domingo, 11 de março de 2012


Leiam. Este material irá completar o seu estudo sobre o Pré-modernismo:

Os Sertões
        Bíblia da nacionalidade, no dizer de Joaquim Nabuco, Os sertões datam de 1902, ano de sua primeira edição, cinco anos após o término da Campanha de Canudos, cujo trágico desfecho Euclides da Cunha testemunha como repórter do jornal O Estado de São Paulo.
A obra é dividida em três partes: a primeira, A Terra, descreve o cenário em que se desenrolará a ação; a segunda, O Homem, completando a descrição do cenário com a narrativa das origens de Canudos, estuda a gênese do jagunço e principalmente, a de seu líder carismático, Antônio Conselheiro; a terceira, A Luta, dividida em seis subtítulos, completa, por sua, o elenco dos personagens esboçado na segunda parte, quer estudando-os em conjunto, como trecho “Psicologia do Soldado”, quer em closes particularizantes, como no retrato físico e psicológico do coronel Antônio Moreira César.         Essa divisão geral, contudo, não obedece a critérios tão rígidos quanto os títulos e subtítulos parecem dar a entender. Apontado como uma das causas geradoras do drama do isolamento - ou insulamento, como prefere o Euclides - que distanciou, mais no tempo do que no espaço, o homem do sertão de seu irmão do litoral, o cenário transformou-se freqüentemente em personagem da própria ação que sobre ele se desenrola.
 Sobrepõe-se então, por vezes, à luta, ou integra-se nela, alterando-lhe até os ramos, como uma milícia fantástica que,  aliada ao jagunço, com quem se entende, investe contra o invasor que fatalmente irá transformá-lo em deserto.

A Terra
         Estuda Euclides da Cunha, num apanhado geral, os caracteres geológicos e topográficos das regiões que medeiam entre o Rio Grande do Norte e o sul de Minas Gerais, de modo particular a bacia do Rio São Francisco. Apresenta, com grande abundância de pormenores, a descrição geográfica das regiões sertanejos de Monte Santo (Canudos), que abrangem os rios Vasa-Barris e Itapicurus. Nos sertões do norte, relevo especial ao papel do homem - “agente geológico de destruição” - que, praticando desde os mais remotos tempos uma agricultura primitiva baseada nas queimadas, arrasou as florestas. Os desertos, a erosão, o ciclo das secas terríveis vieram em seguida.

  O Homem - “O Hércules-Quasímodo”
        Euclides da Cunha, nesta segunda parte, pretende apresentar, num estudo genérico, os elementos da sua índole e a sua distribuição pelo território nacional. Fala de raças (índio,   português, negro), e de sub-raças (que indica com o nome mestiço). O mestiço é o resultado do cruzamento de dois  elementos étnicos: um superior, outro inferior. Euclides, de acordo com a doutrina do Evolucionismo, que ele segue, julga, em tese, prejudicial a mistura das raças, porque “o mestiço”- mulato, mameluco, cafuzo - menos que um intermediário, é um decaído, sem a energia física dos antecedentes selvagens, sem a intensidade  intelectual dos ancestrais superiores. Se o mestiço vive em meio aos elementos étnicos superiores, desequilibra-se, atrofia-se, degrada-se. O mesmo, porém, não se dá com o mestiço que convive com os elementos inferiores. É o caso dos nossos mestiços do litoral e os do sertão (sertanejos): “O Sertanejo é antes de tudo um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral”.

            Em o Homem a linguagem é tratada mais acentuadamente ao nível da literariedade e torna-se escultural, jogando com antíteses e paradoxos, caracterizando o sertanejo como “Hércules-Quasímodo”, qualificando sua figura ao mesmo tempo forte e débil, atlética e aleijada: Hércules (semideus latino), Quasímodo (monstrengo, disforme).
           Preparando o ambiente para os episódios de Canudos, Euclides expõe a genealogia de Antônio Conselheiro, suas pregações e a fixação dos sertanejos no arraial de Canudos.

A Luta
       É a parte mais importante, constituída da narrativa das quatro expedições do Exército enviadas para sufocar a rebelião de Canudos, que reunia os “bandidos do sertão”: jagunços (das regiões do Rio São Francisco) e cangaceiros (denominação no Norte e Nordeste). Havia cerca de 20.000 habitantes no arraial, na maioria ex-trabalhadores dos latifúndios da região.
       Entre as previsões de Antônio Conselheiro figuravam: “(...) que o mundo ia acabar em 1900; que o sertão ia virar mar e o mar virar sertão...” (o que de certa forma aconteceu com a construção da Barragem de Sobradinho).

Início da luta
      As autoridades de Juazeiro se recusam a mandar a madeira que Antônio Conselheiro adquirira para cobrir a  igreja de Canudos; os jagunços, então, pretendiam tomar à força o que haviam comprado e pago. Avisado das intenções dos homens de Conselheiro, o governo do Estado manda que em Juazeiro se organize uma força que elimine o foco de banditismo.

A primeira expedição
       Cem homens comandados pelo tenente Pires Ferreira, são surpreendidos e derrotados pelos jagunços no povoado de Uauá.

A segunda expedição
         Quinhentos homens, comandados pelo major Febrônio de Brito e organizados em colunas maciças, são emboscados pelos jagunços em terrenos acidentados, no Morro do Cambaio e em Tabuleirinhos. Destacam-se os “bandidos” João Grande e Pajeú, este último considerado por Euclides verdadeiro gênio militar. Reduzidas a cem homens, as tropas do governo decidem voltar.

Terceira expedição
         Mil e quinhentos homens, comandados pelo coronel Moreira César, armados com canhões Krupp - recém-importados da Alemanha - , sem planos definidos, partiram em fevereiro de 1897, atacando de frente, do Morro da Favela, o arraial de Canudos. Os jagunços, protegidos pela irregularidade do relevo, buscaram o corpo-a-corpo e desorganizaram as tropas, que na retirada desastrosa deixaram para trás armas, munições, os canhões Krupp e o próprio general Moreira César, morto após ter sido ferido em combate.

Quarta expedição
        Cinco mil homens, comandados pelos generais Artur Oscar, João da Silva Barbosa e Cláudio Savaget, são enviados pelo sul. As tropas dividem-se em duas colunas. A primeira é cercada pelos jagunços no Morro da  Favela e tem de se socorrer da segunda coluna que, vitoriosa em Cocorobó, havia mudado de estratégia, dividindo-se em pequenos batalhões. As duas colunas tentam um ataque maciço. Conseguem tomar boa parte do arraial, mas os soldados mal resistem à fome e à sede. Em agosto de 1897, oito mil homens deslocam-se para a região, comandados pelo próprio ministro da Guerra marechal Carlos Bittencourt.

       São as saídas de Canudos, o abastecimento de água é interrompido. Um tiro de canhão atinge a torre da igreja. Estóicos, esperando a salvação eterna, os sertanejos não se renderam, e muitos foram degolados após o assalto final. Perpetrou-se dessa forma o crime de uma nacionalidade inteira, no dizer de Euclides da Cunha, que a tudo acompanhou do Morro de Uauá, de onde escrevia suas reportagens para o jornal A Província de São Paulo, hoje O Estado de S. Paulo, mais tarde refundidas nessa obra monumental que são Os Sertões.
           

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