vivência do próprio autor, que, em 1928, com dezesseis anos de idade, residiu num cômodo de um dos sobrados coloniais do Largo do Pelourinho, Salvador, Bahia. Terminado de escrever em março de 1934, no Rio de Janeiro, o romance teve sua 1ª edição pela Ariel Editora, Rio de Janeiro, em agosto de 1934, com 211 páginas e capa de Santa Rosa.
A partir de 1941 e até a 29ª edição, 1974, ilustrada por Mário Cravo Júnior, foi publicado pela Livraria Martins Editora, São Paulo, completando o trio do primeiro tomo das “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, volume III. Como as antigas edições, em separado, à parte da coleção, a 30ª edição, com as mesmas ilustrações e reproduzindo a capa de Santa Rosa, retrato do autor por Carlos Bastos e foto do autor por Zélia Gattai, foi lançada em convênio com a Livraria Martins Editora, São Paulo, pela Editora Record, Rio de Janeiro, com 164 páginas, em agosto de 1975.
A 49ª edição, 1998, 17ª pela Editora Record, é a mais recente.
Em 1989, foi alvo de comemorações pelos 55 anos de publicação com o seminário “A presença do espaço geográfico na criação ficcional brasileira contemporânea”, organizado pela Fundação Casa de Jorge Amado.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, espanhol, francês, inglês, italiano, polonês, russo e tcheco.

O país do carnaval, 1931



1930. Tempo de maré agitada, de ondas fortes, no Brasil. O estudante Jorge Amado já não é a criança carregada da fazenda onde nasceu para a cidade de Ilhéus; nem o jovenzito irrequieto que acabou fugindo do internato do Colégio Antonio Vieira, em Salvador, para se refugiar na casa da avó, na cidade sergipana de Itaporanga. Está morando agora no Rio de Janeiro, onde faz o curso de Direito. Mas é, ainda, um adolescente. E, aos 18 anos de idade, acaba de escrever o seu primeiro romance. No ano seguinte, o volume vem à luz. Chama-se O país do Carnaval. É a estréia literária do autor. Bem recebido pela crítica e pelo público, Jorge Amado fala, nesse livro, de uma juventude plena de inquietude, numa ansiosa e mesmo angustiada busca de verdades e caminhos. Trata-se, em suma, de um retrato geracional — tecido a partir das rondas de Paulo Rigger pelas rodas boêmias e literárias da Cidade da Bahia, em inícios do século XX. No final, insatisfeito e desencantado, marcado por uma renúncia preconceituosa à chegada do amor, Rigger embarca, no porto do Rio de Janeiro, com destino à Europa. Leva com ele as suas dores, deixando atrás de si uma cidade alucinada pelos ritmos e brilhos do carnaval.
O primeiro romance de Jorge Amado teve sua redação concluída no Rio de Janeiro, em dezembro de 1930, e sua 1ª edição, pela Schmidt Editor, Rio de Janeiro, em setembro de 1931, com 217 páginas, mil exemplares, e carta-prefácio do poeta Augusto Frederico Schmidt. A 2ª edição, com tiragem de dois mil exemplares, é de julho de 1932. Depois de ser reeditado pela Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, a partir de 1941, passou a ser editado pela Livraria Martins Editora, São Paulo, integrando, com os romances Cacau e Suor, o primeiro tomo da coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, volume I, capa de Carybé e ilustrações de Darcy Penteado.
A partir da 30ª edição, 1976, vem saindo pela Editora Record, Rio de Janeiro, com capa de Di Cavalcanti, ilustrações de Darcy Penteado, retrato do autor por Flávio de Carvalho e foto do autor por Zélia Gattai, em volume separado, com 183 páginas. Em 1999, foi publicada a 49ª edição.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o espanhol, francês e italiano.

Cacau, 1933



Jorge Amado praticamente não deixou assentar a poeira da estréia. Em 1932, a segunda edição de O país do Carnaval chega às livrarias. E, logo em seguida, o romancista volta à carga, com a pólvora de Cacau. O livro, espécie de romance-reportagem composto sob o influxo das teses sobre uma “literatura socialista”, espanta. Chega a chocar – pelo tom, pelo tema, pela linguagem. A edição é imediatamente apreendida pela polícia. Mas, no dia seguinte, o livro é liberado, graças ao então ministro do Exterior, Osvaldo Aranha. Escândalo e sucesso se casam — e a edição se esgota em um mês. É o primeiro livro de Jorge Amado a ser traduzido para uma outra língua – no caso, o espanhol. Depois virão as traduções para o alemão, o coreano, o dinamarquês, o francês, o grego, o holandês, o italiano, o polonês, o russo. E assim a história da vida nos cacauais da Bahia vai principiar a correr o mundo. Cacau é a narrativa das aventuras de José Cordeiro – o Sergipano -, trabalhador numa fazenda, onde divide um casebre com alguns companheiros de labuta e sofrimento. É um homem que recusa a oportunidade de se casar com a filha do patrão, para levar adiante, “de coração limpo e feliz”, o seu sonho revolucionário. A essa altura, como se vê, Jorge Amado já mergulhara na militância comunista. E Cacau é um livro em chamas. Um livro panfletário, escrito com o fogo da indignação.
Primeiro romance do “ciclo do cacau”, foi concluído em junho de 1933 e teve sua 1ª edição pela Ariel Editora, Rio de Janeiro, em agosto de 1934, com capa e ilustrações de Santa Rosa, 197 páginas e tiragem de dois mil exemplares. A 2ª edição é de setembro do mesmo ano, com três mil exemplares. A partir de 1941, foi editado pela Livraria Martins Editora, São Paulo, com ilustrações de Santa Rosa, integrando o primeiro tomo da coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, até a 30ª edição, em 1975.
Em volume separado, como era inicialmente, o romance passou depois a ser publicado sem as ilustrações originais, mas reproduzindo a capa de Santa Rosa, pela Editora Record, Rio de Janeiro.
A 51ª edição, 1998, é a mais recente, pela Editora Record, com fixação de texto por Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, capa de Pedro Costa com ilustrações de Santa Rosa, sobrecapa e ilustração de Santa Rosa em vinhetas recuperadas por Pedro Costa, retrato do autor por Jordão de Oliveira, fotografia da sobrecapa de Zélia Gattai.
Cacau foi o primeiro livro de Jorge Amado traduzido para o espanhol, em julho de 1935, por Héctor F. Miri, escritor argentino. Teve também traduções em alemão, basco, coreano, dinamarquês, francês, grego, holandês, italiano, polonês e russo, além de ter sido publicado em edição portuguesa.
Em 1993, foi publicado pelo Jornallivros da UNESCO e distribuído como suplemento nos principais jornais do mundo, em edição bilíngüe (português e espanhol), tradução de Estela dos Santos, com ilustração de Carybé.

Jubiabá, 1934



O país do Carnaval, Cacau e Suor podem ser encarados como obras de uma adolescência fecunda, escritas entre os 18 e os 22 anos de idade. Mas Jubiabá, ainda que trabalho de um escritor bastante jovem, parece significar um corte – ou um salto. O romance amadiano como que ganha uma outra dimensão. Publicado em 1935, é um retrato vigoroso da vida negra e mestiça pelos meandros da Cidade da Bahia e seu Recôncavo. Seu impacto não só foi imediato, mas forte. No Brasil e no exterior. O escritor francês Albert Camus, por exemplo, não mediu palavras para expressar a sua admiração: “Um livro magnífico e estonteante”. E mais: “Poucos livros se afastam tanto dos jogos gratuitos da inteligência. Eu vejo aqui, ao contrário, uma utilização comovente de temas folhetinescos, um abandono à vida no que ela tem de excessivo e de desmesurado”. Acompanhando as revoltas e reviravoltas do órfão Antonio Balduíno – que vai de mendigo a músico, de capoeirista a boxeador, de trabalhador nas plantações de fumo do Recôncavo a inflamado orador sindical -, Camus conclui: “Jubiabá é um romance onde toda a importância é dada à vida… ao conjunto de gestos e gritos, a uma certa ordenação de impulsos e desejos, a um equilíbrio do sim e do não, a um movimento de paixão que não precisa de comentários”.
Começado a escrever em meados de 1934, na cidade de Conceição de Feira, Bahia, o romance foi concluido no Rio de Janeiro, e sua 1ª edição saiu pela Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, em setembro de 1935, com capa de Santa Rosa, 372 páginas. A partir de 1941, passou a ser editado pela Livraria Martins Editora, São Paulo, integrando, como segundo tomo, a coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, volume IV, com capa e ilustrações de Carybé e retrato do autor por Carlos Scliar. Da 30ª edição em diante, vem sendo publicado pela Editora Record, Rio de Janeiro, 1975, com capa de Di Cavalcanti, ilustrações de Carybé, retrato do autor por Flávio de Carvalho e foto do autor por Zélia Gattai, 331 páginas. A 53ª edição, 17ª edição pela Editora Record, é a mais recente, de janeiro de 1996, com fixação de texto por Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, capa de Pedro Costa com ilustrações de Carybé, sobrecapa, 4ª capa com quadro de Quirino Silva, vinhetas de ilustrações de Carybé, retrato do autor por Jordão de Oliveira, fotografia da sobrecapa por Pedro Oswaldo Cruz. Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, basco, búlgaro, chinês, espanhol, francês, grego, húngaro, inglês, italiano, norueguês, polonês, romeno, russo e tcheco. Teatro: Jubiabá, adaptação de Roberto Alvim Correia, Rio de Janeiro, 1961; com o mesmo título, adaptação de Miroel Silveira, Rio de Janeiro, 1970. Rádio: Novela Jubiabá, Rádio São Paulo, São Paulo, 1946. Cinema e televisão: Foi adaptado por Nelson Pereira dos Santos, produção franco-brasileira da Regina Filmes e da Societé Française de Production, com música de Gilberto Gil, em duas versões: para o cinema e para a tevê. Foi exibido pela televisão francesa. Quadrinhos: Jubiabá, Editora Brasil-América, coleção “Edição Maravilhosa”, Rio de Janeiro, s/data.

Mar morto, 1936



Em 1936, Jorge Amado é preso pela primeira vez. Passa dois meses na cadeia, no Rio de Janeiro, por conta de suas atividades políticas. Ao deixar o presídio, sem um tostão no bolso, recebe uma proposta do editor José Olympio: 500 mil réis para escrever um novo romance. Jorge Amado topa. E em quinze dias – ou, mais exatamente, quinze noites – Mar morto está pronto. É a história de Guma, criança criada no cais da Bahia, e de seu amor por Lívia, a meiga Lívia, que, depois da morte do amado, torna-se ela mesma mestra de saveiro, deslizando à flor do mar. Na abertura do livro, aliás, o próprio Jorge Amado já vai avisando aos seus leitores: “Agora eu quero contar as histórias da beira do cais da Bahia. Os velhos marinheiros que remendam velas, os mestres de saveiros, os pretos tatuados, os malandros sabem essas histórias e essas canções. Eu as ouvi nas noites de lua no cais do Mercado, nas feiras, nos pequenos portos do Recôncavo, junto aos enormes navios suecos nas pontes de Ilhéus. O povo de Iemanjá tem muito que contar”. E foi em meio aos floreios marinhos desse livro de luares e de estrelas, sob o signo de Iemanjá dos cinco nomes, que o poeta Dorival Caymmi pescou palavras para ir compondo uma canção cristalina, É doce morrer no mar — canção destinada a encantar para sempre a sensibilidade musical brasileira.
Escrito no bairro da Gamboa de Cima, em Salvador, Bahia, em frente ao mar, e concluído no Rio de Janeiro, em junho de 1936, o romance recebeu o Prêmio Graça Aranha, 1936, quando foi publicada sua 1ª edição, pela Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, agosto de 1936, com capa de Santa Rosa, 346 páginas.
A partir de 1941, passou a ser editado pela Livraria Martins Editora, São Paulo, ilustrado, em 1961, com xilogravuras de Osvaldo Goeldi e, em 1970, 23ª edição, com capa de Carybé. Integrou a coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, da editora, como terceiro tomo, volume V, até a 38ª edição, 1975. A partir daí, a editoração foi assumida pela Editora Record, Rio de Janeiro, até a mais recente, agosto de 1997, 73ª edição, 32ª pela editora, com fixação de texto por Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, capa de Pedro Costa com ilustração de Osvaldo Goeldi, sobrecapa com quadro de Di Cavalcanti, ilustrações de Osvaldo Goeldi, vinhetas do mesmo artista por Pedro Costa, retrato do autor por Jordão de Oliveira e fotografia do autor por Zélia Gattai.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, búlgaro, chinês, espanhol, francês, grego, hebraico, húngaro, inglês, islandês, italiano, polonês, russo, sueco, tcheco e turco.
Rádio: novela Mar morto, Rádio Nacional, Rio de Janeiro, 1940 e Rádio São Paulo, São Paulo, 1945; Mar muerto, Rádio El Mundo, Buenos Aires, 1941.
Cinema: direitos para adaptação cinematográfica adquiridos por Carlo Ponti, Roma, 1957.
Quadrinhos: Mar morto, Editora Brasil-América, coleção “Edição Maravilhosa” nº 186, Rio de Janeiro, s/data.
Música: Dorival Caymmi compôs motivos diversos sobre o temaMar morto.

