Leiam. Este material irá completar o seu estudo sobre o Pré-modernismo:
Os Sertões
Bíblia da
nacionalidade, no dizer de Joaquim Nabuco, Os sertões datam de 1902, ano de sua
primeira edição, cinco anos após o término da Campanha de Canudos, cujo trágico
desfecho Euclides da Cunha testemunha como repórter do jornal O Estado de São
Paulo.
A obra é dividida
em três partes: a primeira, A Terra, descreve o cenário em que se desenrolará a
ação; a segunda, O Homem, completando a descrição do cenário com a narrativa
das origens de Canudos, estuda a gênese do jagunço e principalmente, a de seu
líder carismático, Antônio Conselheiro; a terceira, A Luta, dividida em seis
subtítulos, completa, por sua, o elenco dos personagens esboçado na segunda
parte, quer estudando-os em conjunto, como trecho “Psicologia do Soldado”, quer
em closes particularizantes, como no retrato físico e psicológico do coronel
Antônio Moreira César. Essa divisão
geral, contudo, não obedece a critérios tão rígidos quanto os títulos e
subtítulos parecem dar a entender. Apontado como uma das causas geradoras do
drama do isolamento - ou insulamento, como prefere o Euclides - que distanciou,
mais no tempo do que no espaço, o homem do sertão de seu irmão do litoral, o
cenário transformou-se freqüentemente em personagem da própria ação que sobre
ele se desenrola.
Sobrepõe-se então, por vezes, à luta, ou
integra-se nela, alterando-lhe até os ramos, como uma milícia fantástica
que, aliada ao jagunço, com quem se
entende, investe contra o invasor que fatalmente irá transformá-lo em deserto.
A Terra
Estuda Euclides da
Cunha, num apanhado geral, os caracteres geológicos e topográficos das regiões
que medeiam entre o Rio Grande do Norte e o sul de Minas Gerais, de modo
particular a bacia do Rio São Francisco. Apresenta, com grande abundância de
pormenores, a descrição geográfica das regiões sertanejos de Monte Santo
(Canudos), que abrangem os rios Vasa-Barris e Itapicurus. Nos sertões do norte,
relevo especial ao papel do homem - “agente geológico de destruição” - que,
praticando desde os mais remotos tempos uma agricultura primitiva baseada nas
queimadas, arrasou as florestas. Os desertos, a erosão, o ciclo das secas
terríveis vieram em seguida.
O Homem - “O Hércules-Quasímodo”
Euclides da
Cunha, nesta segunda parte, pretende apresentar, num estudo genérico, os elementos
da sua índole e a sua distribuição pelo território nacional. Fala de raças
(índio, português, negro), e de
sub-raças (que indica com o nome mestiço). O mestiço é o resultado do
cruzamento de dois elementos étnicos: um
superior, outro inferior. Euclides, de acordo com a doutrina do Evolucionismo,
que ele segue, julga, em tese, prejudicial a mistura das raças, porque “o
mestiço”- mulato, mameluco, cafuzo - menos que um intermediário, é um decaído,
sem a energia física dos antecedentes selvagens, sem a intensidade intelectual dos ancestrais superiores. Se o
mestiço vive em meio aos elementos étnicos superiores, desequilibra-se,
atrofia-se, degrada-se. O mesmo, porém, não se dá com o mestiço que convive com
os elementos inferiores. É o caso dos nossos mestiços do litoral e os do sertão
(sertanejos): “O Sertanejo é antes de tudo um forte. Não tem o raquitismo
exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral”.
Em o Homem a linguagem é tratada mais acentuadamente
ao nível da literariedade e torna-se escultural, jogando com antíteses e
paradoxos, caracterizando o sertanejo como “Hércules-Quasímodo”, qualificando
sua figura ao mesmo tempo forte e débil, atlética e aleijada: Hércules
(semideus latino), Quasímodo (monstrengo, disforme).
Preparando o
ambiente para os episódios de Canudos, Euclides expõe a genealogia de Antônio
Conselheiro, suas pregações e a fixação dos sertanejos no arraial de Canudos.
A Luta
É a parte mais
importante, constituída da narrativa das quatro expedições do Exército enviadas
para sufocar a rebelião de Canudos, que reunia os “bandidos do sertão”:
jagunços (das regiões do Rio São Francisco) e cangaceiros (denominação no Norte
e Nordeste). Havia cerca de 20.000 habitantes no arraial, na maioria
ex-trabalhadores dos latifúndios da região.
Entre as previsões
de Antônio Conselheiro figuravam: “(...) que o mundo ia acabar em 1900; que o
sertão ia virar mar e o mar virar sertão...” (o que de certa forma aconteceu
com a construção da Barragem de Sobradinho).
Início da luta
As
autoridades de Juazeiro se recusam a mandar a madeira que Antônio Conselheiro
adquirira para cobrir a igreja de
Canudos; os jagunços, então, pretendiam tomar à força o que haviam comprado e
pago. Avisado das intenções dos homens de Conselheiro, o governo do Estado manda
que em Juazeiro se organize uma força que elimine o foco de banditismo.
A primeira expedição
Cem homens
comandados pelo tenente Pires Ferreira, são surpreendidos e derrotados pelos
jagunços no povoado de Uauá.
A segunda expedição
Quinhentos homens,
comandados pelo major Febrônio de Brito e organizados em colunas maciças, são
emboscados pelos jagunços em terrenos acidentados, no Morro do Cambaio e em Tabuleirinhos.
Destacam-se os “bandidos” João Grande e Pajeú, este último
considerado por Euclides verdadeiro gênio militar. Reduzidas a cem homens, as
tropas do governo decidem voltar.
Terceira expedição
Mil e
quinhentos homens, comandados pelo coronel Moreira César, armados com canhões
Krupp - recém-importados da Alemanha - , sem planos definidos, partiram em
fevereiro de 1897, atacando de frente, do Morro da Favela, o arraial de
Canudos. Os jagunços, protegidos pela irregularidade do relevo, buscaram o
corpo-a-corpo e desorganizaram as tropas, que na retirada desastrosa deixaram
para trás armas, munições, os canhões Krupp e o próprio general Moreira César,
morto após ter sido ferido em combate.
Quarta expedição
Cinco mil homens, comandados pelos generais
Artur Oscar, João da Silva Barbosa e Cláudio Savaget, são enviados pelo sul. As
tropas dividem-se em duas colunas. A primeira é cercada pelos jagunços no Morro
da Favela e tem de se socorrer da
segunda coluna que, vitoriosa em Cocorobó, havia mudado de estratégia,
dividindo-se em pequenos batalhões. As duas colunas tentam um ataque maciço.
Conseguem tomar boa parte do arraial, mas os soldados mal resistem à fome e à
sede. Em agosto de 1897, oito mil homens deslocam-se para a região, comandados
pelo próprio ministro da Guerra marechal Carlos Bittencourt.
São as saídas de
Canudos, o abastecimento de água é interrompido. Um tiro de canhão atinge a
torre da igreja. Estóicos, esperando a salvação eterna, os sertanejos não se
renderam, e muitos foram degolados após o assalto final. Perpetrou-se dessa
forma o crime de uma nacionalidade inteira, no dizer de Euclides da Cunha, que
a tudo acompanhou do Morro de Uauá, de onde escrevia suas reportagens para o
jornal A Província de São Paulo, hoje O Estado de S. Paulo, mais tarde
refundidas nessa obra monumental que são Os Sertões.
Nenhum comentário:
Postar um comentário