II REFORMAS RADICAIS
Havia bem dez
dias que o Major Quaresma não saía de casa. Na sua meiga e sossegada casa de
São Cristóvão, enchia os dias da forma mais útil e agradável às necessidades do
seu espírito e do seu temperamento. De manhã, depois da toilette e do café,
sentava-se no divã da sala principal e lia os jornais.
Lia diversos,
porque sempre esperava encontrar num ou noutro uma notícia curiosa, a sugestão
de uma idéia útil à sua cara Pátria. Os seus hábitos burocráticos faziam-no
almoçar cedo, e, embora estivesse de férias, para os não perder, continuava a
tomar a primeira refeição de garfo às nove e meia da manhã.
Acabado o
almoço, dava umas voltas pela chácara, chácara em que predominavam as fruteiras
nacionais, recebendo a pitanga e o cambuí os mais cuidadosos tratamentos
aconselhados pela pomologia, como se fossem bem cerejas ou figos.
O passeio era
demorado e filosófico. Conversando com o preto Anastácio, que lhe servia há
trinta anos, sobre coisas antigas — o casamento das princesas, a quebra do
Souto e outras — o major continuava com o pensamento preso aos problemas que o
preocupavam ultimamente. Após uma hora ou menos, voltava à biblioteca e
mergulhava nas revistas do Instituto Histórico, no Fernão Cardim, nas cartas de
Nóbrega, nos anais da Biblioteca, no von den Stein e tomava notas sobre notas,
guardando-as numa pequena pasta ao lado. Estudava os índios, Não fica bem dizer
estudava, porque já o fizera há tempos, não só no tocante à língua, que já
quase falava, como também nos simples aspectos etnográficos e antropológicos.
Recordava (é melhor dizer assim), afirmava certas noções dos seus estudos
anteriores, visto estar organizando um sistema de cerimônias e festas que se
baseasse nos costumes dos nossos silvícolas e abrangesse todas as relações
sociais. Para bem se compreender o motivo disso, é preciso não esquecer que o major,
depois de trinta anos de meditação patriótica, de estudos e reflexões, chegava
agora ao período da frutificação. A convicção que sempre tivera de ser o Brasil
o primeiro país do mundo e o seu grande amor à Pátria eram agora ativos e
impeliram-no a grandes cometimentos. Ele sentia dentro de si impulsos
imperiosos de agir, de obrar e de concretizar suas idéias. Eram pequenos
melhoramentos, simples toques, porque em si mesma (era a sua opinião), a grande
Pátria do Cruzeiro só precisava de tempo para ser superior à Inglaterra.
Tinha todos
os climas, todos os frutos, todos os minerais e animais úteis, as melhores
terras de cultura, a gente mais valente, mais hospitaleira, mais inteligente e
mais doce do mundo — o que precisava mais? Tempo e um pouco de originalidade.
Portanto, dúvidas não flutuavam mais no seu espírito, mas no que se referia à
originalidade de costumes e usanças, não se tinham elas dissipado, antes se
transformaram em certeza após tomar parte na folia do "Tangolomango",
numa festa que o general dera em
casa. Caso foi que a visita do Ricardo e do seu violão ao
bravo militar veio despertar no general e na família um gosto pelas festanças,
cantigas e hábitos genuinamente nacionais, como se diz por aí. Houve em todos
um desejo de sentir, de sonhar, de poetar à maneira popular dos velhos tem-
pos. Albernaz, o general, lembrava-se de ter visto tais cerimônias na sua
infância: Dona Maricota, sua mulher, até ainda se lembrava de uns versos de
Reis; e os seus filhos, cinco moças e um rapaz, viram na coisa um pretexto de
festas e, portanto, aplaudiram o entusiasmo dos progenitores. A modinha era
pouco; os seus espíritos pediam coisa mais plebéia, mais característica e
extravagante.
Quaresma
ficou encantado, quando Albernaz falou em organizar uma
chegança, à
moda do Norte, por ocasião do aniversário de sua praça. Em casa do general era
assim: qualquer aniversário tinha a sua festa, de forma que havia bem umas trinta por ano, não contando
domingos, dias feriados e santificados em que se dançava também.