Capitães da Areia, 1937



O tempo vai fechando de vez no país. É a ditadura do Estado Novo que se implanta. Recolhido na cidade de Estância, no interior de Sergipe, Jorge Amado começara a escrever um outro livro, terminando a sua redação já a bordo do navio Rakuyo Maru, em viagem para o México. É Capitães da areia.
Uma história dos meninos-de-rua da Bahia, na década de 30. Narrativa do amor de Dora e Pedro Bala. Peripécias do bando de menores que perambula perigosamente pelas ruas e pelo cais de Salvador, cidade “negra e religiosa”, onde se projeta a personalidade da ialorixá Aninha, mãe-de-santo do Ilê Axé Opô Afonjá. Dora morre, doente, no trapiche enluarado. Pedro Bala é preso, foge, mete-se em greves de estivadores, até que se converte em “militante proletário, o camarada Pedro Bala”. O problema é que o livro é publicado em 1937, logo em seguida à implantação do Estado Novo, regime violentamente anticomunista. Assim, a edição é apreendida – e exemplares do livro são queimados em praça pública, na Cidade da Bahia, por representantes da ditadura. Mas de nada adiantou. Quando pôde voltar à cena, Capitães da areia conquistou o grande público e é ainda hoje um dos maiores sucessos de Jorge Amado.
Escrito na cidade de Estância, Sergipe, em março de 1937, e concluído em junho, a bordo do navio Rakuyo Maru, no Pacífico, às costas da América do Sul, rumo ao México, o romance foi lançado em 1ª edição pela Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, em setembro de 1937, com 344 páginas.
A 2ª edição, 1944, saiu pela Livraria Martins Editora, São Paulo, com ilustrações de Poty e, a partir de 1970, com capa de Carybé e retrato do autor por Carlos Scliar, constituindo o tomo quarto, volume VI, da coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, até a 38ª edição, 1975.
Da 39ª edição em diante, passou a ser publicado pela Editora Record, Rio de Janeiro. A 98ª, 1999, a edição mais recente, 57ª desta editora, com fixação de texto por Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, tem capa de Pedro Costa, sobrecapa com reprodução de quadro de Aldemir Martins, vinhetas das ilustrações de Poty por Pedro Costa, retrato do autor por Jordão de Oliveira, foto do autor por Zélia Gattai.
No exterior, além da edição portuguesa, foram feitas traduções para o alemão, árabe, croata, espanhol, francês, grego, húngaro, inglês, italiano, japonês, libanês, norueguês, russo, tcheco e ucraniano.
Teatro: espetáculo adaptado pelo padre Valter Souza, Salvador, 1958; adaptação de Carlos Wilson, encenada por diversos grupos teatrais no Brasil e no exterior; adaptação de Roberto Bomtempo, pela Companhia Baiana de Patifaria, 2002.
Dança: espetáculo adaptado pelo Grupo Êxtase, Minas Gerais, 1988; por Raymond Foucalt e Plinio Mosca, França, 1988; por Friederich Gerlach, Alemanha, 1971; por Nanci Gomes Alonso, Argentina, 1987.
Cinema: filme Capitães da areia, adaptação do cineasta Hall Bartlet, Los Angeles, Estados Unidos, 1971, com algumas cenas exteriores tomadas em Salvador. Exibido nos Estados Unidos e em outros países, continua inédito no Brasil.
Televisão: minissérie, Rede Bandeirantes, direção de Walter Lima Jr., roteiro e adaptação de José Loureiro e Antônio Carlos Fontoura, 1989.
Quadrinhos: adaptado por Ruy Trindade, publicado pela Secretaria da Cultura e Turismo do Estado da Bahia, 1995.
A Fundação Casa de Jorge Amado comemorou os 50 anos do romance, em 1987, com seminários, lançamentos de livros e exposições em Salvador e Brasília e com uma edição fac-similar da sua 1ª edição com tiragem numerada de 1.000 exemplares, publicada com a colaboração do Governo de Brasília e da Editora Record.

CAPITÃES DA AREIA: RAZÕES PARA LER E PARA VER

Divulgação
“É aqui também que mora o chefe dos Capitães da Areia Pedro Bala. Desde cedo foi chamado assim, desde seus cinco anos. Hoje tem 15 anos. Há dez que vagabundeia nas ruas da Bahia. Nunca soube de sua mãe, seu pai morrera de um balaço. Ele ficou sozinho e empregou anos em conhecer a cidade. Hoje sabe de todas as suas ruas e de todos os seus becos” (p. 21).
A desilusão da vida que não se sabe quando finda. Pedro Bala e seu grupo de Capitães da Areia, perdidos, miseráveis, sórdidos, sem norte, esquecidos, foram jogados nas telas dos cinemas e de lá conseguiram, através de mais um suporte, honrar seu criador. Jorge Amado é considerado um dos maiores de nossa história literária e não é por acaso, evidente. De suas páginas surgiram personagens que navegam no imaginário brasileiro, assim como pessoas que realmente existiram e marcaram no tempo um quê de importância subjetiva. Mas além de não existirem na realidade, Dona Flor, Pedro Bala, Tieta do Agreste ou Gabriela não existem sem a força de uma escrita tão viva que nos faça sentir o sol quente da Bahia ou o navegar da embarcação até Ilhéus como se estivéssemos a receber uma história verídica de um conhecido. Jorge Amado fez de seu romance regionalista um artefato palpável e extraordinário. Em Capitães da Areia, o cunho realista se esbanja. Mesmo que sua sapiência literária construa narrações opulentas gramaticalmente, seus romances ficcionais são singulares, contudo, de leitura simples. E um leitor de Jorge Amado pode até deslembrar alguma mísera parte de uma narrativa lida na juventude, mas como Vadinho, Dora, e tantos outros exalam peculiaridades tão sensíveis, torna-se dificílimo esquecê-los.
O escritor baiano só foi menos lido do que o mago Paulo Coelho, mas dados como esse não merecem ser levados a sério. Jorge Amado escreveu literatura brasileira merecedora do prêmio Camões de 1994. Foi traduzido em 55 países através de 49 idiomas. É o autor mais adaptado na televisão brasileira e agora, na véspera das comemorações de 100 anos de seu nascimento, em 2012, Amado surgiu como o melhor presente ao cinema brasileiro do ano: Capitães da Areia é intenso com os pés afundados no mar da sensibilidade. São meninos, são homens, são ninguéns. Mas dos Capitães da Areia recebemos o timbre doce do sabor amargo que faz o livro crescer, crescer e tornar-se uma boa memória de tempos vividos entre dezenas de garotos de rua que criaram através do apego que os mantém unidos um verdadeiro reino de areia. Capitães, em palavras e imagens, duas belas manifestações da cultura brasileira de qualidade.
O autor de Capitães da Areia, o sexto livro escrito pelo baiano, repassou às suas obras seu viés abertamente comunista. Talvez os capitães sejam a expressão-mor desta qualidade em retratar a vida mostrando a partir de cada figura o todo, e construindo o todo a partir da demonstração de cada um dos personagens. Para a gramática, chamaríamos de metonímia, a figura de linguagem que consiste em tomar uma parte para representar a totalidade. Um menino de rua é o rosto de todo o trapiche abandonado, uma trapaça é a maneira usada e vivida por todos para abiscoitarem dinheiro e assim sucessivamente. Pelo viés político, Capitães da Areia não seria nada diferente ao sistema socialista de viver o mundo, tendo no aglomerado a sobrevivência análoga de todos. A luta de Pedro Bala é a mesma de “Gato”, que é a mesma de Dora e assim por diante. E quem não se ajusta ao preceito de vida em conjunto, dormindo na escuridão do trapiche sem medo de punhaladas, acaba tendo que largar a “boa vida” de existir enquanto único, tendo os braços dos outros continuamente para carregar o peso da existência. Quem rouba do grupo e, portanto, quem rouba de si mesmo, não é bem-vindo. E quem não percebe a autoridade de princípios coletivos e organização atrasa-se em tornar-se literalmente mais um capitão.
E Amado, como um grande que era, expõe de forma impercebível os conceitos que regem estes meninos. O personagem de Pedro Bala pode discorrer teses sobre as façanhas do autor em construir um moleque audacioso, bruto e amargurado com uma essência humana afetuosa submergida nas dores de viver a pobreza e as injustiças. Pedro é órfão de um pai assassinado enquanto fazia greve. Mãe sumida. Sem hierarquização definida, o grupo se compreende pelas façanhas íntimas de cada um. Pedro tem espírito de liderança, mas ninguém dos mais próximos pode se sentir menor ou comandado. Pedro é a decisão do todo, é o chamado do grande grupo. “Professor” é a técnica, o saber “científico” de maior relevância e assim comanda as trapaças e pequenos roubos a serem executados. De noite, “Professor” lê para os meninos aventuras literárias que consertam profundamente mais um dia de solidão em bando, por mais que a afirmativa soe estranho.
Professor lê uma história para os meninos/Divulgação
“Desde o dia em que furtara um livro de histórias numa estante de uma casa da Barra, se tomara perito nestes furtos. Nunca, porém, vendia os livros, que ia empilhando num canto do trapiche, sob tijolos, para que os ratos não os roessem. Lia-os todos numa ânsia que era quase febre”(p.25).
De modo óbvio, a experiência dos Capitães da Areia não era um mar de rosas. Um grupo de meninos que beirava o número de 100 integrantes não conseguiria ser assim tão discreto e preparado. Brigas e desentendimentos aparecem do início ao fim da obra literária. Já nas telas do cinema, a aura de centenas de moleques famintos, órfãos, marginalizados, é alterada para um formato menos trágico, mesmo que a história seja uma sucessão de dramas com cavidades lacônicas de malandragem espirituosa. No livro, a raiva de “Volta Seca” é mostrada através do ódio que sentia contra as autoridades e o desejo de se tornar cangaceiro. Por fim, em ambos os espaços, livro e película, integra-se ao grupo de Lampião, transformando-se em um frio e sanguinário assassino.
Jorge Amado alcança a máxima figura da dubiedade quando mostra a meninice dos marginais miseráveis ao depararem-se com um carrossel mambembe todo iluminado a girar com seus cavalos a subir e a descer. Figuram-se ali todas as sutilezas infantis e a ansiedade no sorriso rasgado dos meninos que são sujeitados a ser outra coisa que não crianças. Para tornar o filme “Capitães da Areia” ainda mais magistral, uma trilha sonora perfeita, assinada pelo músico Carlinhos Brown, vai se achegando a cada cena, marcando em som e imagens passagens bucólicas, esplêndidas e/ou melancólicas. Uma adaptação que com certeza fará muitos regressarem ao livro e tantos outros ansiarem encontrá-lo pela primeira vez. O Brasil agradece.
Direção: Cecília Amado, neta de Jorge Amado, e Guy Gonçalves Elenco: Jean Luis Souza de Amorim, Ana Graciela Conceição da Silva, Romário Santos de Assis, Israel Vinícius Gouvêa de Souza, Elielson Santos da Conceição e Paulo Raimundo Abade Silva Produção: Bernardo Garcia Stroppiana e Cecília Amado
Roteiro: Hilton Lacerda e Cecília Amado Fotografia: Guy Gonçalves, ABC
Trilha Sonora: Carlinhos Brown Ano: o mesmo de “O palhaço” e “Elvis e Madonna”. A última edição do livro é da Companhia das Letras
CAPITÃES DA AREIA: RAZÕES PARA LER E PARA VER, pelo viés de Bibiano Girard.

ABC de Castro Alves, 1941



Muito embora o próprio autor classifique de louvação seu estudo, advertindo ser “um livro pobre de bibliografia” e tratar-se mais especificamente de “uma biografia do poeta que mesmo do homem”, a verdade é que, bem ao contrário, o texto demonstra ter sido lido e exterminado tudo ou quase tudo anteriormente publicado sobre Castro Alves, além disso, todos os passos mais importantes da breve caminhada do poeta pelo mundo são acompanhados pelo biógrafo. Relatada em forma de conversação meio lírica e afetuosa, mas resultando substancialmente num hino às liberdades essenciais como fundamento para inteira garantia dos direitos do homem. O mundo atravessava, na ocasião em que o livro foi escrito, um dos momentos difíceis da História e a nossa pátria sofria também sob o guante da ditadura estado-novista, circunstâncias essas que dão àquele trabalho literário a significação de um corajoso pronunciamento como contribuição à luta pela restauração da Democracia.
Terminado de escrever na Urca, no Rio de Janeiro, a 21 de março de 1941, o livro foi lançado em 1ª edição pela Livraria Martins Editora, de São Paulo, no mês de agosto de 1941, quando o autor, por motivos políticos, se encontrava no Prata, tendo sido proibida sua vendagem e exibição nas livrarias pela censura do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Constava a edição príncipe de 386 páginas e era ilustrada por Santa Rosa Júnior. Passou a integrar a coleção Obras Ilustradas de Jorge Amado, da Livraria Martins Editora, de São Paulo, como quinto tomo, volume VII, com capa de Carybé, ilustrações de Iberê Camargo e retrato do autor por Carlos Scliar até a 24ª edição, 1975, quando foi liquidada a dita empresa, passando à Editora Record, do Rio de Janeiro, a exclusividade das editorações, sendo lançada a 25ª edição, 1977, com 327 páginas, capa de Floriano Teixeira, ilustrações de Iberê Camargo, retrato do autor por Flávio de Carvalho e foto do autor por Zélia Gattai. A mais recente é a 36ª edição, 11ª pela Record, publicada em janeiro de 1992, com as mesmas características.
No estrangeiro, o ABC de Castro Alves foi editado em Portugal e traduzido para os seguintes idiomas: espanhol, finlandês, francês, polonês, russo e tcheco.
Dança: foi adaptado com o título de Sonhos de Castro Alves, balé idealizado por Antonio Carlos Cardoso, com coreografia de Víctor Navarro, música de Egberto Gismonti, encenado pelo Balé do Teatro Castro Alves.

O cavaleiro da esperança, 1942



É a história da vida do chefe da famosa Coluna Prestes que, em 1924, partindo de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, realiza uma marcha de cerca de trinta mil quilômetros pelo interior do Brasil, atravessando as regiões do Centro, do Nordeste e do Norte, até o Maranhão, daí retornando rumo Sul e Oeste, para afinal ir asilar-se na Bolívia. Mais uma exaltação à luta pela liberdade e de repúdio à opressão do que propriamente uma biografia, O cavaleiro da esperança foi escrito num momento em que as circunstâncias eram excepcionais: o Brasil estava sob a ditadura estado-novista e o mundo sofria a guerra nazifascista. Era imperioso que a dignidade humana se opusesse, de toda maneira, aos inimigos do direito, da justiça, do progresso. O novelista, exilado no Prata, não vacilou em dar a sua contribuição ao esforço de todos quantos se empenhavam na defesa dos direitos humanos.
Divulgado inicialmente na imprensa de Buenos Aires, por capítulos, em fins de 1941, traduzido por Pompeu Acióli Borges, o livro teve sua 1ª edição em espanhol intitulada Vida de Luiz Carlos Prestes, el caballero de la esperanza, em 1942, pela Editorial Claridad, Buenos Aires, 395 páginas.
A 1ª edição brasileira, junho de 1945, 366 páginas, é da Livraria Martins Editora, São Paulo, até a 12ª edição de 1952. Em 1948, a Livraria Martins Editora concedeu autorização à Editorial Vitória, Rio de Janeiro, para promover uma edição especial ilustrada por Renina Katz e outras edições simples, a última da série, a 17ª edição, de 1963. A Editora Record, Rio de Janeiro, detém atualmente os direitos de publicação, sendo a 36ª a edição mais recente, a 15ª edição desta editora, agosto de 1996.
Publicado em Portugal e traduzido para: albanês, alemão, árabe, búlgaro, chinês, espanhol, eslovaco, francês, grego, hebraico, holandês, húngaro, italiano, japonês, mongol, persa, polonês, romeno, russo e tcheco.
Rádio: adaptação com o título em tcheco de Ryter Nadeje, por Jiri Verton, divulgada pela Radiodifusão Tchecoeslovaca, de Praga, 1951

