AQUI ESTÁ O RESTANTE DO ROMANCE - TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA - LIMA BARRETO.
TERCEIRA
PARTE
I
PATRIOTAS
Havia mais de
uma hora que ele estava ali, num grande salão do palácio, vendo o marechal, mas
sem lhe poder falar. Quase não se encontravam dificuldades para se chegar à sua
presença, mas falar-lhe, a coisa não era tão fácil.
O palácio
tinha um ar de intimidade, de quase relaxamento, representativo e eloqüente.
Não era raro ver-se pelos divãs, em outras salas, ajudantes de- ordens,
ordenanças, contínuos, cochilando, meio deitados e desabotoados.
Tudo nele era
desleixo e moleza. Os cantos dos tetos tinham teias de aranha; dos tapetes,
quando pisados com mais força, subia uma poeira de rua mal varrida. Quaresma
não pudera vir logo, como anunciara no telegrama. Fora preciso pôr em ordem os
seus negócios, arranjar quem fizesse companhia à irmã. Fizera Dona Adelaide mil
objeções à sua partida; mostrara-lhe os riscos da luta, da guerra,
incompatíveis com a sua idade e superiores à sua força; ele, porém, não se
deixara abater, fizera pé firme, pois sentia, indis- pensável, necessário que
toda a sua vontade, que toda a sua inteligência, que tudo o que ele tinha de vida
e atividade fosse posto à disposição do governo, para então!... oh!
Aproveitara
os dias até para redigir um memorial que ia entregar a Floriano. Nele
expunham-se as medidas necessárias para o levantamento da agricultura e
mostravam-se todos os entraves, oriundos da grande pro- priedade, das exações
fiscais, da carestia de fretes, da estreiteza dos merca- dos e das violências
políticas.
O major
apertava o manuscrito na mão e lembrava-se da sua casa, lá longe, no canto
daquela planície feia, olhando, no poente, as montanhas que se alongavam, se
afilavam nos dias claros e transparentes; lembrava-se de sua irmã, dos seus
olhos verdes e plácidos que o viram partir com uma impassibilidade que não era
natural; mas do que se lembrava mais, naquele momento, era do Anastácio, o seu
preto velho, o seu longo olhar, não mais com aquela ternura passiva de animal
doméstico, mas cheio de assombro, de espanto e piedade, rolando muito nas
órbitas as escleróticas muito brancas, quando o viu penetrar no vagão da
estrada de ferro, Parecia que farejava desgraça... Não lhe era comum tal
atitude e como que a tomava por ter descoberto nas coisas sinais de dolorosos
aconteci- mentos a vir... Ora!...
Ficara
Quaresma a um canto vendo entrar um e outro, à espera que o presidente o
chamasse. Era cedo, pouco devia faltar para o meio-dia, e Floriano tinha ainda,
como sinal do almoço, o palito na boca.
Falou em
primeiro lugar a uma comissão de senhoras que vinham oferecer o seu braço e o
seu sangue em defesa das instituições e da pátria. A oradora era uma mulher
baixa, de busto curto, gorda, com grandes seios altos e falava agitando o leque
fechado na mão direita.
Não se podia
dizer bem qual a sua cor, sua raça, ao menos: andavam tantas nela que uma
escondia a outra, furtando toda ela a uma classificação honesta.
Enquanto
falava, a mulherzinha deitava sobre o marechal os grandes olhos que despediam
chispas. Floriano parecia incomodado com aquele chamejar; era como se temesse
derreter-se ao calor daquele olhar que queimava mais sedução que patriotismo,
Fingia encará-la, abaixava o rosto como um adolescente, batia com os dedos na
mesa...
Quando lhe
chegou a vez de falar, levantou um pouco o rosto, mas sem encarar a mulher, e,
com um grosso e difícil sorriso de roceiro, declinou da oferta, visto a
República ainda dispor de bastante força para vencer. A última frase, ele a
disse com mais vagar e quase ironicamente. As damas despediram-se; o marechal
girou olhar em torno do salão e deu com Quaresma.
—Então,
Quaresma? fez ele familiarmente.
O major ia
aproximar-se, mas logo estacou no lugar em que estava. Uma chusma de oficiais
subalternos e cadetes cercou o ditador e a sua atenção convergiu para eles. Não
se ouvia o que diziam. Falavam ao ouvido de Floriano, cochichavam, batiam-lhe
nas espáduas. O marechal quase não falava: movia com a cabeça ou pronunciava um
monossílabo, coisa que Quaresma percebia pela articulação dos lábios.
Começaram a
sair. Apertavam a mão do ditador e, um deles, mais jovial, mais familiar, ao
despedir-se, apertou-lhe com força a mão mole, bateu-lhe no ombro com
intimidade, e disse alto e com ênfase:
—Energia,
marechal!
Aquilo tudo
parecia tão natural, normal, tendo entrado no novo cerimonial da República, que
ninguém, nem o próprio Floriano, teve a mínima surpresa, ao contrário alguns
até sorriram alegres por ver o califa, o cã, o emir, transmitir um pouco do que
tinha de sagrado ao subalterno desabusado. Não se foram todos imediatamente. Um
deles demorou-se mais a segredar coisas à suprema autoridade do país. Era um
cadete da Escola Militar, com a sua farda azulturquesa, talim e sabre de praça
de pré.
Os cadetes da
Escola Militar formavam a falange sagrada.
Tinham todos
os privilégios e todos os direitos; precediam ministros nas entrevistas com o
ditador e abusavam dessa situação de esteio do Sila, para oprimir e vexar a
cidade inteira.
Uns trapos de
positivismo se tinham colado naquelas inteligências e uma religiosidade
especial brotara-lhes no sentimento, transformando a autoridade, especialmente
Floriano e vagamente a República, em artigo de fé, em feitiço, em ídolo
mexicano, em cujo altar todas as violências e crimes eram oblatas dignas e oferendas
úteis para a sua satisfação e eternidade.
O cadete lá
estava...
Quaresma pôde
então ver melhor a fisionomia do homem que ia enfeixar em suas mãos, durante
quase um ano, tão fortes poderes, poderes de Imperador Romano, pairando sobre
tudo, limitando tudo, sem encontrar obstáculo algum aos seus caprichos, às suas
fraquezas e vontades, nem nas leis, nem nos costumes, nem na piedade universal
e humana.
Era vulgar e
desoladora. O bigode caído; o lábio inferior pendente e mole a que se agarrava uma grande
"mosca", os traços flácidos e grosseiros; não havia nem o desenho do
queixo ou olhar que fosse próprio, que revelasse algum dote superior. Era um
olhar mortiço, redondo, pobre de expressões, a não ser de tristeza que não lhe
era individual, mas nativa, de raça; e todo ele era gelatinoso
— parecia não
ter nervos.
Não quis o
major ver em tais sinais nada que lhe denotasse o caráter, a inteligência e o
temperamento. Essas coisas não vogam, disse ele de si para si. O seu entusiasmo
por aquele ídolo político era forte, sincero e desinteressado. Tinha-o na conta
de enérgico, de fino e supervidente, tenaz e conhecedor das necessidades do
pais, manhoso talvez um pouco, uma espé- cie de Luís XI forrado de um Bismarck.
Entretanto, não era assim. Com uma ausência total de qualidades intelectuais,
havia no caráter do Marechal Floriano uma qualidade predominante: tibieza de
ânimo, e no seu temperamento, muita preguiça.
Não a preguiça comum, essa preguiça de nós todos; era uma preguiça mórbida,
como que uma pobreza de irrigação ner- vosa, provinda de uma insuficiente
quantidade de fluido no seu organismo. Pelos lugares que passou, tornou-se
notável pela indolência e desamor às obrigações dos seus cargos. Quando diretor
do arsenal de Pernambuco, nem energia tinha para assinar o expediente
respectivo; e durante o tempo em que foi ministro da Guerra, passava meses e
meses sem lá ir, deixando tudo por assinar, pelo que "legou" ao seu substituto um trabalho avultadíssimo. Quem
conhece a atividade papeleira de um Colbert, de um Napoleão, de um Filipe II,
de um Guilherme I, da Alemanha, em geral de todos os grandes homens de Estado,
não compreende o descaso florianesco pela expedição de
ordens,
explicações aos subalternos,de suas vontades, de suas vis- tas.
Certamente
necessárias deviam ser tais transmissões para que o seu senso superior se
fizesse sentir e influísse na marcha das coisas governa- mentais e administrativas.
Dessa sua
preguiça de pensar e de agir, vinha o seu mutismo, os seus misteriosos
monossílabos, levados à altura de ditos sibilinos, as famosas "encruzilhadas
dos talvezes", que tanto reagiram sobre a inteligência e imaginação nacionais,
mendigas de heróis e grandes homens.
Essa doentia
preguiça fazia-o andar de chinelos e deu-lhe aquele aspecto de calma superior,
calma de grande homem de Estado ou de guerreiro extraordinário.
Toda a gente
ainda se lembra como foram os seus primeiros meses de governo. A braços com o
levante de presos, praças e inferiores da fortaleza de Santa Cruz, tendo
mandado fazer um inquérito, abafou-o com medo que as pessoas indicadas como
instigadoras não fizessem outra sedição, e, não contente com isto, deu a essas
pessoas as melhores e mais altas recompensas.
Demais,
ninguém pode admitir um homem forte, um César, um Napoleão, que permita aos
subalternos aquelas intimidades deprimentes e tenha com eles as
condescendências que ele tinha, consentindo que o seu nome servisse de lábaro
para uma vasta série de crimes de toda espécie. Uma recordação basta. Sabe-se
bem sob que atmosfera de má vontade Napoleão assumiu o comando do exército da
Itália. Augereau que o chamava
"general
de rua", disse a alguém, após lhe ter falado: "O homem meteu-me medo",
e o corso estava senhor do exército, sem batidelas no ombro, sem delegar tácita
ou explicitamente a sua autoridade a subalternos irresponsáveis.
De resto, a
lentidão com que sufocou a revolta de 6 de setembro mostra bem a incerteza, a
vacilação de vontade de um homem que dispunha daqueles extraordinários recursos
que estavam às suas ordens. Há uma outra face do Marechal Floriano que muito
explica os seus movimentos, atos e gestos. Era o seu amor à família, um amor
entranhado, alguma coisa de patriarcal, de antigo que já se vai esvaindo com a
marcha da civilização.
Em virtude de
insucessos na exploração agrícola de duas das suas propriedades, a sua situação
particular era precária, e não queria morrer sem deixar à família as suas
propriedades agrícolas desoneradas do peso das dívidas. Honesto e probo como
era, a única esperança que lhe restava, repousava nas economias sobre os seus
ordenados. Daí lhe veio essa dubiedade, esse jogo com pau de dois bicos, jogo
indispensável para conservar os rendosos lugares que teve e o fez atarraxar-se
tenazmente à presidência da República. A hipoteca do "Brejão" e do
"Duarte" foi o seu nariz de Cleópatra...
A sua
preguiça, a sua tibieza de ânimo e o seu amor fervoroso pelo lar deram em
resultado esse "homem-talvez" que, refratado nas necessidades mentais
e sociais dos homens do tempo, foi transformado em estadista, em Richelieu e
pôde resistir a uma séria revolta com mais teimosia que vigor, obtendo vidas,
dinheiro e despertando até entusiasmo e fanatismo.
Esse
entusiasmo e esse fanatismo, que o ampararam, que o animaram, que o
sustentaram, só teriam sido possíveis, depois de ter ele sido ajudante general do
Império, senador, ministro, isto é, após se ter "fabricado" à vista
de todos e cristalizado a lenda na mente de todos.
A sua
concepção de governo não era o despotismo, nem a democracia, nem a
aristocracia; era a de uma tirania doméstica. O bebê portou-se mal, castiga-se.
Levada a coisa ao grande o portar-se mal era fazer-lhe oposição, ter opiniões
contrárias às suas e o castigo não eram mais palmadas, sim, porém, prisão e
morte. Não há dinheiro no Tesouro; ponham-se as notas recolhidas em circulação,
assim como se faz em casa quando chegam visitas e a sopa é pouca: põe-se mais
água.
Demais, a sua
educação militar e a sua fraca cultura deram mais realce a essa concepção
infantil, raiando-a de violência, não tanto por ele em si, pela sua perversidade
natural, pelo seu desprezo pela vida humana, mas pela fraqueza com que acobertou
e não reprimiu a ferocidade dos seus auxiliares e asseclas. Quaresma estava
longe de pensar nisso tudo; ele com muitos homens honestos e sinceros do tempo,
foram tomados pelo entusiasmo contagioso que Floriano conseguira despertar.
Pensava na grande obra que o Destino reservava àquela figura plácida e triste;
na reforma radical que ele ia levar ao organismo
aniquilado da
pátria, que o major se habituara a crer a mais rica do mundo, embora, de uns
tempos para cá, já tivesse dúvidas a certos respeitos. Decerto, ele não negaria
tais esperanças e a sua ação poderosa havia de se fazer sentir pelos oito
milhões de quilômetros quadrados do Brasil, levando-lhes estradas, segurança,
proteção aos fracos, assegurando o trabalho e promovendo a riqueza.
Não se demorou
muito nessa ordem de pensamentos. Um seu
companheiro de espera, desde que o marechal lhe falou familiarmente, começou a considerar
aquele homem pequenino, taciturno, de pincenez e foi-se chegando, se
aproximando e, quando já perto, disse a Quaresma, quase como um terrível
segredo.
—Eles vão ver
o "caboclo"... O major há muito que o conhece?
Respondeu-lhe
o major e o outro ainda lhe fez uma outra pergunta; o presidente, porém, ficara
só e Quaresma avançou.
—Então,
Quaresma? fez Floriano.
—Venho oferecer
a Vossa Excelência os meus fracos préstimos.
O presidente
considerou um instante aquela pequenez de homem, sorriu
com
dificuldade, mas, levemente, com um pouco de satisfação. Sentiu por aí a força
de sua popularidade e senão a razão boa de sua causa.
—Agradeço-te
muito... Onde tens andado? Sei que deixaste o arsenal.
Floriano
tinha essa capacidade de guardar fisionomias, nomes, empregos, situações dos
subalternos com quem lidava. Tinha alguma coisa de asiático; era cruel e
paternal ao mesmo tempo.
Quaresma
explicou-lhe a sua vida e aproveitou a ocasião para lhe falar em leis agrárias,
medidas tendentes a desafogar e dar novas bases à nossa vida agrícola. O
marechal ouviu-o distraído, com uma dobra de aborrecimento no canto dos lábios.
—Trazia a
Vossa Excelência até este memorial...
O presidente
teve um gesto de mau humor, um quase "não me amo- le" e disse com
preguiça a Quaresma:
—Deixa aí...
Depositou o
manuscrito sobre a mesa e logo o ditador dirigiu-se ao interlocutor de ainda
agora:
—Que há,
Bustamante? E o batalhão, vai?
O homem
aproximou-se mais, um tanto amedrontado:
—Vai bem,
marechal. Precisamos de um quartel!... Se Vossa Excelência desse ordem...
—É exato.
Fala ao Rufino em meu nome que ele pode arranjar... Ou antes: leva-lhe este
bilhete. Rasgou um pedaço de uma das primeiras páginas do manuscrito de Quaresma,
e assim mesmo, sobre aquela ponta de papel, a lápis azul, escreveu algumas
palavras ao seu ministro da Guerra. Ao acabar é que deu com a desconsideração:
—Ora!
Quaresma! rasguei o teu escrito... Não faz mal... Era a parte de cima, não
tinha nada escrito. O major confirmou e o presidente, em seguida, voltando-se
para Bustamante:
—Aproveita
Quaresma no teu batalhão. Que posto queres?
—Eu! fez
Quaresma estupidamente.
—Bem. Vocês
lá se entendem.
Os dois se
despediram do presidente e desceram vagarosamente as escadas do Itamarati. Até
à rua nada disseram um ao outro. Quaresma vinha um pouco frio, O dia estava
claro e quente; o movimento da cidade parecia não ter sofrido alteração
apreciável. Havia a mesma agitação de bondes, carros e carroças; mas nas
fisionomias, um terror, um espanto, alguma coisa de tremendo ameaçava todos e
parecia estar suspenso no ar.Bustamante deu-se a conhecer. Era o Major
Bustamante, agora tenente coronel, velho amigo do marechal, seu companheiro do
Paraguai.
—Mas nós nos
conhecemos! exclamou ele.
Quaresma
esteve olhando aquele velho mulato escuro, com uma grande barba mosaica e olhos
espertos, mas não se lembrou de tê-lo já encontrado algum dia.
—Não me
recordo... Donde?
—Da casa do
General Albernaz... Não se lembra?
Policarpo
então teve uma vaga recordação e o outro explicou-lhe a formação do seu
batalhão patriótico "Cruzeiro do Sul".
—O senhor
quer fazer parte?
—Pois não,
fez Quaresma.
—Estamos em dificuldades... Fardamento,
calçado para as praças... Nas primeiras despesas devemos auxiliar o governo...
Não convém sangrar o Tesouro, não acha?
—Certamente,
disse com entusiasmo Quaresma.
—Folgo muito
que o senhor concorde comigo... Vejo que é um patriota..."
Resolvi por isso
fazer um rateio pelos oficiais, em proporção ao posto: um alferes concorre com
cem mil-réis, um tenente com duzentos... O senhor que patente quer? Ah! É
verdade! O senhor é major, não é?
Quaresma
então explicou por que o tratavam por major. Um amigo, influência no Ministério
do Interior, lhe tinha metido o nome numa lista de guardas-nacionais, com esse
posto. Nunca tendo pago os emolumentos, viu-se, entretanto, sempre tratado
major, e a coisa pegou. A princípio, pro- testou, mas como teimassem deixou.
—Bem, fez
Bustamante. O senhor fica mesmo sendo major.
—Qual é a
minha quota?
—Quatrocentos
mil-réis. Um pouco forte, mas... O senhor sabe; é um posto importante...
Aceita?
—Pois não.
Bustamante
tirou a carteira, tomou nota com uma pontinha de lápis e despediu-se
jovialmente:
—Então,
major, às seis, no quartel provisório.
A conversa se
havia passado na esquina da Rua Larga com o Campo de Sant'Ana. Quaresma
pretendia tomar um bonde que o levasse ao centro da cidade. Tencionava visitar
o compadre em Botafogo, fazendo, assim, horas para a sua iniciação militar.