O major
pensara até ali pouco nessas coisas de festas e danças tradicionais, entretanto
viu logo a significação altamente patriótica do intento. Aprovou e animou o
vizinho. Mas quem havia de ensaiar, de dar os versos e a música? Alguém lembrou
a tia Maria Rita, uma preta velha, que morava em Benfica, antiga lavadeira da
família Albernaz. Lá foram os dois, o General Albernaz e o Major Quaresma,
alegres, apressados, por uma linda e cristalina tarde de abril. O general nada
tinha de marcial, nem mesmo o uniforme que talvez não possuísse. Durante toda a
sua carreira militar, não viu uma única bata- lha, não tivera um comando, nada
fizera que tivesse relação com a sua pro- fissão e o seu curso de artilheiro.
Fora sempre ajudante-de-ordens, assis- tente, encarregado disso ou daquilo,
escriturário, almoxarife, e era secretário do Conselho Supremo Militar, quando
se reformou em general. Os
seus hábitos eram de um bom chefe de seção e a sua inteligência não era muito
diferente dos seus hábitos.
Nada entendia
de guerras, de estratégia, de tática ou de história militar; a sua sabedoria a
tal respeito estava reduzida às batalhas do Paraguai, para ele a maior e a mais
extraordinária guerra de todos os tempos. O altissonante título de general, que
lembrava coisas sobre-humanas dos Césares, dos Turennes e dos Gustavos Adolfos,
ficava mal naquele homem plácido, medíocre, bonachão cuja única preocupação era
casar as cinco filhas e arranjar "pistolões" para fazer passar o
filho nos exames do Colégio Militar.
Contudo, não
era conveniente que se duvidasse das suas aptidões guerreiras. Ele mesmo,
percebendo o seu ar muito civil, de onde em onde, contava um episódio de
guerra, uma anedota militar. "Foi em Lomas Valentinas",
dizia ele... Se alguém perguntava: "O general assistiu a batalha?"
Ele respondia logo: "Não pude. Adoeci e vim para o Brasil, nas vésperas.
Mas soube pelo Camisão, pelo Venâncio que a coisa esteve preta". O bonde
que os levava até à velha Maria Rita, percorria um dos trechos mais
interessantes da cidade. Ia pelo Pedregulho, uma velha porta da cidade, antigo
término de um picadão que ia ter a Minas, se esgalhava para São Paulo e abria
comunicações com o Curato de Santa Cruz.
Por aí em
costas de bestas vieram ter ao Rio o ouro e o diamante de Minas e ainda
ultimamente os chamados gêneros do país. Não havia ainda cem anos que as
carruagens d'El-Rei Dom João VI, pesadas como naus, a balouçarem-se sobre as
quatro rodas muito separadas, passavam por ali para irem ter ao longínquo Santa
Cruz. Não se pode crer que a coisa fosse lá muito imponente; a Corte andava em
apuros de dinheiro e o rei era relaxado. Não obstante os soldados remendados, tristemente
montados em "pangarés" desanimados, o préstito devia ter a sua
grandeza, não por ele mesmo, mas pelas humilhantes marcas de respeito que todos
tinham que dar à sua lamentável majestade.
Entre nós
tudo é inconsistente, provisório, não dura. Não havia ali nada que lembrasse
esse passado. As casas velhas, com grandes janelas, quase quadradas, e vidraças
de pequenos vidros eram de há bem poucos anos, menos de cinqüenta.
Quaresma e
Albernaz atravessaram tudo aquilo sem reminiscências e foram até ao ponto.
Antes perlustraram a zona do turfe, uma pequena porção da cidade onde se
amontoam cocheiras e coudelarias de animais de corridas, tendo grandes
ferraduras, cabeças de cavalos, panóplias de chicotes e outros emblemas hípicos,
nos pilares dos portões, nas almofadas das portas, por toda parte onde tais
distintivos fiquem bem e dêem na vista.
A casa da
velha preta ficava além do ponto, para as bandas da estação da estrada de ferro
Leopoldina. Lá foram ter. Passaram pela estação. Sobre um largo terreiro, negro
de moinha de carvão-de-pedra, medas de lenha e imensas tulhas de sacos de
carvão vegetal se acumulavam; mais adiante um depósito de locomotivas e sobre
os trilhos algumas manobravam e outras arfavam sob pressão.