Terras do sem fim, 1943



Jorge Amado refugia-se na Argentina. Volta para o Brasil somente em 1942. Mas para ser novamente preso. Três meses de detenção no Rio de Janeiro. Por determinação da polícia, passa a viver em Salvador, onde escreve Terras do sem fim e São Jorge dos Ilhéus, publicados, respectivamente, em 1943 e 1944. Bem vistas as coisas, Terras do sem fim e São Jorge dos Ilhéus sugerem uma dupla. São livros que se irmanam em temas e problemas. Romances complementares, se assim se pode dizer, falam de terras virgens conquistadas para a lavoura e da formação da sociedade do cacau, transformando de modo radical uma região até então econômica e culturalmente inexpressiva. É o mundo de Ramiro Bastos e Juca Badaró, do feiticeiro Jeremias, do negro Damião, de advogados interioranos, capangas e prostitutas. Mundo violento, simultaneamente rico e miserável, paraíso dos chamados “coronéis do cacau”, inferno dos camponeses suarentos e esfarrapados. Mas há uma diferença. Terras do sem fim tematiza os primeiros tempos da região, as lutas sangrentas em torno do estabelecimento da propriedade. São Jorge dos Ilhéus, por sua vez, focaliza uma época posterior, quando as vilas já se urbanizaram, a produção deslanchou e as atividades exportadoras fizeram a sua festa.
Publicados inicialmente na imprensa esboços de capítulos sob o título deSinhô Badaró, em dezembro de 1939, o tema foi retomado, em meados de 1942, em Montevidéu, onde o autor estava exilado, e concluído em Salvador, Bahia, em maio de 1943.
É o segundo romance do “ciclo do cacau” e teve sua 1ª edição lançada em setembro de 1943, com 331 páginas, pela Livraria Martins Editora, São Paulo, “Coleção Contemporânea”, capa de Clóvis Graciano, editora que o publicou até 1975. Desde então, vem sendo editado pela Editora Record, Rio de Janeiro, sendo a 63ª edição, 1997, a mais recente, 28ª desta editora, com fixação de texto por Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, capa de Pedro Costa com ilustrações de Clóvis Graciano, sobrecapa com reprodução de quadro de Carlos Scliar, ilustrações de Clóvis Graciano em vinhetas por Pedro Costa e foto da sobrecapa de Pedro Oswaldo Cruz.
Teatro: Terras do sem fim, adaptação de Graça Melo, encenada pelos Comediantes, Rio de Janeiro, 1947.
Cinema: Terra violenta, filme produzido pela Atlântida, Rio de Janeiro, 1948.
Rádio: adaptação pela Rádio São Paulo, São Paulo, 1945 e por Claude Arman-Masson, com o título Terre violente, Radiodiffusion Française, Paris, 1950.
Televisão: telenovela Terras do sem fim, TV Tupi, Rio de Janeiro, 1966 e Rede Globo de Televisão, 1981, em adaptação de Walter George Durst; na trilha sonora, parceria de Jorge Amado e Dorival Caymmi na música Cantiga de cego, interpretada por Caymmi.
Quadrinhos: Editora Brasil-América, Rio de Janeiro, s/data, coleção “Edição Maravilhosa”, número 152.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, árabe, búlgaro, chinês, coreano, dinamarquês, eslovaco, esloveno, espanhol, finlandês, francês, hebraico, holandês, húngaro, ídiche, inglês, italiano, polonês, russo, sérvio, sueco, tcheco e turco.

São Jorge dos Ilhéus, 1944



Jorge Amado refugia-se na Argentina. Volta para o Brasil somente em 1942. Mas para ser novamente preso. Três meses de detenção no Rio de Janeiro. Por determinação da polícia, passa a viver em Salvador, onde escreve Terras do sem fim e São Jorge dos Ilhéus, publicados, respectivamente, em 1943 e 1944. Bem vistas as coisas, Terras do sem fim e São Jorge dos Ilhéus sugerem uma dupla. São livros que se irmanam em temas e problemas. Romances complementares, se assim se pode dizer, falam de terras virgens conquistadas para a lavoura e da formação da sociedade do cacau, transformando de modo radical uma região até então econômica e culturalmente inexpressiva. É o mundo de Ramiro Bastos e Juca Badaró, do feiticeiro Jeremias, do negro Damião, de advogados interioranos, capangas e prostitutas. Mundo violento, simultaneamente rico e miserável, paraíso dos chamados “coronéis do cacau”, inferno dos camponeses suarentos e esfarrapados. Mas há uma diferença. Terras do sem fim tematiza os primeiros tempos da região, as lutas sangrentas em torno do estabelecimento da propriedade. São Jorge dos Ilhéus, por sua vez, focaliza uma época posterior, quando as vilas já se urbanizaram, a produção deslanchou e as atividades exportadoras fizeram a sua festa.
Continuação de Terras do sem fim, o romance foi concluído em Periperi, subúrbio da Capital baiana, em janeiro de 1944 e sua 1ª edição é de junho de 1944, pela Livraria Martins Editora, São Paulo, capa de Clóvis Graciano, 363 páginas. Posteriormente, passou a integrar, como sétimo tomo, volume IX, as “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, com ilustrações de Frank Schaeffer, até a 28ª edição, 1975. A partir de então, vem sendo publicado pela Editora Record, Rio de Janeiro, sendo a 52ª edição, 1999, a mais recente, com fixação de texto por Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, capa de Pedro Costa com ilustração de Frank Schaeffer, ilustração da sobrecapa de Di Cavalcanti, ilustrações de Frank Schaeffer, retrato do autor por Jordão de Oliveira, vinhetas de ilustrações de Frank Schaeffer por Pedro Costa, foto por Zélia Gattai.
Rádio: novela São Jorge dos Ilhéus, Rádio São Paulo, São Paulo, 1946.
Quadrinhos: Editora Brasil-América, Rio de Janeiro, coleção “Edição Maravilhosa”, volume 174, Rio de Janeiro, s/ data.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, árabe, búlgaro, chinês, eslovaco, esloveno, espanhol, finlandês, francês, hebraico, holandês, húngaro, inglês, italiano, japonês, lituano, moldávio, polonês, romeno, russo, sueco, tcheco, turco e turcomano.

Bahia de Todos os Santos, 1944



Escrito no ano de 1944, sua 1ª edição é da Livraria Martins Editora, São Paulo, setembro de 1945, com capa de Clóvis Graciano e ilustrações de Manuel Martins. O texto foi revisto para a 8ª edição, 1960, e novamente atualizado …
Escrito no ano de 1944, sua 1ª edição é da Livraria Martins Editora, São Paulo, setembro de 1945, com capa de Clóvis Graciano e ilustrações de Manuel Martins. O texto foi revisto para a 8ª edição, 1960, e novamente atualizado para a 12ª edição, 1966, integrando a coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, como oitavo tomo, volume X. A 19ª edição, maio de 1970, da mesma coleção e pela mesma editora, revista e atualizada pelo autor, tem capa de Carybé, ilustrações de Manuel Martins e retrato do autor por Carlos Scliar, 263 páginas.
A 40ª edição, 13ª pela Record, de setembro de 1996, a mais recente, foi atualizada pelo autor e ilustrada por Carlos Bastos.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o espanhol, francês e italiano.
O capítulo “Canto de amor à Bahia” recebeu música de Dorival Caymmi, gravada em disco, em 1958, com interpretação do autor.

O amor do soldado, 1944



A peça compõe-se, além do prólogo e do epílogo, de três atos. A ação é centrada na ligação amorosa de Castro Alves com a atriz Eugênia Câmara, a partir de quando os dois se encontraram, no Recife, em 1866, até o adeus final, no Rio de Janeiro, em 1870, e mostra a atuação abolicionista do poeta. Inovação técnica marcante é a intervenção do Autor, através de seis falações, ou exposições, no palco, durante o desenrolar da peça, inclusive com a platéia também intervindo em mais de uma ocasião, fato que constitui uma antecipação de cerca de meia dúzia de anos à experiência de Allan Kadrow em espetáculos nos Estados Unidos, em 1950.
Peça teatral escrita em Salvador, Bahia, em 1944, por solicitação da atriz Bibi Ferreira, foi inicialmente intitulada O amor de Castro Alves e sob este título apareceu em 1ª edição, pela Editora do Povo, Rio de Janeiro, 1947, 194 páginas, lançada no centenário de nascimento do poeta Castro Alves. A partir da 2ª edição, 1958, recebeu o título O amor do soldado, integrando a coleção “Obras de Jorge Amado”, da Livraria Martins Editora, São Paulo. A 4ª edição, 1961, da mesma editora, tem capa de Clóvis Graciano, ilustrações de Ana Letícia e retrato do autor por Carlos Scliar, 225 páginas e foi comemorativa do trigésimo aniversário da publicação do primeiro livro do autor. Com capa de Carybé, conservando as mesmas ilustrações, passou a figurar na coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, daquela editora, como nono tomo, volume XI até a 18ª edição. Depois disso, vem sendo editada pela Editora Record, Rio de Janeiro, e a 31ª edição, a mais recente, 1992, tem 229 páginas, capa reproduzindo quadro de Di Cavalcanti, ilustrações de Ana Letícia, retrato do autor por Jordão de Oliveira e foto do autor por Zélia Gattai.
Foi publicada em Portugal.

Seara vermelha, 1946



O Brasil entra em ritmo de “redemocratização”. De Assembléia Nacional Constituinte. Em 1945, Jorge Amado é eleito deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), como representante de São Paulo. Em 1946, publica Seara vermelha. O livro traz uma novidade geográfica ao conjunto da obra amadiana. Não se passa na Cidade da Bahia e seu Recôncavo, nem à vista dos cacauais do eixo Ilhéus-Itabuna. E o novo espaço geográfico é extraordinariamente amplo. Seara vermelha é a saga de uma família de retirantes compulsórios, gente expulsa de terras nordestinas, que toma o rumo de São Paulo. A pé. A viagem é um rol de aflições, de fome e de morte. Do grupo inicial de onze retirantes, apenas quatro chegam a uma fazenda de café. Além disso, Jorge Amado descreve as trajetórias de três filhos do casal de retirantes, que tinham partido de casa antes dos pais: o soldado João, o jagunço Zé Trovoada e o cabo Juvêncio, que serve na fronteira com a Colômbia, participa do levante comunista de Natal (novembro de 1935), vai parar no presídio de Ilha Grande e, depois da anistia, retoma os passos de sua vida militante.
Terminado de escrever em junho de 1946, em Nova Iguaçu, na casa de campo do autor chamada Pegi de Oxóssi, no Estado do Rio de Janeiro, o romance saiu em 1ª edição pela Livraria Martins Editora, São Paulo, agosto de 1946, 319 páginas, com ilustrações de Carlos Scliar e foi posteriormente incluído na coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado” como o décimo tomo, volume XII, com as mesmas ilustrações e capa de Carybé, até a 28ª edição, 1975. A Editora Record, Rio de Janeiro, assumiu, então, a editoração, sendo a 49ª edição a mais recente, com fixação de texto por Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, ilustrações de Carybé, as antigas ilustrações de Carlos Scliar e foto do autor por Zélia Gattai, 338 páginas.
É o segundo romance amadiano mais divulgado no estrangeiro, tendo sido publicado em Portugal e traduzido para o albanês, alemão, árabe, armênio, búlgaro, chinês, eslovaco, espanhol, finlandês, francês, grego, hebraico, húngaro, italiano, japonês, lituano, moldávio, polonês, romeno, russo, sérvio, sueco, tcheco, turco, ucraniano e vietnamita.
Cinema: Seara vermelha, Proa Filmes, São Paulo, 1963, filme estrelado por Marilda Alves, com trilha musical composta por João Gilberto, direção de Alberto d’Aversa e adaptação, roteiro e diálogos de d’Aversa e Jorge Amado.

O mundo da paz, 1951



Trata-se de um “relato de viagens através de várias regiões da União Soviética e dos países das democracias populares com a finalidade de mostrar a febril atividade dos povos e governos para reparar os profundos danos causados pela devastadora II Grande Guerra. Exaltava o esforço pela implantação do socialismo bem como a política antiguerreira em prol da paz mundial”.
Escrito no Castelo da União dos Escritores Tchecoslovacos, Dobris, de dezembro de 1949 a fevereiro de 1950, o livro teve sua 1ª edição pela Editorial Vitória, Rio de Janeiro, 1951, 410 páginas e chegou à 5ª edição, quando o autor não mais permitiu reedições. Por este livro, em 1951, Jorge Amado foi processado e incurso na lei de segurança, medida que se estendeu aos editores e às livrarias que exibiram o livro. Após o retorno de Jorge Amado ao Brasil, em maio 1952, foi reativado o processo contra a publicação do livro, quando o autor foi defendido pelos advogados João Mangabeira e Alfredo Franjan. O juiz arquivou o processo, alegando ser o livro sectário e não subversivo. Foi traduzido para o tcheco e o capítulo Albânia é uma festa veio a ser lançado em livro separadamente e editado em albanês, eslovaco, francês, polonês e theco.