A praça
estava pouco transitada; os bondes passavam ao chouto compassado das mulas; de
quando em quando ouvia-se um toque de corneta, rufos de tambor, e do portão
central do quartel-general saía uma força, armas ao ombro, baionetas caladas,
dançando nos ombros dos recrutas, faiscando com um brilho duro e mau.
Ia tomar o
bonde, quando se ouviram alguns disparos de artilharia e o seco espoucar dos
fuzis. Não durou muito; antes que o bonde atingisse à Rua da Constituição, todos os rumores guerreiros
tinham cessado, e quem não estivesse avisado havia de supor-se em tempos
normais. Quaresma chegou-se para o centro do banco e ia ler o jornal que
comprara.
Desdobrou-o
vagarosamente, mas foi logo interrompido; bateram- lhe no ombro. Voltou-se.
—Oh! general!
O encontro
foi cordial. O General Albernaz gostava dessas cerimônias e tinha mesmo um
prazer, uma deliciosa emoção em reatar conhecimentos que se tinham enfraquecido
por uma separação qualquer. Estava fardado, com aquele seu uniforme maltratado;
não trazia espada e o pincenez continuava preso por um trancelim de ouro que
lhe passava por detrás da orelha esquerda.
—Então veio
ver a coisa?
—Vim. Já me
apresentei ao marechal,
—"Eles"
vão ver com quem se meteram. Pensam que tratam com o Deodoro, enganam-se!... A
República, graças a Deus, tem agora um homem na sua frente... O
"caboclo" é de ferro"... No Paraguai...
—O senhor
conheceu-o lá, não, general?
—Isto é...
Não chegamos a nos encontrar, mas o Camisão... É duro, o homem. Estou como
encarregado das munições... É fino o "caboclo": não me quis no
litoral. Sabe muito bem quem sou e que munição que saia das minhas mãos, é
munição... Lá, no depósito, não me sai um caixote que eu não examine...
É
necessário... No Paraguai, houve muita desordem e comilança: mandou-se muita
cal por pólvora — não sabia?
—Não.
—Pois foi. O
meu gosto era ir para as praias, para o combate; mas o "homem" quer
que eu fique com as munições... Capitão manda, marinheiro faz... Ele sabe lá...
Deu de
ombros, concertou o trancelim que já caía da orelha e esteve calado um
instante. Quaresma perguntou:
—Como vai a
família?
—Bem. Sabe
que Quinota casou-se?
—Sabia, o
Ricardo me disse. E Dona Ismênia, como vai?
A fisionomia
do general toldou-se e respondeu como a contragosto:
—Vai no
mesmo.
O pudor de
pai tinha-o impedido de dizer toda a verdade. A filha enlouquecera de uma
loucura mansa e infantil. Passava dias inteiros calada, a um canto, olhando
estupidamente tudo, com um olhar morto de estátua, numa atonia de inanimado,
como que caíra em imbecilidade; mas vinha uma hora, porém, em que se penteava
toda, enfeitava-se e corria à mãe, dizendo: "Aprontame, mamãe. O meu noivo
não deve tardar... é hoje o meu casamento." Outras vezes recortava papel,
em forma de participações, e escrevia: Ismênia de Albernaz e Fulano (variava)
participam o seu casamento.
O general já
consultara uma dúzia de médicos, o espiritismo e agora andava às voltas com um
feiticeiro milagroso; a filha, porém, não sarava, não perdia a mania e cada vez
mais se embrenhava o seu espírito naquela obsessão de casamento, alvo que
fizeram ser da sua vida, a que não atingi- ra, aniquilando-se, porém, o seu
espírito e a sua mocidade em pleno verdor.
Entristecia o
seu estado aquela casa outrora tão alegre, tão festiva. Os bailes tinham
diminuído; e, quando eram obrigados a dar um, nas datas principais, a moça, com
todos os cuidados, à custa de todas as promessas, era levada para a casa da
irmã casada, e lá ficava, enquanto as outras dançavam, um instante esquecidas
da irmã que sofria. Albernaz não quis revelar aquela dor de sua velhice;
reprimiu a emoção e continuou no tom mais natural, naquele seu tom familiar e
íntimo que usava com todos:
—Isto é uma
infâmia, Senhor Quaresma. Que atraso para o país! E os prejuízos? Um porto
destes fechado ao comércio nacional, quantos anos de retardamento não
representa!
O major
concordou e mostrou a necessidade de prestigiar o Governo, de forma a tornar
impossível a reprodução de levantes e insurreições.
—Decerto,
aduziu o general. Assim não progredimos, não nos adiantamos.
E no
estrangeiro que mau efeito!
O bonde
chegara ao Largo de São Francisco e os dois se separaram.
Quaresma foi
direitinho ao Largo da Carioca e Albernaz seguiu para a Rua do Rosário.
Olga viu
entrar seu padrinho sem aquela alegria expansiva de sempre.
Não foi
indiferença que sentiu, foi espanto, assombro, quase medo, embora soubesse
perfeitamente que ele estava a chegar. Entretanto, não havia mudança na
fisionomia de Quaresma, no seu corpo, em todo ele. Era o mesmo homem baixo,
pálido, com aquele cavanhaque apontado e o olhar agudo por detrás do pincenez...
Nem mesmo estava mais queimado e o jeito de apertar os lábios era o mesmo que
ela conhecia há tantos anos. Mas, parecia-lhe mudado e ter entrado impelido,
empurrado por uma força estranha, por um turbilhão; bem examinando, entretanto,
verificou que ele entrara naturalmente, com o seu passo miúdo e firme. Donde
lhe vinha então essa coisa que a acanhava, que lhe tirara a sua alegria de ver
pessoa tão amada? Não atinou. Estava lendo na sala de jantar e Quaresma não se
fazia anunciar; ia entrando conforme o velho hábito.
Respondeu ao
padrinho ainda sob a dolorosa impressão da sua entrada.
—Papai saiu;
e o Armando está lá embaixo escrevendo.
De fato, ele
estava escrevendo ou mais particularmente: traduzia para o "clássico"
um grande artigo sobre "Ferimentos por arma de fogo". O seu último truc
intelectual era este do clássico. Buscava nisto uma distinção, uma separação
intelectual desses meninos por aí que escrevem contos e romances nos jornais.
Ele, um sábio, e sobretudo, um doutor, não podia escrever da mesma forma que
eles. A sua sabedoria superior e o seu título "acadêmico" não podia usar
da mesma língua, dos mesmos modismos, da mesma sintaxe que esses poetastros e
literatecos. Veio-lhe então a idéia do clássico. O processo era simples:
escrevia do modo comum, com as palavras e o jeito de hoje, em seguida invertia
as orações, picava o período com vírgulas e substituía incomodar por molestar,
ao redor por derredor, isto por esta, quão grande ou tão grande por quamanho,
sarapintava tudo de ao invés, empós, e assim obtinha o seu estilo clássico que
começava a cau- sar admiração aos seus pares e ao público em geral.
Gostava muito
da expressão — às rebatinhas; usava-a a todo momento e, quando a punha no
branco do papel, imaginava que dera ao seu estilo uma força e um brilho
pascalianos e às suas idéias uma suficiência transcendente. De noite, lia o
padre Vieira, mas logo às primeiras linhas o sono lhe vinha e dormia sonhando-se
"físico", tratado de mestre, em pleno Seiscentos,
prescrevendo sangria e água quente, tal e qual o doutor Sangrado.A sua tradução
estava quase no fim, já estava bastante prático, pois com o tempo adquirira um
vocabulário suficiente e a versão era feita mentalmente, em quase metade, logo
na primeira escrita. Recebeu o recado da mulher, anunciando-lhe a visita, com
um pequeno aborrecimento, mas, como teimasse em não encontrar um equivalente
clássico para "orifício", julgou útil a interrupção. Queria pôr
"buraco", mas era plebeu; "orifício", se bem que muito usado,
era, entretanto, mais digno. Na volta talvez encontrasse, pensou; e subiu à
sala de jantar. Ele entrou prazenteiro, com o seu grande bigode esfarelado, o seu
rosto redondo e encontrou padrinho e afilhada empenhados em uma discussão sobre
autoridade. Dizia ela:
—Eu não posso
compreender esse tom divino com que os senhores falam da autoridade. Não se
governa mais em nome de Deus, por que então esse respeito, essa veneração de
que querem cercar os governantes? O doutor, que ouvira toda a frase, não pôde
deixar de objetar:
—Mas é
preciso, indispensável... Nós sabemos bem que eles são homens como nós, mas, se
não for assim tudo vai por água abaixo.
Quaresma
acrescentou:
—É em virtude
das próprias necessidades internas e externas da nossa sociedade que ela
existe... Nas formigas, nas abelhas...
—Admito. Mas
há revoltas entre as abelhas e formigas, e a autoridade se mantém lá à custa de
assassínios, exações e violências?
—Não se sabe...
Quem sabe? Talvez... fez evasivamente Quaresma.
O doutor não
teve dúvidas e foi logo dizendo:
—Que temos
nós com as abelhas? Então nós, os homens, o pináculo da escala zoológica,
iremos buscar normas de vida entre insetos?
—Não é isso,
meu caro doutor; buscamos nos exemplos deles a certeza da generalidade do
fenômeno, da sua imanência, por assim dizer, disse Quaresma com doçura.
Ele não tinha
acabado a explicação e já Olga refletia:
—Ainda se
essa tal autoridade trouxesse felicidade — vá; mas não; de que vale?
—Há de
trazer, afirmou categoricamente Quaresma. A questão é consolidá-la.
Conversaram
ainda muito tempo. O major contou a sua visita a Floriano, a sua próxima
incorporação ao batalhão "Cruzeiro do Sul". O doutor teve uma ponta
de inveja, quando ele se referiu ao modo familiar por que Floriano o tratara.
Fizeram um pequeno lunch e Quaresma saiu. Sentia necessidade de rever aquelas
ruas estreitas, com as suas lojas profundas e escuras, onde os empregados se
moviam como em um subterrâneo. A tortuosa
Rua dos Ourives, a esburacada Rua da Assembléia, a casquilha Rua do Ouvidor
davam-lhe saudades. A vida continuava a mesma. Havia grupos parados e moças a
pas- seio; no Café do Rio, uma multidão. Eram os avançados, os
"jacobinos", a guarda abnegada da República, os intransigentes, a
cujos olhos, a moderação, a tolerância e
o respeito pela liberdade e a vida alheias eram crimes de lesa-pátria, sintomas
de monarquismo criminoso e abdicação desonesta diante do estrangeiro. O
estrangeiro era sobretudo o português, o que não impedia de haver jornais
"jacobiníssimos" redigidos por portugueses da mais bela água. A não
ser esse grupo gesticulante e apaixonado, a Rua do Ouvidor era a mesma. Os
namoros se faziam e as moças iam e vinham. Se uma bala zunia no alto céu azul,
luminoso, as moças davam gritinhos de gata, corriam para dentro das lojas,
esperavam um pouco e logo voltavam sorridentes, o sangue a subir às faces pouco
e pouco, depois da palidez do medo. Quaresma jantou num restaurante e
dirigiu-se ao quartel, que funcionava provisoriamente num velho cortiço
condenado pela higiene, lá pelos lados da Cidade Nova. Tinha o tal cortiço
andar térreo e sobrado, ambos divididos em cubículos do tamanho de camarotes de
navio. No sobrado, havia uma varanda de grade de pau e uma escada de madeira
levava até lá, escada tosca e oscilante, que gemia à menor passada. A casa da
ordem funcionava no primeiro quartinho do sobrado e o pátio, já sem as cordas
de secar ao sol a roupa, mas com as pedras manchadas das barrelas e da água de
sabão, servia para a instrução dos recrutas. O instrutor era um sar- gento
reformado, um tanto coxo, e admitido no batalhão com o posto de alferes, que
gritava com uma demora majestosa: "ombrô"... armas!
O major
entregou a sua quota ao coronel e este esteve a mostrar-lhe o modelo do
fardamento.
Era muito
singular essa fantasia de seringueiro: o dólmã era verde- garrafa e tinha uns
vivos azul-ferrete, alamares dourados e quatro estrelas prateadas, em cruz, na
gola.
Uma gritaria
fê-los vir até à varanda. Entre soldados entrava um homem, a se debater, a
chorar e a implorar, ao mesmo tempo, levando de quando em quando uma reflada.
—É o Ricardo!
exclamou Quaresma. O senhor não o conhece, coronel?
continuou ele
com interesse e piedade. Bustamante estava impassível na varanda e só respondeu
depois de algum tempo:
—Conheço... É
um voluntário recalcitrante, um patriota rebelde.
Os soldados
subiram com o "voluntário" e Ricardo logo que deu com o major,
suplicou-lhe:
—Salve-me
major!
Quaresma
chamou de parte o coronel, rogou-lhe e suplicou-lhe, mas foi inútil... Há
necessidade de gente... Enfim, fazia-o cabo.
Ricardo, de
longe, seguia a conversa dos dois: adivinhou a recusa e exclamou:
—Eu sirvo
sim, sim, mas dêem-me o meu violão.
Bustamante
perfilou-se e gritou aos soldados:
—Restituam o
violão ao cabo Ricardo!
II VOCÊ,
QUARESMA, É UM VISIONÁRIO
Oito horas da
manhã. A cerração ainda envolve tudo. Do lado da terra, mal se enxergam as
partes baixas dos edifícios próximos; para o lado do mar, então, a vista é
impotente contra aquela treva esbranquiçada e flutuante, contra aquela muralha
de flocos e opaca, que se condensa ali e aqui em aparições, em semelhanças de
coisas. O mar está silencioso: há grandes intervalos entre o seu fraco marulho.
Vê-se da praia um pequeno trecho, sujo, coberto de algas, e o odor da maresia
parece mais forte com a neblina. Para a esquerda e para a direita, é o
desconhecido, o Mistério. Entretanto, aquela pasta espessa, de uma claridade
difusa, está povoada de ruídos. O chiar das serras vizinhas, os apitos de
fábricas e locomotivas, os guinchos de guindastes dos navios enchem aquela manhã
indecifrável e taciturna; e ouve-se mesmo a bulha compassada de remos que ferem
o mar. Acredita-se, dentro daquele decoro, que é Caronte que traz a sua barca
para uma das margens do Estige...
Atenção!
Todos perscrutam a cortina de névoa pastosa. Os rostos estão alterados; parece
que do seio da bruma vão surgir demônios...
Não se ouve
mais a bulha: o escaler afastou-se. As fisionomias respiram aliviadas...
Não é noite,
não é dia; não é o dilúculo, não é o crepúsculo; é a hora da angústia, é a luz
da incerteza. No mar, não há estrelas nem sol que guiem; na terra, as aves
morrem de encontro às paredes brancas das casas. A nossa miséria é mais
completa e a falta daqueles mudos marcos da nossa atividade dá mais forte
percepção do nosso isolamento no seio da natureza grandiosa.
Os ruídos
continuam, e, como nada se vê, parece que vêm do fundo da terra ou são
alucinações auditivas, A realidade só nos vem do pedaço de mar que se avista,
marulhando com grandes intervalos, fracamente, tenuemente, a medo, de encontro
à areia da praia, suja de bodelhas, algas e sargaços. Aos grupos, após o rumor
dos remos, os soldados deitaram-se pela relva que continua a praia. Alguns já
cochilam; outros procuram com os olhos o céu através do nevoeiro que lhes
umedece o rosto. O cabo Ricardo Corado dos Outros, de refle à cintura e gorro à
cabeça, sentado numa pedra, está de parte, sozinho, e olha aquela manhã
angustiosa. Era a primeira vez que via a cerração assim perto do mar, onde ela
faz sentir toda a sua força de desesperar. Em geral, ele só tinha olhos para as
alvoradas claras e purpurinas, macias e fragrantes; aquele amanhecer brumoso e feio,
era uma novidade para ele.
Sob o
fardamento de cabo, o menestrel não se aborrece. Aquela vida solta da caserna
vai-lhe bem n'alma; o violão está lá dentro e, em horas de folga, ele o experimenta,
cantarolando em voz baixa. É preciso não enferrujar os dedos... O seu pequeno
aborrecimento é não poder, de quando em quando, soltar o peito. O comandante do
destacamento é Quaresma que talvez consentisse...
O major está
no interior da casa que serve de quartel, lendo. O seu estudo predileto é agora
artilharia. Comprou compêndios; mas, como sua instrução é insuficiente, da
artilharia vai à balística, da balística à mecânica, da mecânica ao cálculo e à
geometria analítica; desce mais a escada; vai à trigonometria, à geometria e à
álgebra e à aritmética. Ele percorre essa cadeia de ciências entrelaçadas com
uma fé de inventor. Aprende uma noção elementaríssima após um rosário de
consultas, de compêndio em compêndio; e leva assim aqueles dias de ócio
guerreiro enfronhado na matemática, nessa matemática rebarbativa e hostil aos
cérebros que já não são mais moços.
Há no
destacamento um canhão Krupp, mas ele nada tem a ver com o mortífero aparelho;
contudo, estuda artilharia. É encarregado dele o Tenente Fontes, que não dá
obediência alguma ao patriota major. Quaresma não se incomoda com isso; vai
aprendendo lentamente a servir-se da boca de fogo e submete-se à arrogância do
subalterno.
O comandante
do "Cruzeiro do Sul", o Bustamante da barba mosaica, continua no
quartel, superintendendo a vida do batalhão. A unidade tem poucos oficiais e
muito poucas praças; mas o Estado paga o perto de quatrocentas. Há falta de
capitães, o número de alferes está justo, o de tenentes quase, mas já há um
major, que é Quaresma, e o comandante, Bustamante, que, por modéstia, se fez
simplesmente tenente-coronel.
Tem quarenta
praças o destacamento que Quaresma comanda, três alferes,
dois
tenentes; mas os oficiais pouco aparecem. Estão doentes ou licenciados e só ele,
o antigo agricultor do "Sossego", e um alferes, Poli- doro, este
mesmo só à noite, estão a postos. Um soldado entrou:
—Senhor
comandante, posso ir almoçar?
—Pode.
Chama-me o cabo Ricardo.
A praça saiu
capengando em cima de grandes botinas; o
pobre homem usava aquela peça protetora como um castigo. Assim que se viu no
mato, que levava à sua casa, tirou-as e sentiu pelo rosto o sopro da liberdade.
O comandante
chegou à janela. A cerração se ia dissipando. Já se via o sol que brilhava como
um disco de ouro fosco.
Ricardo
Coração dos Outros apareceu. Estava engraçado dentro do seu fardamento de
caporal. A blusa era curtíssima, sungada; os punhos lhe apareciam inteiramente;
e as calças eram compridíssimas e arrastavam no chão.