Apanharam
afinal o carreiro onde ficava a casa da Maria Rita. O tempo estivera seco e por
isso se podia andar por ele. Para além do caminho, estendiase a vasta região de
mangues, uma zona imensa, triste e feia, que vai até ao fundo da baía e, no
horizonte, morre ao sopé das montanhas azuis de Petrópolis. Chegaram à casa da
velha. Era baixa, caiada e coberta com as pesadas telhas portuguesas. Ficava um
pouco afastada da estrada. À direita havia um monturo: restos de cozinha,
trapos, conchas de mariscos, pedaços de louça caseira — um sambaqui a fazer-se
para gáudio de um arqueólogo de futuro remoto; à esquerda, crescia um mamoeiro
e bem junto à cerca, no mesmo lado, havia um pé de arruda. Bateram. Uma
pretinha moça apareceu na janela aberta. —Que desejam?
Disseram o
que queriam e aproximaram-se. A moça gritou para o interior da casa:
—Vovó estão
aí dois "moços" que querem falar com a senhora. Entrem, façam o favor
— disse ela depois, dirigindo-se ao general e ao seu companheiro.
A sala era
pequena e de telha-vã. Pelas paredes, velhos cromos de folhinhas, registros de
santos, recortes de ilustrações de jornais baralhavam- se e subiam por elas acima até dois terços da
altura. Ao lado de uma Nossa Senhora da Penha, havia um retrato de Vítor
Emanuel " com enormes bigo- desendesorden; um crini sentimental de
folhinha — uma cabeça de mulher em posição de sonho — parecia olhar um São João Batista
ao lado. No alto da porta que levava ao interior da casa, uma lamparina, numa
cantoneira, enchia de fuligem a Conceição de louça.
Não tardou
vir a velha. Entrou em camisa de bicos de rendas, mostrando o peito descarnado,
enfeitado com um colar de miçangas de duas voltas.
Capengava de
um pé e parecia querer ajudar a marcha com a mão esquerda pousada na perna
correspondente.
—Boas tardes,
tia Maria Rita, disse o general.
Ela
respondeu, mas não deu mostras de ter reconhecido quem lhe falava.
O general
atalhou:
—Não me
conhece mais? Sou o general, o Coronel Albernaz.
—Ah! É sê
coroné!... Há quanto tempo! Como está nhã Maricota?
—Vai bem.
Minha velha, nós queríamos que você nos ensinasse umas cantigas.
—Quem sou eu,
ioiô!
—Ora! Vamos,
tia Maria Rita... você não perde nada... você não sabe o "Bumba-meu-Boi"?
—Quá, ioiô,
já mi esqueceu.
—E o
"Boi Espácio"?
—Coisa véia,
do tempo do cativeiro — pra que sô coroné qué sabê isso?
Ela falava
arrastando as sílabas, com um doce sorriso e um olhar vago.
—É para uma
festa... Qual é a que você sabe?
A neta que
até ali ouvia calada a conversa animou-se a dizer alguma coisa, deixando
perceber rapidamente a fiada reluzente de seus dentes imaculados:
—Vovó já não
se lembra.
O general,
que a velha chamava coronel, por tê-la conhecido nesse posto, não atendeu a
observação da moça e insistiu:
—Qual
esquecida, o quê! Deve saber ainda alguma coisa, não é, titia?
—Só sei o
"Bicho Tutu", disse a velha.
—Cante lá!
—Ioiô sabe!
Não sabe? Quá, sabe!
—Não sei,
cante. Se eu soubesse não vinha aqui. Pergunte aqui ao meu amigo, o Major
Policarpo, se sei.
Quaresma fez
com a cabeça sinal afirmativo e a preta velha, talvez com grandes saudades do
tempo em que era escrava e ama de alguma grande casa, farta e rica, ergueu a
cabeça, como para melhor recordar-se, e entoou:
É vêm tutu
Por detrás do
murundu pra cumê sinhozinho Com bucado de angu.
—Ora! fez o
general com enfado, isso é coisa antiga de embalar crianças.
Você não sabe
outra?
—Não, sinhô.
Já mi esqueceu.