Gabriela, cravo e canela, 1953



Em 1956, ocorreu um fato fundamental: o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, desfechando críticas e denúncias contra a ditadura de Stálin. Jorge Amado vê que vai ficando definitivamente para trás o dogma de que a literatura não deveria mais ser do que um instrumento ideológico, partidário. Ele está agora no Brasil, no Rio de Janeiro. E quando faz a sua rentrée literária, em 1958, com a publicação de Gabriela, cravo e canela, quase que sugere um novo Jorge Amado. É claro que não abole, pura e simplesmente, os vínculos com a sua obra anterior. Mas é outro o olhar que dirige às coisas do mundo e da vida. Permanece socialista, mas acentuando, sempre com maior ênfase, o qualificativo “democrático”. Gabriela, de resto, é um retorno ao chamado “ciclo do cacau”. Ao universo de coronéis, jagunços, prostitutas e trambiqueiros de calibre variado, que desenham o horizonte da sociedade cacaueira. No caso, a Ilhéus rica da década de 20, ansiando progressos e avançando na noite litorânea, entre bares e bordéis. A perspectiva, no entanto, é claramente distinta. Antes que se articular em função do utopismo marxista, o livro se deixa imantar pelo seu presente. E é uma explosão, uma folia de luz e cor e som e sexo e riso. O sucesso é imenso. E a trama do romance vai se desprender das letras, da moldura tipográfica, para virar filme, telenovela, fotonovela, quadrinhos, canção.
Concluído em Petrópolis, Rio de Janeiro, em maio de 1958, o romance teve sua 1ª edição pela Livraria Martins Editora, São Paulo, 1958, com 453 páginas, capa de Clóvis Graciano e ilustrações de Di Cavalcanti. Já em dezembro do mesmo ano, foi lançada a 6ª edição, que passou a integrar a coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado” como tomo décimo quarto, volume XIX, seguindo-se edições sucessivas até a 50ª edição, 1975. Nesse mesmo ano, foi publicada fora da coleção, em convênio entre a Livraria Martins Editora e a Distribuidora Record, Rio de Janeiro, a 51ª edição, com capa de Di Cavalcanti, conservando as ilustrações anteriores, 363 páginas, retrato do autor por Carlos Bastos e foto do autor por Zélia Gattai. A Editora Record, Rio de Janeiro, passou a deter os direitos editoriais da 52ª em diante, e publicou a 80ª edição, 1999, a mais recente, com fixação de texto por Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, capa de Pedro Costa com ilustração de Di Cavalcanti, sobrecapa e ilustrações de Di Cavalcanti, com vinhetas por Pedro Costa, retrato do autor por Jordão de Oliveira e foto do autor por Zélia Gattai.
O romance obteve, já no ano seguinte ao da sua 1ª edição, cinco prêmios: Prêmio Machado de Assis, do Instituto Nacional do Livro, Rio de Janeiro, 1959; Prêmio Paula Brito, da antiga Prefeitura do Distrito Federal, Rio de Janeiro, 1959; Prêmio Luísa Cláudia de Sousa, do PEN Clube do Brasil, Rio de Janeiro, 1959; Prêmio Carmem Dolores Barbosa, de São Paulo, 1959; Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, São Paulo, 1959.
O nome Gabriela se tornou popular após o romance, sendo utilizado para denominar de bares e restaurantes a suco de cacau, além de empresas as mais diversas.
Foi publicado em Portugal e é o romance de Jorge Amado com o maior número de traduções, tendo sido editado em alemão, árabe, búlgaro, catalão, chinês, coreano, dinamarquês, eslovaco, esloveno, espanhol, estoniano, finlandês, francês, georgiano, grego, hebraico, holandês, húngaro, inglês, italiano, lituano, moldávio, norueguês, persa, polonês, romeno, russo, sueco, tcheco, turco, ucraniano e macedônio.
Televisão: novela Gabriela, TV Tupi, adaptação de Zora Seljan, com Jeanete Volu no papel principal; Rede Globo de Televisão, 1975, adaptação de Walter Durst, com Sônia Braga no papel principal, sucesso no Brasil e em Portugal.
Cinema: Gabriela, filme dirigido por Bruno Barreto, 1985, com Sônia Braga no papel principal.
Dança: espetáculo apresentado pelo Balé do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, além de adaptações nacionais e estrangeiras.
Fotonovela: revista Amiga, Rio de Janeiro, outubro de 1975.
Quadrinhos: Editora Brasil-América, Rio de Janeiro, e revista Klik, Ebal, Rio de Janeiro, 1975.

Os subterrâneos da liberdade, 1954



A “redemocratização” não tolera por muito tempo a legalidade do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Excluídos da conversa em torno da “conciliação nacional”, os comunistas são obrigados a retornar à trama clandestina. O mandato parlamentar de Jorge Amado é cassado – e ele, sem opção, se muda, juntamente com Zélia, para Paris. Mas o clima pesa também na França. Dias tensos da Guerra Fria. Jorge Amado tem que deixar o país. Vai para Praga, na Tchecoslováquia. E é lá, no Castelo da União dos Escritores, próximo à pequena cidade de Dobris, que começa a escrever a trilogia Os subterrâneos da liberdade, recriando aspectos da luta brasileira contra a ditadura do Estado Novo. Anos mais tarde, em releitura crítica, Jorge Amado dirá que a obra foi, simplesmente, sectária:“Não há nada pior que o espírito de seita. Esse tipo de pensamento mofou”. Ao mesmo tempo, sublinhará sempre a importância de Os subterrâneos da liberdade no processo de seu amadurecimento literário: “Descobri ali a grande arquitetura do romance — algo que me foi de muita valia mais tarde, em livros como Dona Flor, Tereza Batista, Tieta do Agreste, Tocaia Grande e Tenda dos milagres, textos que representam um nítido reflorescer em minha obra”.
A trilogia foi escrita, em março de 1952, em Dobris, na Tchecoslováquia, concluída em novembro de 1953, no Rio de Janeiro e lançada a 1ª edição em maio de 1954, em três volumes, com ilustrações de Renina Katz, respectivamente, com 303 páginas o primeiro volume, Os ásperos tempos, 340 o segundo, A agonia da noite e 396 o terceiro, A luz no túnel, pela Livraria Martins Editora, de São Paulo, 1954. Conservando as mesmas ilustrações iniciais e com capa de Carybé, constitui o volume XIII, tomos décimo primeiro, décimo segundo e décimo terceiro, das “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, até a 27ª edição, de 1975, ano da liquidação da empresa paulista. Assumiu então o encargo das editorações a Editora Record, do Rio de Janeiro, que promoveu a edição 29ª, de 1978, em três volumes, todos enriquecidos com diferentes belas capas de detalhes de quadros de Cândido Portinari, sem as ilustrações, mas com retratos do autor por Flávio de Carvalho e fotos do autor por Zélia Gattai. A mais recente é a 12ª edição, de janeiro de 1992, 41ª edição desde a sua primeira publicação com as mesmas características da anterior.
A trilogia foi publicada em Portugal e, ainda no estrangeiro, foi traduzida para os seguintes idiomas: alemão, búlgaro, chinês, esloveno, espanhol, francês, grego, letão, polonês, romeno, russo, tcheco e turco.

Os velhos marinheiros, 1961



Não por acaso os textos A morte e a morte de Quincas Berro Dágua e Os velhos marinheiros ou O capitão de longo curso foram publicados juntos, num mesmo volume, em 1961. São textos que, apesar de suas diferenças, mantêm pontos de contato entre si, tendo como horizonte último o mar.
Em ambos, vamos encontrar personagens que rejeitam o mormaço da vida cotidiana, regrada, comum. Que recusam, por assim dizer, o tediário a rotina do trabalho, da família, do “bom senso”, em favor do excêntrico, do desabusado, da embriaguez da fantasia. No caso de Os velhos marinheiros, o que temos é a história do órfão Vasco Moscoso de Aragão, alérgico ao mundo do trabalho, subitamente enriquecido ao herdar o patrimônio do avô paterno. Por conta de amizades com boêmios influentes, Vasco acaba ganhando, sem jamais ter pilotado uma jangada, o diploma de capitão de longo curso da Capitania dos Portos. Tempos depois, numa emergência, é convocado ao comando de um navio que vai para o extremo-norte do Brasil. Ao aportar em Belém, dá a ordem esdrúxula de prender todas as amarras, tornando-se motivo de zombaria na zona portuária. Mas aquela noite traz o estrondo formidável de uma tempestade jamais vista em Belém. No cais, só um navio resiste. É o de Vasco, agora alvo de todos os louvores, como exemplo de prudência…
Concluído em janeiro de 1961, no Rio de Janeiro, integra o livro intitulado Os velhos marinheiros conjuntamente com A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, cuja 1ª edição, com ilustrações de Glauco Rodrigues e 321 páginas é da Livraria Martins Editora, São Paulo, 1961. Incluído como o décimo quinto tomo, volume XV, das “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, continuou sendo publicado pela mesma editora, com as ilustrações originais, capa de Carybé e retrato do autor por Carlos Scliar até a 34ª edição, 1975. A partir da 35ª edição, 1976, o romance passou a ser editado em volume à parte, com o título Os velhos marinheiros ou O capitão de longo curso, pela Editora Record, Rio de Janeiro, com capa de Gian Calvi, ilustrações de Glauco Rodrigues, retrato do autor por Carlos Bastos e foto do autor por Zélia Gattai, 243 páginas. A edição mais recente é a 58ª, outubro de 1996, 20ª edição da Editora Record, com fixação de texto por Pedro Costa e Paloma Jorge Amado.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, árabe, búlgaro, catalão, chinês, dinamarquês, espanhol, finlandês, francês, húngaro, inglês, italiano, japonês, lituano, polonês, russo, sueco e tcheco.
A revista literária Lire, Paris, nº 41, janeiro de 1979, inclui o romance Le vieux marin entre os vinte melhores livros publicados na França, no ano de 1978.
Cinema: direitos adquiridos pela Warner Brothers Inc., Los Angeles, Estados Unidos, em 1965.

Os pastores da noite, 1964



O romance se compõe, na verdade, pela justaposição de três narrativas, que, embora entrelaçadas e brotando de um mesmo universo, podem ser degustadas separadamente. Em tela, aspectos fundamentais da existência negro-mestiça na Cidade da Bahia e seu Recôncavo. Uma existência quase sempre lúmpen, evoluindo entre o cais, a cachaça e o “castelo”, sob o signo e o axé dos orixás. “Mundo do Mercado, da Rampa, do Pelourinho, da Feira de Água de Meninos, das Sete Portas e dos Quinze Mistérios.” E mais uma vez encontramos Jorge Amado em seu papel favorito de cantor das putas e dos vagabundos, celebrando os prazeres da vida e os “ritos sagrados da amizade”. Por suas páginas, desfilam tipos como o cabo Martim, rei do baralho e da picardia, e Curió, incorrigível romântico; o sábio Jesuíno Galo Doido, que vira caboclo num terreiro-de-angola; a mãe-de-santo Doninha; a maternal e rigorosa cafetina Tibéria; o padre Gomes, neto de um obá de Xangô; ou o aluado Pé-de-Vento, com a sua fantasia de mandar vir da França um navio abarrotado de mulatas. E são focalizados temas que vão do sincretismo religioso à solidariedade popular – encontros e confrontos no tear em que se tece a trama diária da sobrevivência, em vista do mar azul e das noites que encalham com carregamentos de estrelas.
Romance escrito entre fins de 1963 e começo de 1964 na residência do autor à Rua Alagoinhas nº 33, bairro do Rio Vermelho, Salvador, Bahia, foi lançado pela Livraria Martins Editora, São Paulo, em julho de 1964, com capa de Clóvis Graciano, ilustrações e frontispício de Aldemir Martins e retrato do autor por Carlos Scliar, 320 páginas, constituindo o décimo sexto tomo, volume XVI, da coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado”. Foi posteriormente editado com capa de Carybé, com as ilustrações iniciais, até a 25ª edição, 1975, última da empresa paulista.
A Editora Record, Rio de Janeiro, assumiu a publicação a partir da 26ª edição, 1976, que saiu com 294 páginas, capa de Di Cavalcanti, ilustrações de Aldemir Martins, retrato do autor por Flávio de Carvalho e foto do autor por Zélia Gattai.
A edição mais recente é a 45ª, 1998, 15ª da Editora Record, com ilustração de Aldemir Martins, retrato do autor de Jordão de Oliveira, foto de Zélia Gattai. O capítulo O compadre de Ogum foi publicado, separadamente, em alguns periódicos. Em abril de 1995, a Editora Record passou a publicar este capítulo como livro, com capa e ilustrações de Carybé, desenho do autor por Jordão de Oliveira, foto de Zélia Gattai, edição preparada por Paloma Jorge Amado e Pedro Costa.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, búlgaro, eslovaco, esloveno, espanhol, finlandês, francês, hebraico, holandês, húngaro, inglês, italiano, polonês, romeno, russo, tcheco e turco.
Cinema: adaptação de Marcel Camus, cineasta francês, da Orfée Arts-Claire Duval, Paris, com cenas tomadas em dezembro de 1975 na capital baiana, o filme foi lançado na França com o título Otalia de Bahia, com música de Antônio Carlos e Jocáfi e de Wálter Queirós, cantadas por Maria Creusa e Emílio Santiago e elenco com Mira Fonseca, Jofre Soares, Grande Otelo, Zeni Pereira, Antônio Pitanga, Paco Sanches e outros. Exibido no Brasil em 1977.
Televisão: O capítulo O compadre de Ogum foi adaptado para a tevê, como “Caso Especial”, pela Rede Globo de Televisão, em 1995.

Dona Flor e seus dois maridos, 1966



Conta Jorge Amado que, certa feita, conheceu uma senhora que vivia atormentada. Tinha sido casada com um boêmio, enviuvou, casou-se de novo – desta vez, com um português bem comportado. Ia tudo muito bem, até que o primeiro marido começou a aparecer em seus sonhos, querendo ir para a cama com ela. Daí a sua perturbação. Uns trinta anos mais tarde, caminhando com um amigo pelas ruas de Salvador, Jorge Amado viu um sujeito todo vestido de branco, estirado numa escadaria, num tremendo porre. Lembrou-se, de imediato, de um amigo de juventude, Vadinho – sujeito rico, farrista, jogador, que vivia “perdendo dinheiro e ganhando mulheres”. Alguns quarteirões adiante, topou com uma placa, fixada na porta de uma casa, onde se lia: Escola de Culinária Sabor e Arte. Para completar o quadro, Jorge Amado e seu amigo se extasiaram, nessa mesma tarde, com a visão de uma belíssima morena, debruçada na janela de um sobrado. Jorge Amado comentou então que, àquela morena deslumbrante, Vadinho certamente teria dito: “quero saborear-te”. De repente, as cenas desse passeio a pé por Salvador se fundiram com as imagens da senhora aflita, assediada em sonhos pelo primeiro marido. Tudo se acoplou de tal forma que, no dia seguinte, Jorge Amado já estava em cima da máquina, escrevendo um novo romance. E assim veio à luz, em 1966, a história de Flor, dona da conceituada Escola de Culinária Sabor e Arte, e de Vadinho e Teodoro, seus dois maridos.
O romance, escrito na casa do autor, à Rua Alagoinhas, nº 33, Rio Vermelho, Salvador, Bahia, na segunda metade de 1965 e terminado em abril de 1966, com 1ª edição, pela Livraria Martins Editora, São Paulo, em maio de 1966, 535 páginas, 75.000 exemplares, com capa de Clóvis Graciano, ilustrações de Floriano Teixeira e retrato do autor por Carlos Scliar, integra a coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, tomo décimo sétimo, volume XVII, da Livraria Martins Editora, São Paulo, que continuou a publicá-lo até a 22ª edição, em 1975.
A partir da 23ª edição, passou a sair pela Editora Record, Rio de Janeiro, 1975, com 400 páginas, capa de Di Cavalcanti, ilustrações de Floriano Teixeira, retrato do autor por Carlos Bastos e fotografia do autor por Zélia Gattai.
Em 1976, a Editora Record publicou uma edição especial, fora do comércio, a 25ª, com 400 páginas, capa com a foto da atriz Sônia Braga, ilustrações de Floriano Teixeira, retrato do autor por Flávio de Carvalho e foto do autor por Zélia Gattai, sob o patrocínio da Companhia Industrial Sanbra.
A 26ª edição, Editora Record, 1976, tem capa de Benício, ilustrações de Floriano Teixeira, retrato do autor por Flávio de Carvalho e fotos do autor, com a atriz Sônia Braga e o diretor de cinema Bruno Barreto, por Zélia Gattai, 400 páginas.
A edição mais recente é a 48ª, Record, 1997, com texto fixado por Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, 448 páginas, capa de Pedro Costa com ilustração de Floriano Teixeira, foto do autor por Zélia Gattai e retrato do autor por Jordão de Oliveira.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, árabe, búlgaro, chinês, eslovaco, espanhol, finlandês, francês, grego, hebraico, holandês, húngaro, inglês, italiano, lituano, polonês, russo, tailandês e tcheco.
Cinema: os direitos para adaptação cinematográfica foram adquiridos por Luís Carlos Barreto, e o filme foi dirigido por Bruno Barreto, com roteiro de Leopoldo Serran e Edmundo Coutinho, produtores Luís Carlos Barreto, Newton Rique e Companhia Serrador, trilha musical de Chico Buarque, protagonizado por Sônia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça. As filmagens foram iniciadas em Salvador, em dezembro de 1975, e o lançamento ocorreu em novembro de 1976, superando todos os recordes de bilheteria no país. Foi exibido também nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina.
Teatro: adaptação para musical com o título Saravá, nos Estados Unidos, com libreto de Richard Nash e partitura de Mitch Leigh, dirigido e coreografado por Rick Atwell e Santo Loquasto, apresentando Tovah Feldshuh, Michael Ingram e vários outros atores. Encenado por duas semanas em Boston, estreou no Mark Helling Theater, na Broadway, Nova York, no dia 23 de fevereiro de 1979.
Adaptação por Fernando Guerreiro, exibida em Ilhéus e Salvador, uma promoção da Fundação Cultural de Ilhéus como parte das comemorações dos 80 anos do escritor, em 1992.