—Como vais,
Ricardo?
—Bem. E o
senhor major?
—Assim.
Quaresma
deitou sobre o inferior e amigo, aquele seu olhar agudo e demorado:
—Andas
aborrecido, não é?
O trovador
sentiu-se alegre com o interesse do comandante:
—Não... Para
que dizer, major, que sim... Se a coisa for assim até ao fim, não é mau... O
diabo é quando há tiro... Uma coisa, major; não se poderia, assim, aí pelas
horas em que não há que fazer, ir nas mangueiras, cantar um pouco...
O major coçou
a cabeça, alisou o cavanhaque e disse:
—Eu, não
sei... É...
—O senhor
sabe que isto de cantar baixo é remar em seco... Dizem que no
Paraguai...
—Bem. Cante
lá; mas não grite, hein?
Calaram-se um
pouco; Ricardo ia partir quando o major recomendou:
—Manda-me
trazer o almoço.
Quaresma
jantava e almoçava ali mesmo. Não era raro também dormir. As refeições eram-lhe
fornecidas por um "frege" próximo e ele dormia em um quarto daquela
edificação imperial. Porque a casa em que se acantonara o destacamento, era o
pavilhão do imperador, situado na antiga Quinta da Ponta do Caju. Ficavam nela
também a estação da estrada de ferro do Rio Douro e uma grande e bulhenta
serraria. Quaresma veio até à porta, olhou a praia suja e ficou admirado que o
imperador a quisesse para banhos. A cerração se ia dissipando inteiramente.
As formas das
coisas saíam modeladas do seio daquela massa de névoa pesada; e, satisfeitas,
como se o pesadelo tivesse passado. Primeiro surgiam as partes baixas,
lentamente; e por fim, quase repentinamente, as altas.
À direita,
havia a Saúde, a Gamboa, os navios de comércio: galeras de três mastros,
cargueiros a vapor, altaneiros barcos à vela — que iam saindo da bruma, e, por
instantes aquilo tudo tinha um ar de paisagem holandesa; à esquerda, era o saco
da Raposa, o Retiro Saudoso, a Sapu- caia horrenda, a ilha do Governador, os
Órgãos azuis, altos de tocar no céu; em frente, a ilha dos Ferreiros, com os
seus depósitos de carvão; e alon- gando a vista pelo mar sossegado, Niterói,
cujas montanhas acabavam de recortar-se no céu azul, à luz daquela manhã
atrasada.
A neblina
foi-se e um galo cantou. Era como se a alegria voltasse à terra; era uma
aleluia. Aqueles chiados, aqueles apitos, os guinchos tinham um acento festivo
de contentamento.
Chegou o
almoço e o sargento veio dizer a Quaresma que havia duas deserções.
—Mais duas?
fez admirado o major.
—Sim, senhor.
O cento e vinte e cinco e o trezentos e vinte não responderam hoje a revista.
—Faça a
parte.
Quaresma
almoçava. O Tenente Fontes, o homem do canhão, chegou. Quase nunca dormia ali;
pernoitava em casa, e, durante o dia, vinha ver as coisas como iam. Uma
madrugada, ele não estava. A treva ainda era profunda. O sol- dado de vigia viu
lá, ao longe, um vulto que se movia dentro da sombra, resvalando sobre as águas
do mar. Não trazia luz alguma: só o movimento daquela mancha escura revelava
uma embarcação, e também a ligeira fosforescência das águas. O soldado deu
rebate; o pequeno destacamento pôs- se a postos e Quaresma apareceu.
—O canhão!
Já! Avante! ordenou o comandante. E, em seguida, nervoso, recomendou:
—Esperem um
pouco.
Correu a casa
e foi consultar os seus compêndios e tabelas. Demorou- se e a lancha avançava,
os soldados estavam tontos e um deles tomou a iniciativa: carregou a peça e
disparou-a.
Quaresma
reapareceu correndo, assustado e disse, entrecortado pelo resfolegar:
—Viram bem...
a distância... a alça... o ângulo... É preciso ter sempre em vista a eficiência
do fogo.
Fontes veio e
sabendo do caso no dia seguinte riu-se muito:
—Ora, major,
você pensa que está em um polígono, fazendo estudos práticos... Fogo para diante!
E assim era.
Quase todas as tardes havia bombardeio, do mar para as fortalezas, e das
fortalezas para o mar; e tanto os navios como os fortes saiam incólumes de tão
terríveis provas.
Lá vinha uma
ocasião, porém, que acertavam, então os jornais noticiavam: "Ontem, o
forte Acadêmico fez um maravilhoso disparo. Com o canhão tal, meteu uma bala no
'Guanabara'." No dia seguinte, o mesmo jornal retificava, a pedido da
bateria do cais Pharoux que era a que tinha feito o disparo certeiro.
Passavam-se
dias e a coisa já estava esquecida, quando aparecia uma carta de Niterói,
reclamando as honras do tiro para a fortaleza de Santa Cruz.
O Tenente
Fontes chegou e esteve examinando o canhão com o faro de entendedor. Havia uma
trincheira de fardos de alfafa e a boca da peça saía por entre os fiapos da
palha, como as goelas de um animal feroz oculto entre ervas.
Olhava o
horizonte, depois de exame atento ao canhão, e considerava a ilha das Cobras,
quando ouviu o gemer do violão e uma voz que dizia:
Prometo pelo
Santíssimo Sacramento...
Dirigiu-se
para o local donde partiam os sons e se lhe deparou este lindíssimo quadro: à
sombra de uma grande árvore, os soldados deitados ou sentados em círculo, em
torno de Ricardo Coração dos Outros, que entoava endechas magoadas.
As praças
tinham acabado de almoçar e beber a pinga, e estavam tão embevecidas na canção
de Ricardo que não deram pela chegada do jovem oficial.
—Que é isto?
disse ele severamente.
Os soldados
levantaram-se todos, em continência; e Ricardo, com a mão direita no gorro,
perfilado, e a esquerda, segurando o violão, que repousava no chão,
desculpou-se:
—"Seu"
tenente, foi o major quem permitiu. Vossa Senhoria sabe que se nós não
tivéssemos ordem, não iríamos brincar.
—Bem. Não
quero mais isto, disse o oficial.
—Mas, objetou
Ricardo, o Senhor Major Quaresma...
—Não temos
aqui Major Quaresma. Não quero, já disse!
Os soldados
debandaram e o Tenente Fontes seguiu para a velha casa imperial, ao encontro do
major do "Cruzeiro do Sul". Quaresma continuava no seu estudo, um
rolar de Sísifo, mas voluntário, para a grandeza da pátria. Fontes foi entrando
e dizendo:
—Que é isto,
"Seu" Quaresma! Então o senhor permite cantorias no destacamento?
O major não
se lembrava mais da coisa e ficou espantado com o ar severo e ríspido do moço.
Ele repetiu:
—Então o
senhor permite que os inferiores cantem modinhas e toquem violão, em pleno
serviço?
—Mas que mal
faz? Ouvi dizer que em campanha...
—E a
disciplina? E o respeito?
—Bem, vou
proibir, disse Quaresma.
—Não é
preciso. Já proibi.
Quaresma não
se deu por agastado, não percebeu motivo para agastamento e disse com doçura:
—Fez bem.
Em seguida
perguntou ao oficial o modo de extrair a raiz quadrada de uma fração decimal; o
rapaz ensinou-lhe e eles estiveram cordialmente conversando sobre coisas
vulgares. Fontes era noivo de Lalá, a terceira filha do General Albernaz, e
esperava acabar a revolta para efetuar o casamento. Durante uma hora a conversa
entre os dois versou sobre este pequenino fato familiar a que estavam ligados
aqueles estrondos, aqueles tiros, aquela solene disputa entre duas ambições.
Subitamente, a corneta feriu o ar com a sua voz metálica. Fontes assestou o
ouvido; o major perguntou:
—Que toque é?
—Sentido.
Os dois
saíram. Fontes perfeitamente fardado; e o major apertando o talim, sem
encontrar jeito, tropeçando na espada venerável que teimava em se lhe meter
entre as pernas curtas. Os soldados já estavam nas trincheiras, armas à mão; o
canhão tinha ao lado a munição necessária. Uma lancha avançava lentamente, com
a proa alta assestada para o posto. De repente, saiu de sua borda um golfão de
fumaça espessa: Queimou! — gritou uma voz. Todos se abaixaram, a bala passou
alto, zunindo, cantando, inofensiva. A lancha continuava a avançar impávida.
Além dos soldados, havia curiosos, garotos, a assistir o tiroteio, e fora um
destes que gritara: queimou!
E assim
sempre. Às vezes eles chegavam bem perto à tropa, às trincheiras, atrapalhando
o serviço; em outras, um cidadão qualquer, chegava ao oficial e muito
delicadamente pedia: O senhor dá licença que dê um tiro? O oficial acedia, os
serventes carregavam a peça e o homem fazia a pontaria e um tiro partia.
Com o tempo,
a revolta passou a ser uma festa, um divertimento da cidade... Quando se
anunciava um bombardeio, num segundo, o terraço do Passeio Público se enchia.
Era como se fosse uma noite de luar, no tempo em que era do tom apreciá-las no
velho jardim de Dom Luís de Vasconcelos, vendo o astro solitário pratear a água
e encher o céu.
Alugavam-se
binóculos e tanto os velhos como as moças, os rapazes como as velhas, seguiam o
bombardeio como uma representação de teatro:
"Queimou
Santa Cruz! Agora é o 'Aquidabã'! Lá vai". E dessa maneira a revolta ia
correndo familiarmente, entrando nos hábitos e nos costumes da cidade. No cais
Pharoux, os pequenos garotos, vendedores de jornais, engraxates, quitandeiros
ficavam atrás das portadas, dos urinários, das árvores, a ver, a esperar a
queda das balas; e quando acontecia cair uma, corriam todos em bolo, a
apanhá-la como se fosse uma moeda ou guloseima, As balas ficaram na moda. Eram
alfinetes de gravata, berloques de relógio, lapiseiras, feitas com as pequenas
balas de fuzis: faziam-se também coleções das médias e com os seus estojos de
metal, areados, polidos, lixados, ornavam
os consolos, os dunkerques das casas médias; as grandes, os "melões"
e as "abóboras", como chamavam, guarneciam os jardins, como vasos de
faiança ou estátuas.
A lancha
continuava a atirar. Fontes fez um disparo. O canhão vomitou o projétil, recuou
um pouco e logo foi posto em
posição. A embarcação respondeu e o rapazote gritou: queimou!
Eram sempre
esses garotos que anunciavam os tiros do inimigo. Mal viam o fuzilar breve e a
fumaça, lá longe, no navio, jorrar devagar, muito pesada, gritavam: — queimou!
Houve um em
Niterói que teve o seu quarto de hora de celebridade.
Chamavam-no
"Trinta-Réis"; os jornais do tempo ocuparam-se com ele, fizeram-se
subscrições a seu favor. Um herói! Passou a revolta e foi esquecido, tanto ele
como a "Luci", uma bela lancha que chegou fazer-se entidade na imaginação
da urbs, a interessá-la, a criar inimigos e admiradores.
A embarcação
deixou de provocar a fúria do posto do Caju, e Fontes deu instruções ao seu
chefe da peça, e foi-se embora.
Quaresma
recolheu-se no seu quarto e continuou os seus estudos guerreiros.
Os mais dias
que passou naquele extremo da cidade não eram diferentes deste. Os
acontecimentos eram os mesmos e a guerra caía na banalidade da repetição dos
mesmos episódios.
A espaços,
quando o aborrecimento lhe vinha, saía. Descia a cidade e deixava o posto
entregue a Polidoro ou a Fontes, se estava.
Raras vezes o
fazia de dia, porque Polidoro, o mais assíduo, marceneiro de profissão e em
atividade numa fábrica de móveis, só vinha à noite.
No centro da
cidade, a noite era alegre e jovial. Havia muito dinheiro, o governo pagava
soldos dobrados, e, às vezes, gratificações, além do que havia também a morte
sempre presente; e tudo isso estimulava o divertir- se. Os teatros eram
freqüentados e os restaurantes noturnos também.
Quaresma,
porém, não se metia naquele ruído de praça semi-sitiada. Ia às vezes ao teatro,
à paisana, e, logo acabado o espetáculo, voltava para o quarto da cidade ou
para o posto.
Em outras
tardes, logo que Polidoro chegava, saía a pé, pelas ruas dos arredores, pelas
praias até ao Campo de São Cristóvão.
Ia vendo
aquela sucessão de cemitérios, com as suas campas alvas que sobem montanhas,
como carneiros tosquiados e limpos a pastar; aqueles ciprestes meditativos que
as vigiam; e como que se lhe representava que aquela parte da cidade era feudo
e senhorio da morte.
As casas
tinham um aspecto fúnebre, recolhidas e concentradas; o mar marulhava
lugubremente na ribanceira lodosa; as palmeiras ciciavam doridas; e até o
tilintar da campainha dos bondes era triste e lúgubre. A paisagem se impregnava
da Morte e o pensamento de quem passava ali mais ainda, para fazer sentir nela
tão forte aspecto funéreo.
Foi vindo até
ao campo; aí deu-lhe vontade de ver a sua antiga casa e afinal entrou na residência do General
Albernaz. Devia-lhe aquela visita e aproveitou o ensejo.
Acabavam de
jantar e jantara com o general, além do Tenente Fontes e o Almirante Caldas, o
comandante de Quaresma, o Tenente-Coronel Inocêncio Bustamante.
Bustamante
era um comandante ativo, mas dentro do quartel, Não havia quem como ele se
interessasse pelos livros, pela boa caligrafia, com que eram escritos os livros
mestres, as relações de mostra, os mapas de companhia e outros documentos. Com
auxílio deles, a organização do seu batalhão era irrepreensível; e, para não
deixar de vigiar a escrituração, aparecia de onde em onde nos destacamentos do
seu corpo.
Havia dez
dias que Quaresma o não via. Após os cumprimentos, ele logo perguntou ao major:
—Quantas
deserções?
—Até hoje,
nove, disse Quaresma.
Bustamante
coçou a cabeça desesperado e refletiu:
—Eu não sei o
que tem essa gente... é um desertar sem nome... Falta-lhes patriotismo!
—Fazem muito
bem... Ora! disse o almirante.
Caldas andava
aborrecido, pessimista. O seu processo ia mal e até agora o governo não lhe
tinha dado coisa alguma. O seu patriotismo se enfraquecia com o diluir-se da
esperança de ser algum dia vice-almirante. É verdade que o governo ainda não
organizara a sua esquadra; entretanto, pelo rumor que corria, ele não
comandaria nem uma divisão. Uma iniqüidade! Era velho um pouco, é verdade; mas,
por não ter nunca comandado, nessa matéria ele podia despender toda uma energia
moça.
—O almirante
não deve falar assim... A pátria está logo abaixo da humanidade.
—Meu caro
tenente, o senhor é moço... Eu sei o que são essas coisas...
—Não se deve
desesperar... Não trabalhamos para nós, mas para os outros e para os vindouros,
continuou Fontes persuasivo.
—Que tenho eu
com eles? fez agastado Caldas,
Bustamante, o
general e Quaresma assistiam a pequena discussão calados e os dois primeiros um
tanto sorridentes com a fúria de Caldas, que não se cansava de dançar a perna e
alisar os longos favoritos brancos. O tenente respondeu:
—Muito,
almirante. Nós todos devemos trabalhar para que surjam épocas melhores, de
ordem, de felicidade e elevação moral.
—Nunca houve
e nunca haverá! disse de um jato Caldas.
—Eu também
penso assim, acrescentou Albernaz.
—Isto há de
sempre ser o mesmo, aduziu ceticamente Bustamante.
O major nada
disse; parecia desinteressado da conversa. Fontes, em face daquelas
contestações, ao contrário de seus congêneres de seita, não se agastou.
Ele era magro
e chupado, moreno carregado e a oval do seu rosto estava amassada aqui e ali.
Com a sua voz
arrastada e nasal, agitando a mão direita no jeito favorito dos sermonários,
depois de ouvir todos, falou com unção:
—Houve já um
esboço: a Idade Média.
Ninguém ali
lhe podia contestar. Quaresma só sabia história do Brasil e os outros nenhuma.
E a sua
afirmação fez calar todos, embora no íntimo duvidosos. É uma curiosa Idade
Média, essa de elevação moral, que a gente não sabe onde fica, em que ano? Se a
gente diz: "No tempo de Clotário, ele próprio, com suas mãos, atacou fogo
na palhoça em que encerrava o seu filho Crame mais a mulher deste e
filhos" — o positivista objeta: "Ainda não estava perfeitamente
estabelecido o ascendente da igreja". "São Luís", diremos logo
nós, "quis executar um senhor feudal porque mandou enforcar três crianças
que tinham morto um coelho nas suas matas". Objeta o fiel: "Você não
sabe que a nossa Idade Média vai até o aparecimento da Divina Comédia? São Luís
já era a decadência"... Citam-se as
epidemias de
moléstias nervosas, a miséria dos campônios, as ladroagens a mão armada dos
barões, as alucinações do milênio, as cruéis matanças que Carlos Magno fez aos
saxões; eles respondem: uma hora que ainda não estava perfeita- mente
estabelecido o ascendente moral da igreja; outra que ele já tinha desa-
parecido.
Nada disso
foi objetado ao positivista e a conversa resvalou para a revolta. O almirante criticava severamente o governo.
Não tinha
plano algum, levava a dar tiros à toa; na sua opinião, já devia ter feito todo
o esforço para ocupar a ilha das Cobras, embora isso custasse rios de sangue.
Bustamante não tinha opinião assentada; mas Quaresma e Fontes julgavam que não: seria uma aventura
arriscada e de uma improficuidade patente. Albernaz ainda não tinha dado o seu
aviso, e veio a fazê-lo assim:
—Mas nós
reconhecemos Humaitá, e por pouco!
—Entretanto,
não a tomaram, disse Fontes. As condições naturais eram outras e assim mesmo o
reconhecimento foi perfeitamente inútil... O senhor sabe, esteve lá!
—Isto é...
Adoeci e vim um pouco antes para o Brasil, mas o Camisão disse-me que foi
arriscado.