Os dois
saíram tristes. Quaresma vinha desanimado. Como é que o povo não guardava as
tradições de trinta anos passados? Com que rapidez morriam assim na sua
lembrança os seus folgares e as suas canções? Era bem um sinal de fraqueza, uma
demonstração de inferioridade diante daqueles povos tenazes que os guardam
durante séculos! Tornava-se preciso reagir, desenvolver o culto das tradições,
mantê-las sempre vivazes nas memórias e nos costumes...
Albernaz vinha
contrariado. Contava arranjar um número bom para a festa que ia dar, e
escapava-lhe. Era quase a esperança de casamento de uma das quatro filhas que
se ia, das quatro, porque uma delas já estava garantida, graças a Deus.
O crepúsculo
chegava e eles entraram em casa mergulhados na melancolia da hora.
A decepção,
porém, demorou dias. Cavalcânti, o noivo de Ismênia, informou que nas
imediações morava um literato, teimoso cultivador dos contos e canções
populares do Brasil. Foram a ele. Era um velho poeta que teve sua fama ai pelos
setenta e tantos, homem doce e ingênuo que se deixara esquecer em vida, como
poeta, e agora se entretinha em publicar coleções que ninguém lia, de contos,
canções, adágios e ditados populares.
Foi grande a
sua alegria quando soube o objeto da visita daqueles senhores. Quaresma estava
animado e falou com calor; e Albernaz também, porque via na sua festa, com um
número de folklore, meio de chamar a atenção sobre sua casa, atrair gente e...
casar as filhas.
A sala em que
foram recebidos, era ampla; mas estava tão cheia de mesas, estantes, pejadas de
livros, pastas, latas, que mal se podia mover nela. Numa lata lia-se: Santa Ana
dos Tocos; numa pasta: São Bonifácio do Cabresto.
—Os senhores
não sabem, disse o velho poeta, que riqueza é a nossa poesia popular! que
surpresas ela reserva!... Ainda há dias recebi uma carta de Urubu-de-Baixo com
uma linda canção. Querem ver?
O
colecionador revolveu pastas e afinal trouxe de lá um papel onde leu:
Se Deus
enxergasse pobre não me deixaria assim:
Dava no
coração dela
Um lugarzinho
pra mim, o amor que tenho por ela já não cabe no meu peito;
Sai-me pelos
olhos afora
Voa às nuvens
direito.
—Não é
bonito?... Muito! Se os senhores conhecessem então o ciclo do macaco, a coleção
de histórias que o povo tem sobre o símio?... Oh! Uma verdadeira epopéia
cômica!
Quaresma
olhava para o velho poeta com o espanto satisfeito de alguém que encontrou um
semelhante no deserto; e Albernaz, um momento contagiado pela paixão do
folclorista, tinha mais inteligência no olhar com que o encarava,
O velho poeta
guardou a canção de Urubu-de-Baixo, numa pasta; e foi logo à outra, donde tirou
várias folhas de papel. Veio até junto aos dois visitantes e disse-lhes:
—Vou ler aos
senhores uma pequena história do macaco, das muitas que o nosso povo conta...
Só eu já tenho perto de quarenta e pretendo publicá-las, sob o título Histórias
do Mestre Simão.
E, sem
perguntar se os incomodava ou se estavam dispostos a ouvir, começou:
"O
macaco perante o juiz de direito. Andava um bando de macacos em troça, pulando
de árvore em árvore, nas bordas de uma grota. Eis senão quando, um deles vê no
fundo uma onça que lá caíra. Os macacos se enternecem e resolvem salvá-la. Para
isso, arrancaram cipós, emendaram-nos bem, amarraram a corda assim feita à
cintura de cada um deles e atiraram uma das pontas à onça.
Com o esforço
reunido de todos, conseguiram içá- la e logo se desamarraram, fugindo. Um
deles, porém, não o pôde fazer a tempo e a onça segurou-o imediatamente.
—Compadre
Macaco, disse ela, tenha paciência. Estou com fome e você vai fazer-me o favor
de deixar-se comer.
O macaco
rogou, instou, chorou; mas a onça parecia inflexível, Simão então lembrou que a
demanda fosse resolvida pelo juiz de direito. Foram a ele; o macaco sempre
agarrado pela onça. É juiz de direito entre os animais, o jabuti, cujas
audiências são dadas à borda dos rios, colocando-se ele em cima de uma pedra.