Televisão: minissérie Dona Flor e seus dois maridos, Rede Globo de Televisão, 1977, adaptação de Dias Gomes, direção de Mauro Mendonça Filho, protagonizada por Giulia Gam, Marco Nanini e Edson Celulari.
Música: inspiração para composições musicais de Antônio Carlos e Jocáfi e de Neneco e Preto Velho.

Tenda dos Milagres, 1969



Jorge Amado garante que, para ele, livro é como filho. Logo, não tem um preferido. Mas, de imediato, começa ele a falar de sua estima por Tenda dos milagres, romance que publicou em 1969: “É uma reflexão sobre a formação da nacionalidade brasileira, que mostra a importância da mistura e da luta contra o racismo no Brasil”. Tenda dos milagres é, basicamente, a narrativa das proezas e dos amores de Pedro Arcanjo, mestiço pobre – “pobre, pardo e paisano” -, bedel da Faculdade de Medicina da Bahia, que se converte em estudioso apaixonado de sua gente, publicando livros sobre o sincretismo genético e cultural do povo baiano. Ao lidar pioneira e francamente com tais temas, Arcanjo cai sob a mira da elite branqueada da Bahia. É perseguido. Perde o emprego. E uma cortina de silêncio se forma em torno de sua obra, eclipsando-a. Só depois da morte do autor é que ela irá se impor, triunfando sobre o racismo provinciano, graças ao interesse que desperta num cientista estrangeiro. A figura de Arcanjo vai, então, renascendo das cinzas, num processo de revisão que desborda do campo erudito para o popular, para atingir o ponto máximo com a homenagem que lhe é prestada, no carnaval da Bahia, pela Escola de Samba Filhos do Tororó. Como aconteceu com outros livros de Jorge Amado, também Tenda dos milagres ganhou adaptação cinematográfica e televisual.
O romance escrito na Vila Moreira, então vivenda de veraneio de Genaro e Nair de Carvalho, num arrabalde da cidade da Bahia, entre março e julho de 1969, foi lançado em outubro imediato, em 1ª edição, pela Livraria Martins Editora, de São Paulo, com 374 páginas, capa de Carybé, fartas ilustrações do pintor Jenner Augusto e retrato do autor por Carlos Scliar, integrando a coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado” como volume XVIII, tomo décimo oitavo, sucessivamente reeditado até a 15ª edição, em 1975, pela dita editora, que então encerrou suas atividades. A 16ª edição, de 1976, traz a marca da Editora Record, do Rio de Janeiro, como nova responsável pela editoração da obra amadiana: com 337 páginas, capa com détail de um quadro de Di Cavalcanti, as mesmas ilustrações de Jenner Augusto, retrato de autor por Flávio Carvalho e foto do autor por Zélia Gattai. A 18ª edição, de 1977, igualmente da Record e mesmo número de páginas, capa com cena do filme TENDA DOS MILAGRES, da Regina Films, do Rio de Janeiro, retrato do autor por Flávio de Carvalho e fotografia do autor ao lado do cineasta Nélson Pereira dos Santos, no gabinete da Rua Alagoinhas, por Zélia Gattai. Foram reproduzidas, no texto, as excelentes ilustrações de Jenner Augusto. A mais recente é a 41ª ed. de 2001.
Foi publicado em Portugal e traduzido para: alemão, árabe, búlgaro, espanhol, finlandês, francês, húngaro, inglês, italiano, russo e turco.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, árabe, búlgaro, espanhol, finlandês, francês, húngaro, inglês, italiano, russo e turco.
Cinema: Tenda dos milagres, dirigido por Nelson Pereira dos Santos, Regina Films, Rio de Janeiro, 1977, em grande parte rodado na cidade do Salvador.
Televisão: minissérie, Rede Globo de Televisão, adaptação de Aguinaldo Silva e Regina Braga, 1985.

Tereza Batista cansada de guerra, 1972



Tereza Batista cansada de guerra, publicado em 1972, é a história da luta de uma mulher num ambiente quase sempre áspero e hostil, poderosamente hostil. Mundo de sofrimento, miséria e violência que Tereza começa a conhecer muito cedo – primeiro, com a orfandade; segundo, quando é vendida pelo tio, ainda menina, a um certo capitão Justo. Sob o açoite do seu dono, ela vai experimentar, à flor da pele e ao fundo de si mesma, o sentido da palavra “servidão”. Um dia, sangra – a faca – o seu algoz. Vai presa, passa por um convento, cai num bordel. Em Aracaju, apaixona-se por Gereba, marítimo baiano. Mas ele é casado: volta para sua mulher e para sua terra. Desiludida, Tereza se retira em Buquim, interior de Sergipe, onde vê os servidores do posto médico desertar, diante do avanço da varíola. Reúne então as rameiras da vila – e dá assistência aos doentes. Missão cumprida, ruma para a Cidade da Bahia, nas pegadas de Gereba. Este, já viúvo, embarcara num navio de carga estrangeiro. Tereza se torna dançarina de cabaré em Salvador. Engaja-se na greve das putas contra a ordem de despejá-las de seu local de trabalho. É novamente presa. Apanha. É solta. E, finalmente, reencontra o amado Gereba. Não admira que, diante de tal peripécia, mulheres italianas tenham homenageado a heroína de Jorge Amado, batizando a sede do Clube Feminista Italiano, em Milão, com o nome de Casa de Tereza Batista.

Histórico

Escrito em Salvador, Bahia, entre março e novembro de 1972. A Livraria Martins Editora, São Paulo, lançou a 1ª edição em dezembro de 1972, tiragem de 100.000 exemplares, 462 páginas, capa de Carybé, ilustrações de Calasans Neto, retrato do autor por Carlos Bastos, foto do autor por Zélia Gattai e partitura de modinha de Dorival Caymmi, integrando a coleção “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, décimo nono tomo, volume XIX. A 5ª edição é da Editora Record, Rio de Janeiro, 1976, 421 páginas, capa de Di Cavalcanti, ilustrações originais de Calasans Neto, partitura da modinha de Dorival Caymmi, retrato do autor por Flávio de Carvalho e foto do autor por Zélia Gattai. A mais recente é a 30ª edição, 1999, 21ª da Record, com fixação de texto por Pedro Costa e Paloma Jorge Amado, capa de Pedro Costa com ilustração de Calasans Neto; sobrecapa com reprodução de quadro de Di Cavalcanti; ilustrações de Calasans Neto com vinhetas de Pedro Costa, retrato do autor por Jordão de Oliveira; fotografia da sobrecapa de Zélia Gattai. Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, árabe, coreano, eslovaco, esloveno, espanhol, francês, grego, hebraico, holandês, inglês, italiano, norueguês, polonês e turco. Televisão: minissérie Tereza Batista, Rede Globo de Televisão, adaptação de Vicente Sesso, direção de Paulo Crissolli, 1992, protagonizada por Patrícia França.

O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, 1976



“A história de amor do Gato Malhado e da Andorinha Sinhá eu a escrevi em 1948, em Paris, onde então residia com minha mulher e meu filho João Jorge, quando este completou um ano de idade, presente de aniversário; para que um dia ele a lesse. Colocado junto aos pertences da crinça, o texto se perdeu e, somente em 1976, João, bulindo em velhos guardados, o reencontrou, dele tomando finalmente conhecimento.
Nunca pensei em publicá-lo. Mas tendo sido dado a ler a Carybé por João Jorge, o mestre baiano, por gosto e amizade, sobre as páginas datilografadas desenhou as mais belas ilustrações, tão belas que todos as desejam adimirar. Diante do que, não tive mais condições para recusar-me à puclicação por tantos reclamada: se o texto não paga a pena, em troca não tem preço que possa pagar as aquarelas de Carybé.
O texto é editado como o escrevi em Paris, há quase trinta anos. Se fosse bulir nele, teria de reestruturá-lo por completo, fazendo-o perder sua única qualidade: a de ter sido escrito simplesmente pelo prazer de escrevê-lo, sem nenhuma obrigação de público e de editor”.

Esta é a história de um gato que se apaixona por uma andorinha causando estranheza em todos os outros animais que habitavam um parque. A Andorinha está prometida ao Rouxinol mas, ao mesmo tempo, incentiva o amor do Gato. Acontecem juras, o Gato escreve poemas, eles passeiam juntos enquanto as outras personagens condenam o amor impossível.

Quando Jorge Amado escreveu este romance, estava a pensar como prenda de anos para o seu filho mais velho, João, quando completava um ano de idade. Estava ele exilado em Paris, em 1948.

 Chamo-lhe romance devido ao tema que se trata: “uma história de amor” e algumas características apresentadas. Este subtítulo da obra faz-nos imaginar um romance entre as personagens principais, com um carácter dinâmico. É uma narrativa onde há uma mescla entre o diálogo, a narração e a descrição das personagens. O que vamos encontrar é um amor impossível entre um gato e uma ave, inimigos por natureza.

Mas este romance está impregnado de um outro género narrativo e passo a citar Jorge Amado na sua Dedicatória: Ao concordar, em Agosto de 1976, com a publicação desta velha fábula[...].”
A narrativa utiliza principalmente animais para destacar conclusões moralizantes, a fábula é, antes de 
mais,uma metáfora de diferentes tipos humanos sociais.

Existem características da fábula, o cenário é um mundo dos animais, o parque, um lugar delimitado e 
circundante, onde o tempo está dividido em estações do ano. Cada personagem emite a sua voz na 
narrativa e representa uma voz social.

                  
 A fábula impõe uma escolha que a Andorinha terá de fazer no fim: ‘o amor de Rouxinol ou o amor do gato?’ 
Contudo, esta escolha já estava predefinida pelas outras personagens. O seu número de personagens é 
reduzido, assim como na diversidade de espaços e há uma pequena complexidade da acção
                  
 A acção principal da história é o desenrolar da paixão entre o Gato e a Andorinha. As suas sequências 
narrativas são traduzidas numa linearidade, conciliando com o tempo cronológico da história
Ela começa com quem conhece a história – o Vento – chegando ao ouvido do narrador. Este último 
conta-nos a paixão através da intensidade das conversas e dos passeios entre as personagens principais.
Tudo se passa à volta da história de amor entre os dois: os comentários das outras personagens, o tempo, 
maneira como são tratados e como eles tratam os apaixonados. O clímax está no fim da “Primavera”, onde 
estes começam a se afastar, dado que a Andorinha estava prometida para o Rouxinol.
                    
 O narrador considera-se um revolucionário na estrutura da narrativa quando este conta o capítulo inicial 
da obra nos meandros da história:


“[...] Em verdade a história, pelo menos no que se refere à Andorinha, começara antes.[...]Como não posso mais escrevê-lo onde devido, dentro das boas regras da narrativa clássica, resta-me apenas suspender mais uma vez a acção e voltar atrás. É sem dúvida um método anárquico de contar uma história, eu reconheço. Mas o esquecimento pode ir por conta do transtorno que a chegada da primavera causa aos Gatos e aos contadores de histórias.”

Faz um encaixe de capítulos, cuja narração é interrompida, para ser mais tarde retomada. A história tem um 
desfecho triste entre as personagens principais, mas termina com a Manhã a ganhar a rosa azul prometida 
no início da história pelo Tempo.
A história principal é narrada de acordo com um tempo cronológico: as estações do ano e de acordo com 
os sentimentos das personagens principais. Na Primavera, o Gato e a Andorinha conhecem-se.
 No Verão o Gato apercebe-se que está apaixonado pela Andorinha e fica com ciúmes por ela sair com o 
Rouxinol. No Outono, o Gato sofre com as outras personagens, devido à má fama que o Gato tivera no 
passado (mau, rabugento, perigoso, temido). Escrevia poemas, para a amada, de modo apaixonado, 
nostálgico. O Inverno é caracterizado pela separação dos amantes – a tristeza, de certo modo, 
acompanha-os.

O Narrador altera a ordem cronológica ao utilizar algumas analepses e prolepses, que servem como uma 
narração abreviada para explicar melhor algum assunto. É o caso do “Capítulo inicial, atrasado e fora do 
lugar”. O próprio narrador é inteligente ao dizer que foi “por um erro de estrutura ou por moderna 
sabedoria literária”.

 Categorias da Narrativa 
Espaço - físico, social e psicológico.
·                      
O espaço físico da história é um parque, onde as personagens se movem, visto com muita clareza pelas 
personagens: é o lugar onde eles vivem.

Em termos de espaço social, diríamos que o Gato é um vagabundo, que vive no parque, livre de 
impedimentos porque todos o temiam. A Andorinha já é uma “flor de estufa”, muito bem protegida pela sua 
classe social, a classe social alta. Diria que seria um amor impossível também devido às suas diferenças 
de  classes sociais
Quanto ao nível psicológico, o Gato Malhado sofre uma experiência que lhe abrir as portas para as 
recordações, a memória de uma paixão idealizada, romântica e sofrida. Esse sofrimento fá-lo crescer no 
seu  Interior.
As Categorias da Narrativa 
O Narrador
Narrador
Não participa da história. Ele é heterodiegético, ou seja, é totalmente alheio aos acontecimentos que narra. Por isso, a sua narração é feita na 3ª pessoa:
              A história que a Manhã contou ao Tempo para ganhar a rosa azul foi a do Gato Malhado e a Andorinha Sinhá; [...] Eu a transcrevo aqui por tê-la ouvido do ilustre Sapo Cururu [que contou o caso] para provar a irresponsabilidade do amigo [...].”
                   O seu ponto de vista é de uma focalização externa, onde o narrador é um mero observador, exterior aos acontecimentos. Narra aquilo que pode apreender através dos sentidos: ele não penetra no interior das personagens.
As Personagens
                   
Cada animal tem uma carga simbólica bem definida. A caracterizações das personagens é feita ou pelas 
outras personagens ou pelo narrador. 
                    
 
Gato Malhado
 
Personagem principal. olhos pardos que reflectiam maldade, feio, corpanzil forte e ágil, de riscas amarelas 
e negras. Tinha meia-idade, egoísta, mau humorado, convencido. Vivia como se fosse um vagabundo, 
carente de carinhos. A caracterização indirecta verifica-se pela maneira como as personagens reagiam 
após o Gato ter conhecido a Andorinha, porque, até então, ninguém lhe dava atenção e afecto. Escrevia-lhe 
sonetos (plagiados), falava bem com aqueles que ele tratava mal. Mesmo assim, a sua fama de mau 
persegue-o até ao fim da obra

As Categorias da Narrativa
As Personagens
                
 Andorinha Sinhá
 
Personagem principal. A Andorinha é risonha, alegre, aventureira, bela, gentil, uma jovem que adora 
conversar e mantinha boas relações com todos. A sua vida era cristalina até que conheceu o Gato 
Malhado. 
A Andorinha viu-o como um desafio: ouvira falar muito mal dele, e até fora proibida de chegar perto dele, mas essa situação aguçou-lhe mais a vontade de conhecê-lo melhor. O narrador acha-a “louquinha” por esta querer falar com o inimigo. 
As Categorias da Narrativa
As Personagens


Cobra Cascavel
 

Figurante. É um animal que, por si só, tem uma carga simbólica poderosa e importante. É o animal mais 
temível de todos. Morava fora do parque e foi afugentada pelo Gato.
As Categorias da Narrativa
As Personagens
Manhã e Tempo
 

A Manhã é vista como uma figurante. É uma funcionária relapsa, preguiçosa, fanática por uma boa história, 
distraída, sonhadora. Ela apaga as estrelas e acende o Sol. 
O Tempo, também figurante, é o Mestre de tudo e de todos.
As Categorias da Narrativa
As Personagens
Rouxinol
 

Personagem secundária. É belo, gentil, raça volátil. É o professor de canto da Andorinha e pretendente. É 
com ele que a Andorinha vai casar. Ele desperta ciúmes no Gato, porque é uma ave.
As Categorias da Narrativa
As Personagens
Reverendo Papagaio

Personagem secundária. Tinha passado algum tempo num seminário e dava aulas de religião. Por debaixo 
da capa religiosa, é um hipócrita, covarde e devasso, que fazia propostas indecentes ao público feminino. 
É  o único que falava "a língua dos homens".
As Categorias da Narrativa
As Personagen
Galo Don Juan de Rhode Island
Personagem secundária. O Galo, polígamo, “maometano”, devasso orgulhoso (nota-se até no nome!). Foi o juiz do casamento da Andorinha e do Rouxinol.
As Categorias da Narrativa
As Personagens
Sapo Cururu
 

Personagem secundária. Companheiro do Vento, o Sapo é quem conta a história da obra ao narrador. Ele é 
visto como um ilustre, um intelectual, um académico, que vai denunciar para o leitor que o Gato plagiou 
sonetos. 
As Categorias da Narrativa
As Personagens
Cães
 

Figurantes. Serviam para ajudar a compor o ambiente do parque.
Pata Pepita e o Pato Pernóstico
São figurantes. Ajudam a compor o ambiente no que diz respeito à vida social do parque. Uma das frases que eu acho importante para ilustrar a condenação do amor do Gato e da Andorinha vista pelas personagens é dita pela Pata: “pata com pato, [...] andorinha com ave, gata com gato”.
                    
 

Pombo-Correio
 

Personagem secundária. Fazia longas viagens, levando a correspondências do parque. Tinha boa índole, 
mas era visto como um tolo porque a Pomba-Correio traia-o com o Papagaio
"O poeta e o mar", texto de Jorge Amado sobre o amigo Dorival Caymmi
Não sei, não recordo quando e onde conheci Dorival Caymmi pela primeira vez e pela primeira vez rimos juntos nossa alegria. Foi, com certeza, na Bahia, antes da partida do clássico ita, levando-nos – ao aprendiz de compositor e ao aprendiz de escritor – para tentar exercer nossos ofícios no Rio. Naquele tempo, quem quisesse um lugar ao sol tinha de começar pelo sacrifício de sair de sua terra, a terra da Bahia, onde éramos livres adolescentes nos mercados e nas praias. Só no Rio havia ambiente e oportunidade.
Na praia de Itapuã, nas malícias do Rio Vermelho, nas ladeiras da cidade antiga cresceu o menino Dorival, filho de Seu Durval, modesto funcionário estadual, bom de violão e no trago. Cresceu assim o moço Caymmi, na pesca, na serenata, na festa de bairro, no samba de roda, nos terreiros de santo, vivendo cada instante de sua cidade e de sua gente, alimentando-se de sua realidade e de seu mistério, preparando-se para ser seu poeta e seu cantor. Livre coração e o desejo de criar. A música popular brasileira não era ainda assunto de gazetas, revistas e festivais. O moço baiano, no entanto, não desejava nem o título de doutor nem o emprego público prometido, queria tão-somente compor e cantar. Teve de partir para ganhar a vida difícil.
Naqueles idos de 1936 o mundo era nosso nas ruas do Rio de Janeiro, lá se vão mais de 30 anos. Uma canção que fizemos juntos naquela época, É doce morrer no mar, tirada de uma cena de Mar Morto, continua popular até hoje e pode-se mesmo dizer: cada vez mais. Aliás, eis uma das características fundamentais da música de Caymmi: sua permanência, sua constante atualidade.
Sendo seu tema a Bahia, sua vida, seu povo, seu drama, sua luta, seu mistério, sua poesia, seus amores, a morena de Itapuã e as rosas de abril, Iemanjá e o vento do oceano, a jangada e o saveiro, o mundo da Bahia, não há uma frase sua, uma única, de música ou poesia, que seja circunstancial, que derive da moda, de uma influência momentânea.

Não compôs demais, ao sabor do sucesso e da novidade. Cada música sua é inspiração verdadeira e experiência vivida, é seu sangue e sua carne, é sua verdade. Uma será mais bela, outra mais profunda, aquela mais fácil, mas nenhuma resulta da busca do sucesso ou do aproveitamento de qualquer circunstância.
Caymmi leva meses e meses trabalhando cada uma de suas músicas e letras, ao sabor do tempo e da preguiça baiana e criadora. Segundo dizia Sérgio Porto, a música de Caymmi muito deve a essa preguiça, ou melhor: a esse tempo de lazer de medida tão larga, esse tempo baiano. De tudo isso posso dar testemunho, pois nesses 30 e tantos anos eu o vi compor sem descanso, mas sem pressa, vi também nascer e crescer a maioria de suas composições mais famosas. Em minha casa – em várias das casas onde vivi – ele trabalhou e criou. Jamais espicaçado por compromisso ou intenção imediatista.
Para Caymmi a moda não existe. Eu posso dizer, posso testemunhar como ninguém. Juntos andamos um bom bocado de caminho, juntos criamos alguma coisa, juntos começamos a envelhecer. Juntos fizemos teatro, cinema, tratamos o livro e a partitura, tocamos a vida e o amor. Amizade de toda a vida, "meu irmão, meu irmãozinho".
O escritor Jorge Amado publicou este texto na coleção Nova História da Música Popular Brasileira (Abril Cultural, 1970).

O CENTENÁRIO DE JORGE AMADO, O CONTADOR DE HISTÓRIAS

Houve um tempo em que os escritores brasileiros de ficção costumavam despertar paixão entre os leitores. Jorge Amado era um deles, possivelmente o que mais paixão provocava no grande público, num grupo que incluía Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Érico Veríssimo, entre outros. Esse tempo acabou. Hoje, a relação dos brasileiros com seus autores contemporâneos é de outra ordem.
“Assistimos a um momento em que não há mais a mesma paixão”, reconhece o poeta Alberto da Costa e Silva, representante da Academia Brasileira de Letras (ABL) na comissão que organiza as atividades do centenário de Amado, que nasceu em 9 de agosto de 1912, em Ferradas, na região cacaueira do sul da Bahia.
Nessa comemoração, o Brasil vai reviver a antiga paixão por meio de uma série de atividades que lembrarão o escritor. A começar pelo Carnaval da Bahia e do Rio, nos quais personagens amadianos vão protagonizar eventos populares que trarão novamente à cena as tramas pitorescas que, quando lançadas, atraíam milhares de pessoas ávidas para lê-las.
A Rede Globo prepara a readaptação de “Gabriela, Cravo e Canela” e o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, vai inaugurar neste primeiro semestre uma grande exposição sobre o autor. De vários países, chegam à família Amado propostas de homenagens que se pretende prestar a ele.
Um escritor de ficção só atinge seu grande momento junto ao público quando cria grandes personagens, observa Costa e Silva: “Jorge Amado foi mestre nisso, com personagens inesquecíveis”. E esta peculiaridade: além dos protagonistas, seus romances se apoiam “numa multidão de outros personagens, coadjuvantes do maior interesse”.
A obra de Amado já foi traduzida para 48 idiomas, em 54 países, segundo dados da Fundação Casa de Jorge Amado. As reedições realizadas desde 2008 pela Companhia das Letras, que já publicou 37 títulos do autor, venderam 240 mil exemplares em livrarias, sem contar encomendas de governo.
Para saber o total vendido até hoje, a pesquisadora Ilana Goldstein, autora de “O Brasil Best Seller de Jorge Amado” (Senac), realizou um levantamento junto às editoras antigas do escritor e estima que o montante se encontre na casa dos 30 milhões. “É um autor extraordinariamente importante para nossa história. Iniciou muita gente na leitura e ajudou um país inteiro a aprender a ler. Foi o escritor brasileiro mais popular do século XX, e com qualidade literária”, destaca João Ubaldo Ribeiro.
Mesmo com a popularidade e elogios como esses, não se deve esperar unanimidade nas discussões em torno de seu legado. Os livros de Amado sempre foram alvo de fortes ressalvas. A severidade no julgamento – seus personagens seriam rasos, estereotipados, o português descuidado, etc. – fez com que fosse menosprezado nas análises universitárias de letras, apesar de sempre apreciado por antropólogos e sociólogos.
A postura dos críticos literários contribuiu para um certo descrédito de sua obra e possivelmente para o afastamento dos leitores, sobretudo os mais jovens, algo que as reedições iniciadas em 2008 pela Companhia das Letras têm buscado reverter. O centenário será um momento-chave nessa reconquista, com debates, filmes, show, peças teatrais, livros, além da novela. Toda essa movimentação será uma oportunidade para que se renove também o debate sobre a nova relação da literatura e da crítica com os leitores.
A escritora Myriam Fraga, diretora-executiva da Fundação Casa de Jorge Amado, com sede no Pelourinho, em Salvador, recorda-se do furor que o surgimento de “Gabriela, Cravo e Canela” provocou, em 1958: “Eu era adolescente quando o livro foi publicado e o lançamento levou horas, com filas e mais filas”.
Myriam, no cargo desde quando a Fundação foi criada, há 25 anos, convivia quase diariamente com Amado, que morreu em 2001. O Partido Comunista do Brasil, do qual o escritor foi dirigente, ajudava na sua projeção, mas não explicava o arrebatamento. “Muitos autores comunistas não chegaram a lugar nenhum”, constata Myriam. O mesmo tipo de fenômeno ocorria no exterior.
O húngaro Ferenc Pál, professor de literatura brasileira em Budapeste, reconhece que os livros de Amado circulavam nos países do Leste europeu em virtude da filiação política do autor, mas não por esse motivo as pessoas os liam. O baiano foi o escritor estrangeiro mais popular da Hungria em meados do século passado.
Nos países lusófonos, Amado era igualmente muito estimado. Quando a reedição de sua obra foi anunciada, há três anos, escritores portugueses e africanos (de língua portuguesa) demonstraram grande entusiasmo – ainda mais que os brasileiros, conta o editor da Companhia das Letras Thyago Nogueira. “Eu me surpreendi, e ainda hoje me surpreendo, ao constatar a penetração que Jorge Amado teve no mundo todo. Sua obra circulou num grau do qual eu acho difícil termos a exata dimensão.”
Em sua opinião, o escritor combinava boa literatura com apelo popular. “Atualmente, existe um certo pudor em relação a isso, como se tudo que fosse popular fosse menor. Mas, para Jorge Amado, o povo era a matéria-prima. Ele tinha ouvido grande para o que acontecia nas ruas e fazia uma transposição interessante do ponto de vista literário. Sua escrita é oral, engraçada, irônica e incorpora uma série de registros. Para editar seus livros, precisei ir milhões de vezes ao dicionário. Muitas vezes, ele usava palavras que tinha ouvido apenas na rua”, afirma Nogueira.
O mergulho no universo popular, como o do candomblé, foi motivo de crítica e preconceito, lembra Myriam. “Essa aproximação com a cultura afro-baiana, muito viva na Bahia, começou no romance “Jubiabá” [1935] e não foi bem aceita.” Pois é justamente a maneira como Amado lida com esses temas um dos motivos da admiração do escritor Alberto Mussa, que, em sua obra, transita entre o erudito e o popular:
“Jorge Amado trata as pessoas do povo e do candomblé com respeito e consegue tirar desse ambiente uma matéria literária. Não se vê isso o tempo inteiro e é algo pouco valorizado. Ou existe um distanciamento ou uma representação muito estereotipada”.
Temas populares teriam saído de moda. A média dos autores contemporâneos, segundo Mussa, prefere personagens urbanos, confinados a apartamentos, que sofrem com angústias psicológicas e exercem a mesma profissão que eles, como a de escritores ou professores. “Mas uma literatura em que o personagem é a cópia do autor resulta empobrecedora. Jorge Amado tem a vantagem de se lançar em outros mundos. É difícil retratar bem um marujo, nunca tendo sido um”, elogia Mussa.
O romance “Terras do Sem-Fim” (1943), sobre a disputa de coronéis pelo cacau, é considerado pelo escritor um dos melhores da literatura brasileira no século XX. Outros títulos de Amado que destaca são “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1966) e “Os Velhos Marinheiros” (1961), composto da novela “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água” e do romance “O Capitão-de-Longo-Curso”.
“Em termos de linguagem, prefiro algo mais trabalhado e clássico, mas suas histórias são muito boas. Retratam uma parte do Brasil pouco conhecida, como a região baiana do cacau, e trazem personagens exuberantes. Os livros são extremamente bem construídos em termos de fruição e prazer. Se sua valorização é sinal de que estamos recuperando a vontade narrativa, isto já será muito bom”, diz Mussa.
Os escritores, hoje, não dão prioridade à opção de contar histórias, analisa Musa. “É como se fosse algo inferior, que relacionam talvez ao modelo narrativo do cinema. A literatura verdadeira estaria, então, em outro lugar.”
Sem histórias interessantes, corre-se o risco de tornar os leitores arredios, comenta Costa e Silva. “Jorge Amado se propôs ser um contador de histórias, e logrou sua proposta. Ele escolheu por assunto a vida cotidiana, com seus dramas e alegrias, e não lida com grandes angústias.”
Esse universo – aparentemente simples – dificultaria a tarefa dos críticos. “É mais fácil escrever teses sobre quem traz muita coisa nova na forma de escrever, como Rosa ou João Cabral de Melo Neto. Autores como Jorge Amado ou Manuel Bandeira são um bocado difíceis. Mas a crítica está mudando. Vamos assistir a um cansaço muito grande do formalismo pelo formalismo.”
O centenário, na opinião de Costa e Silva, será uma ótima oportunidade para o reexame, sobretudo estético, da obra amadiana. “É necessário recolocar seus livros no lugar em que merecem estar.”
Se suas frases soam descuidadas, trata-se de efeito proposital, analisa Costa e Silva: “Ele era cônscio de suas responsabilidades artísticas e escrevia querendo escrever de determinada maneira. O estudo do Jorge criador de linguagem e artista poderá abrir novos caminhos para o entendimento de sua obra. Ficou uma ideia de que ele era um improvisador, mas não há nada de frouxo nele”. Seus personagens tampouco seriam rasos: “Não vejo nenhum deles que não seja repleto de contradições e de mudanças no desenrolar da história”.
No entanto, quem defende o autor de “Mar Morto” sabe que a controvérsia pode não tardar. “Jorge Amado sempre foi polêmico”, assinala Myriam. A crítica costuma se dividir entre os que o consideram um mestre do romance e os que o veem como um trivial contador de histórias, e ainda sobre outras questões, como o elogio que faz da mestiçagem.
“Sua obra encerra uma utopia. E ele sentia muito orgulho em ser reconhecido como contador de histórias. Jorge queria fazer uma obra acessível, acreditava que a literatura poderia ser um meio de libertação”, diz Myriam.
Costa e Silva destaca outro aspecto positivo: “É algo curioso, uma de suas grandes qualidades, apreciada pelo leitor. Todo livro de Jorge Amado que se leia, seja ‘Capitães da “Areia’ [1937] ou ‘Tocaia Grande’ [1984], apesar da violência e das indignidades que apresentam, sempre nos deixa de cabeça alta. Ninguém sai acabrunhado de um livro de Jorge. É um autor que destila esperança”.
O CENTENÁRIO DE JORGE AMADO, O CONTADOR DE HISTÓRIAS, texto inicialmente publicado no sítio  

Portal Vermelho
Londres, agosto de 1976.
Jorge Amado (In: O gato Malhado e a andorinha Sinhá: uma história de amor, 40. ed. Rio de Janeiro: Record, 2002) 1ª edição pela Editora Record, Rio de Janeiro, 1976, 72 páginas, com ilustrações de Carybé. A 40ª edição, a mais recente, é de 2002.
Foi publicada em Portugal e traduzida para o alemão, espanhol, finlandês, francês, galego, grego, guarani, inglês, italiano, japonês, russo e turco.
Dança: adaptação para balé de Luiza Lagoas, com várias encenações em épocas diversas.
Teatro: adaptação teatral do grupo mineiro Ponto de Partida, 1992.

Tieta do Agreste, 1977



Década de 1970. A Bahia – a “Nova Bahia”, como então se dizia – sob o impacto da indústria petroquímica. O mar de Iemanjá ameaçado de se converter em depósito de metais pesados. A cidade povoando-se de hotéis e agências publicitárias. A população inflando. O paraíso hippie-contracultural de Arembepe anexado a um anel industrial. É nesse contexto que Jorge Amado publica, em 1977, Tieta do Agreste, romance escrito entre a praia de Buraquinho e a cidade de Londres. O livro é a recriação da vida cotidiana numa pequena cidade do litoral norte da Bahia, próxima à foz do Rio Real, região de Mangue Seco, num momento crucial de sua história – momento em que a sua paz, a sua vegetação, as suas dunas e as suas praias se transformam em alvo de uma empresa poluidora, a Brastânio, Indústria Brasileira de Titânio S. A. É nesse horizonte que se movem personagens como Dário Queluz, Ascânio, o vate Barbozinha, o seminarista Ricardo, Zé Esteves, Carmosinha, Elisa, Perpétua. Mas, sobretudo, Tieta – a pastora de cabras que fizera fortuna em São Paulo, gerenciando moças para políticos e empresários, e que agora retorna, buscando um paraíso que vê se perder
O romance foi escrito na praia de Buraquinho, arredores da Capital baiana, e concluído em Londres, em meados de 1977. A Editora Record, Rio de Janeiro, lançou a 1ª edição com 120.000 exemplares e a 2ª com 50.000 unidades, ambas em agosto de 1977, com capa de Carlos Bastos, ilustrações de Calasans Neto, retrato do autor por Flávio de Carvalho e foto do autor por Zélia Gattai, com 590 páginas. A 23ª edição, 1977, é a mais recente, pela mesma editora, 575 páginas, com fixação de texto por Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, capa de Pedro Costa com ilustração de Calasans Neto, sobrecapa com reprodução de quadro de Carlos Bastos, ilustrações de Calasans Neto e foto do autor por Zélia Gattai.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, eslovaco, espanhol, francês, grego, hebraico, inglês, italiano e tcheco.
Televisão: novela de Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares, Rede Globo de Televisão, 1990, encenada por Betty Faria.
Cinema: Tieta, filme dirigido por Cacá Diegues, com música de Caetano Veloso, tendo Sônia Braga no papel principal.
Foi tema do carnaval de 1997, Salvador, Bahia, que homenageou Jorge Amado.
Marcos Tamoio, prefeito do Rio de Janeiro, denominou de Rua Tieta do Agreste um logradouro no bairro carioca de Campo Grande.

Farda fardão camisola de dormir, 1979



Publicado em 1979, Farda, fardão, camisola de dormir é um espécime singular na floresta amadiana. A ação se passa no Rio de Janeiro, em ambiente intelectualizado. No centro das atenções está a Academia Brasileira de Letras, onde se abriu uma vaga com a morte do poeta-boêmio Antonio Bruno, em Paris, após tomar conhecimento da queda da cidade em mãos nazistas. Começa, então, uma disputa acirrada, que vai se prolongar por quatro meses, em conseqüência da eleição do substituto de Bruno. Os candidatos que surgem nada têm a ver com o espírito ou o estilo do poeta morto. São o general Waldomiro Moreira e o coronel Agnaldo Sampaio Pereira, um simpatizante do ideário nazista. Jorge Amado situa a trama em 1940, época de projeção mundial do totalitarismo: “em toda a parte, pelo mundo afora, são as trevas novamente, a guerra contra o povo, a prepotência”. No Brasil, impunham-se os dias asfixiantes da ditadura estado-novista, com o seu rol de brutalidades e perseguições. E o que Jorge Amado pretendeu, com o seu romance, foi dizer que, mesmo sob a opressão e a tirania, “é sempre possível plantar uma semente, acender uma esperança”
O romance foi escrito na casa do autor em Itapuã, Salvador, Bahia, entre janeiro e junho de 1979, e sua 1ª edição é da Editora Record, Rio de Janeiro, setembro de 1979, com 239 páginas, capa de Jenner Augusto, ilustração de Otávio Araújo, retrato do autor por Jordão de Oliveira e fotografia do arquivo do Jornal do Brasil. A 16ª edição, a mais recente, é de 1997.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, árabe, búlgaro, espanhol, francês, hebraico, inglês, italiano, russo e grego.

O menino grapiúna, 1981



“De tanto ouvir minha mãe contar, a cena se tornou viva e real como se eu houvesse guardado memória do acontecido…”, assim Jorge Amado inicia suas memórias de infância, menino grapiúna, que viveu em meio às lutas pela conquista da terra, em contato com coronéis do cacau, trabalhadores, prostitutas, personagens tão bem ilustrados nos seus romances do “Ciclo do cacau”.
Neste livro, Jorge Amado menino é o personagem principal além de D. Lalu, sua mãe, o coronel João Amado, seu pai, seu tio Álvaro, o caboclo Argemiro e o Padre Cabral que o conduziu ao mundo dos livros, no Colégio Antônio Vieira, já em Salvador.
Escrito por encomenda, foi publicado, em 1981, em edição especial, fora do comércio, pela MPM Propaganda S/A e MPM – Casabranca Propaganda Ltda. em co-edição com a Editora Record, em exemplares numerados de 1 a 11.000, com capa de Edmilson Vieira da Silva sobre ilustração de Floriano Teixeira, retrato do autor por Carlos Bastos, como brinde de fim de ano, homenageando Jorge Amado pelos 50 anos de literatura e 70 de vida. A partir de 1982, a Editora Record passou a publicar o livro comercialmente até a 16ª edição, 12ª da Editora Record, maio de 1996, a mais recente, com retrato do autor por Jordão de Oliveira.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o espanhol, francês, alemão e italiano.

A bola e o goleiro, 1984



Neste livro, Jorge Amado conta a história da bola Fura-Redes que se apaixona pelo goleiro Bilô-Bilô, o Cerca-Frangos, e a partir daí não consegue mais fazer gols, correndo sempre para as mãos do seu adorado goleiro, transformando-o de “frangueiro” no maior de todos os goleiros que já existiu. Segundo o próprio escritor: “Milagre de amor não tem explicação, não necessita”.
Escrito em Salvador, Bahia, em janeiro de 1984, com 1ª edição pela Editora Record, Rio de Janeiro, 1984, capa e ilustração de Aldemir Martins, faz parte da Coleção Abre-te Sésamo. A 3ª edição, a mais recente, é de fevereiro de 1995.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, francês e italiano.

Tocaia Grande, 1984



Como diz o próprio Jorge Amado, Tocaia Grande foi escrito de déu em déu, entre São Luís do Maranhão, Estoril, Itapuã e Petrópolis. E quando lhe perguntaram a razão de se demorar tanto na feitura de um romance, esclareceu: “É que desta vez não estou só escrevendo um romance – estou construindo uma cidade”. De fato, Tocaia Grande, publicado em 1984, gira em torno da formação de um povoado, desde o seu mais remoto movimento embrionário, em inícios do século. Apesar de nítidas e impressivas, as suas personagens – de Natário a Tição, passando por Fadul Abdala – são secundárias. O que conta mesmo é o processo do arraial a partir da casa construída por Natário. Aí vão se instalando, gradualmente, pessoas pertencentes aos escalões inferiores da hierarquia social, não raro extraviadas ou transgressoras, como tropeiros, jagunços e prostitutas. É a “face obscura” da história citadina, sua tessitura espontânea, improvisada, agregando gentes e gestos, modificando a primeira paisagem. Até que o arraial se firma no cenário da região. E é engolido pela sociedade envolvente, transformando-se em Irisópolis, a face oficial – e não mais a “obscura” – da constituição do núcleo urbano. Mas Jorge Amado não está interessado na face oficial dessa evolução. E aqui se pode generalizar. Ao focalizar os lances inaugurais do povoado, o que o romancista pretende avivar é justamente o que costuma ser recalcado ou desfigurado pela historiografia oficial das cidades brasileiras, mais voltada para o cartão postal do que para a trama comunitária da “arraia-miúda”.
Escrito em São Luís do Maranhão, de maio a junho de 1982, no Estoril, Portugal, em novembro de 1982, em Itapuã, Salvador, Bahia, de março a novembro de 1983 e em Petrópolis, de abril a setembro de 1984.
A Editora Record, Rio de Janeiro, vem publicando o romance desde a 1ª edição, 1984, com capa de Floriano Teixeira, retrato do autor por Jordão de Oliveira, foto do autor por Zélia Gattai, até a 11ª edição, de 1998, a mais recente.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, búlgaro, catalão, chinês, coreano, dinamarquês, esloveno, espanhol, finlandês, francês, hebraico, holandês, inglês, italiano, norueguês, romeno e sueco.
Televisão: adaptação de Walter Avancini, novela, Rede Manchete, 1995.

O sumiço da santa: uma história de feitiçaria, 1988



Em 1988, ano do centenário da Abolição da Escravidão em nosso país, Jorge Amado traz à luz O sumiço da santa: uma história de feitiçaria, lidando com elementos culturais de origem negro-africana. Escrito em Paris, o romance se ocupa de inesperados acontecimentos que se sucedem na Bahia, durante 48 horas, entre uma quarta e uma sexta-feira, na passagem da década de 1960 para a de 1970. Uma imagem de Santa Bárbara é conduzida num saveiro de Santo Amaro da Purificação para Salvador, onde deverá figurar numa exposição promovida pelo Museu de Arte Sacra. Mas, no momento em que o saveiro toca na Rampa do Mercado, dá-se o encanto. A feitiçaria. A santa se move, sai do andor, ajeita a roupa e se manda pela cidade. É, agora, Oiá-Iansã, a labareda erótica, deusa dos ventos e das tempestades. E veio para libertar a jovem Manuela do jugo tirânico de uma puritana fanática. Aqui, o sagrado e o profano se interpenetram e se mesclam definitivamente. O vilão da história é o bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador. E o livro vai se deixando povoar por dezenas e dezenas de personagens reais – políticos, artistas, empresários, intelectuais, religiosos – que se movimentam por diversos cantos e recantos da Cidade da Bahia, sem participar diretamente da trama. No dizer de Jorge Amado, foram “homenagens” que ele fez a amigos e a figuras ilustres da vida baiana.
Projeto de romance anunciado vinte anos antes de sua publicação sob o título “A guerra dos santos”, foi escrito inicialmente em Paris, nos períodos de maio a outubro de 1987 e fevereiro a julho de 1988, e finalizado em Salvador, Bahia, em agosto de 1988. Lançado pela Editora Record, Rio de Janeiro, 1988, com capa e ilustração de Carybé, retrato do autor por Jordão de Oliveira, fotos do autor por Zélia Gattai, com 430 páginas, até a 3ª edição, a mais recente, 1999, com as mesmas características.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, esloveno, espanhol, francês, grego, inglês, italiano e russo.

Navegação de cabotagem, 1992



“[...] Oitenta anos vividos intensa, ardentemente, de face para a vida, em plenitude. Minha criação romanesca decorre da intimidade, da cumplicidade com o povo. Aprendi com o povo e com a vida, sou um escritor e não um literato, em verdade sou um obá em língua iorubá da Bahia obá significa ministro, velho, sábio: sábio da – sabedoria do povo.
Consciente e contente que assim seja, reúno nesta Navegação de Cabotagem lembranças de alguém que teve o privilégio de assistir, e por vezes de participar de acontecimentos em certa medida consideráveis, de ter conhecido e por vezes privado com figuras determinantes. Publico esses rascunhos pensando que, talvez, quem sabe, poderão dar idéia do como e do porque. Trata-se, em verdade, da liquidação em preço reduzido do saldo de miudezas de uma vida bem vivida. Deixo de lado o grandioso, o decisivo, o terrível, o tremendo, a dor mais profunda, a alegria infinita, assuntos para memórias de escritor importante, ilustre, fátuo e presunçoso: não vale à pena escrevê-las, não lhes encontro a graça”.

Jorge Amado (In: Navegação de cabotagem, 5. ed. Rio de Janeiro: Record, 2001. p. III)
Escrito entre Salvador, Bahia, e Paris, de julho de 1991 a junho de 1992, publicado pela Editora Record, Rio de Janeiro, em meio às comemorações dos 80 anos do escritor, com capa de Floriano Teixeira, projeto gráfico de Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, ilustrações de diversas obras do escritor, 638 páginas. Encontra-se em 3ª edição, outubro de 1994, com as mesmas características.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, espanhol, francês, italiano e russo.

A descoberta da América pelos turcos, 1992



Em 1991, nasce mais um livro de Jorge Amado – escrito por encomenda, em função das comemorações do V Centenário do Descobrimento da América. Redigido em poucos meses, entre a Bahia e Paris, o livro aparece primeiro na França, sendo publicado no Brasil somente em 1994. É A descoberta da América pelos turcos, definido por seu autor como um “romancinho” sem compromisso, feito para contar vidas de migrantes árabes na Bahia dos coronéis do cacau. “Fiz uma coisa que eu tinha vontade de fazer há anos: contar uma história para aqueles que a quisessem ler, sem nenhum outro compromisso, ideológico, político, social. Eu queria só que o leitor ficasse contente, gostasse de ler uma coisa que aconteceu, diz o autor. Para acrescentar: Na Bahia, tinha muito sírio, muito libanês. A região em que eu nasci, a região do cacau, a região grapiúna, foi colonizada por sergipanos, como o meu pai, que foi um dos coronéis do cacau. E havia os árabes, os turcos. A quantidade de árabes era enorme. Eles tiveram uma influência muito grande na formação da civilização do cacau”.
Iniciado em Salvador, Bahia, em julho, e finalizado em Paris, em outubro de 1991, foi inicialmente publicado em francês, pela Stock, Paris, 1992. Lançado no Brasil, em 1994, pela Editora Record, com duas edições no mesmo ano, tem ilustrações de Pedro Costa, segundo originais clássicos do Rubayat, foto de Zélia Gattai, composição gráfica de Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, 171 páginas.
Foi publicado simultaneamente em espanhol, italiano, russo, alemão, grego e turco.

O milagre dos pássaros, 1997



Aconteceu na localidade de Piranhas, em Alagoas, às margens do rio São Francisco. Ali moravam o capitão Lindolfo Ezequiel e sua mulher, Sabô. O capitão era famoso por sua atividade de pistoleiro e por ser casado com a mulher mais desejada da região, o que lhe exigia vigor físico e o exercício da fama de matador.
Certo dia, chegou ao lugar Ubaldo Capadócio, caboclo alto e de boa estampa que se destacava nas artes da literatura e da música popular: era autor de folhetos de cordel e, num forrobodó, tocava harmônica como ninguém. O poeta era requisitado nos quatro cantos para animar batizados, casamentos e até velórios. Além disso, era dado ao galanteio: arrebatava corações e mantinha duas famílias, uma na Bahia, outra em Sergipe, tinha três esposas e nove filhos.
Em Piranhas, Ubaldo Capadócio caiu de amores pela mulher de Lindolfo Ezequiel. Desavisado, foi parar na cama de Sabô. E o capitão, que estava de viagem, voltou antes da hora. Para se safar dessa enrascada e virar tema de relato afamado, Ubaldo Capadócio precisou contar com a presença de numerosas testemunhas, muitos pássaros e uma ajudinha da Providência.
Em O milagre dos pássaros, Jorge Amado transforma uma história consagrada oralmente em matéria literária. Narrativa breve, entre o conto e a novela, o texto é um episódio de traição e desonra típico da tradição popular do sertão nordestino.
Com o humor e a habilidade narrativa que lhe são próprios, o escritor recupera e eterniza esse caso desabusado que ganhou a boca do povo e correu o sertão.

O milagre dos pássaros foi escrito em 1979, por encomenda, para ser distribuído como presente de fim de ano de uma instituição financeira. A primeira edição comercial viria apenas em 1997.
Neste relato, Jorge Amado brinca com algumas das mais tradicionais formas brasileiras de narrativa e compõe uma história de aventuras com peripécias de heróis tipicamente populares. Causo de traição, ou, em outras palavras, uma anedota sobre um temido capitão que, apesar da valentia e da fama de matador, tornou-se um notório corno, O milagre dos pássaros é ainda o testemunho bem-humorado de um “milagre”.
Para elaborar a história, em que se confundem o ocorrido e o narrado, a veracidade e a invenção, Jorge Amado inspirou-se na poesia de cordel e nos contos maravilhosos. A participação de personalidades reais, como Heloisa Ramos, viúva do escritor Graciliano Ramos, que segundo o narrador visitava a cidade quando o milagre dos pássaros ocorreu, confere à história caráter de fato irrefutável. Além dela, o ilustrador Calazans Neto e o poeta Florisvaldo Matos também são citados no texto como testemunhas vivas de que o herói do conto, Ubaldo Capadócio, era capaz de fazer até defunto rir.

A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, 1961



Em 1959, Jorge Amado publica, na revista Senhor, um texto que alguns consideram a sua obra-prima; outros, indo além, dizem que é a melhor novela de toda a literatura brasileira. Trata-se de A morte e a morte de Quincas Berro Dágua. E o que se tece aí é a metamorfose de Joaquim em Quincas. Simples. Aos 50 anos de idade, o irrepreensível cidadão Joaquim Soares da Cunha – funcionário público exemplar, bom pai e bom esposo – resolve dar um murro na mesa. Chutar pra cima as velhas regras, princípios e condutas. Deixa ele, então, casa e família e se muda para uma pocilga no Tabuão, a fim de cair na farra e na gandaia, transformando-se em Quincas Berro Dágua, cachaceiro supremo, jogador imbatível, mimo das mulatas, rei dos vagabundos da Bahia. Um belo dia, Quincas é achado morto em seu quarto. Avisada, a família entra em campo para reconverter Quincas em Joaquim, dando-lhe enterro decente e, quem sabe, conseguindo apagar da memória os anos de sua maluquice. Mas o plano se frustra. Velhos amigos de Quincas acabam ministrando cachaça ao finado. É o suficiente para que Quincas se levante e saia com eles para a grande esbórnia final. Acabam colhidos por um temporal, no meio do mar. Quincas se ergue e, entre relâmpagos, se atira do barco, para ter o enterro que sempre quis – no meio das águas.
Publicada inicialmente no número de maio de 1959 da revista carioca Senhor, com ilustrações de Glauco Rodrigues, a novela teve sua 1ª edição, pela Livraria Martins Editora, São Paulo, em 1961, reunida com A completa verdade sobre as discutidas aventuras do comandante Vasco Moscoso de Aragão, capitão de longo curso, sob o título Os velhos marinheiros, constituindo o tomo décimo quinto, volume XV, das “Obras Ilustradas de Jorge Amado”, 321 páginas. O livro, em edições sucessivas, reproduzindo as mesmas ilustrações, com capa de Carybé e retrato do autor por Carlos Scliar, foi publicado, até a 36ª edição, em 1975, pela mesma editora.
A novela A morte e a morte de Quincas Berro Dágua teve uma edição especial comemorativa do trigésimo aniversário da Livraria Martins Editora, ilustrada por Floriano Teixeira, em abril de 1967, 72 páginas. A 38ª edição, também em volume separado, foi lançada pela Editora Record, Rio de Janeiro, em convênio com a Livraria Martins Editora, de São Paulo, em 1975, com 102 páginas, crônica de abertura de Vinicius de Moraes, retrato do autor por Carlos Bastos, foto do autor por Zélia Gattai, capa e ilustrações de Floriano Teixeira. Daí em diante, vem saindo pela Editora Record, Rio de Janeiro, e a 81ª edição, a mais recente, 1999, com fixação de texto por Paloma Jorge Amado e Pedro Costa, tem capa de Pedro Costa com ilustrações de Floriano Teixeira, sobrecapa de Carybé, ilustrações de Floriano Teixeira com vinhetas por Pedro Costa; retrato do autor por Jordão de Oliveira, foto da sobrecapa de Zélia Gattai. Em 1978, foi publicada uma edição especial de luxo, a 43ª, edição limitada, com 71 páginas duplas, capa e ilustrações de Carybé pelas Edições Alumbramento Livroarte Editora Ltda., do Rio de Janeiro.
Foi publicado em Portugal e traduzido para o alemão, árabe, azerbaidjano, búlgaro, chinês, dinamarquês, espanhol, esperanto, finlandês, francês, hebraico, húngaro, inglês, italiano, japonês, lituano, macedônio, moldávio, polonês, russo e tcheco.
Teatro: Quincas Berro Dágua, adaptação de João Augusto Azevedo, encenada pelo Teatro Livre da Bahia, Roberto Santana Produções, no Teatro Vila Velha, em novembro/dezembro de 1972 e no Teatro Castro Alves, em fevereiro de 1976, ambas em Salvador, Bahia; em 1988, adaptação de Yvon Chaix, na França; em agosto de 1995, adaptação de Claudius Portugal, Teatro Castro Alves, Salvador.
Televisão: adaptação para telenovela, TV Tupi, Rio de Janeiro, 1968; As mortes de Quincas Berro Dágua, adaptação de Wálter Avancini e James Amado, Rede Globo de Televisão, na série “Caso Especial”, dezembro de 1978, com a participação de Paulo Gracindo, Dina Sfat, Stênio Garcia, Flávio Migliaccio, Antônio Pitanga e outros.
Último texto
Nem a rosa, nem o cravo...
Jorge Amado
As frases perdem seu sentido, as palavras perdem sua significação costumeira, como dizer das árvores e das flores, dos teus olhos e do mar, das canoas e do cais, das borboletas nas árvores, quando as crianças são assassinadas friamente pelos nazistas? Como falar da gratuita beleza dos campos e das cidades, quando as bestas soltas no mundo ainda destroem os campos e as cidades?

Já viste um loiro trigal balançando ao vento? É das coisas mais belas do mundo, mas os hitleristas e seus cães danados destruíram os trigais e os povos morrem de fome. Como falar, então, da beleza, dessa beleza simples e pura da farinha e do pão, da água da fonte, do céu azul, do teu rosto na tarde? Não posso falar dessas coisas de todos os dias, dessas alegrias de todos os instantes. Porque elas estão perigando, todas elas, os trigais e o pão, a farinha e a água, o céu, o mar e teu rosto. Contra tudo que é a beleza cotidiana do homem, o nazifascismo se levantou, monstro medieval de torpe visão, de ávido apetite assassino. Outros que falem, se quiserem, das árvores nas tardes agrestes, das rosas em coloridos variados, das flores simples e dos versos mais belos e mais tristes. Outros que falem as grandes palavras de amor para a bem-amada, outros que digam dos crepúsculos e das noites de estrelas. Não tenho palavras, não tenho frases, vejo as árvores, os pássaros e a tarde, vejo teus olhos, vejo o crepúsculo bordando a cidade. Mas sobre todos esses quadros bóiam cadáveres de crianças que os nazis mataram, ao canto dos pássaros se mesclam os gritos dos velhos torturados nos campos de concentração, nos crepúsculos se fundem madrugadas de reféns fuzilados. E, quando a paisagem lembra o campo, o que eu vejo são os trigais destruídos ao passo das bestas hitleristas, os trigais que alimentavam antes as populações livres. Sobre toda a beleza paira a sombra da escravidão. É como u'a nuvem inesperada num céu azul e límpido. Como então encontrar palavras inocentes, doces palavras cariciosas, versos suaves e tristes? Perdi o sentido destas palavras, destas frases, elas me soam como uma traição neste momento.

Mas sei todas as palavras de ódio, do ódio mais profundo e mais mortal. Eles matam crianças e essa é a sua maneira de brincar o mais inocente dos brinquedos. Eles desonram a beleza das mulheres nos leitos imundos e essa é a sua maneira mais romântica de amar. Eles torturam os homens nos campos de concentração e essa é a sua maneira mais simples de construir o mundo. Eles invadiram as pátrias, escravizaram os povos, e esse é o ideal que levam no coração de lama. Como então ficar de olhos fechados para tudo isto e falar, com as palavras de sempre, com as frases de ontem, sobre a paisagem e os pássaros, a tarde e os teus olhos? É impossível porque os monstros estão sobre o mundo soltos e vorazes, a boca escorrendo sangue, os olhos amarelos, na ambição de escravizar. Os monstros pardos, os monstros negros e os monstros verdes.

Mas eu sei todas as palavras de ódio e essas, sim, têm um significado neste momento. Houve um dia em que eu falei do amor e encontrei para ele os mais doces vocábulos, as frases mais trabalhadas. Hoje só 0 ódio pode fazer com que o amor perdure sobre o mundo. Só 0 ódio ao fascismo, mas um ódio mortal, um ódio sem perdão, um ódio que venha do coração e que nos tome todo, que se faça dono de todas as nossas palavras, que nos impeça de ver qualquer espetáculo - desde o crepúsculo aos olhos da amada - sem que junto a ele vejamos o perigo que os cerca.

Jamais as tardes seriam doces e jamais as madrugadas seriam de esperança. Jamais os livros diriam coisas belas, nunca mais seria escrito um verso de amor. Sobre toda a beleza do mundo, sobre a farinha e o pão, sobre a pura água da fonte e sobre o mar, sobre teus olhos também, se debruçaria a desonra que é o nazifascismo, se eles tivessem conseguido dominar o mundo. Não restaria nenhuma parcela de beleza, a mais mínima. Amanhã saberei de novo palavras doces e frases cariciosas. Hoje só sei palavras de ódio, palavras de morte. Não encontrarás um cravo ou uma rosa, uma flor na minha literatura. Mas encontrarás um punhal ou um fuzil, encontrarás uma arma contra os inimigos da beleza, contra aqueles que amam as trevas e a desgraça, a lama e os esgotos, contra esses restos de podridão que sonharam esmagar a poesia, o amor e a liberdade!

O texto acima foi publicado no jornal "Folha da Manhã",  edição de 22/04/1945, e consta do livro "Figuras do Brasil: 80 autores em 80 anos de Folha", PubliFolha - São Paulo, 2001, pág. 79, organização de Arthur Nestrovski.

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