Quaresma
voltara ao silêncio. Ele procurava ver Ismênia. Fontes lhe tinha inteirado do
seu estado e o major se sentia por qualquer coisa preso à moléstia da moça. Viu
todos: Dona Maricota, sempre ativa e diligente; Lalá, a arrancar, com o olhar,
o noivo da conversa interminável, e as outras que vinham, de quando em quando,
da sala de visitas à sala de jantar onde ele estava. Por fim, não se conteve,
perguntou. Soube que estava em casa da irmã casada e ia pior, cada vez mais
abismada na sua mania, enfraquecendo-se de corpo. O general contou tudo com
franqueza a Quaresma e quando acabou de narrar aquela sua desgraça íntima,
disse com um longo suspiro:
—Não sei,
Quaresma... Não sei.
Eram dez
horas quando o major se despediu. Voltou de bonde para a Ponta do Caju. Saltou
e recolheu-se logo a seu quarto. Vinha cheio da perturbação especial que põe em
nós o luar que estava lindo, terno e leitoso, naquela noite. É uma emoção de
desafogo do corpo, de delíquio; parece que nos tiram o envoltório material e
ficamos só alma, envolvidos numa branda atmosfera de sonhos e quimeras. O major
não colhia bem a sensação transcendente, mas sofria sem perceber o efeito da
luz pálida e fria do luar.
Deitou-se um
pouco, vestido, não por sono, mas em virtude daquela doce embriaguez que o
astro lhe tinha posto nos sentidos.
Dentro em pouco Ricardo veio
chamá-lo: o marechal estava aí. Era seu hábito sair à noite, às vezes, de
madrugada, e ir de posto em
posto. O fato se espalhou pelo público que o apreciava
extraordinariamente, e o presidente teve mais esse documento para firmar a sua
fama de estadista consumado.
Quaresma veio
ao seu encontro. Floriano vestia chapéu de feltro mole, abas largas, e uma
curta sobrecasaca surrada. Tinha um ar de malfeitor ou de exemplar chefe de
família em aventuras extraconjugais.
O major
cumprimentou-o e esteve a dar-lhe notícias do ataque que fora feito ao seu
posto, há dias passados. O marechal respondia por monossílabos preguiçosos e
olhava ao redor. Quase ao despedir-se, falou mais, dizendo vagarosamente,
lentamente:
—Hei de
mandar pôr um holofote aqui.
Quaresma veio
acompanhá-lo até ao bonde. Atravessaram o velho sítio de recreio dos
imperadores. Um pouco afastada da estação uma locomotiva, semiacesa, resfolegava.
Semelhava roncar, dormindo; os carros, pequenos, banhados pelo luar, muito
quietos, sossegados como que dormiam. As anosas mangueiras, com falta de galhos
aqui e ali, pareciam polvilhadas preciosamente de prata. O luar estava
magnífico. Os dois andavam, o marechal perguntou:
—Quantos
homens tem você?
—Quarenta.
O marechal
mastigou um: "não é muito"; e voltou ao mutismo. Num dado momento,
Quaresma viu-lhe o rosto inundado pela luz da lua. Pareceu-lhe mais simpática a
fisionomia do ditador. Se lhe falasse...
Preparou a
pergunta; mas não teve coragem de pronunciá-la. Continuaram a andar. O major
pensou; que é que tem? não há desrespeito algum.
Aproximaram-se
do portão. Num dado momento como que houve uma bulha atrás. Quaresma voltou-se,
mas Floriano quase não o fez. Os edifícios da serraria pareciam cobertos de
neve, tanto era o branco luar. O major continuou a mastigar a sua pergunta;
urgia, era indispensável; o portão estava a dois passos. Tomou coragem, ousou e
falou:
—Vossa
Excelência já leu o meu memorial, marechal?
Floriano
respondeu lentamente, quase sem levantar o lábio pendente:
—Li.
Quaresma
entusiasmou-se:
—Vê Vossa
Excelência como é fácil erguer este pais. Desde que se cortem todos aqueles
empecilhos que eu apontei, no memorial que Vossa Excelência teve a bondade de
ler; desde que se corrijam os erros de uma legislação defeituosa e inadaptável
às condições do país, Vossa Excelência verá que tudo isto muda, que, em vez de
tributários, ficaremos com a nossa independência feita... Se Vossa Excelência
quisesse...
À proporção
que falava, mais Quaresma se entusiasmava. Ele não podia ver bem a fisionomia
do ditador, encoberto agora como lhe estava o rosto pelas abas do chapéu de
feltro; mas, se a visse, teria de esfriar, pois havia na sua máscara sinais do
aborrecimento mais mortal. Aquele falatório de Quaresma, aquele apelo à
legislação, a medidas governamentais, iam mover-lhe o pensamento, por mais que
não quisesse. O presidente aborrecia-se. Num dado momento, disse:
—Mas, pensa
você, Quaresma, que eu hei de pôr a enxada na mão de cada um desses vadios?!
Não havia exército que chegasse...
Quaresma
espantou-se, titubeou, mas retorquiu:
—Mas, não é
isso, marechal. Vossa Excelência com o seu prestígio e poder, está capaz de
favorecer, com medidas enérgicas e adequadas, o aparecimento de iniciativas, de
encaminhar o trabalho, de favorecê-lo e torná-lo remunerador... Bastava, por
exemplo...
Atravessavam
o portão da velha quinta de Pedro I. O luar continuava lindo, plástico e
opalescente. Um grande edifício inacabado que havia na rua parecia terminado, com vidraças e portas
feitas com a luz da lua. Era um palácio de sonho.
Floriano já
ouvia Quaresma muito aborrecido. O bonde chegou; ele se despediu do major, dizendo
com aquela sua placidez de voz:
—Você,
Quaresma, é um visionário...
O bonde
partiu. A lua povoava os espaços, dava fisionomia às coi- sas, fazia nascer
sonhos em nossa alma, enchia a vida, enfim, com a sua luz emprestada...
III ... E
TORNARAM LOGO SILENCIOSOS...
—Eu tenho
experimentado tudo, Quaresma, mas não sei... não há meio!
—Já a levou a
um médico especialista?
—Já. Tenho
corrido médicos, espíritas, até feiticeiros, Quaresma!
E os olhos do
velho se orvalharam por baixo do pincenez. Os dois se haviam encontrado na
pagadoria da Guerra e vinham pelo campo de Sant'Ana, a pé, andando a pequenos
passos e conversando. O general era mais alto que Quaresma, e enquanto este
tinha a cabeça sobre um pescoço alto, aquele a tinha metida entre os ombros
proeminentes, como cotos de asas. Albernaz reatou:
—E remédios!
Cada médico receita uma coisa; os espíritas são os melhores, dão homeopatia; os
feiticeiros tisanas, rezas e defumações... Eu não sei, Quaresma!
E levantou os
olhos para o céu, que estava um tanto plúmbeo. Não se demorou, porém, muito
nessa postura; o pincenez não permitia, já começava a cair.
Quaresma
abaixou a cabeça e andou assim um pouco olhando as granulações do granito do
passeio. Levantou o olhar ao fim de algum tempo, e disse:
—Por que não
a recolhe a uma casa de saúde, general?
—Meu médico
já me aconselhou isso... A mulher não quer e agora mesmo, no estado em que a
menina está, não vale a pena...
Falava da
filha, da Ismênia, que, naqueles últimos meses, piorara sensivelmente, não
tanto da sua moléstia mental, mais da saúde comum, vivendo de cama, sempre
febril, enlanguescendo, definhando, marchando a passos largos para o abraço
frio da morte.
Albernaz
dizia a verdade; para curá-la tanto de sua loucura como da atual moléstia
intercorrente, lançara mão de todos os recursos, de todos os conselhos apontados
por quem quer que fosse.
Era de fazer
refletir ver aquele homem, general, marcado com um curso governamental,
procurar médiuns e feiticeiros, para sarar a filha. Às vezes até levava-os em casa. Os médiuns chegavam
perto da moça, davam um estremeção, ficavam com uns olhos desvairados, fixos,
gritavam:
"Sai,
irmão!" — e sacudiam as mãos, do peito para a moça, de lá para cá, rapidamente,
nervosamente, no intuito de descarregar sobre ela os fluidos milagrosos.
Os
feiticeiros tinham outros passes e as cerimônias para entrar no conhecimento
das forças ocultas que nos cercam eram demoradas, lentas e acabadas. Em geral,
eram pretos africanos. Chegavam, acendiam um fogareiro no quarto, tiravam de um
cesto um sapo empalhado ou outra coisa esquisita, batiam com feixes de ervas,
ensaiavam passos de dança e pronunciavam palavras ininteligíveis. O ritual era
complicado e tinha a sua demora.
Na saída, a
pobre Dona Maricota, um tanto já diminuída da sua atividade e diligência,
olhando ternamente aquele grande rosto negro do mandingueiro, onde a barba
branca punha mais veneração e certa grandeza, perguntava:
—Então,
titio?
O preto
considerava um instante, como se estivesse recebendo as últimas comunicações do
que não se vê nem se percebe, e dizia com a sua majestade de africano:
—Vô vê,
nhãnhã... Tô crotando mandinga...
Ela e o
general tinham assistido a cerimônia e o amor de pais e também esse fundo de
superstição que há em todos nós, levavam a olhá-la com respeito, quase com fé.
—Então foi
feitiço que fizeram à minha filha? perguntava a senhora.
—Foi, sim,
nhãnhã.
—Quem?
—Santo não
qué dizê.
E o preto
obscuro, velho escravo, arrancado há um meio século dos confins da África, saía
arrastando a sua velhice e deixando naqueles dois corações uma esperança fugaz.
135
Era uma
singular situação, a daquele preto africano,-ainda certa- mente pouco esquecido
das dores do seu longo cativeiro, lançando mão dos resíduos de suas ingênuas
crenças tribais, resíduos que tão a custo tinham resistido ao seu transplante
forçado para terras de outros deuses — e empregando-os na consolação dos seus
senhores de outro tempo. Como que os deuses de sua infância e de sua raça,
aqueles sanguinários manipansos da África indecifrável, quisessem vingá-lo à
legendária maneira do Cristo dos Evangelhos...
A doente
assistia a tudo aquilo sem compreender e se interessar por aqueles trejeitos e
passes de tão poderosos homens que se comunicavam, que tinham às suas ordens os
seres imateriais, as existências fora e acima da nossa.
Andando, ao
lado de Quaresma, o general lembrava-se de tudo isso e teve um pensamento
amargo contra a ciência, contra os espíritos, contra os feitiços, contra Deus
que lhe ia tirando a filha aos poucos, sem piedade e comiseração.
O major não
sabia o que dizer diante daquela imensa dor de pai e parecialhe toda e qualquer
palavra de consolo parva e idiota. Afinal disse:
—General, o
senhor permite que eu a faça ver por um médico?
—Quem é?
—É o marido
de minha afilhada... o senhor conhece... É moço, quem sabe lá! Não acha? Pode
ser, não é?
O general
consentiu e a esperança de ver curada a filha lhe afagou as faces enrugadas.
Cada médico que consultava, cada espírita, cada feiticeiro reanimava-o, pois de
todos ele esperava o milagre. Nesse mesmo dia, Quaresma foi procurar o doutor
Armando.
A revolta já
tinha mais de quatro meses de vida e as vantagens do governo eram
problemáticas. No Sul, a insurreição chegava às portas de São Paulo, e só a Lapa
resistia tenazmente, uma das poucas páginas dignas e limpas de todo aquele
enxurro de paixões. A pequena cidade tinha dentro de suas trincheiras o Coronel
Gomes Carneiro, uma energia, uma vontade, verdadeiramente isso, porque era
sereno, confiante e justo. Não se desmanchou em violências de apavorado e soube
tornar verdade a gasta frase grandiloqüente: resistir até a morte.
A ilha do
Governador tinha sido ocupada e Majé tomado; os revoltosos, porém, tinham a
vasta baia e a barra apertada, por onde saiam e entravam, sem temer o estorvo
das fortalezas.
As
violências, os crimes que tinham assinalado esses dois marcos de atividade
guerreira do governo, chegavam ao ouvido de Quaresma e ele sofria. Da ilha do
Governador fez-se uma verdadeira mudança de móveis, roupas e outros haveres. O
que não podia ser transportado era destruído pelo fogo e pelo machado.
A ocupação
deixou lá a mais execranda memória e até hoje os seus habitantes ainda se
recordam dolorosamente de um capitão, patriótico ou da guarda nacional, Ortiz,
pela sua ferocidade e insofrido gosto pelo saque e outras vexações. Passava um
pescador, com uma tampa de peixe, e o capitão chamava o pobre homem:
—Venha cá!
O homem
aproximava-se amedrontado e Ortiz perguntava:
—Quanto quer
por isso?
—Três
mil-réis, capitão.
Ele sorria
diabolicamente e familiarmente regateava:
—Você não
deixa por menos?... Está caro... Isso é peixe ordinário...
Carapebas!
Ora!
—Bem,
capitão, vá lá por dois e quinhentos.
—Leve isso lá
dentro.
Ele falava na
porta de casa. O pescador voltava e ficava um tempo em pé, demonstrando que
esperava o dinheiro. Ortiz balançava a cabeça e dizia escarninho:
—Dinheiro!
hein? Vá cobrar ao Floriano.
Entretanto,
Moreira César deixou boas recordações de si e ainda hoje há lá quem se lembre
dele, agradecido por este ou aquele benefício que o famoso coronel lhe prestou.
As forças
revoltosas pareciam não ter enfraquecido; tinham, porém, perdido dois navios,
sendo um destes o "Javari", cuja reputação na revolta era das mais
altas e consideradas. As forças de terra detestavam-no particularmente.
Era um
monitor, chato, raso com a água, uma espécie de sáurio ou quelônio de ferro, de
construção francesa. A sua artilharia era temida; mas o que sobremodo
enraivecia os adversários era ele não ter quase borda acima d'água, ficar quase
ao nível do mar e fugir assim aos tiros incertos de terra. As suas máquinas não
funcionavam, e a grande tartaruga vinha colocar-se em posição de combate com
auxílio de um rebocador.
Um dia em que
estava nas proximidades de Villegagnon, foi a pique. Não
se soube e
até hoje não foi esclarecido por que foi. Os legalistas afirmaram que foi uma
bala de Gragoatá; mas os revoltosos asseguraram que foi a abertura de uma
válvula ou um outro acidente qualquer. Como o do seu irmão, o
"Solimões", que desapareceu nas costas do cabo Polônio, o fim do
"Javari" ainda está envolvido no mistério.
Quaresma
permanecia de guarnição no Caju, e viera receber dinheiro.
Deixara lá
Polidoro, pois os outros oficiais estavam doentes ou licenciados, e Fontes,
que, sendo uma espécie de inspetor geral, ao contrário de seus hábitos, dormira
aquela noite no pequeno pavilhão imperial e ia ficar até à tarde.
Ricardo
Coração dos Outros, desde o dia da proibição de tocar violão, andava
macambúzio. Tinham-lhe tirado o sangue, o motivo de viver, e passava os dias
taciturno, encostado a um tronco de árvore, maldizendo no fundo de si a incompreensão
dos homens e os caprichos do destino. Fontes notara a sua tristeza; e, para
minorar-lhe o desgosto, obrigara a Bustamante a fazê-lo sargento. Não foi sem
custo, porque o antigo veterano do Paraguai encarecia muito essa graduação e só
a dava como recom- pensa excepcional ou quando requerida por pessoas
importantes.
A vida do
pobre menestrel era assim a de um melro engaiolado; e, de quando em quando, ele
se afastava um pouco e ensaiava a voz, para ver se ainda a tinha e não fugira
como o fumo dos disparos.
Quaresma
sabendo que dessa maneira o posto estava bem entregue, resolveu demorar-se
mais, e, após despedir-se de Albernaz, encaminhou-se para a casa do seu
compadre, a fim de cumprir a promessa que fizera ao general.
Coleoni ainda
não decidira a sua viagem à Europa. Hesitava, esperando o fim da rebelião que
não parecia estar próximo. Ele nada tinha com ela; até ali, não dissera a
ninguém a sua opinião; e, se era muito instado, apelava para a sua condição de
estrangeiro e metia-se numa reserva prudente. Mas, aquela exigência de
passaporte, tirado na chefatura de polícia, dava-lhe susto. Naqueles tempos,
toda a gente tinha medo de tratar com autoridades. Havia tanta má vontade com
os estrangeiros, tanta arrogância nos funcionários que ele não se animava a ir
obter o documento, temendo que uma palavra, que um olhar, que um gesto,
interpretados por qualquer funcionário zeloso e dedicado, não o levassem a
sofrer maus quartos de hora.
Verdade é que
ele era italiano e a Itália já fizera ver ao ditador que era uma grande
potência, mas no caso de que se lembrava, tratava-se de um marinheiro, por cuja
vida, extinta por uma descarga das forças legais, Floriano pagara a quantia de
cem contos. Ele, Coleoni, porém, não era marinheiro, e não sabia, caso fosse
preso, se os representantes diplomáticos de seu país tomariam interesse pela
sua liberdade.
De resto, não
tendo protestado manter a sua nacionalidade, quando o governo provisório expediu
o famoso decreto de naturalização, era bem possível que uma ou outra parte se
ativessem a isso, para desinteressar-se dele ou mantê-lo na famosa galeria n.
7, da Casa de Correção, transformada, por uma penada mágica, em prisão de
Estado.
A época era de
susto e temor, e todos esses que ele sentia, só os comunicava à filha, porque o
genro cada vez mais se fazia florianista e jacobino, de cuja boca muita vez
ouvia duras invectivas aos estrangeiros.
E o doutor
tinha razão; já obtivera uma graça governamental. Fora nomeado médico do
Hospital de Santa Bárbara, na vaga de um colega, demitido a bem do serviço
público como suspeito por ter ido visitar um amigo na prisão.
Como o
hospital, porém, ficasse no ilhéu do mesmo nome, dentro da baia, em frente à
Saúde e a Guanabara ainda estivesse em mão dos revoltosos, ele nada tinha que
fazer, pois até agora o governo não aceitara os seus oferecimentos de auxiliar
o tratamento dos feridos.
O major foi
encontrar pai e filha em casa; o doutor tinha saído, ido dar uma volta pela
cidade, dar arras de sua dedicação à causa legal, conversando com os mais
exaltados jacobinos do Café do Rio, não esquecendo também de passear pelos
corredores do Itamarati, fazendo-se ver pelos ajudantes de ordens, secretários
e outras pessoas influentes no ânimo de Floriano.
A moça viu
entrar Quaresma com aquele sentimento estranho que o seu padrinho lhe causava
ultimamente, e esse sentimento mais agudo se tornava quando o via contar os
casos guerreiros do seu destacamento, a passagem de balas, as descargas das
lanchas, naturalmente, simplesmente, como se fossem feições de uma festa, de
uma justa, de um divertimento qual- quer em que a morte não estivesse presente.