Os dois chegaram e o macaco expôs as suas razões.
O jabuti
ouvi-o e no fim ordenou:
—Bata palmas.
Apesar de
seguro pela onça, o macaco pôde assim mesmo bater palmas.
Chegou a vez
da onça, que também expôs as suas razões e motivos. O juiz, como da primeira
vez, determinou ao felino:
—Bata palmas.
A onça não
teve remédio senão largar o macaco, que se escapou, e também o juiz,
atirando-se n'água".
Acabando a
leitura, o velho dirigiu-se aos dois:
—Não acham
interessante? Muito! Há no nosso povo muita invenção, muita criação, verdadeiro
material para fabliaux interessantes... No dia em que aparecer um literato de
gênio que o fixe numa forma imortal... Ah! Então!
Dizendo isto,
brincava nas suas faces um demorado sorriso de satisfação e nos seus olhos
abrolhavam duas lágrimas furtivas.
—Agora,
continuou ele, depois de passada a emoção — vamos ao que serve. O "Boi
Espácio" ou o "Bumba-meu-Boi" ainda é muita coisa para vocês...
É melhor
irmos devagar, começar pelo mais fácil... Está aí o "Tangolomango", conhecem?
—Não,
disseram os dois.
—É divertido.
Arranjem dez crianças, uma máscara de velho, uma roupa estrambólica para um dos
senhores, que eu ensaio.
O dia chegou.
A casa do general estava cheia. Cavalcânti viera; e ele e a noiva, à parte, no
vão de uma janela, pareciam ser os únicos que não tinham interesse pela folia.
Ele, falando muito, cheio de trejeitos no olhar; ela, meio fria,
deitando de
quando em quando, para o noivo, um olhar de gratidão.
Quaresma fez
o "Tangolomango", isto é, vestiu uma velha sobreca- saca do general,
pôs uma imensa máscara de velho, agarrou-se a um bordão curvo, em forma de
báculo, e entrou na sala. As dez crianças cantaram em coro:
Uma mãe teve
dez filhos
Todos os dez
dentro de um pote:
Deu o
Tangolomango nele
Não ficaram
senão nove.
Por aí, o
major avançava, batia com o báculo no assoalho, fazia: hu! hu!
hu! ; as
crianças fugiam, afinal ele agarrava uma e levava para dentro. Assim ia executando com grande alegria da sala, quando,
pela quinta estrofe, lhe faltou o ar, lhe ficou a vista escura e caiu.
Tiraram-lhe a más- cara, deram-lhe algumas sacudidelas e Quaresma voltou a si.
O acidente,
entretanto, não lhe deu nenhum desgosto pelo folklore,
Comprou
livros, leu todas as publicações a respeito, mas a decepção lhe veio ao fim de
algumas semanas de estudo.
Quase todas
as tradições e canções eram estrangeiras; o próprio "Tangolomango" o
era também. Tornava-se, portanto, preciso arranjar alguma coisa própria,
original, uma criação da nossa terra e dos nossos ares.
Essa idéia
levou-o a estudar os costumes tupinambás; e, como uma idéia traz outra, logo
ampliou o seu propósito e eis a razão por que estava organizando um código de
relações, de cumprimentos, de cerimônias domésticas e festas, calcado nos
preceitos tupis.
Desde dez
dias que se entregava a essa árdua tarefa, quando (era domingo) lhe bateram à
porta, em meio de seu trabalho. Abriu, mas não apertou a mão. Desandou a
chorar, a berrar, a arrancar os cabelos, como se tivesse perdido a mulher ou um
filho. A irmã correu lá de dentro, o Anastácio também, e o compadre e a filha,
pois eram eles, ficaram, estupe- fatos no limiar da porta.
—Mas que é
isso, compadre?
—Que é isso,
Policarpo?
—Mas, meu
padrinho...
Ele ainda
chorou um pouco. Enxugou as lágrimas e, depois, explicou com a maior
naturalidade:
—Eis aí!
Vocês não têm a mínima noção das coisas da nossa terra, Queriam que eu apertasse a mão... Isto não é nosso!
Nosso cumprimento é chorar quando encontramos os amigos, era assim que faziam
os tupinambás.
O seu
compadre Vicente, a filha e Dona Adelaide entreolharam-se, sem saber o que
dizer. O homem estaria doido? Que extravagância!
—Mas, Senhor
Policarpo, disse-lhe o compadre, é possível que isto seja muito brasileiro, mas
é bem triste, compadre.
—Decerto,
padrinho, acrescentou a moça com vivacidade; parece até agouro...
Este seu
compadre era italiano de nascimento. A história das suas relações
vale a pena
contar. Quitandeiro ambulante, fora fornecedor da casa de Quaresma há vinte e tantos anos. O major já tinha as
suas idéias patrióticas, mas não desdenhava conversar com o quitandeiro e até
gostava de vê-lo suado, curvado ao peso dos cestos, com duas rosas vermelhas
nas faces muito brancas de europeu recém-chegado. Mas um belo dia, ia Qua-
resma pelo Largo do Paço, muito distraído, a pensar nas maravilhas
arquitetônicas do chafariz do Mestre Valentim, quando veio a encontrar-se com o
mercador ambulante. Falou-lhe com aquela simplicidade d'alma que era bem sua, e
notou que o rapaz tinha alguma preocupação séria. Não só, de onde em onde,
soltava exclamações sem ligação alguma com a conversa atual, como também,
cerrava os lábios, rilhava os dentes e crispava raivosamente os punhos.
Interrogou-o e veio a saber que tivera uma ques- tão de dinheiro com um seu
colega, estando disposto a matá-lo, pois per- dera o crédito e em breve estaria
na miséria. Havia na sua afirmação uma tal energia e um grande e estranho
acento de ferocidade que fizeram empregar o major toda a sua doçura e persuasão
para dissuadi-lo do propósito. E não ficou nisto só: emprestou-lhe também
dinheiro. Vicente Coleoni pôs uma quitanda,
ganhou uns contos de réis, fez-se logo empreiteiro, enrique- ceu, casou, veio a
ter aquela filha, que foi levada à pia pelo seu benfeitor. Inútil é dizer que
Quaresma não notou a contradição entre as suas idéias patrióticas e o seu ato.
É verdade que
ele não as tinha ainda muito firmes, mas já flutuavam na sua cabeça e reagiam
sobre a sua consciência como tênues desejos, veleidades de rapaz de pouco mais
de vinte anos, veleidades que não tardariam tomar consistência e só esperavam
os anos para desabrochar em
atos. Fora, pois, ao seu compadre Vicente e à sua afilhada Olga
que ele recebera com o mais legítimo cerimonial guaitacás, e, se não envergara
o traje de rigor de tão interessante povo, motivo não foi o não tê-lo. Estava
até à mão, mas faltava-lhe tempo para despir-se.
—Lê-se muito,
padrinho? perguntou-lhe a afilhada, deitando sobre ele os seus olhos muito
luminosos.
Havia entre
os dois uma grande afeição. Quaresma era um tanto reservado e o vexame de
mostrar os seus sentimentos faziam-no econômico nas demonstrações afetuosas. Adivinha-se,
entretanto, que a moça ocupava- lhe no coração o lugar dos filhos que não
tivera nem teria jamais. A menina vivaz, habituada a falar alto e
desembaraçadamente, não escondia a sua afeição tanto mais que sentia
confusamente nele alguma coisa de superior, uma ânsia de ideal, uma tenacidade
em seguir um sonho, uma idéia, um vôo enfim para as altas regiões do espírito
que ela não estava habituada a ver em ninguém do mundo que freqüentava. Essa
admiração não lhe vinha da educação. Recebera a comum às moças de seu
nascimento. Vinha de um pendor próprio, talvez das proximidades européias do
seu nascimento, que a fizeram um pouco diferente das nossas moças.
Fora com um
olhar luminoso e perscrutador que ela perguntara ao padrinho:
—Então
padrinho, lê-se muito?
—Muito, minha
filha. Imagina que medito grandes obras, uma reforma, a emancipação de um povo.