Tanto mais
que o via apreensivo, deixando perceber numa frase e noutra desânimo e desesperança.
Na verdade o
major tinha um espinho n'alma. Aquela recepção de Floriano às suas lembranças
de reformas não esperavam nem o seu entusiasmo e sinceridade nem tampouco a
idéia que ele fazia do ditador, Saíra ao encontro de Henrique IV e de Sully e
vinha esbarrar com um presidente que o chamava de visionário, que não avaliava
o alcance dos seus projetos, que os não examinava sequer, desinteressado
daquelas altas coisas de governo como se não o fosse!... Era pois para
sustentar tal homem que deixava o sossego de sua casa e se arriscava nas
trincheiras? Era, pois, por esse homem que tanta gente morria?
Que direito
tinha ele de vida e de morte sobre os seus concidadãos, se não se interessava
pela sorte deles, pela sua vida feliz e abundante, pelo enriquecimento do país,
o progresso de sua lavoura e o bem-estar de sua população rural?
Pensando
assim, havia instantes que lhe vinha um mortal desespero, uma raiva de si
mesmo; mas em seguida considerava: o homem está atrapalhado, não pode agora;
mais tarde com certeza ele fará a coisa...
Vivia nessa
alternativa dolorosa e era ela que lhe trazia apreensões, desânimo e
desesperança, notados por sua afilhada na sua fisionomia já um pouco
acabrunhada.
Não tardou,
porém, que, abandonando os episódios da sua vida militar, Quaresma explicasse o
motivo de sua visita.
—Mas qual
delas? perguntou a afilhada.
—A segunda, a
Ismênia.
—Aquela que
estava para casar com o dentista?
—Esta mesmo.
—Ahn! ...
Ela
pronunciou este "ahn" muito longo e profundo, como se pusesse nele tudo
que queria dizer sobre o caso. Via bem o que fazia o desespero da moça, mas via
melhor a causa, naquela obrigação que incrustam no espírito das meninas, que
elas se devem casar a todo custo, fazendo do casa- mento o pólo e fim da vida,
a ponto de parecer uma desonra, uma injúria ficar solteira.
O casamento
já não é mais amor, não é maternidade, não é nada disso: é simplesmente
casamento, uma coisa vazia, sem fundamento nem na nossa natureza nem nas nossas
necessidades.
Graças à
frouxidão, à pobreza intelectual e fraqueza de energia vital de Ismênia, aquela
fuga do noivo se transformou em certeza de não casar mais e tudo nela se
abismou nessa idéia desesperada.
Coleoni
enterneceu-se muito e interessou-se. Sendo bom de fundo, quando lutava pela
fortuna se fez duro e áspero, mas logo que se viu rico, perdeu a dureza de que
se revestira, pois percebia bem que só se pode ser bom quando se é forte de
algum modo.
Ultimamente o
major tinha diminuído um pouco o interesse pela moça;
andava
atormentado com o seu caso de consciência; entretanto, se não tinha um constante
e particular pensamento pela desdita da filha de Albernaz, abrangia-a ainda na
sua bondade geral, larga e humana.
Não se
demorou muito na casa do compadre; ele queria, antes de voltar ao Caju, passar
pelo quartel do seu batalhão. Ia ver se arranjava uma pequena licença, para
visitar a irmã que deixara lá, no "Sossego", e de quem tinha notícias,
por carta, três vezes por semana. Eram elas satisfatórias, contudo ele tinha
necessidade de ver tanto ela como o Anastácio, fisionomias com quem se encontrava
diariamente há tantos anos e cuja con- templação lhe fazia falta e talvez lhe
restituísse a calma e a paz de espírito.
A última
carta que recebera de Dona Adelaide, havia uma frase de que, no momento, se lembrava
sorrindo: "Não te exponhas muito, Policarpo. Toma muita cautela".
Pobre Adelaide! Estava a pensar que esse negócio de balas é assim como a
chuva?!...
O quartel
ainda ficava no velho cortiço condenado pela higiene, lá para as bandas da
Cidade Nova. Assim que Quaresma apontou na esquina, a sentinela deu um grande
berro, fez uma imensa bulha com a arma e ele entrou, tirando o chapéu da cabeça
baixa, pois estava à paisana e tinha abandonado a cartola com medo de que esse
traje fosse ferir as suscetibilidades republicanas dos jacobinos.
No pátio, o
instrutor coxo adestrava novos voluntários e os seus majestosos e demorados
gritos: ombroôô... armas! mei-ããã volta... volver!
subiam ao céu
e ecoavam longamente pelos muros da antiga estalagem.
Bustamante
estava no seu cubículo, mais conhecido por gabinete, irrepreensível no seu
uniforme verde-garrafa, alamares dourados e vivos azulferrete.
Com auxilio
de um sargento, examinava a escrita de um livro quarteleiro.
—Tinta
vermelha, sargento! É como mandam as instruções de 1864.
Tratava-se de
uma emenda ou de coisa semelhante.
Logo que viu
Quaresma entrar, o comandante exclamou radiante:
—O major
adivinhou!
Quaresma
descansou placidamente o chapéu, bebeu um pouco d'água, e o Coronel Inocêncio
explicou a alegria:
—Sabe que
temos de marchar?
—Para onde?
—Não sei...
Recebi ordem do Itamarati.
Ele não dizia
nunca do quartel-general, nem mesmo do ministro da Guerra; era do Itamarati, do
presidente, do chefe supremo. Parecia que assim dava mais importância a si
mesmo e ao seu batalhão, fazia-o uma espécie de batalhão da guarda, favorito e
amado do ditador.
Quaresma não
se espantou, nem se aborreceu. Percebeu que era impossível obter a licença e
também necessário mudar os seus estudos: da artilharia, tinha que passar para a
infantaria.
—O major é
que vai comandar o corpo, sabia?
—Não,
coronel. E o senhor não vai?
—Não, disse
Bustamante, alisando o cavanhaque mosaico e abrindo a boca para o lado
esquerdo. Tenho que acabar a organização da unidade e não posso... Não se
assuste, mais tarde irei lá ter...
Começava a
tarde, quando Quaresma saiu do quartel. O instrutor coxo continuava, com força,
majestade e demora, a gritar: om-brôôô... armas! A sentinela não pôde fazer a
bulha da entrada, porque só viu o major, quando já ia longe. Ele desceu até à
cidade e foi ao correio. Havia alguns tiros espaçados; no Café do Rio, os
levitas continuavam a trocar idéias para a consolidação definitiva da
República.
Antes de
chegar ao correio, Quaresma lembrou-se de sua partida. Correu a uma livraria e
comprou livros sobre infantaria; precisava também dos regulamentos: arranjaria
no quartel-general.
Para onde ia?
Para o Sul, para Majé, para Niterói? Não sabia... Não sabia... Ah! se isso
fosse para realização dos seus desejos e sonhos! Mas quem sabe?... Podia ser...
talvez... Mais tarde...
E passou o
dia atormentado pela dúvida do bom emprego de sua vida e de suas energias.
O marido de
Olga não fez nenhuma questão em ir ver a filha do general.
Ele levava a
íntima convicção de que a sua ciência toda nova pudesse fazer alguma coisa; mas
assim não se deu.
A moça
continuou a definhar, e, se a mania parecia um pouco atenuada, o seu organismo
caia. Estava magra e fraca, a ponto de quase não poder sentar-se na cama. Era
sua mãe quem mais junto a ela vivia; as irmãs se desinteressavam um pouco, pois
as exigências de sua mocidade levavam- nas para outros lados.
Dona
Maricota, tendo perdido todo aquele antigo fervor pelas festas e bailes, estava
sempre no quarto da filha, a consolá-la, animá-la e, às vezes, quando a olhava
muito, como que se sentia um tanto culpada pela sua infelicidade.
A moléstia
tinha posto mais firmeza nos traços de Ismênia, tinha-lhe diminuído a lassidão,
tirado o mortiço dos olhos e os seus lindos cabelos castanhos, com reflexos de
ouro, mais belos se faziam quando cercavam a palidez de sua face.
Raro era
falar muito; e assim foi que, naquele dia, se espantou muito Dona Maricota com
a loquacidade da filha.
—Mamãe,
quando se casa Lalá?
—Quando se
acabar a revolta.
—A revolta
ainda não acabou?
A mãe
respondeu-lhe e ela esteve um instante calada, olhando o teto, e, após essa
contemplação disse à mãe:
—Mamãe... Eu
vou morrer...
As palavras
saíram-lhe dos lábios, seguras, doces e naturais.
—Não diga
isso, minha filha, adiantou-se Dona Maricota. Qual morrer!
Você vai
ficar boa; seu pai vai levar você para Minas; você engorda, toma forças...
A mãe
dizia-lhe tudo isso devagar, alisando-lhe a face com a mão, como se se tratasse
de uma criança. Ela ouvia tudo com paciência e voltou por sua vez serenamente:
—Qual, mamãe!
Eu sei; vou morrer e peço uma coisa à senhora...
A mãe ficou
espantada com a seriedade e firmeza da filha. Olhou em redor, deu com a porta
semicerrada e levantou-se para fechá-la. Quis ainda ver se a dissuadia daquele
pensamento; Ismênia, porém, continuava a repeti-lo pacientemente, docemente,
serenamente;
—Eu sei,
mamãe.
—Bem. Suponho
que é verdade: o que é que você quer?
—Eu quero,
mamãe, ir vestida de noiva.
Dona Maricota
ainda quis brincar, troçar; a filha, porém, voltou-se para o outro lado, pôs-se
a dormir, com um leve respirar espaçado. A mãe saiu do quarto, comovida, com
lágrimas nos olhos e a secreta certeza de que a filha falava a verdade.
Não tardou
muito a se verificar. O doutor Armando a tinha visitado naquela manhã pela
quarta vez; ela parecia melhor, desde alguns dias, falava com discernimento,
sentava-se à cama e conversava com prazer.
Dona Maricota
teve que fazer uma visita e deixou a doente entregue às irmãs. Elas foram lá ao
quarto várias vezes e parecia dormir. Distraíram-se. Ismênia despertou: viu,
por entre a porta do guarda-vestidos meio aberto, o seu traje de noiva. Teve
vontade de vê-lo mais de perto. Levantou-se descalça e estendeu-o na cama para
contemplá-lo. Chegou-lhe o desejo de vesti-lo.
Pôs a saia;
e, por aí, vieram recordações do seu casamento falhado. Lembrou-se do seu
noivo, do nariz fortemente ósseo e dos olhos esgazeados de Cavalcânti; mas não
se recordou com ódio, antes como se fosse um lugar visto há muito tempo, e que
a tivesse impressionado.
De quem ela
se lembrava com raiva era da cartomante. Iludindo sua mãe, acompanhada por uma
criada, tinha conseguido consultar Mme. Sinhá. Com que indiferença ela lhe
respondeu: não volta! Aquilo doeu-lhe... Que mulher má!
Desde esse
dia... Ah!... Acabou de abotoar a saia em cima do corpinho, pois não encontrara
colete; e foi ao espelho. Viu os seus ombros nus, o seu colo muito branco... Surpreendeu-se. Era dela aquilo
tudo? Apalpou-se um pouco e depois colocou a coroa. O véu afagou-lhe as
espáduas carinhosamente, como um adejo de borboleta. Teve uma fra- queza, uma
coisa, deu um ai e caiu de costas na cama, com as pernas para fora... Quando a
vieram ver, estava morta. Tinha ainda a coroa na cabeça e um seio, muito branco
e redondo, saltava-lhe do corpinho.
O enterro foi
feito no dia imediato e a casa de Albernaz esteve os dois dias cheia, como nos
dias de suas melhores festas.
Quaresma foi
ao enterro; ele não gostava muito dessa cerimônia; mas veio, e foi ver a pobre
moça, no caixão, coberta de flores, vestida de noiva, com um ar imaculado de
imagem. Pouco mudara, entretanto. Era ela mesma ali; era a Ismênia dolente e
pobre de nervos, com os seus traços miúdos e os seus lindos cabelos, que estava
dentro daquelas quatro tábuas. A morte tinha fixado a sua pequena beleza e o
seu aspecto pueril; e ela ia para a cova com a insignificância, com a inocência
e a falta de acento pró- prio que tinha tido em vida.
Contemplando
aqueles tristes restos, Quaresma viu o caixão do coche parar na porta do
cemitério, atravessar pelas ruas de túmulos — uma multidão que trepava, se
tocava, lutava por espaço, na estreiteza da várzea e nas encostas das colinas.
Algumas sepulturas como se olhavam com afeto e se queriam aproximar; em outras
transparecia repugnância por estarem perto. Havia ali, naquele mudo laboratório
de decomposições, solicitações incompreensíveis, repulsões, simpatias e
antipatias; havia túmulos arrogan- tes, vaidosos,
orgulhosos,
humildes, alegres e tristes; e de muitos, ressumava o esforço, um esforço
extraordinário, para escapar ao nivelamento da morte, ao apagamento que ela
traz às condições e às fortunas.
Quaresma
ainda contemplava o cadáver da moça e o cemitério surgia aos seus olhos com as
esculturas que se amontoavam, com vasos, cruzes e inscrições, em alguns túmulos;
noutros, eram pirâmides de pedra tosca, retratos, caramanchões extravagantes,
complicações de ornatos, coisas barrocas e delirantes, para fugir ao anonimato
do túmulo, ao fim dos fins.
As inscrições
exuberam: são longas, são breves; têm nomes, têm datas, sobrenomes, filiações,
toda a certidão de idade do morto que, lá embaixo, não se pode mais conhecer e
é lama pútrida.
E se sente um
desespero em não se deparar com um nome conhecido, nem uma celebridade, uma
notabilidade, um desses nomes que enchem décadas e, às vezes mesmo, já mortos,
parece que continuam a viver. Tudo é desconhecido; todos aqueles que querem
fugir do túmulo para a memória dos vivos, são anódinos felizes e medíocres
existências que passaram pelo mundo sem ser notadas.
E lá ia
aquela moça por ali afora para o buraco escuro, para o fim, sem deixar na vida
um traço mais fundo de sua pessoa, de seus sentimentos, de sua alma!
Quaresma quis
afastar essa visão triste e encaminhou-se para o interior da casa. Ele estivera
na sala de visitas, onde Dona Maricota também estava, cercada de outras
senhoras amigas que nada lhe diziam. O Lulu, fardado do colégio, com fumo no
braço, cochilava a uma cadeira. As irmãs iam e vinham.
Na sala de
jantar, estava o general silencioso, tendo ao lado Fontes e outros amigos.
Caldas e
Bustamante conversavam baixo, afastados; e quando Quaresma passou, pôde ouvir o
almirante dizer:
—Qual! Os
homens estão dentro em pouco aqui... O governo está exausto.
O major ficou
na janela que dava para o quintal. O tecido do céu se tinha adelgaçado: o azul
estava sedoso e fino; e tudo tranqüilo, sereno e calmo.
A Estefânia,
a doutora, a de olhos maliciosos e quentes, passou, tendo ao lado Lalá, que
levava, de quando em quando, o lenço aos olhos já secos, a quem aquela dizia:
—Eu, se fosse
você, não comprava lá... É caro! Vai ao "Bonheur dês Dames"... Dizem
que tem coisas boas e é pechincheiro.
O major
voltou de novo a contemplar o céu que cobria o quintal. Tinha uma tranqüilidade
quase indiferente. Genelício apareceu demasiadamente fúnebre. Todo de preto,
ele tinha afivelado ao rosto a mais profunda máscara de tristeza. O seu pincenez
azulado também parecia de luto.
Não lhe fora
possível deixar de ir trabalhar; um serviço urgente fizera-o indispensável na
repartição.
—É isto,
general, disse ele, não está lá o doutor Genelício, nada se faz...
Não há meio
da Marinha mandar os processos certos... É um relaxa- mento...
O general não
respondeu; estava deveras combalido. Bustamante e Caldas continuavam a
conversar baixo. Ouviu-se o rodar de uma carruagem na rua.
Quinota
chegou à sala de jantar:
—Papai, está
aí o coche.
O velho
levantou-se a custo e foi para a sala de visitas. Falou à mulher que se ergueu
com a face contraída, exprimindo uma grande contensão. Os seus cabelos já
tinham muitos fios de prata. Não deu um passo; esteve um instante parada e logo
caiu na cadeira, chorando. Todos estavam vendo sem saber o que fazer; alguns
choravam; Genelício tomou um par- tido: foi retirando os círios de ao redor do
caixão. A mãe levantou-se, veio até ao esquife, beijou o cadáver: minha filha!
Quaresma
adiantou-se, foi saindo com o chapéu na mão. No corredor,
ainda ouviu
Estefânia dizer a alguém: o coche é bonito.
Saiu. Na rua
parecia que havia festa. As crianças da vizinhança cercavam o carro fúnebre e
faziam inocentes comentários sobre os dourados e enfeites. As grinaldas foram
aparecendo e sendo dependuradas nas extremidades das colunas do coche: "À
minha querida filha", "À minha irmã". As fitas roxas e pretas,
com letras douradas, moviam-se lentamente ao leve vento que soprava.
Apareceu o
caixão, todo roxo, com guarnições de galões dourados, muito brilhantes. Tudo
aquilo ia pra terra. As janelas se povoaram, de um lado e doutro da rua; um
menino na casa próxima, gritou da rua para o interior: "Mamãe, lá vai o
enterro da moça!"
O caixão foi
afinal amarrado fortemente no carro mortuário, cujos cavalos, ruços, cobertos
com uma rede preta, escarvavam o chão cheios de impaciência.
Aqueles que
iam acompanhar até ao cemitério, procuravam os seus carros.
Embarcaram
todos, e o enterro rodou.
A esse tempo,
na vizinhança, alguns pombos imaculadamente brancos, as aves de Vênus, ergueram
o vôo, ruflando estrepitosamente; deram volta por cima do coche e tornaram logo
silenciosos, quase sem bater asas, para o pombal que se ocultava nos quintais
burgueses...
IV O
BOQUEIRÃO
O sítio de
Quaresma, em Curuzu, voltava aos poucos ao estado de abandono em que ele o
encontrara. A erva daninha crescia e cobria tudo. As plantações que fizera,
tinham desaparecido na invasão do capim, do carrapicho, das urtigas e outros
arbustos. Os arredores da casa ofereciam um aspecto desolador, apesar dos
esforços de Anastácio, sempre vigoroso e trabalhador na sua forte velhice
africana, mas baldo de iniciativa, de método, de continuidade no esforço.
Um dia
capinava aqui, outro dia ali, outro pedaço, e assim ia saltando de trecho em
trecho, sem fazer trabalho que se visse, permitindo que as terras e os arredores
da casa adquirissem um aspecto de desleixo que não condizia com o seu trabalho
efetivo.
As formigas
voltaram também, mais terríveis e depredadoras, vencendo obstáculos, devastando
tudo, restos de seara, brotos de fruteiras, até os araçazeiros depenavam com
uma energia e bravura que sorriam aos fracos expedientes da inteligência
crestada do antigo escravo, incapaz de achar meios eficazes de batê-las ou
afugentá-las.
Entretanto
ele cultivava. Era a sua mania, o seu vício, uma teimosia de caduco. Tinha uma
horta que disputava diariamente às saúvas; e, como os animais da vizinhança a
tivessem um dia invadido, ele a protegeu pacientemente com uma cerca de
materiais mais inconcebíveis: latas de querosene desdobradas, caibros bons,
folhas de coqueiros, tábuas de caixão, não obstante ter à mão bambus à vontade.
Na sua
inteligência havia uma necessidade do tortuoso, do aparentemente fácil; e, em
tudo ele punha esse jeito de sua psique, tanto no falar, com grandes rodeios,
como nos canteiros que traçava, irregulares, maiores aqui, menores ali, fugindo
à regularidade, ao paralelismo, à simetria, com um horror artístico.
A revolta
tinha tido sobre a política local efeito pacificador. Todos os partidos se
fizeram dedicadamente governistas, de forma que, entre os dois poderosos
contendores, o doutor Campos e o Tenente Antonino houve um traço de união que
os reconciliou e os fez entenderem-se. Ao osso que ambos disputavam
encarniçadamente, chegou um outro mais forte que pôs em perigo a segurança de
ambos e eles se puseram em expectativa, um ins- tante unidos. O candidato foi
imposto pelo governo central e as eleições chegaram. É um momento bem curioso
esse das eleições na roça. Não se sabe bem donde saem tantos tipos exóticos. De
tal forma são eles esquisitos que se pode mesmo esperar que apareçam calções e
bofes de renda, espadins e gibão. Há sobrecasacas de cintura, há calças
boca-de-sino, há chapéus de seda — todo um museu de indumentária que aqueles
roceiros vestem e por um instante fazem viver por entre as ruas esburacadas e
estradas poeiren- tas das vilas e lugarejos.
Não faltam
também os valentões, com calças bombachas e grandes bengalões de pequiá, à
espera do que der e vier. Para a monótona vida que levava Dona Adelaide, esse
desfile de manequins de museu, por sua porteira, em direção à seção eleitoral
que lhe ficava nas proximidades, foi um divertimento. Ela passava longos e
tristes dias naquele isolamento. Fazia-lhe companhia desde muito a mulher de
Felizardo, a Sinhá Chica, uma velha cafuza, espécie de Medéia esquelética, cuja
fama de rezadeira pairava por sobre todo o município. Não havia quem como ela soubesse
rezar dores, cortar febres, curar cobreiros e conhecesse os efeitos das ervas medicinais: a língua-de-vaca, a
silvina, o cipó- chumbo — toda aquela drogaria que crescia pelos campos, pelas
capoeiras, e pelos troncos de árvores. Além desse saber que a fazia estimada e
respeitável, tinha também a
habilidade de
assistir partos. Na redondeza, entre a gente pobre e mesmo remediada, todos os
nascimentos se faziam aos cuidados de suas luzes.
Era de ver
como pegava um faca e agitava o pequeno instrumento doméstico em cruz,
repetidas vezes, sobre a sede da dor ou da tarefa, rezando em voz baixa,
balbuciando preces que afugentavam o espírito maligno que estava ali.
Contavam-se dela milagres, vitórias extraordinárias, denunciado- rãs do seu
estranho poder quase mágico, sobre as forças ocultas, que nos perseguem ou nos
auxiliam.
Um dos mais
curiosos, e era contado em toda parte e a toda hora, consistia no afastamento
das lagartas, Os vermes haviam dado num feijoal, aos milheiros, cobrindo as
folhas e os colmos; o proprietário já desesperava e tinha tudo por perdido
quando se lembrou dos maravilhosos poderes de Sinhá Chica. A velha lá foi. Pôs
cruzes de gravetos pelas bordas da roça, assim como se fizesse uma cerca de
invisível material que nela se apoiasse: deixou uma extremidade aberta e
colocou-se na oposta a rezar. Não tardou o milagre a verificar-se. Os vermes, num
rebanho moroso e serpejante, como se fossem tocados pela vara de um pastor,
foram saindo na sua frente, devagar, aos dois, aos quatro, aos cinco, aos dez,
aos vinte, e um só não ficou.
O doutor
Campos não tinha absolutamente nenhuma espécie de ciúme dessa rival. Armou-se
de um pequeno desdém pelo poder sobre-humano da mulher, mas não apelou nunca
para o arsenal de leis, que vedava o exercício de sua transcendente medicina.
Seria a impopularidade; ele era político.
No interior,
e não é preciso afastar-se muito do Rio de Janeiro, as duas medicinas coexistem
sem raiva e ambas atendem às necessidades mentais e econômicas da população.
A da Sinhá
Chica, quase grátis, ia ao encontro da população pobre, daquela em cujos
cérebros, por contágio ou herança, ainda vivem os manitus e manipansos,
sujeitos a fugirem aos exorcismos, benzeduras e fumigações. A sua clientela,
entretanto, não se resumia só na gente pobre da terra, ali nascida ou criada;
havia mesmo recém-chegados de outros ares, italianos, portugueses e espanhóis,
que se socorriam da sua força sobrenatural, não tanto pelo preço ou contágio
das crenças ambientes, mas também por aquela estranha superstição européia de
que todo negro ou gente colorida penetra e é sagaz para descobrir as coisas
malignas e exercer a feitiçaria.
Enquanto a
terapêutica fluídica ou herbácea de Sinhá Chica atendia aos miseráveis, aos
pobretões, a do doutor Campos era requerida pelos mais cultos e ricos, cuja
evolução mental exigia a medicina regular e oficial.
Às vezes, um
de um grupo passava para o outro; era nas moléstias graves, nas complicadas,
nas incuráveis, quando as ervas e as rezas da milagrosa nada podiam ou os
xaropes e pílulas do doutor eram impotentes.
Sinhá Chica
não era lá uma companheira muito agradável. Vivia sempre mergulhada no seu
sonho divino, abismada nos misteriosos poderes dos feitiços, sentada sobre as
pernas cruzadas, olhos baixos, fixos, de fraco brilho, parecendo esmalte de
olhos de múmia tanto ela era encarquilhada e seca. Não esquecia também o
santos, a santa madre Igreja, os mandamentos, as orações ortodoxas; embora não
soubesse ler, era forte no catecismo e
conhecia a
história sagrada aos pedaços, aduzindo a eles interpretações suas e
interpolações
pitorescas.
Com o
Apolinário, o famoso capelão das ladainhas, era ela o forte poder espiritual da
terra. O vigário ficava relegado a um papel de funcionário, espécie de oficial
de registro civil, encarregado dos batizados e casa- mentos, pois toda a
comunicação com Deus e o Invisível se fazia por intermédio de Sinhá Chica ou do
Apolinário. É de dever falar em casamentos, mas bem podiam ser esquecidos,
porque a nossa gente pobre faz uso redu- zido de tal sacramento e a simples
mancebia, por toda a parte, substitui a solene instituição católica.
Felizardo, o
marido dela, aparecia pouco em casa de Quaresma; e, se aparecia, era à noite,
passando os dias pelos matos com medo do recrutamento e logo que chegava
indagava da mulher se o barulho já tinha acabado. Vivia num constante pavor;
dormia vestido, galgando a janela e embrenhando-se na capoeira, à menor bulha
ouvida.
Tinham dois
filhos, mas que tristeza de gente! Ajuntavam à depressão moral dos pais uma
pobreza de vigor físico e uma indolência repugnan- te. Eram dois rapazes: o
mais velho, José, orçava pelos vinte anos; ambos inertes, moles, sem força e
sem crenças, nem mesmo a da feitiçaria, das rezas e benzeduras, que fazia o
encanto da mãe e merecia o respeito do pai. Não houve quem os fizesse aprender
qualquer coisa e os sujeitasse a um
trabalho
contínuo. De quando em quando, assim de quinze em quinze dias, faziam uma talha
de lenha e vendiam ao primeiro taverneiro pela metade do valor; voltavam para
casa alegres, satisfeitos, com um lenço de cores vivas, um vidro de
água-de-colônia, um espelho, bugigangas que denunciavam ainda neles gostos
bastante selvagens.
Passavam
então uma semana em casa, a dormir ou a perambular pelas estradas e vendas; à
noite, quase sempre nos dias de festas e domingos, saiam com a
"harmônica" a tocar peças, no que eram exímios, sendo a presença
deles muito reqüestada nos bailes da vizinhança.
Embora seus
pais vivessem em casa de Quaresma, raramente lá apareciam; e, se o faziam, era
porque de todo não tinham que comer. Levavam o descuido da vida, a
imprevidência, a ponto de não terem medo do recrutamento.
Eram,
entretanto, capazes de dedicação, de lealdade e bondade, mas o trabalho continuado,
todo o dia, repugnava-lhes à natureza, como uma pena ou um castigo.
Essa atonia
da nossa população, essa espécie de desânimo doentio, de indiferença canirvanesca
por tudo e todas as coisas, cercam de uma caligem de tristeza desesperada a
nossa roça e tira-lhe o encanto, a poesia e o viço sedutor de plena natureza.
Parece que
nem um dos grandes países oprimidos, a Polônia, a Irlanda, a Índia apresentará
o aspecto cataléptico do nosso interior. Tudo aí dorme, cochila, parece morto;
naqueles há revolta, há fuga para o sonho; no nosso...
Oh!...
dorme-se...
A ausência de
Quaresma trouxera para o seu sítio essa atmosfera geral da roça. O
"Sossego" parecia dormir, dormir de encantamento, à espera que o príncipe
o viesse despertar.
Máquinas
agrícolas, que não haviam ainda servido, enferrujavam com a etiqueta da casa.
Aqueles arados de ponta de aço, que tinham chegado com a relha reluzente, de um
brilho azulado e doce, estavam hediondos e morriam de tédio no abandono em que
jaziam, bracejando angustiosamente para o céu mudo. De manhã, não se ouvia mais
o cacarejar das aves no galinheiro, o esvoaçar dos pombos — todo esse hino
matinal de vida, de trabalho, de fartura não mais se casava com as auroras
rosadas e com o chilreio álacre do passaredo; e ninguém sabia ver as paineiras
em flor, com as suas lindas flores rosadas e brancas que, a espaços, caíam
docemente como aves feridas.
Dona Adelaide
não tinha nem gosto nem atividade para superintender aqueles serviços e fruir a
poesia da roça. Sofria com a separação do irmão e vivia como se estivesse na
cidade. Comprava os gêneros na venda e não se incomodava com as coisas do
sítio.
Ansiava pela
volta do irmão; escrevia-lhe cartas desesperadas, às quais ele respondia
aconselhando calma, fazendo promessas. A última recebida, porém, tinha de
sopetão outro acento; não era mais confiante, entusiástica, traía desânimo,
desalento, mesmo desespero.
"Querida
Adelaide. Só agora posso responder-te a carta que recebi há quase duas semanas.
Justamente quando ela me chegou às mãos, acabava de ser ferido, ferimento
ligeiro é verdade, mas que me levou à cama e trame-á uma convalescença longa.
Que combate, minha filha! Que horror! Quando me lembro dele, passo as mãos
pelos olhos como para afastar uma visão má. Fiquei com horror à guerra que
ninguém pode avaliar... Uma confusão, um infernal zunir de balas, clarões
sinistros, imprecações — e tudo isto no seio da treva profunda da noite...
Houve momentos que se abandonaram as armas de fogo: batíamo-nos à baioneta, a
coronhadas, a machado, facão. Filha: um combate de trogloditas, uma coisa
pré-histórica... Eu duvido, eu duvido, duvido
da justiça disso tudo, duvido da sua razão de ser, duvido que seja certo e necessário
ir tirar do fundo de nós todos a ferocidade adormecida, aquela ferocidade que
se fez e se depositou em nós nos milenários combates com as feras, quando
disputávamos a terra a elas... E não vi homens de hoje; vi homens de
Cro-Magnon, do Neanderthal armados com machados de sílex, sem piedade, sem
amor, sem sonhos generosos, a matar, sempre a matar... Este teu irmão que estás
vendo, também fez das suas, também foi descobrir dentro de si muita brutalidade,
muita ferocidade, muita crueldade... Eu matei, minha irmã; eu matei! E não
contente de matar, ainda descarreguei um tiro quando o inimigo arquejava a meus
pés... Perdoa-me! Eu te peço perdão, porque preciso de perdão e não sei a quem
pedir, a que Deus, a que homem, a alguém enfim... Não imaginas como isto faz-me
sofrer... Quando caí embaixo de uma carreta, o que me doía não era a ferida,
era a alma, era a consciência; e Ricardo, que foi ferido e caiu ao meu lado, a
gemer e pedir — 'capitão, meu gorro, meu gorro!' —
parecia que
era o meu próprio pensamento que ironizava o meu destino...
Esta vida é
absurda e ilógica; eu já tenho medo de viver, Adelaide. Tenho medo, porque não
sabemos para onde vamos, o que faremos amanhã, de que maneira havemos de nos
contradizer de sol para sol...
O melhor é
não agir, Adelaide; e desde que o meu dever me livre destes encargos, irei
viver na quietude, na quietude mais absoluta possível, para que do fundo de mim
mesmo ou do mistério das coisas não provoque a minha ação o aparecimento de
energias estranhas à minha vontade, que mais me façam sofrer e tirem o doce
sabor de viver...
Além do que,
penso que todo este meu sacrifício tem sido inútil. Tudo o que nele pus de
pensamento não foi atingido, e o sangue que derramei, e o sofrimento que vou
sofrer toda a vida, foram empregados, foram gastos, foram estragados, foram
vilipendiados e desmoralizados em prol de uma tolice política qualquer...Ninguém
compreende o que quero, ninguém deseja penetrar e sentir;
passo por
doido, tolo, maníaco e a vida se vai fazendo inexoravelmente com a sua
brutalidade e fealdade."
-------------------------------------
Como Quaresma
dizia na carta, o seu ferimento não era grave, era, porém, delicado e exigia
tempo para uma cura completa e sem perigos. Ricardo, este, fora ferido mais
gravemente. E se o sofrimento de Quaresma era profundamente moral, o de Coração
dos Outros era físico e não se cansava de gemer e imprecar contra a sorte que o
arrastara até à posição de combatente.
Os hospitais
em que se tratavam estavam separados pela baía, agora intransponível, exigindo
a viagem de uma margem à outra bem doze horas por estrada de ferro.
Tanto na ida
como na volta, ferido como estava, Quaresma passara pela estação em que morava.
O trem, porém, não parava, e ele se limitou a deitar pela portinhola um longo e
saudoso olhar para aquele seu "Sossego", de terras pobres e árvores
velhas, onde sonhara repousar calmamente por toda a vida; e, entretanto, o
lançara na mais terrível das aventuras.
E ele
perguntava de si para si, onde, na terra, estava o verdadeiro sossego, onde se
poderia encontrar esse repouso de alma e corpo, pelo qual tanto ansiava, depois
dos sacolejamentos por que vinha passando — onde? E o mapa dos continentes, as
cartas dos países, as plantas das cidades, passavam-lhe pelos olhos e não viu,
não encontrou um país, uma província, uma cidade, uma rua onde o houvesse.
A sua
sensação era de fadiga, não física, mas moral e intelectual, Tinha vontade de
não mais pensar, de não mais amar; queria, contudo, viver, por prazer físico;
pela sensação material pura e simples de viver. Assim, convalesceu longamente,
demoradamente, melancolicamente, sem uma visita, sem ver uma face amiga.
Coleoni e
família se haviam retirado para fora; o general, por preguiça e desleixo, não
viera vê-lo. Vivia só, envolvido na suavidade da convalescença, a pensar no
Destino, na sua vida, nas idéias e mais que tudo nas suas desilusões.
Entretanto, a
revolta na baía chegava ao fim; toda gente já pressentia isso e queria esse
alívio.
O almirante e
Albernaz, ambos pelos mesmos motivos, observavam esse fim com tristeza. O
primeiro via fugir o seu sonho de comandar uma esquadra e a conseqüente volta
para o quadro; e o general sentia perder a sua comissão, cujos rendimentos
faziam de forma tão notável melhorar a situação da família.
Naquela
manhã, bem cedo, Dona Maricota acordara o marido:
—Chico,
levanta-te! Olha que tens que ir à missa do Senador Clarimundo...
Ouvindo a
recomendação da mulher, Albernaz ergueu-se logo do lei- to.
Era preciso
não faltar. A sua presença se impunha e significava muito.
Clarimundo
fora um republicano histórico, agitador, tribuno temido, no tempo do Império;
após a República, porém, não apresentara aos seus pares do Senado nada de útil
e benfazejo. Embora assim, a sua influência ficara sendo grande; e, com
diversos outros, era chamado patriarca da República. Há nos próceres republicanos
uma necessidade extraordinária de serem gloriosos e não esquecidos pelo futuro,
a que eles se recomendam com teimoso interesse.
Clarimundo
era um desses próceres e, durante a comoção, não se sabia bem por quê, o seu
prestígio cresceu e já se falava nele para substituir o marechal. Albernaz
conhecera-o vagamente, mas assistir a sua missa era quase uma afirmação
política.
A dor da
morte da filha já se esvaíra muito na sua memória. O que o fazia sofrer era
aquela semivida da moça, mergulhada na loucura e na moléstia. A morte tem a
virtude de ser brusca, de chocar, mas não corroer, como essas moléstias
duradouras nas pessoas amadas; passado que é o choque, vai ficando em nós uma
suave recordação do ente querido, uma boa fisionomia sempre presente aos nossos
olhos.
Dava-se isso
com Albernaz e a sua satisfação de viver e a sua jovialidade natural foram
voltando insensivelmente.
Obediente à
mulher, preparou-se, vestiu-se e saiu. Conquanto se estivesse ainda em plena
revolta, esses ofícios fúnebres se faziam nas igrejas do centro da cidade. O
general chegou a tempo e à hora. Havia uniformes e cartolas e todos se
comprimiam para assinar as listas de presença. Não tanto que quisessem atestar
à família do morto esse ato delicado; dominava-os, além disso, a esperança de
ter os nomes nos jornais.
Albernaz não
deixou de atirar-se também a uma das listas que andavam pelas mesas da
sacristia; e quando ia assinar, alguém lhe falou. Era o almirante.
A missa ia
começar, mas ambos evitam entrar na nave cheia, e ficaram a um vão de janela,
na sacristia, conversando.
—Então acaba
breve, hein?
—Dizem que a
esquadra já saiu de Pernambuco.
Fora Caldas
quem falara primeiro e a resposta do general fê-lo sor- rir irônico dizendo:
—Enfim...
—A baia está
cercada de canhões, continuou o general, após uma pausa, e o marechal vai intimá-los
a renderem-se.
—Já era
tempo, fez Caldas... Comigo, a coisa já estava acabada... Levar quase sete
meses para dar cabo de uns calhambeques!...
—Você
exagera, Caldas; a coisa não era tão fácil assim... E o mar?
—Que fez a
esquadra tanto tempo no Recife, você não me dirá? Ah! Se
fosse com
este seu criado, tinha logo partido e atacado... Sou pelas decisões prontas...
O padre, no
interior da igreja, continuava a pedir a Deus repouso para a alma do Senador
Clarimundo. O místico cheiro de incenso vinha até eles e o votivo perfume,
votivo ao Deus da paz e da bondade, não os demovia dos seus pensamentos
guerreiros.
—Entre nós,
aduziu Caldas, não há mais gente que preste... Isto é um país perdido, acaba
colônia inglesa...
Coçou nervoso
um dos favoritos e esteve um instante a olhar o ladrilho do chão. Albernaz
avançou, meio sarcástico:
—Agora não;
agora a autoridade está prestigiada, consolidada, e uma era de progresso vai
abrir-se para o Brasil.
—Qual o quê!
Onde é que você viu um governo...
—Mais baixo,
Caldas!
—... onde é
que se viu um governo que não aproveita as aptidões, abandona-as, deixa-as por
ai vegetar?... Dá-se o mesmo com as nossas riquezas naturais: jazem por aí à
toa!
A sineta soou
e olharam um pouco a nave cheia. Pela porta, via-se uma porção de homens, todos
de negro, ajoelhados, contrictos, batendo nos peitos, a confessar de si para
si; mea culpa, mea maxima culpa...
Uma réstia de
sol coava-se por uma das aberturas do alto e resplandecia sobre algumas
cabeças.
Insensivelmente,
os dois, na sacristia, levaram a mão ao peito e confessaram também: mea culpa,
mea maxima culpa...
A missa veio
a acabar e ambos entraram para o abraço da pragmática. A nave rescendia a
incenso e tinha um aspecto tranqüilo de imortalidade.
Todos tinham
um grande ar de compunção: amigos, parentes, conhecidos e desconhecidos
pareciam sofrer igualmente. Albernaz e Caldas, logo que penetraram no corpo da
igreja, apanharam no ar um sentimento pro- fundo e afivelaram-no ao rosto.
Genelício
também viera; ele tinha o vício das missas das pessoas importantes, dos cartões
de pêsames, dos cumprimentos em dias de aniversário.
Temendo que a
memória não lhe ajudasse, possuía um caderninho onde as datas aniversárias
estavam assentadas e as residências também. O índice era organizado com muito
cuidado, Não havia sogra, prima, tia, cunhada, de homem importante, que, em dia
de aniversário, não recebesse os seus parabéns, e, por morte, não o levasse à
igreja em missa de sétimo dia, O seu traje de luto era de pano grosso, pesado;
e, olhando-o, lem- bravanos logo de um castigo dantesco.
Na rua,
Genelício escovava a cartola com a manga da sobrecasaca e dizia ao sogro e ao
almirante:
—A coisa está
pra acabar...! Breve...
—E se
resistirem? perguntou o general.
—Qual! Não
resistem. Corre que já propuseram rendição... É preciso arranjar uma
manifestação ao marechal.
—Não
acredito, fez o almirante. Conheço muito o Saldanha, é orgulhoso e não se
entrega assim...
Genelício
ficou um pouco assustado com a entonação da voz do seu parente; teve medo que
ele falasse mais alto, desse na vista e o comprometesse.
Calou-se;
Albernaz, porém, avançou:
—Não há
orgulho que resista a uma esquadra mais forte.
—Forte! Uns
calhambeques, homem!
Caldas
continha a custo a fúria que lhe ia n'alma. O céu estava azul e calmo. Havia
nele nuvens brancas, leves, esgarçadas, que se moviam lentamente, como velas,
naquele mar infinito. Genelício olhou-o um pouco e aconselhou:
—Almirante,
não fale assim... Olhe que...
—Qual! Não
tenho medo... Porcarias!...
—Bom, fez
Genelício, eu tenho que ir à Rua Primeiro de Março e...
Despediu-se e
saiu com o seu traje de chumbo, curvado, olhando o chão com o seu pince-nez
azulado, palmilhando a rua com passo miúdo e cauteloso.
Albernaz e
Caldas ainda estiveram conversando um tempo e se despediram sempre amigos, cada
um com o seu desgosto e a sua decepção.
Tinham razão:
a revolta veio a acabar dai a dias. A esquadra legal entrou;
os oficiais
revoltosos se refugiaram nos navios de guerra portugueses e o Marechal Floriano
ficou senhor da baía.
No dia da
entrada, acreditando que houvesse canhoneio, uma grande parte da população
abandonou a cidade, refugiando-se nos subúrbios, por baixo das árvores, na casa
de amigos ou nos galpões construídos adrede pelo Estado.
Era de ver o
terror que se estampava naquelas fisionomias, a ânsia e a angústia também.
Levavam trouxas, samburás, pequenas malas; crianças de peito, a chorar, o
papagaio querido, o cachorro de estimação, o passarinho que de há muito
quebrava a tristeza de uma casa pobre.
O que mais
metia medo era o famoso canhão de dinamite, do "Nite- rói", uma
espalhafatosa invenção americana, instrumento terrível, capaz de causar terremotos
e de abalar os fundamentos das montanhas graníticas do Rio.
As crianças e
as mulheres, mesmo fora do alcance de seu poder, temiam uvir o seu estrondo;
entretanto, esse fantasma yankee, esse pesa- delo, essa quase força da
natureza, foi morrer abandonado num cais, desprezado e inofensivo.
O fim do
levante foi um alívio; a coisa já estava ficando monótona e o marechal ganhou
feições sobre-humanas com a vitória.
Quaresma teve
alta por esse tempo; e uma ala de seu batalhão foi destacada para guarnecer a
ilha das Enxadas. Inocêncio Bustamante continuava a superintender o corpo com
muito zelo, do interior do seu gabinete, na estalagem condenada que lhe servia
de quartel. A escrituração estava em dia e era feita com a melhor letra.
Policarpo
aceitou com repugnância o papel de carcereiro, pois na ilha das Enxadas estavam
depositados os marinheiros prisioneiros. Os seus tormentos d'alma mais
cresceram com o exercício de tal função. Quase os não olhava; tinha vexame,
piedade e parecia-lhe que dentre eles um conhecia o segredo de sua consciência.
De resto,
todo o sistema de idéias que o fizera meter-se na guerra civil se tinha
desmoronado. Não encontrara o Sully e muito menos o Henrique IV.
Sentia também
que o seu pensamento motriz não residia em nenhuma das pessoas que encontrara.
Todos tinham vindo ou com pueris pensamentos políticos, ou por interesse; nada
de superior os animava. Mesmo entre os moços, que eram muitos, se não havia
baixo interesse, existia uma adoração fetíchica pela forma republicana, um
exagero das virtudes dela, um pendor para o despotismo que os seus estudos e
meditações não podiam achar justos. Era grande a sua desilusão.
Os
prisioneiros se amontoavam nas antigas salas de aulas e alojamentos dos
aspirantes. Havia simples marinheiros; havia inferiores; havia escreventes e
operários de bordo. Brancos, pretos, mulatos, caboclos, gente de todas as cores
e todos os sentimentos, gente que se tinha metido em tal aventura pelo hábito de
obedecer, gente inteiramente estranha à questão em debate, gente arrancada à força
aos lares ou à calaçaria das ruas, pequeni- nos, tenros, ou que se haviam alistado
por miséria; gente ignara, simples, às vezes cruel e perversa como crianças
inconscientes; às vezes, boa e dócil como um cordeiro, mas, enfim, gente sem
responsabilidade, sem anseio político, sem vontade própria, simples
autômatos nas
mãos dos chefes e superiores que a tinham abandonado à mercê
do vencedor.
De tarde, ele
ficava a passear, olhando o mar. A viração soprava ainda e as gaivotas
continuavam a pescar. Os barcos passavam. Ora, eram lanchas fumarentas que lá
iam para o fundo da baía; ora pequenos botes ou canoas, roçando carinhosamente
a superfície das águas, pendendo para lá e para cá, como se as suas alvas velas
enfunadas quisessem afagar a espelhenta superfície do abismo. Os Órgãos vinham
suavemente morrendo na violeta macia; e o resto era azul, um azul imaterial que
inebriava, embriagava, como um licor capitoso. Ficava assim um tempo longo, a
ver, e quando se voltava, olhava a cidade
que entrava
na sombra, aos beijos sangrentos do ocaso.
A noite
chegava e Quaresma continuava a passear na borda do mar, meditando, pensando,
sofrendo com aquelas lembranças de ódios, de sangueiras e ferocidade.
A sociedade e
a vida pareceram-lhe coisas horrorosas, e imaginou que do exemplo delas vinham os crimes que aquela
punia, castigava e pro- curava restringir. Eram negras e desesperadas, as suas
idéias; muita vez julgou que delirava.
E então se
lamentava por estar sozinho, por não ter um companheiro com quem conversar, que
lhe fizesse fugir àqueles tristes pensamentos que o assediavam e se estavam
transformando em obsessão.
Ricardo
estava de guarnição na ilha das Cobras; e, mesmo que ali estivesse, os rigores
da disciplina não lhe permitiriam uma conversa mais amigável. Vinha a noite
inteiramente, e o silêncio e a treva envolviam tudo.
Quaresma
ainda ficava horas ao ar livre a pensar, olhando o fundo da baía, onde quase
não havia luzes que interrompessem a continuidade do negror noturno.
Fixava bem os
olhos para lá, como se os quisesse habituar a penetrar nas coisas indecifráveis
e adivinhar dentro da sombra negra a forma das montanhas, o recorte das ilhas
que a noite tinha feito desaparecer.
Fatigado, ia
dormir. Nem sempre dormia bem; tinha insônias e, se queria ler, a atenção
recusava fixar-se e o pensamento vagabundava muito longe do livro.
Certa noite
em que ia dormindo melhor, um inferior veio acordá-lo pela madrugada:
—Senhor
major, está aí o "home" do Itamarati.
—Que homem?
—O oficial
que vem buscar a turma do Boqueirão.
Sem atinar do
que se tratava, levantou-se e foi ao encontro do visitante.
O homem já
estava no interior de um dos alojamentos. Uma escolta estava à porta.
Seguiam-no algumas praças, das quais uma levava uma lan- terna que derramava no
salão uma fraca luzerna amarelada. A vasta sala estava cheia de corpos,
deitados, seminus, e havia todo o íris das cores humanas. Uns roncavam, outros
dormiam somente; e, quando Quaresma entrou, houve alguém que em sonho, gemeu —
ai! Cumprimentaram-se, Quaresma e o emissário do Itamarati, e nada disseram.
Ambos tiveram medo de falar. O oficial despertou um dos prisioneiros e disse
para as praças: "Levem este".
Seguiu
adiante e despertou outro: — "Onde você esteve?" "Eu" —
respondeu o
marinheiro — "na Guanabara"... "Ah! patife" acudiu o homem
do Itamarati... "Este também... Levem!"...
Os soldados
condutores iam até à porta, deixavam o prisioneiro e voltavam.
O oficial
passou por uma porção deles e não fez reparo; adiante, deu com um rapaz claro,
franzino, que não dormia. Gritou então: "Levante- se!" O rapaz ergueu-se
tremendo. — "Onde esteve você?" perguntou. — "Eu era
enfermeiro", retrucou o rapaz. — "Que enfermeiro!" fez o
emissário. "Levem este também"...
—Mas,
"seu" tenente, deixe-me escrever à minha mãe, pediu o rapaz quase
chorando.
—Que mãe!
respondeu o homem do Itamarati. Siga! Vá!
E assim foi
uma dúzia, escolhida a esmo, ao acaso, cercada pela escolta, a embarcar num
batelão que uma lancha logo rebocou para fora das águas da ilha.
Quaresma não
atinou de pronto com o sentido da cena e foi, após o afastamento da lancha, que ele encontrou uma
explicação.
Não deixou de
pensar então por que força misteriosa, por que injuncão irônica ele se tinha
misturado em tão tenebrosos acontecimentos, assistindo ao sinistro alicerçar do
regime...
A embarcação
não ia longe. O mar gemia demoradamente de encontro às pedras do cais. A
esteira da embarcação estrelejava fosforescente. No alto, num céu negro e
profundo, as estrelas brilhavam serenamente.
A lancha
desapareceu nas trevas do fundo da baía. Para onde ia? Para o Boqueirão...
V A AFILHADA
Como lhe
parecia ilógico com ele mesmo estar ali metido naquele estreito calabouço? Pois
ele, o Quaresma plácido, o Quaresma de tão pro- fundos pensamentos patrióticos,
merecia aquele triste fim? De que maneira sorrateira o Destino o arrastara até
ali, sem que ele pudesse pressentir o seu extravagante propósito, tão
aparentemente sem relação com o resto da sua vida? Teria sido ele com os seus
atos passados, com as suas ações encadeadas no tempo, que fizera com que aquele
velho deus docilmente o trouxesse até à execução de tal desígnio? Ou teriam
sido os fatos externos, que venceram a ele, Quaresma, e fizeram-no escravo da
sentença da onipotente divindade? Ele não sabia, e,
quando
teimava em pensar, as duas coisas se baralhavam, se emaranhavam e a conclusão
certa e exata lhe fugia.
Não estava
ali há muitas horas. Fora preso pela manhã, logo ao erguer-se da cama; e, pelo
cálculo aproximado do tempo, pois estava sem relógio e mesmo se o tivesse não
poderia consultá-lo à fraca luz da masmorra, imaginava podiam ser onze horas.
Por que
estava preso? Ao certo não sabia; o oficial que o conduzira, nada lhe quisera
dizer; e, desde que saíra da ilha das Enxadas para a das Cobras, não trocara
palavra com ninguém, não vira nenhum conhecido no caminho, nem o próprio
Ricardo que lhe podia, com um olhar, com um gesto, trazer sossego às suas
dúvidas. Entretanto, ele atribuía a prisão à carta que escrevera ao presidente,
protestando contra a cena que presenciara na véspera.
Não se pudera
conter. Aquela leva de desgraçados a sair assim, a desoras, escolhidos a esmo,
para uma carniçaria distante, falara fundo a todos os seus sentimentos; pusera
diante dos seus olhos todos os seus princípios morais;
desafiara a
sua coragem moral e a sua solidariedade humana; e ele escrevera a 158
carta com
veemência, com paixão, indignado. Nada omitiu do seu pensamento; falou claro,
franca e nitidamente.
Devia ser por
isso que ele estava ali naquela masmorra, engaiolado, trancafiado, isolado dos
seus semelhantes como uma fera, como um criminoso, sepultado na treva, sofrendo
umidade, misturado com os seus detritos, quase sem comer... Como acabarei? Como
acabarei? E a pergunta lhe vinha, no meio da revoada de pensamentos que aquela
angústia provocava pensar. Não havia base para qualquer hipótese. Era de
conduta tão irregular e incerta o Governo que tudo ele podia esperar: a
liberdade ou a morte, mais esta que aquela.
O tempo
estava de morte, de carnificina; todos tinham sede de matar, para afirmar mais
a vitória e senti-la bem na consciência coisa sua, própria, e altamente
honrosa.
Iria morrer,
quem sabe se naquela noite mesmo? E que tinha ele feito de sua vida? Nada.
Levara toda ela atrás da miragem de estudar a pátria, por amá-la e querê-la
muito, no intuito de contribuir para a sua felicidade e prosperidade.
Gastara a sua
mocidade nisso, a sua virilidade também; e, agora que estava na velhice, como
ela o recompensava, como ela o premiava, como ela o condecorava? Matando-o. E o
que não deixara de ver, de gozar, de fruir, na sua vida? Tudo. Não brincara,
não pan- degara, não amara — todo esse lado da existência que parece fugir um
pouco à sua tristeza necessária, ele não vira, ele não provara, ele não
experimentara. Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele
fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram
grandes? Pois que fossem... Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o
nome dos heróis do Brasil? Em
nada... O importante é que ele tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se
das suas coisas de tupi, do folk-lore, das suas tentativas agrícolas...
Restava disso
tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!
O tupi
encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escárnio; e levou o à
loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras não eram ferazes e ela
não era fácil como diziam os livros. Outra decepção. E, quando o seu patriotismo
se fizera combatente, o que achara? Decepções. Onde estava a doçura de nossa
gente? Pois ele não a viu combater como feras? Pois não a via matar
prisioneiros, inúmeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma série,
melhor, um encadeamento de decepções.
A pátria que
quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele no silêncio do seu
gabinete. Nem a física, nem a moral, nem a intelectual,nem a política que
julgava existir, havia, A que existia de fato, era a do Tenente Antonino, a do
doutor Campos, a do homem do Itamarati.
E, bem
pensado, mesmo na sua pureza, o que vinha a ser a Pátria? Não teria levado toda
a sua vida norteado por uma ilusão, por uma idéia a menos, sem base, sem apoio,
por um Deus ou uma Deusa cujo império se esvaía? Não sabia que essa idéia
nascera da amplificação da crendice dos povos grecoromanos de que os ancestrais
mortos continuariam a viver como sombras e era preciso alimentá-las para que
eles não perseguissem os descendentes? Lembrou-se do seu Fustel de Coulanges...
Lembrou-se de que essa noção nada é para os Menenanã, para tantas pessoas...
Pare- ceu-lhe que essa idéia como que fora explorada pelos conquistadores por
instantes sabedores das nossas subserviências psicológicas, no intuito de ser-
vir às suas próprias ambições...
Reviu a
história; viu as mutilações, os acréscimos em todos os países históricos e
perguntou de si para si: como um homem que vivesse quatro séculos sendo
francês, inglês, italiano, alemão, podia sentir a Pátria?
Uma hora,
para o francês, o Franco-Condado era terra dos seus avós, outra não era; num
dado momento, a Alsácia não era, depois era e afinal não vinha a ser.
Nós mesmos
não tivemos a Cisplatina e não a perdemos; e, porventura, sentimos que haja lá
manes dos nossos avós e por isso sofremos qual- quer mágoa?
Certamente
era uma noção sem consistência racional e precisava ser revista.
Mas, como é
que ele tão sereno, tão lúcido, empregara sua vida, gastara o seu tempo,
envelhecera atrás de tal quimera? Como é que não viu nitidamente a realidade,
não a pressentiu logo e se deixou enganar por um falaz ídolo, absorver-se nele,
dar-lhe em holocausto toda a sua existência? Foi o seu isolamento, o seu
esquecimento de si mesmo; e assim é que ia para a cova, sem deixar traço seu,
sem um filho, sem um amor, sem um beijo mais quente, sem nenhum mesmo, e sem
sequer uma asneira!
Nada deixava
que afirmasse a sua passagem e a terra não lhe dera nada de saboroso.
Contudo, quem
sabe se outros que lhe seguissem as pegadas não seriam mais felizes? E logo
respondeu a si mesmo: mas como? Se não se fizera comunicar, se nada dissera e
não prendera o seu sonho, dando-lhe corpo e substância?
E esse
seguimento adiantaria alguma coisa? E essa continuidade tra- ria
enfim para a
terra alguma felicidade? Há quantos anos vidas mais valio- sas que a dele, se
vinham oferecendo, sacrificando e as coisas ficaram na mesma, a terra na mesma
miséria, na mesma opressão, na mesma tristeza.
E ele se
lembrava que há bem cem anos, ali, naquele mesmo lugar onde estava, talvez
naquela mesma prisão, homens generosos e ilustres estiveram presos por quererem
melhorar o estado de coisas de seu tempo. Tal- vez só tivessem pensado, mas
sofreram pelo seu pensamento. Tinha havido vantagem?
As condições
gerais tinham melhorado? Aparentemente sim; mas, bem examinado, não.
Aqueles
homens, acusados de crime tão nefando em face da legisla- cão da época, tinham
levado dois anos a ser julgados; e ele, que não tinha crime algum, nem era
ouvido, nem era julgado; seria simplesmente executado!
Fora bom,
fora generoso, fora honesto, fora virtuoso — ele que fora tudo isso, ia para a
cova sem o acompanhamento de um parente, de um amigo, de um camarada...
Onde estariam
eles? Sobre o Ricardo Coração dos Outros, tão sim- ples e tão inocente na sua
mania de violão, ele não poria mais os olhos? Era tão bom que o pudesse, para
mandar à sua irmã o último recado, ao preto Anastácio um adeus, à sua afilhada
um abraço! Nunca mais vê-los-ia, nunca!
E ele chorou
um pouco.
Quaresma,
porém, enganava-se em
parte. Ricardo soubera de sua prisão e procurava soltá-lo. Teve noticia do exato
motivo dela; mas não se intimidou. Sabia perfeitamente que corria grande risco,
pois a indignação no palácio contra Quaresma fora geral. A vitória tinha feito
os vitoriosos inclementes e ferozes, e aquele protesto soou entre eles como um
desejo de diminuir o valor das vantagens alcançadas. Não havia mais piedade,
não havia mais simpatia, nem respeito pela vida humana; o que era necessário
era dar o exemplo de um massacre à turca, porém clandestino, para que jamais o
poder constituído fosse atacado ou mesmo discutido. Era a filosofia social da
época, com forças de religião, com os seus fanáticos, com os seus sacerdotes e
pregadores, e ela agia com a maldade de uma crença forte, sobre a qual
fizéssemos repousar a felicidade de muitos.
Ricardo,
entretanto, não se amedrontou; procurou influências de amigos.
Ao entrar no
Largo de São Francisco encontrou Genelício. Vinha da missa da irmã da sogra do
Deputado Castro. Como sempre, trajava uma pesada sobrecasaca preta que parecia
de chumbo. Já estava subdiretor e o seu trabalho era agora imaginar meios e
modos de ser diretor. A coisa era difícil; mas trabalhava num livro: Os
Tribunais de Contas nos Países Asiáticos — o qual, demonstrando uma erudição
superior, talvez lhe levasse ao alto lugar cobiçado.
Vendo-o,
Ricardo não se deteve. Correu-lhe ao encalço e falou-lhe:
—Doutor,
Vossa Excelência dá licença que lhe dê uma palavra?
Genelício
perfilou-se todo e, como tivesse péssima memória das fisionomias humildes,
perguntou com solenidade e arrogância:
—Que deseja,
camarada?
Coração dos
Outros estava com a sua farda do "Cruzeiro do Sul" e não ficava bem a
Genelício dar-se como conhecido de um soldado. O trovador julgou-o mesmo esquecido
e indagou ingenuamente:
—Não me
conhece mais, doutor?
Genelício
fechou um pouco os olhos por detrás do pincenez azulado e disse secamente:
—Não.
—Eu, fez com
humildade Ricardo, sou Ricardo Coração dos Outros, que cantou no seu casamento.
Genelicio não
sorriu, não deu mostras de alegria e limitou-se:
—Ah! É o
senhor! Bem: que deseja?
—O senhor não
sabe que o Major Quaresma está preso?
—Quem é?
—Aquele que
foi vizinho do seu sogro.
—Aquele
maluco... Ahn!... E daí?
—Eu queria
que o senhor se interessasse...
—Não me meto
nessas coisas, meu amigo. O governo tem sempre razão.
Passe bem.
E Genelício
seguiu com o seu passo cauteloso de quem poupa as solas das
botas,
enquanto Ricardo ficava de pé a olhar o largo, a gente que passava, a
estátua
imóvel, as casas feias, a igreja... Tudo lhe pareceu hostil, mau ou
indiferente;
aquelas caras de homens tinham cataduras de feras e ele quis por um
momento
chorar de desespero por não poder salvar o amigo.
Lembrou-se,
porém, de Albernaz, e correu a procurá-lo. Não era longe, mas o general ainda não tinha chegado. Ao
fim de uma hora o general chegou e, dando com Ricardo, perguntou:
—Que há?
O trovador,
bastante emocionado, explicou-lhe com voz dorida todo o fato. Albernaz
concertou o pincenez, ajeitou bem o trancelim de ouro na orelha e disse com
doçura:
—Meu filho,
eu não posso... Você sabe; sou governista e parece, se eu for pedir por um
preso, que já não o sou bastante... Sinto muito, mas... que se há de fazer?
Paciência.
E entrou para
o seu gabinete prazenteiro, muito seguro de si, dentro do seu plácido uniforme
de general.
Os oficiais
continuavam a entrar e a sair; as campainhas soavam; os contínuos iam e vinham; e Ricardo procurava
entre todas aquelas fisionomias uma que lhe pudesse valer. Não havia e ele
desesperava. Mas quem havia de ser? Quem? Lembrou-se: o comandante; e foi ter
com o Coronel Bustamante, na velha estalagem que servia de quartel ao garboso
"Cruzeiro do Sul".
O batalhão
ainda continuava em pé de guerra. Embora terminada a revolta no porto do Rio de
Janeiro era preciso mandar forças para o Sul; de forma que os batalhões não
tinham sido dissolvidos e um dos apontados para partir era o "Cruzeiro".
O alferes
coxo, no ensaboado pátio da antiga estalagem, continuava na sua faina de
instrutor dos novos recrutas. Om — brooo... armas! Mei — aa volta!
Ricardo
entrou, subiu rapidamente a oscilante escada do velho cor- tiço e logo que
chegou ao cubículo do comandante, gritou: "Com licença, comandante!"
Bustamante
andava de mau humor. Aquele negócio de partir para o Paraná não lhe agradava.
Como é que havia de superintender a escrita do batalhão, no fervor de batalhas,
nas desordens de marchas e contramarchas?
Isso era uma
tolice do comandante marchar; o chefe devia ficar a resguardo, para
providenciar e dirigir a escrituração.
Ele pensava
nessas coisas, quando Ricardo pediu licença.
—Entre, disse
ele.
O bravo
coronel coçava a grande barba mosaica, tinha o dólmã desabotoado e acabava de
calçar um dos pés de botina, para com mais decência receber o inferior.
Ricardo expôs
o seu pedido e esperou com paciência a resposta, que custou a vir. Por fim,
Inocêncio disse sacudindo a cabeça e olhando o inferior cheio de severidade:
—Vai-te
embora, senão mando-te prender! Já!
E apontou com
o dedo a porta da saída num gesto marcial e energico. O cabo não se demorou
mais. No pátio o instrutor coxo, veterano do Paraguai, continuava com
solenidade a encher a arruinada estalagem com as suas vozes de comando!
Om-brôô... armas! Meia-ãã... volta... volver!
Ricardo veio
andando triste e desalentado, O mundo lhe parecia vazio de afeto e de amor. Ele
que sempre decantara nas suas modinhas a dedicação, o amor, as simpatias, via
agora que tais sentimentos não existiam. Tinha marchado atrás de coisas fora da
realidade, de quimeras. Olhou o céu alto. Estava tranqüilo e calmo. Olhou as
árvores. As palmeiras cresciam com orgulho e titanicamente pretendiam atingir o
céu. Olhou as casas, as igrejas, os palácios e lembrou-se das guerras, do
sangue, das dores que tudo aquilo custara. E era assim que se fazia a vida, a
história e o heroísmo: com violência sobre os outros, com opressões e sofrimentos.
Logo, porém,
recordou que era preciso salvar o amigo e que era necessário dar mais uns
passos. Quem poderia? Consultou sua memória. Viu um, viu outro e por fim
lembrou-se da afilhada de Quaresma, e foi procurá-la na Real Grandeza.
Chegou,
narrou-lhe o fato e as suas sinistras apreensões. Ela estava só, pois o marido
cada vez mais trabalhava para aproveitar os despojos da vitória; não perdia um
minuto, andando atrás de um e de outro. Olga lembrou-se bem do padrinho, do seu
eterno sonhar, da sua ternura, da tenacidade que punha em seguir as suas
idéias, da sua candura de donzela romântica...
Durante um
instante uma grande pena tomou-a toda inteira e tirou- lhe a vontade de agir.
Pareceu-lhe que era bastante a sua piedade e ela ia de algum modo dar lenitivo
ao sofrimento do padrinho; mas bem cedo o viu ensangüentado — ele, tão
generoso, ele, tão bom, e pensou em salvá-lo.
—Mas que
fazer, meu caro Senhor Ricardo, que fazer? Eu não conheço ninguém... Eu não
tenho relações... Minhas amigas... A Alice, a mulher do doutor Brandão, está
fora... A Cassilda, a filha do Castrioto, não pode... Não sei, meu Deus!
E acentuou
estas últimas palavras com grande e lancinante desespero. Os dois ficaram
calados. A moça, que estava sentada, tomou a cabeça entre as mãos e as suas
unhas longas e aperoladas engastaram-se nos seus cabelos negros.
Ricardo
estava de pé e aparvalhado.
—Que hei de
fazer, meu Deus? repetiu ela.
Pela primeira
vez, ela sentiu que a vida tinha coisas desesperadoras.
Possuía a
mais forte disposição de salvar seu padrinho: faria sacrifício de tudo, mas era impossível, impossível! Não havia um
meio; não havia um caminho. Ele tinha que ir para o posto de suplício, tinha
que subir o seu Calvário, sem esperança de ressurreição.
—Talvez seu
marido, disse Ricardo.
Pensou um
pouco, demorou-se mais no exame do caráter do esposo; mas, em breve, viu bem
que o seu egoísmo, a sua ambição e a sua ferocidade interesseira não permitiriam,
que ele desse o mínimo passo.
—Qual,
esse...
Ricardo não
sabia o que aconselhá-la e olhava sem pensamento os móveis e a montanha negra e
alta que se avistava da sala onde estavam. Queria encontrar um alvitre, um
conselho; mas nada!
A moça continuava
a cravar os dedos nos seus cabelos negros e a olhar a mesa em que repousavam os
seus cotovelos. O silêncio era augusto.
Num dado
momento, Ricardo teve uma grande alegria no olhar e disse:
—Se a senhora
fosse lá...
Ela levantou
a cabeça; os seus olhos se dilataram de espanto e o rosto lhe ficou rígido.
Pensou um pouco, um nada, e falou com firmeza:
—Vou.
Ricardo ficou
só e sentou-se, Olga foi vestir-se.
Ele então
pensou com admiração naquela moça que por simples amizade se dava a tão
arriscado sacrifício, que tinha a alma tão ao alcance dela mesma e a sentiu bem
longe desse nosso mundo, deste nosso egoísmo, dessa nossa baixeza e cobriu a
sua imagem com um grande olhar de reconhecimento.
Não tardou
que ela ficasse pronta e ainda abotoava as luvas, na sala de jantar, quando o
marido entrou. Vinha radiante, com os seus grandes bigodes e o seu rosto
redondo cheio de satisfação de si mesmo. Nem fez menção de ter visto Ricardo e
foi logo direto à mulher:
—Vais sair?
Ela,
afogueada pela ânsia desesperada de salvar Quaresma, disse com certa
vivacidade:
—Vou.
Armando ficou
admirado de vê-la falar daquele modo. Voltou-se um instante para Ricardo, quis
interrogá-lo, mas logo, dirigindo-se à mulher, perguntou com autoridade:
—Onde vais?
A mulher não
lhe respondeu logo e, por sua vez, o doutor interrogou o trovador:
—Que faz o
senhor aqui?
Coração dos
Outros não teve ânimo de responder; adivinhava uma cena violenta que ele teria
querido evitar; mas Olga adiantou-se:
—Vai
acompanhar-me ao Itamarati, para salvar da morte meu padrinho. Já sabe?
O marido
pareceu acalmar-se. Acreditou que, com meios sérios, poderia evitar que a
mulher desse passo tão perigoso para os seus interesses e ambições. Falou
docemente:
—Fazes mal.
—Por quê?
perguntou ela com calor.
—Vais comprometer-me.
Sabes que...
Ela não lhe
respondeu logo e mirou-o um instante com os seus grandes olhos cheios de
escárnio; mirou-o um, dois minutos; depois, riu-se um pouco e disse:
—É isto!
"Eu", porque "eu", porque "eu", é só
"eu" para aqui, "eu" para ali... Não pensas noutra coisa...
A vida é feita para ti, todos só devem viver para ti... Muito engraçado! De
forma que eu (agora digo "eu" também) não tenho direito de me
sacrificar, de provar a minha amizade, de ter na minha vida um traço superior?
É interessante! Não sou nada, nada! Sou alguma coisa como um móvel, um adorno,
não tenho relações, não tenho amizades, não tenho caráter?
Ora!...
Ela falava,
ora vagarosa e irônica, ora rapidamente e apaixonada; e o marido tinha diante
de suas palavras um grande espanto, Ele vivera sempre tão longe dela que não a
julgara nunca capaz de tais assomos. Então aquela menina?
Então aquele
bibelot? Quem lhe teria ensinado tais coisas? Quis desarmá-la com uma ironia e
disse risonho:
—Estás no
teatro?
Ela lhe
respondeu logo:
—Se é só no
teatro que há grandes coisas, estou.
E acrescentou
com força:
—É o que te
digo: vou e vou, porque devo, porque quero, porque é do meu direito.
Apanhou a
sombrinha, concertou o véu e saiu solene, firme, alta e nobre.
O marido não
sabia o que fazer. Ficou assombrado e assombrado e silencioso viu-a sair pela
porta fora.
Em breve,
estava no palácio da Rua Larga. Ricardo não entrou: deixou que a moça o fizesse
e foi esperá-la no Campo de Sant'Ana, Ela subiu. Havia um imenso burburinho,
uma agitação de entradas e saídas. Toda a gente queria mostrar-se a Floriano,
queria cumprimentá- lo, queria dar mostras da sua dedicação, provar os seus
serviços, mostrando- se coparticipante na sua vitória. Lançavam mão de todos os
meios, de todos os planos, de todos os processos. O ditador tão acessível
antes, agora se esquivava.
Havia quem
lhe quisesse beijar as mãos, como ao papa ou a um imperador; e ele já tinha
nojo de tanta subserviência. O califa não se supunha sagrado e aborrecia-se.
Olga falou
aos contínuos, pedindo ser recebida pelo marechal. Foi inútil.
A muito custo
conseguiu falar a um secretário ou ajudante-de-ordens. Quando ela lhe disse a
que vinha, a fisionomia terrosa do homem tornou- se de oca e sob as suas
pálpebras correu um firme e rápido lampejo de espada:
—Quem,
Quaresma? disse ele. Um traidor! Um bandido!
Depois,
arrependeu-se da veemência, fez com certa delicadeza:
—Não é
possível, minha senhora. O marechal não a atenderá.
Ela nem lhe
esperou o fim da frase. Ergueu-se orgulhosamente, deu- lhe as costas e teve
vergonha de ter ido pedir, de ter descido do seu orgulho e ter enxovalhado a
grandeza moral do padrinho com o seu pedido. Com tal gente, era melhor tê-lo
deixado morrer só e heroicamente num ilhéu qualquer, mas levando para o túmulo
inteiramente intacto o seu orgu- lho, a sua doçura, a sua personalidade moral,
sem a mácula de um empenho que diminuísse a injustiça de sua morte, que de
algum modo fizesse crer aos seus algozes que eles tinham direito de matá-lo.
Saiu e andou.
Olhou o céu, os ares, as árvores de Santa Teresa, e se lembrou que, por estas
terras, já tinham errado tribos selvagens, das quais um dos chefes se orgulhava
de ter no sangue o sangue de dez mil inimigos. Fora há quatro séculos. Olhou de
novo o céu, os ares, as árvores de Santa Teresa, as casas, as igrejas; viu os
bondes passarem; uma locomotiva apitou; um carro, puxado por uma linda parelha,
atravessou-lhe na frente, quando já a entrar do campo... Tinha havido grandes e
inúmeras modificações. Que fora aquele parque? Talvez um charco. Tinha havido
grandes modificações nos aspectos, na
fisionomia da
terra, talvez no clima... Esperemos mais, pensou ela; e seguiu
serenamente
ao encontro de Ricardo Coração dos Outros.
Todos os
Santos (Rio de Janeiro), janeiro — março de 1911.
Final de
“Triste Fim de Policarpo Quaresma”
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