Vicente fora
com Dona Adelaide para o interior da casa e os dois conversavam a sós na sala
dos livros. A afilhada notou que Quaresma tinha alguma coisa de mais. Falava
agora com tanta segurança, ele que antiga- mente era tão modesto, hesitante
mesmo no falar — que diabo! Não, não era possível...
Mas, quem
sabe? E que singular alegria havia nos seus olhos — uma alegria de matemático
que resolveu um problema, de inventor feliz!
—Não se vá
meter em alguma conspiração, disse a moça gracejando.
—Não te
assustes por isso. A coisa vai naturalmente, não é preciso violências...
Nisto Ricardo
Coração dos Outros entrou com o seu longo e rabudo fraque de sarja e o seu
violão encapotado em
camurça. O major fez as apresentações.
—Já o
conhecia de nome, Senhor Ricardo, disse Olga.
Coração dos
Outros encheu-se de um alvissareiro contentamento. A sua fisionomia minguada
dilatou-se ao brilho do seu olhar satisfeito; e a sua cútis que era ressecada e
de um tom de velho mármore, como que ficou macia e jovem. Aquela moça parecia
rica, era fina e bonita, conhecia-o — que satisfação! Ele que era sempre um
tanto parvo e atrapalhado, quando se encontrava diante das moças, fossem de que
condição fossem, animava-se, soltava a língua, amaciava a voz e ficava numeroso
e eloqüente.
—Leu então os
meus versos, não é, minha senhora?
—Não tive
esse prazer, mas li, há meses, uma apreciação sobre um trabalho seu.
—No Tempo,
não foi?
—Foi.
—Muito
injusta! acrescentou Ricardo. Todos os críticos se atêm a essa questão de
metrificação. Dizem que os meus versos não são versos... São, sim, mas são
versos para violão. Vossa Excelência sabe que os versos para música
têm alguma
coisa de diferente dos comuns, não é? Não há, portanto, nada a admirar que os
meus versos, feitos para o violão, sigam outra métrica e outro sistema, não
acha?
—Decerto,
disse a moça. Mas parece-me que o Senhor faz versos para a música e não música
para os versos.
E ela sorriu
devagar, enigmaticamente, deixando parado o seu olhar luminoso, enquanto
Ricardo, desconfiado, lhe sondava a intenção com os seus olhinhos vivos e
miúdos de camundongo.
Quaresma, que
até ali se conservava calado, interveio:
—O Ricardo,
Olga, é um artista... Tenta e trabalha para levantar o violão.
—Eu sei,
padrinho. Eu sei...
—Entre nós,
minha senhora, falou Coração dos Outros, não se levam a sério essas tentativas
nacionais, mas, na Europa, todos respeitam e auxiliam...
Como é que se
chama, major, aquele poeta que escreveu em francês popular?
—Mistral,
acudiu Quaresma, mas não é francês popular; é o proven- çal, uma verdadeira
língua.
—Sim, é isso,
confirmou Ricardo. Pois o Mistral não é considerado, respeitado? Eu, no tocante
ao violão, estou fazendo o mesmo.
Olhou
triunfante para um e outro circunstante; e Olga dirigindo-se a ele, disse:
—Continue na
tentativa, Senhor Ricardo, que é digno de louvor.
—Obrigado.
Fique certa, minha senhora, que o violão é um belo instrumento e tem grandes
dificuldades. Por exemplo...
—Qual!
Interroumpeu Quaresma abruptamente. Há outros mais difíceis.
—O piano?
perguntou Ricardo.
—Que piano! O
maracá, a inúbia.
—Não conheço.
—Não
conheces? É boa! Os instrumentos mais nacionais possíveis, os únicos que o são
verdadeiramente; instrumentos dos nossos antepassa- dos, daquela gente valente
que se bateu e ainda se bate pela posse desta linda terra.
Os caboclos!
—Instrumento
de caboclo, ora! disse Ricardo.
—De caboclo!
Que é que tem? O Léry diz que são muito sonoros e agradáveis de ouvir... Se é
por ser de caboclo, o violão também não vale nada.
— é um
instrumento de capadócio.
—De
capadócio, major! Não diga isso...
E os dois
ainda discutiram acaloradamente diante da moça, surpresa, espantada, sem
atinar, sem explicação para aquela inopinada transformação de gênio do seu
padrinho, até ali tão sossegado e tão calmo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário